Guerra Mutante: A Relíquia Roubada

15 15 - A neve se torna minha amiga


Nós viajamos o mais rápido que pudemos.

Corríamos sem preocupações. Nenhum de nós três ficamos muito cansados com a corrida. Seguimos em direção sul, sem fazer pausa, durante três longas horas. Quase não trocávamos palavras, pois quanto mais tempo demorássemos, mais atrasado eu poderia chegar.

Uma tempestade caía, com trovões e relâmpagos a todo momento. Hariel estremecia a cada som vindo do céu. E não era por menos, porque até eu estava ficando assustado com aquela tempestade repentina.

Foi quando resolvemos parar para nos abrigarmos. A chuva estava nos atrapalhando, deixando-nos lentos. Nos abrigamos abaixo de uma árvore, próxima a uma cascata. Quando paramos, caímos sentados de imediato no chão. O cansaço era enorme. Sentia meus músculos da perna doerem, mas tinha que ignorar aquilo. Pela minha sorte, Hariel me curou. Enquanto me curava, uma luz esverdeada saia de suas mãos que estavam encostadas em meu peito.

– Eu estou ganhando a corrida. – Falou Emma, quando terminou de ser curada por Hariel, que de imediato se curou.

– Não por muito tempo. – Falou Hariel, começando a curar a si mesmo.

– É, eu irei passar as duas. – Falei, rindo. – Só estão ganhando de mim porque estou um pouco fraco.

– Eu falei para esperar um pouco. – Riu Emma, e nós ficamos observando a chuva que caía, e a cascata logo à frente. Foi até que um vulto moveu-se.

Um rugido nos fez levantar de susto. Algo grande se aproximava. Sentia o cheiro de pelos molhados. Em meio às árvores apareceu um enorme urso marrom. Ele mostrou suas enormes e ferozes presas para nós, e avançou. Emma empurrou-me para o lado, e se jogou para o outro, enquanto Hariel saltou sobre a fera com extrema facilidade, parando em pé atrás dela, já sacando seu arco e pegando uma flecha, mirando contra a criatura e disparando.

A flecha acertou as costas do urso, que grunhiu, mas virou-se e avançou contra Hariel, que ainda tentava pegar outra flecha. Emma, no entanto, disparou contra o urso, acertando seu flanco, mas ele continuou avançando. Eu não sabia o que fazer.

E então me lembrei da luva-arco.

Pressionei o botão que havia na luva, fazendo-a se transformar, e imediatamente puxei a corda o máximo que pude, mirando-a no urso e então VAPT! A flecha atingiu sua cabeça, atravessando-a e fazendo-o cair na frente de Hariel, que respirava ofegante. Ela já estava puxando a corda, e Emma tinhas a mãos em suas costas.

– Essa foi uma verdadeira batalha surpresa. – Falei, por fim, e nós três rimos um pouco.

Meu arco voltou a ser uma luva, e resolvemos cozinhar aquele urso, já que estávamos famintos. Sua carne era boa, e a forma que Emma preparou deixou-o muito gostoso. Após nos alimentarmos, prosseguimos o caminho pela grande floresta, através da tempestade.

Nós continuamos correndo, agora eu estava na dianteira. Comer a carne daquele urso me fortaleceu. A fina água da chuva respingava em meu rosto, deixando-me gelado. Ao mesmo tempo, refrescava-me durante aquela corrida. Começamos a subir uma colina, na qual havia algumas rochas, Hariel estava à frente, e parou de correr repentinamente, segurando a mim no mesmo instante e alertando a Emma para parar, e escondeu-se atrás de uma árvore. Emma e eu fizemos o mesmo, sem sabermos o que era.

Quando nos escondemos, acima de nós passaram cinco caças voando em uma velocidade extremamente rápida. Eles nem sequer tiveram tempo de nos ver. Seguiram em direção norte sem parar.

– Um esquadrão... – Murmurei. Deviam estar atrás do meu grupo. Talvez outras bases tivessem sido alertadas antes de Royal explodir a que estávamos anteriormente.

– Por pouco não fomos descobertos. – Falou Hariel, saindo de trás da árvore. – Temos que continuar com cuidado. Podem vir mais desses.

Concordamos, e descemos a colina escorregadia. Tinha medo de que aqueles caças já tivessem encontrado o grupo ou coisa parecida. Tinha medo que estivessem todos mortos por minha causa.

Continuamos correndo pela floresta durante mais algumas horas. Devia ser tarde, e eu nem havia visto o tempo passar. Estava preocupado se iria ou não encontrar os outros vivos.

Fazíamos algumas pausas de vez em quando para nos escondermos de caças que voavam pelo céu tempestuoso. Hariel estava certa em poder vir mais naves. Eu estranhava aquela quantidade de veículos. De onde viam tantos soldados? Mas eu teria a resposta em breve.

Após caminharmos mais um pouco, nós nos vimos subindo uma montanha. Nós paramos em uma área um pouco planificado dela, onde havia algumas árvores, e fiquei com medo de prosseguir caminho. A uns 300 metros de distância de nós uma grande base crescia, com vários prédios, veículos decolando e pousando, soldados treinando e correndo.

Alguns Mutantes eram trazidos de naves e levados à maior construção, que deveria ter uns 4 andares. Perguntava-me como eles haviam criado aquelas bases em tão pouco tempo.

Não havia como continuarmos seguindo o caminho reto, só se contornássemos a base, e isso mantendo uma distância grande o suficiente dela, o que demoraria muito mais tempo. Mas a invasão era muito mais arriscada, e com mais chances de acabarmos mortos. Nós três nos entreolhamos e entendemos o que deveríamos fazer. A nossa única chance era contornando-a, e foi o que fizemos.

A fúria da tempestade havia aumentado ainda mais. A água caia com mais força, e junto dela vinha granizo. Relâmpagos iluminavam os céus em vários momentos. Nos esgueiramos pelas árvores, mantendo certa distância da base, quando demos de cara com uma estrada de terra. Iríamos atravessá-las, mas nos escondemos a tempo. Um esquadrão de soldados corria pela terra molhada. O capitão gritava algo. Atrás deles vinham jipes que flutuavam a alguns centímetros do chão, e depois vinham caminhões repletos de soldados. Não fomos descobertos por pouco, quando um soldado ouviu minha respiração ofegante. Eu tive que prendê-la para ele se afastar.

Quando parecia não haver mais ameaças, atravessamos a estrada e continuamos nosso caminho, agora seguindo somente reto. A base começou a ficar para trás depois de alguns minutos, e finalmente estávamos a salvo de sermos capturados.

– Conseguimos. – Murmurei, quando finalmente ficamos longe o bastante da base.

– Sim... – Concordou Hariel, ofegante.

– Continuamos ou descansamos? – Questionou Emma, enxugando seu suor misturado com a água da chuva.

– Não podemos parar. – Falei, olhando para o sul. – Não agora.

Nós nos olhamos, e reiniciamos a corrida. Sabia que precisávamos descansar, mas ainda estávamos próximos da base. Até que fui pego de surpreso por uma descida repentina, e eu escorreguei nela. As outras garotas também caíram. Não consegui me segurar em nada, e logo me vi caído em uma poça de lama.

Hariel falou alguma coisa em língua élfica – provavelmente um xingamento –, e Emma não disse nada. Eu me levantei, completamente sujo, e ajudei as outras a se levantarem também. Recuperamos nosso fôlego, e quando íamos voltar a correr um som me chamou. Parecia um latido.

Não, não era um latido.

Era um uivo.

À nossa frente, a alguns metros de distância, um lobo branco caminhava em nossa direção. Sua pele era clara como a neve, e seus olhos eram negros e profundos. Avançava lentamente em nossa direção. As outras garotas sacaram seus arcos, mas eu fiz sinal para não fazerem nada. Elas permaneceram com os arcos em punho, fizeram o que pedi.

O lobo avançava lentamente até a mim, e quando pensei que ia atacar ele lambeu minha mão, e então encostou sua cabeça em mim. Eu me agachei e o acariciei.

– Olá, garoto. – Falei para o lobo. Eu devia ser muito idiota, ou o lobo parecia entender o que eu dizia. – O que faz aqui?

Ele latiu, e eu ri. Continuei o acariciando. Olhei para as garotas, que me olhavam como se eu fosse louco.

– Então, você parece que não quer me matar, e está sozinho aqui nessa floresta, no meio dessa chuva. – Murmurei ao lobo, que me olhava sem fazer nenhum movimento. – Deseja vir comigo procurar meus amigos?

Ele lambeu meu rosto, e eu ri, segurando-o. Ele era um lobo, mas agia como um cachorro. De alguma forma, ele sabia que eu era um amigo, e aquilo me deixou animado e intrigado ao mesmo tempo.

– Irá levar esse animal conosco? – Perguntou Emma, confusa.

– Ele veio até mim, Emma. – Respondi, e ela estranhou.

– Ele é um lobo! – Exclamou, e eu a encarei.

– E daí? – Perguntei, e antes de ela responder eu continuei. – Se ele quisesse me matar, já teria feito.

Ela tentou argumentar, mas viu que eu estava certo. Lobos, em geral, eram hostis. Principalmente lobos daquele tamanho. Tudo o que ela pode fazer foi concordar, e eu voltei a olhar para o lobo. Pude ouvir as duas guardando seus arcos.

– Preciso te dar um nome... – Olhei para seu pelo branco, e seus olhos negros. – Snow. Gosta desse nome? – Ele uivou, logo depois mostrando sua língua. – Muito bem.

Talvez eu fosse mesmo louco. Levar um lobo como um companheiro não parecia ser algo sensato, mas se ele parecia me entender e me obedecer, por que não levá-lo? Serviria como um bom salvador quando necessário. E também poderia ser um ótimo amigo.

Quando começamos a correr, Snow veio logo ao meu lado. Ele não avançou contra Emma ou Hariel em momento algum. Sentia que em breve acharia meu grupo. Eu tinha que encontrá-los logo, pois tinha o pressentimento que algo de ruim estaria acontecendo naquele momento.

Já estava ficando tarde, e o sol estava se pondo. A tempestade reduziu sua força, transformando-se em uma chuva fraca.

Eu estava muito cansado, e sabia que Emma e Hariel também estavam. Havíamos percorrido quilômetros, provavelmente, e mesmo assim elas persistiam em continuar do meu lado. Snow também continuava a me seguir sem hesitar.

Até que fomos surpreendidos por um vulto. Talvez fosse outro animal, mas era uma pessoa. Um homem apareceu logo à nossa frente. Seus cabelos eram rastafari, e sua pele era morena. Estava com alguns ferimentos pelo corpo, e seu casaco de couro preto estava rasgado em várias partes.

– Ajudem-me... – Murmurou o homem, aproximando-se de nós. As garotas foram ajudá-lo, mas eu as parei.

– Não. – Falei, e elas ficaram surpresas. – Não vamos ajudá-lo...

– O quê, Franklyn?! – Exclamou Hariel, indignada. – Nós te ajudamos! Temos o direito de ajudá-lo!

– Não vamos ajudá-lo, porque ele é nosso inimigo. – Falei, completando a frase. – Ele é do grupo de Torrance. – O homem estremeceu. De fato, eu havia visto ele antes, na noite em que meu grupo estava na árvore. Ele estava junto do grupo dos motoqueiros quando Torrance matou aquele garoto a sangue frio.

– Seu desgraçado. – Murmurou o homem, e seus ferimentos tremeluziram e sumiram. Uma ilusão, pensei. – Você está vivo, então, Thompson.

– Não diga. – Falei, e ele pareceu ficar irritado.

Então estendeu suas mãos para nós, e elas começaram a brilhar em um tom azulado. Do chão, então, saíram luzes azuladas em formas de pessoas, que flutuavam no chão, nos observando. Seus rostos eram vazios, como fantasmas, pareciam com...

– Almas. – Murmurei, assustado. – Você controla almas.

– Somente de pessoas mortas. – Riu o homem, e ele mexeu os dedos de suas mãos, fazendo as almas tremerem, e seus braços se transformaram em longas lâminas. Ele as controlava como marionetes. Deviam ser dez almas, ao todo. – Ataquem.

No instante em que falou, todas as almas avançaram. Mimetizei minhas mãos e acertei duas almas na cabeça com um soco, fazendo-as se dissiparem de imediato. O homem gemeu, surpreso. Mas, no entanto, outras duas almas apareceram do chão, agora com armaduras. Não sabia como os outros estavam lutando. Podia ouvir Snow uivando e saltando, alguma das duas disparando flechas enquanto a outra lutava com alguma arma – uma adaga, talvez.

As duas almas vieram contra mim, e eu tentei derrotá-las da mesma forma que havia feito anteriormente, mas nada aconteceu. Elas simplesmente foram lançadas para trás, sem receber danos. Seus elmos racharam, mas logo se regeneraram. Elas tentaram me atacar com seus braços de espada, e a partir de então só comecei a desviar-me e defender-me de seus ataques. Quando atingiam minhas mãos, as lâminas se quebravam e se refaziam quase de imediato.

Eu então agarrei um dos braços da primeira alma e a usei para me defender do golpe da segunda alma, logo depois fincando o braço que eu segurava na cabeça da outra. Eu arranquei-lhe a cabeça logo depois com um corte de cima para baixo, e quando pensei que eu havia vencido-a, ela se regenerou e me acertou um golpe de raspão na barriga, obrigando-me a saltar para trás e largar o braço-espada da primeira alma.

Senti o sangue escorrer pela minha barriga, e o homem sorria para mim.

– Não há como me vencer! – Gritou, e eu acho que ele estava certo. – O irmão da Serpente Sombria será morto por Mith di Esperanza!

Mith di Esperanza?, pensei. Nem ferrando que serei morto por alguém com esse nome!

Foi quando vi um vulto branco passar pelas almas e pular logo acima de Mith, derrubando-o. No mesmo instante todas as almas sumiram. Snow abocanhava seu braço, e sangue começou a manchar seus pelos brancos. Mith gritava, tentando tirar o lobo de cima dele, mas em vão. Foi quando que lhe acertou um chute, lançando Snow para o lado. Seu braço estava aberto por causa da terrível mordida que havia arrancado-lhe parte de sua carne, e ele olhou para mim e para as garotas com raiva. Snow se levantou e correu para o meu lado, sua boca estava repleta de sangue. Ele mostrou os dentes, ameaçando Mith.

– Vocês pagarão por isso! – Exclamou Mith, desaparecendo em uma luz azulada.

Olhei para Snow, e depois para as garotas. Elas estavam exaustas. Emma tinha um pequeno corte na bochecha, e Hariel estava com um ferimento na mão esquerda causado por uma espada.

– Estão bem? – Perguntei, e elas olharam para minha barriga.

– Sim, mas e você? – Perguntou Emma, apontando para meu ferimento. Ele não doía muito já que havia sido de raspão.

– Não se preocupem. – Murmurei, olhando para o lugar em que antes estava Mith. – Tenho um mal pressentimento por essa fuga repentina desse tal de Mith.

– Como assim? – Perguntou Emma, um pouco ofegante.

– Ele não deve ter fugido por estar fraco. – Respondi, encarando as duas. Snow choramingou.

– O que quer dizer? – Falou Hariel, aproximando-se de mim.

– Quero dizer que talvez ele tenha encontrado meu grupo. – Falei, enxugando meu rosto coberto de suor. – E que talvez irá matá-los.