Saímos do museu com certa tensão no ar.

Se era verdade o que meu tio disse, a pessoa que havia roubado a Espada Dourada devia ser muito poderosa, já que ela em si já parecia ser. O museu parecia ter sido invadido por uma só pessoa, e essa única pessoa deve ter causado a explosão para servir como distração e fugir. Por sorte, foram poucas as relíquias danificadas pelas chamas e pelo impacto, e os danos não foram muito altos ao museu, que abriu um buraco. Provável que no dia seguinte já estivesse tudo no lugar.

Tudo, menos a Espada Dourada.

Ao sairmos, nos encontramos com um portal se abrindo. De dentro dele, saiu Klaus, e imediatamente que colocou todo seu corpo para fora do portal, ele se fechou.

– Senhor Thompson, precisa ver isso! – Exclamou. Ele estava com um corte horrível em diagonal no rosto, que começava em sua bochecha direita e subia, parando em sua testa na parte esquerda. Saía sangue dele, manchando seu rosto.

– O que foi? – Perguntou meu tio, sua voz estava fraca. Acho que ele sabia o que havia acontecido.

– Só venha! – Ele abriu um portal, e meu tio entrou.

Klaus olhou para nós, e entendemos que éramos para ir também. Quando entramos, ele veio logo atrás de nós, e eu senti mais uma vez meu estômago revirar, e reparei que estávamos agora no terraço de um prédio de uns 40 andares, ainda dentro da caverna. O portal atrás de nós se fechou quando Klaus o atravessou. Meu tio foi até a barreira de proteção do prédio e grunhiu.

– Não pode ser. – Murmurou. Klaus, Thomas e eu fomos até a bancada, e assustei-me com o que vi.

Podia ter a visão da praça próxima aos elevadores, e todas as pessoas que antes estavam lá simplesmente estavam caídas no chão. Mas elas respiravam. Não tinham nenhum ferimento, no entanto elas estavam desmaiadas. Fui para o lado oposto do terraço, e olhei para baixo. Pude ver mais pessoas caídas nas ruas.

– O que diabos é isso?! – Exclamei, olhando para meu tio.

– Um dos poderes da Espada Dourada. – Falou, desolado. – O novo portador dela colocou todos da cidade em coma, eu acho.

– Em coma?! – Gritei, mas fui ignorado. Meu tio falou em seguida.

– Há sobreviventes, Klaus? – Falou meu tio, encarando-o.

– Sim. Metade da população do Abrigo foi atingida, somente. Talvez um pouco mais, ou um pouco menos. Os que não foram afetados pelo poder da relíquia estão em perfeitas condições.

– Franklyn. – Falou meu tio para mim. – Venha, vou te levar para casa. Thomas, venha comigo também. De lá, você segue para a sua. Klaus, avise a todos para levarem quem está em coma para o hospital.

– Joseph... – Falou Klaus enquanto meu tio fazia sinal para eu e Thomas nos aproximarmos e segurarmos em sua mão. – Eu o vi.

– O viu? – Ele agora encarava Klaus. – Quem você viu?

– O homem que roubou a Espada. Quando o vi com ela, tentei segurá-lo, mas ele me causou isso. – Ela apontou para o corte na cabeça, que derramava sangue em seu rosto, mas ele não expressava dor. – Ele estava todo coberto, não pude ver seu rosto. Desculpe-me.

– Está tudo bem, Klaus. – Falou meu tio, abrindo um sorriso forçado. Nós seguramos em sua mão. – Vá para o hospital também. Cuide de seu ferimento. Você fez o que pôde. Bom trabalho.

– Obrigado. – Ele acenou para nós, e então Thomas, meu tio e eu nos teletransportamos. Enquanto as cores ficavam borradas, percebi que de fato Klaus parecia ter mudado. Ele parecia mais sério, como se não tivesse mais sua crise de dupla personalidade.

Aparecemos na frente do prédio em que meu tio morava, e todos que estavam na rua estavam caídos no chão. Meu tio olhou-os, assustado, e largou nossa mão, correndo para dentro do prédio.

– Franklyn, vá com ele. – Disse Thomas. – Nos encontramos mais tarde.

– Está bem. – Falei, e corri para dentro do prédio, abrindo as portas. Meu tio subiu pelas escadas, e eu fiz o mesmo. Quando chegamos ao 22° andar, ele correu para a porta de sua casa e a abriu com um estrondo.

– HELEN! – Gritou, desesperado. Ele olhava por todos os cômodos. E então correu para o quarto de hóspedes. E eu o segui. Quando abrimos a porta, corremos para dentro e nos abaixamos. Minha mãe também havia sido afetada pelo poder da Espada. Eu agarrei sua mão, que estava fria e pálida. No entanto, ela ainda respirava, assim como os outros. – Helen... – Percebi que meu tio chorava. Senti lágrimas escorrerem por minhas bochechas.

– Mãe... – Murmurei, e olhei para meu tio. – O que faremos?

– A Levarei para o hospital. Fiquei aqui, Franklyn. Voltarei em breve. – Antes que pudesse falar algo, ele desapareceu com minha mão. Eu estava sozinho ali. Fiquei sentado no chão, olhando para o lugar em que minha mãe estava antes de meu tio a levar.

Foi quando me lembrei de meu sonho. O artefato deverá ser recuperado, antes que o prazo seja esgotado, dizia as vozes. Aquilo me deu calafrios. Era justamente o que havia acontecido. Um artefato havia sido roubado. E um artefato é praticamente o mesmo que uma relíquia. O artefato era a Espada Dourada. Então talvez houvesse um prazo. Senti minha garganta secar. E se, quando esse prazo esgotar, todos que tivessem sido afetados pelo poder da Espada morressem? Não pode ser, pensei. Eu não sou um vidente, sou?

E meu tio apareceu em minha frente, caindo sentado no chão, depois de uma hora pensando naquilo. Eu me assustei com ele e levantei-me com um pulo. Ele me olhava, desolado.

– E então? – Falei, enquanto ele se erguia. Estava suando frio, seu rosto parecia vazio, não expressando nenhuma emoção.

– Eles estão tentando fazer de tudo para salvá-los. – Murmurou, indo em direção da janela. – Mas nada acontece. Nenhum poder de cura consegue salvá-los. Parece que a única coisa que poderá salvá-los é....

– Usar a Espada para reverter o efeito, não é? – Falei, e ele assentiu. – E tem um prazo para que isso aconteça, estou correto.

– Sim... – Ele virou-se para mim e caminhou lentamente até perto de mim. – Como sabe disso?

– Eu... Bem... – Hesitei em falar, mas resolvi dizer a ele sobre meu sonho. Sobre tudo que eu havia visto nele, e sobre as vozes. Meu tio parecia estar mais do que eu. Contei todos os detalhes do meu sonho, e quando falei sobre as vozes e o que elas disseram, ele estremeceu.

– Isso é impossível. – Ele murmurou, seus olhos fixos no meu. – Não pode ser verdade.

– O quê não pode ser verdade? – Perguntei. Eu estava assustado. Ele parecia saber de algo. – Diga, tio! Por favor!

– Seu sonho não é um sonho comum. – Falou, juntando as forças para continuar a dizer. – Esse tipo de sonho é algo muito, muito raro, em que somente Mutantes extremamente fortes têm. São Sonhos de Profecia.

– Sonhos de Profecia? – Falei. E percebi que ele havia falado “somente Mutantes extremamente fortes”. Senti-me um pouco mais forte depois que ele havia falado aquilo, mas tirei aquele pensamento da cabeça. – E o que isso significa?

– Significa, Franklyn, que você terá mais sonhos disso. As cenas que você ver serão sempre as mesmas, mas as frases irão mudar dependendo do que você faça. Serão como enigmas para você, e terá que desvendá-los. A primeira parte já foi falada.

– E o que acontecerá quando toda essa... hm... Profecia for completada?

– Eu não sei. – Ele desviou seus olhos para seus pés. – E nem quero saber. Estou indo recuperar a Espada Dourada com minha equipe. Irei chamá-los.

– Eu irei com você.

– Não, não irá. – Aquelas palavras foram afiadas como uma espada. – Você não é forte o bastante para vir conosco.

– Mas você disse que esses sonhos só acontecem com Mutantes extremamente fortes...

– Eu disse, sim, mas você não é tão forte assim, Franklyn. – Senti meus punhos cerrarem. – Não para essa situação. Fique aqui e treine, eu trarei a Espada em segurança e então sua mãe irá...

– É justamente por isso que eu quero ir! – Exclamei, e ele se calou. – Já perdi meu pai e meu irmão, não quero perder minha mãe e meu tio! Eu sou fraco? Sim, eu posso até ser, mas se esse sonho apareceu justamente para mim, é porque eu devo ir!

– E você irá sozinho? – Falou, e eu percebi que ele estava certo. Talvez eu pudesse chamar Thomas e Klaus para virem comigo, mas ainda assim não seriamos um grupo. E lembrei-me de uma coisa que eu havia ignorado.

– Não. – Falei, abrindo um sorriso confiante. – Irei entrar para os Anjos e Demônios.

– Fala a equipe que começou há uns meses? Lá só tem Mutantes de nível 1. Vocês falharão! São fracos demais!

– Eu não sou mais a criança que você viu há dois anos atrás, tio! – Exclamei. – Eu posso me virar. Durante esses dois anos, fui eu quem protegeu minha mãe! E serei eu quem irá salvá-la da morte!

Ele me olhou, seus olhos brilharam. Ele sorriu, e então me abraçou. Depois olhou para mim.

– Você é igualzinho ao Willian. Até na sua forma de pensar e agir. Seu prazo é de um mês e meio. – Eu sorri, e o abracei. – Caso demorar demais, irei enviar três equipes de busca.

– Obrigado, tio.

– Mas, Franklyn, trate de voltar vivo. – Ele saiu do quarto de hóspedes e foi até o quarto dele. Abaixou-se e puxou algo debaixo de sua cama de casal. – E leve isso, caso seja necessário.

Ele me entregou um bracelete prateado. Eu o analisei, tentando entender de quê aquilo seria útil.

– Coloque-o em seu pulso. – Eu fiz o que ele pediu, e senti meu pulso dormente, mas depois voltou ao normal. O bracelete parecia ser parte de meu corpo.

– Um Item Mágico? – Falei, e ele fez um sinal de sim com a cabeça.

– Sim. Ative-o usando um comando mental.

Olhei para o bracelete. Ativá-lo usando um comando mental? Como assim? Mas limpei minha mente e concentrei-me. Ativar, pensei. Ruídos metálicos aconteceram em meu braço, e ele se transformou em uma manopla prateada, que reluzia à luz. Havia um tipo de computador no antebraço, e alguns botões nas costas de minha mão.

– Poderá usá-la para entrar em sistemas, descobrir onde está, gravar conversas e outras coisas. – Ele riu, tocando em meu ombro. – Além de poder soltar algumas descargas elétricas, se quiser.

– Obrigado mesmo, tio. – Pensei em desativar a manopla, e ela voltou a ser um bracelete. – Não irei te decepcionar. Agora mesmo irei falar com o grupo.

– Está bem. – Ele bagunçou meu cabelo, e riu depois disso. – Não me decepcione.

– Não decepcionarei.

E eu saí do apartamento, mais confiante do que nunca.

Encontrei-me com Thomas na rua. Ele acenou para mim e veio correndo ao meu encontro.

– Preciso que me leve à base de seu grupo. – Falei, e ele olhou-me com receio. – Quero participar dele e trocar algumas palavras com Royal.

Ele só fez que sim com a cabeça, e me guiou até a base, que se encontrava muito ao fundo da caverna. No caminho, expliquei à ele tudo o que havia acontecido. E que tentaria convencer Royal a me aceitar no grupo e irmos para a missão. Eu estava muito destemido a recuperar a espada. Thomas falou que não sabia nada sobre os Sonhos de Profecia, e eu expliquei para ele sobre o que se tratava, e quando terminei a explicação ele não falou nada. Percebi que estava muito tenso para expressar algo. Enquanto me guiava, pensei que talvez levaria todos a uma missão suicida, caso me aceitassem.

Também pensei que meu tio pudesse estar certo. E se nós de fato falhássemos? Todos morreriam por minha causa casa isso acontecesse. Mas eu não permitiria que isso acontecesse. Eu tinha que salvar todo mundo custe o que custar.

Quando finalmente chegamos à base, tive receio de entrar. Ela era uma casa bonita, feita de madeira branca, de dois andares além do térreo e o telhado era de telhas avermelhadas. A porta era de madeira escura, como se fosse uma casa da década 10 daquele século, muito diferente das casas das antigas cidades antes do início da guerra. Thomas foi em direção da porta e a abriu, e fez sinal para eu entrar. Quando entrei, estava em um corredor que levava à alguns cômodos, onde havia uma escada que subia para o próximo andar, e muito ao fundo havia uma outra porta. Thomas fechou a porta e gritou.

– Estou de volta!

– Ótimo. – Falou um garoto, aproximando-se da entrada para um dos cômodos. Ele tinha um cabelo preto virado para a sua direita, como se uma forte ventania tivesse atingido sua cabeça pela esquerda. Seu olhar era travesso, e sorria de forma um pouco contagiosa. Seus olhos eram negros e brilhantes. Quando me viu, analisou-me. – Quem é esse?

– É Franklyn. – Respondeu Thomas, mas o garoto não pareceu ligar muito.. – Esmond, onde está Royal?

– Ah, tá na sala de reuniões. – Ele tirou de seu bolso uma bombinha de festas, e ficou brincando com ela lançando-a para o alto e segurando-a. – O Cannton pediu para que ele arrumasse alguns arquivos das missões do último mês.

– Beleza, levarei o Franklyn até lá.

– Por quê? – Perguntou Esmond, parando de brincar com a bombinha.

– Ele deseja se juntar ao grupo, e falar com o Royal sobre um assunto secreto.

– Ah? Bom, se você entrar no grupo, seja bem-vindo. – Ele me estendeu a mão para cumprimentar-me.

– Obrigado. – Eu a apertei, e esqueci-me da bombinha que ele segurava, que explodiu quando nossas mãos se seguraram. Grunhi, e ele deu uma leve risada.

– Desculpa. – Riu Esmond, encostando-se na parede, soluçando em meio aos riros. – Eu não... Resisti.

– Não liga pro Esmond, Franklyn. – Falou Thomas, dando uma palmadinha em minhas costas para seguirmos em frente. – Ele gosta de pregar peças nos outros.

– Eu percebi. – Atravessamos o corredor, indo em direção da escada. Antes, dei uma breve olhada nos cômodos. No da direita era a sala, onde havia um grande sofá com alguns garotos sentados e jogando. Um deles olhou para Thomas e acenou. Na da esquerda, era a cozinha. Haviam garotas lá conversando sobre algo, enquanto faziam um bolo ou coisa do tipo. Quando olhei para a escada, senti que todos estavam olhando para mim.

Ao subirmos, estávamos novamente em outro corredor. Aquela casa mais parecia um apartamento residencial. Haviam várias que deviam dar nos quartos das pessoas dali, mas nosso objetivo era o andar de cima, onde era a sala de reuniões. Subimos a outra escada, e estávamos agora de frente para uma porta fechada. Thomas a abriu, e nós entramos.

Era provavelmente o maior cômodo da casa. Havia uma grande mesa oval no meio, com cerca de vinte e cinco cadeiras de escritório. Muitas prateleiras com livros antigos se estendiam pelas paredes, e ao fundo estava uma janela enorme, e Royal estava sentado na cadeira mais próxima à ela, no fundo da sala.

– Royal? – Perguntou Thomas, e o garoto levantou os olhos. – Franklyn quer falar com você.

– Ahn? – Falou. Quando me viu, levantou-se. Colocou seu tablet sobre a mesa, e contornou-a. – Sobre o que é?

– Quero entrar no grupo. – Falei, e ele olhou-me como se eu fosse louco?

– Como assim? – Falou, e antes de eu tentar explicar ele continuou. – Nos conhecemos há apenas algumas horas, e nesse tempo você já pensa em entrar para o grupo?

– Eu preciso participar de um grupo, e ouvi dizer que vocês são os melhores Mutantes de nível 1 do Abrigo.

– Bom, não fui eu quem falou isso. Diga-me, por que quer entrar para nosso grupo? Motivos pessoais? Quer tornar-se mais forte? Ou quer conquistar algo que só conseguirá participando de um grupo? – Ele falou como se soubesse o motivo de eu ter ido até lá.

– As três coisas. – Respondi, tenso. Ele me rodeou.

– Ah, as três coisas? – Murmurou. Thomas não falava nada. Ele estava no canto da sala, quieto. Olhei para Royal, e vi que ele parecia emanar uma aura. Quando o encarei, senti medo. – E diga o que o motivou a vir aqui.

Eu olhei para Thomas, que fez um sinal para eu dizer.

– Uma relíquia foi roubada. – Comecei. – E essa relíquia colocou a vida de muitas pessoas do Abrigo em risco. E eu preciso recuperá-la num prazo de um mês e meio, e preciso de ajuda.

– Uma relíquia? – Falou, e então riu. — O que uma velharia faria mal a nós?

– É a Espada Dourada, Royal. – E seu riso desapareceu. Ele agora estava muito, muito sério. – Metade da população do Abrigo está em coma e, se não recuperarmos a Espada, eles morrerão.

– Se é de fato a Espada Dourada, receio que não há nada que possamos fazer. – Falou, virando-se e indo em direção de sua cadeira.

– Você não entende?! – Exclamei. Fui em direção da mesa, segurando-a com força. – Pessoas morrerão se não recuperarmos essa Espada! E nós somos a única chance de trazê-las de volta!

– E por que tem que ser justo nós, Mutantes de nível 1? – Exclamou, e seus olhos vermelhos me fizeram sentir meu estômago revirar. Eu estava com medo de Royal, um medo que havia surgido do nada. – Por que não enviam Mutantes mais fortes?

– Porque nós somos aqueles em que estamos destinados a salvar aqueles que estão sofrendo! – Gritei. Thomas se encolhia no canto da sala. – Não são eles, somos nós! Isso é, serão nós se você aceitar-me no grupo! Não quero fazer isso para ser reconhecido, quero fazer isso porque quero salvar a todos que estão aqui! Eu cheguei ontem, mas mesmo assim não quero que pessoas morram. Inocentes morrerão se você rejeitar meu pedido! Minha mãe morrerá!

E Royal me olhou, agora com medo. Não, ele não olhava para mim. Ele olhava para cima de mim. Logo acima de minha cabeça, palavras se erguiam como hologramas. Elas diziam: “Manifestação Psíquica – Aura do Temor”.

– O que é isso? – Falei, também com medo.

– Seus poderes. – Falou Royal, e senti sua voz trêmula. – Diga quais são.

– Energia Ancestral e Evolução Reativa. – Murmurei, confuso.

– Tem certeza? – Perguntou, aproximando-se de mim.

– Absoluta! Veja! – Estendi minha mão, e uma adaga avermelhada se materializou.

– Então mire em uma cadeira. – Falou, apontando para elas. – Qualquer uma. Tente empurrá-la sem usar seu corpo.

– Como é?

– Só faça isso. – Eu não entendi nada, mas olhei para a cadeira em que antes ele estava sentado. Concentrei-me, e tentei empurrá-la sem usar meu corpo. Senti meu braço se erguer, como se eu estivesse sendo controlado.

Vou te dar uma forcinha, falou meu outro eu.

E, quando percebi, a cadeira arrastou-se para trás, batendo contra a parede com força, e ricocheteando de volta para a mesa.

– Não acredito. – Murmurou, olhando para mim. – Talvez você esteja certo.

– Por que mudou de opinião? – Falei, ainda olhando para a cadeira. Eu havia empurrado-a sem usar meu corpo!

– Você tem dois poderes e dois subpoderes, Franklyn. – Interveio Thomas, e Royal concordou. – Isso é a coisa mais rara que se pode ter.

– E isso é bom ou ruim? – Murmurei.;

– É ótimo! – Exclamou Royal, tocando em meu ombro. – Seja bem-vindo ao grupo. Acho que todos vão gostar muito de você. Não é, galera?

Eu olhei para trás de mim, que era onde Royal olhava, e a porta se abriu. Dezessete Mutantes estavam na escada, ouvindo tudo. Eles sorriam para mim. Esmond estava à frente.

– Já te dei desejos de boas-vindas, então não espere isso novamente de mim. – Falou, rindo. Todos entraram na sala e me deram boas-vindas. Agora eu verdadeiramente sentia que estava em casa. Percebi que haviam alguns mais novos e outros mais velhos do que eu, e alguns tinham a mesma idade que a minha, mas não dei importância àquilo.

Depois de todos me darem boas vindas, ficamos em pé ao redor da mesa. Eu e Royal ficamos na ponta da janela, enquanto todos os outros se ajeitaram. Iríamos conversar sobre aquilo.

– A partir de que parte vocês ouviram? – Falou Royal, e um dos garotos respondeu.

– A partir da parte em que vocês começaram a gritar. – Falou. Ele tinha os cabelos escuros e arrepiados em um tipo de moicano no meio, e seus olhos também eram vermelhos. Eu percebi que muitos dos Mutantes tinham cores de cabelos ou olhos exóticas. Talvez fosse coisa dos genes que tínhamos. Usava uma jaqueta vermelha com uma estampa redonda no peito direito, e por baixo tinha uma camiseta negra. Sua calça jeans era também negra, e seu tênis era negro e vermelho. Uma coisa era certa: Ele adorava aquelas duas cores.

– Certo, Rick. – Disse Royal, suspirando de alívio. – Isso nos livra de explicações longas e cansativas. Aparentemente, o que Franklyn disse é mesmo verdade. Vi muitas pessoas correndo para o centro do Abrigo. Gritavam sobre pessoas caídas e coisas parecidas, mas não dei muita atenção. Franklyn, explique melhor essa situação.

– Certo. – Falei, e expliquei tudo para eles. Falei do museu em chamas, e da Espada ter sido a única relíquia roubada. Falei também sobre nosso encontro com Klaus, que disse que tentou interromper o ladrão, e mostrou a meu tio, a Thomas e a mim o estado em que a cidade se encontrava. E, por fim, falei do meu sonho.

– Um Sonho de Profecia? – Falou uma garota. Era ruiva, repleta de sardas, e seus olhos eram de uma tonalidade azul-clara. Usava uma jaqueta roxa, com uma camiseta negra por baixo, uma calça jeans surrada e um tênis cinza. – Isso também é algo raro. Caramba, Franklyn, você mal entrou no grupo e já está surpreendendo a todos nós.

– “O artefato roubado precisa ser encontrado, antes que o prazo seja esgotado”? – Repetiu Royal. – De fato, a frase é idêntica ao que houve. O artefato é a relíquia, ou seja, a Espada. E o prazo já nos foi dado: Um mês e meio. 45 dias é nosso tempo para encontrar a Espada Dourada e anular o efeito dela sobre as pessoas em coma. – Royal aparentava ser muito inteligente, para ter descoberto aquilo logo que no mesmo instante.

– Mas um aviso, pessoal. – Falei, juntando minhas forças para prosseguir. – Provável que muitos de nós morram, caso aceitem a missão. Se não aceitarem, entenderei. Teremos que deixar nas mãos dos outros.

– Uma missão suicida. – Falou Esmond, cruzando os braços. – 90% de chances de falharmos, 10% de vivermos. – Todos olharam para ele, que parecia não dar atenção àquilo. – Estamos esperando o quê? Isso sim é uma missão de verdade.

Todos concordaram, e eu abri um sorriso.

– Obrigado, pessoal. – Murmurei. Meus olhos começaram a arder, mas permaneci forte. – Vamos salvar algumas centenas de vidas, então?

– Mas como pensa em salvar vidas ao lado de um grupo, se não conhece ninguém do grupo? – Riu Royal. – Vamos nos apresentar. Sou Royal, líder do grupo. Meu poder é Mimetismo Nephilim, onde eu me mimetizo em um Nephilim, e meu subpoder é Aura do Temor, o mesmo que o seu novo. Ele faz as pessoas me temerem e tudo mais. Menos você.

– Thomas Moore. – Falou Thomas logo em seguida, ao meu lado. – Tenho Realidade Artística, posso transformar meus desenhos em realidade. E meu subpoder é Visão Aguçada.

– Trissy Stravinsky. – Falou a garota ruiva de olhos azuis. – Tenho Animação de Objetos, em que posso dar vida à objetos, e meu subpoder é Vôo.

– Rick Hunnter! – Falou Rick, o garoto de cabelo arrepiado que adorava preto e vermelho. – Poderes Mágicos e Visão Adaptada. Não confunda o subpoder com Visão Aguçada, por favor.

– Sou Esmond Young, e esse aqui é meu irmão, Slient Young. – Esmond agarrou o garoto ao lado dele, um pouco menor. Ele tinha os olhos negros e brilhosos idênticos ao do irmão. Seu cabelo era bagunçado para a sua esquerda, diferente do cabelo de Esmond. De resto, eles eram quase que idênticos: o formato do rosto, o tom da pele. – Eu tenho Emissão de Fogos de Artifício, mexo com explosões, baby! E meu subpoder é Sensibilidade a Vibrações. Posse sentir as vibrações do local quando toco com minhas mãos nuas em algo, como no chão, e sinto se há alguém se aproximando. Como meu irmão é tímido e não fala com ninguém, eu falo por ele. Ele tem Mimetismo Draconiano, em que se mimetiza em um draconiano, o que já é óbvio só pelo nome, e seu subpoder é Manipulação de Probabilidade. Ele altera as probabilidades de algo acontecer ou não, mas por enquanto somente altera as probavilidades de coisas simples.

– Izuqui Tan. – Falou um garoto armadurado. Sua armadura era idêntica aos dos Caçadores. Talvez ele tivesse roubado-a. Eu não podia ver seu rosto devido sua armadura. – Eletrocinese e Visão Adaptada.

– Sou Mikael Tinkeir – Falou outro garoto. Seu cabelo era comprido e loiro, e no final ele escurecia em um tom mais puxado para o laranja. Seus olhos eram negros e profundos. Usava um moletom de zíper preto e cinza, com desenhos de camuflagem, uma calça jeans negra e um all-star preto. – Tenho Armas Psíquicas como poder, em que crio armas mentais e uso-as para atordoar meus inimigos e meu subpoder é Evolução Reativa

– Hector Mansur. – Falou um garoto um pouco pequeno. Devia ser o menor de nós, e também o mais novo dos garotos, com uns 13 anos no máximo. Seu cabelo era negro e estranho, com partes dele para todos os lados. Usava um casaco marrom sobre uma camiseta preta e branca, uma calça social cinza e um sapato também marrom. – Tenho Geocinese como poder, e Visão de Raio X como subpoder.

– James Black. – Falou um garoto. Ele era o maior de nós, e o mais forte aparentemente. Devia ter um metro e oitenta de altura. Sua pele era clara, e seu cabelo era ruivo. Seus olhos eram verdes, tais como a grama. Usava um moletom azul escuro aberto, com uma camiseta preta, branca e vermelha logo abaixo. Sua calça social era negra, e seus sapatos eram azuis na mesma cor que o moletom. – Meu “poder” é Ciborgue, e meu subpoder é Aura do Temor, assim como o de Royal e, aparentemente, como o seu.

– Dave FallenHighs Maccasa é meu nome. – Falou o garoto ao lado de James, sério. Também era ruivo, mas em um tom escuro. Seu cabelo era maior, e tinha uma grande franja que cobria toda a sua testa. Estava usando um casaco branco em cima de uma camiseta de um time de basquete aleatório verde, com o número “28” em branco. Sua calça tinha um tom misturado entre marrom e cinza, e seus sapatos eram brancos. Seus olhos eram castanhos, e ele era magricela. – Tenho Reptilianismo, um poder que me permite me mimetizar em um réptil humanóide. E meu subpoder é Super Inteligência. Precisa de estratégias? Fale comigo. – Ele, então, esboçou um sorriso e alguns riram. Eu acompanhei os outros. – O quê? Elas são muito boas, tá?

– Meu nome é Mally Drew. – Falou a garota ao lado de Dave, ainda rindo. Seus cabelos eram negros e compridos. Seus olhos eram negros e sua pele era muito clara. Usava uma jaqueta rosa clara em cima de uma blusa de frio branca, uma calça jeans preta e um sapato também preto. – Tenho Controle Mental como poder, e Vôo como subpoder. E suas estratégias são péssimas, Dave. – Ele sibilou um “vai se ferrar”.

– Eu aqui! – Falou uma garota, erguendo a mão. Seu cabelo era comprido e castanho, seus lábios eram rosados e um pouco ressecados. As bochechas também eram rosadas, e um de seus olhos era castanho, o outro era amarelo. – Sou Chloe Alicia Willkmey. Meu poder é Manipulação de Espelhos, e meu subpoder é Linguística.

– Eu sou Ethan Winterhold. – Falou o garoto ao lado de Royal. Seus cabelos eram morenos e encaracolados, a pele era branca e os olhos eram negros. Usava uma jaqueta escura fechada. – Somos irmãos de poderes, cara! Tenho Manifestação Psíquica. Precisando de ajuda para aprender a controlá-lo, fale comigo. Meu subpoder é Adaptação Atmosférica.

– E eu sou Anne Pearl Pepper. – Falou outra garota, ao lado de Ethan. Sua pele era branca e repleta de sardas, e seus cabelos eram longos e cacheados. Os olhos eram lilases. – Meu poder é Controle de Sensibilidade, e meu subpoder é Aptidão Intuitiva

– Eu sou Dorian Skinberg. – Falou o garoto ao lado dela. Os cabelos dele eram escuros e curtos, seus olhos eram cinzentos e sua pele era clara. – Tenho Mimetismo Elétrico, e meu subpoder é Vôo.

– Eu aqui, sou Yordle Munstain. – Falou o garoto na outra ponta. Seu cabelo ela loiro, e seus olhos eram amarelos como o sol. Sua pele era clara, e ele usava uma jaqueta cinza em cima de uma camiseta amarela com uma gola enorme. Sua calça era preta, e seu tênis também era amarelo. – Sou quase igual a você. Tenho dois poderes, mas só um subpoder. Meus poderes são Luminiscência, em que eu posso controlar a luz, e meu outro poder é Telecinese. Meu subpoder é Cauda Preênsil. – Uma cauda apareceu logo atrás dele, balançando.

– E onde está seu irmão, Yordle? – Falou Royal, procurando-o.

– Aqui. – Falou um garoto, aparecendo das sombras do outro canto da sala. Ele era pálido, como se não se alimentasse há dias, e aparentava também não dormir muito por causa de suas terríveis olheiras. Seu cabelo era preto, voltado um pouco para trás, e seus olhos eram azuis na cor do céu. Todas as suas roupas eram pretas: Sua jaqueta de couro com uma grande gola erguida, com uma camiseta negra que tinha uma caveira branca estampada por baixo. Sua calça e seu sapato eram negros também. – Mas eu não irei me apresentar.

– Não precisa gastar sua energia. – Falou Yordle, sorrindo. O garoto pálido olhou com ódio para o irmão. Eles não eram nada parecidos. Enquanto um era loiro, o outro tinha cabelos negros. Enquanto um tinha olhos azuis, o outro tinha olhos amarelos. Enquanto um era pálido, o outro era moreno. E o irmão de Yordle parecia não dormir há semanas, e sentia um ódio profundo em seu olhar. – Deixe que eu mesmo gasto a minha. Esse é meu querido irmão, Jake. Ele tem Umbracinese e Empatia. Diferente de mim, tem só um poder. Mas ainda sim é forte pelo poder que tem. Pode controlar as sombras.

– É claro que sou mais forte... – Resmungou Jake. – Acabamos com essa palhaçada?

– Não. – Falou uma garota que entrou na sala na hora. Ela era linda. Seu cabelo era longo e castanho. Seus olhos eram castanho-mel, e sua pele era branca. Usava uma jaqueta preta sobre uma camiseta de botões cinza, uma calça jeans escura e um tênis marrom. – Falta a mim. O que eu perdi? Estava checando a cidade e vocês precisavam ver. Parece que...

– Uma relíquia foi roubada e centenas de pessoas entraram em coma? – Completei-a, e ela fez que sim. – É uma longa história.

– Você é o garoto novo, então? – Falou a garota, me olhando de cima para baixo. – Royal mandou uma mensagem para vir até aqui. Mas não sei o que está acontecendo.

– Eu te explico o que está rolando depois, Demetria. – Falou Royal. – Apresente-se para ele. É a última que falta.

– Ah, ok. – Ela desviou o olhar para baixo, olhando para os seus sapatos. Colocou suas mãos atrás do corpo. – Sou Demetria Salvatori. Meu poder é Aura Bruxuleante, e meu subpoder é Prodígio. Muito prazer.

– Certo. Agora falta a mim. – Eu coloquei minhas mãos sobre a mesa. – Sou Franklyn Thompson. Tenho dois poderes e dois subpoderes. – Demetria pareceu se assustar quando eu falei aquilo, ficando tensa. – Um deles é Energia Ancestral. O outro é Manifestação Psíquica, o mesmo que o do cidadão chamado Ethan. – Ele soltou uma breve risada, muito repentina, e todos olharam para ele, estranhando-o. – Meus subpoderes são Evolução Reativa e Aura do Temor. Espero que gostem de minha presença no grupo. E saibam que entrei aqui para salvar a todos que correm perigo. Talvez parentes seus estejam na mesma situação que minha mãe. Espero que possamos trabalhar em equipe.

– E nós vamos. – Afirmou Rick, abrindo um sorriso. – Não é mesmo, pessoal? – Todos confirmaram. Todos, menos Jake, que se afastou do grupo.

– Mas, Franklyn, diga-me. – Falou Ethan, cruzando seus braços. – Você sabe quem roubou a Espada Dourada?

– Foi a Espada Dourada que foi roubada? – Eu confirmei com a cabeça. – Nossa... Isso é mal.

– De fato, é. – Murmurei, olhando-os. – Só sei que foi alguém que podia teletransportar-se, já que ele não entraria e sairia do Museu levando uma relíquia como se fosse nada, não é? E ninguém viu a ação, aparentemente. Quem a roubou deve ter se teletransportado para lá dentro, pegado-a e explodido o museu como distração para fugir sem deixar rastros. E deve ser alguém daqui do Abrigo, já que a Espada foi a única relíquia a ser roubada.

– E com certeza quem a roubou já deve estar muito longe daqui. – Falou Royal, pensativo. – Anjos e Demônios, agora que as apresentações terminaram, preciso dar um aviso a todos. Provável que muitos de nós possam morrer nessa missão. E, como Esmond falou antes, as chances de realizarmos ela com êxito são pequenas. Mas ainda assim temos chances. Portanto, vão se despedir daqueles que são importantes para vocês, em caso de algo acontecer. Partiremos amanhã, às 13:30. Podem ir. – Eu iria sair, quando Royal chamou a mim e Demetria. – Vocês dois, fiquem aqui. – Eu olhei para ela e depois para ele. Thomas passou por mim e tocou em meu ombro. Sussurrou um “nos vemos mais tarde”. – Demetria, lhe explicarei o que aconteceu. E Franklyn, quero que vá falar com seu tio sobre o que aconteceu. Fale para ele manter contato com nossa equipe após sairmos para a missão, e avise para ele quando partiremos.

– Está bem. – Demetria me olhou, e antes que eu fosse sair ela segurou meu braço.

– Antes, me responda. – Sussurrou, aproximando-se de meu ouvido. – Você está com medo?

Eu olhei para ela. Sua expressão parecia ser de insegurança. Ela me olhava como se eu fosse uma granada que estava preste a explodir. Respirei fundo e respondi.

– Acho que todos estamos. – Ela assentiu, e largou meu braço. Acenei para Royal, e desci as escadas.

O resto do grupo saía do prédio para também ir se despedir. Eu segui caminho até o apartamento de meu tio. Meu coração estava acelerado. Em um dia eu partiria para uma missão.

Uma missão em que talvez não houvesse viagem de volta.