Guerra Mutante: A Relíquia Roubada

6 6 - Nós temos encontros inesperados


Dois anos se passaram desde o início da Quarta Guerra Mundial, em 2082. Eu e minha mãe passamos a viver como nômades. Vivíamos em uma barraca de acampamento que encontramos uma semana depois do início da Guerra.

Foi muito difícil para nós superarmos aquilo. Foram dias terríveis, aqueles. Os de agora também são terríveis. Eu havia ficado com o colar de Willian. Era a única coisa que eu tinha para me lembrar dele. Estava aprendendo a controlá-lo desde que começamos essa nova vida. Minha mãe dizia que eu estava ficando mais forte a cada dia que se passava, mais maduro, e que eu me parecia com Willian cada vez mais. Eu esperava que ela estivesse certa em tudo o que ela dizia.

O outro poder que Willian havia me falado que o colar daria, o Instinto de Caçador, era um poder em que vinha me ajudando desde quando eu comecei a usá-lo. Consistia em melhorar minha velocidade, minha força e meus sentidos. Era como se eu tivesse uma certa conexão com o ambiente, podendo ouvir, cheirar e sentir movimentos próximos de mim com extrema facilidade. Talvez fosse meu subpoder, também. Subpoderes são a classificação menor dos poderes. Minha mãe ensinara sobre eles. Esses subpoderes consistiam em nos ajudar de forma mais simples. Não nos fazia ter bolas de fogo, quebrar paredes ou algo do tipo.

Eram, na verdade, poderes auxiliares. Por exemplo, quando o Mutante consegue enxergar coisas com mais facilidade do que os outros, tem Visão Aguçada. Quando o Mutante pode reparar mecanismos com extrema facilidade, tem Aptidão Intuitiva. E quando pode voar, tem Vôo.

Eu havia descoberto o meu poder há um ano atrás, quando minha mãe viu que eu me adaptava a climas muito facilmente. Ela disse que era Evolução Reativa. Ela me explicara que os subpoderes também evoluíam, assim como os poderes normais. Em breve eu conseguiria melhorá-los e ganhar mais habilidades, assim como aconteceria com minha Energia Ancestral. Por causa de meu subpoder, eu não sentia muito frio ou muito calor, o que era bom, já que era inverno agora.

Eu caminhava na floresta em que eu e minha mãe estávamos “morando” naquela época. Sempre mudávamos de lugar, para não sermos encontrados por pessoas, tanto humanos quanto Mutantes. Era difícil se movimentar por causa da neve que chegava quase ao meu joelho. Desde o começo da guerra, eu havia mudado muito. Meu cabelo estava mais comprido, meus olhos estavam mais cansados. E também eu possuía mais controle sobre meu poder, embora ainda fosse um Mutante nível 0. Conseguia criar somente armas pequenas: adagas, facas, agulhas, shurikens, kunais, zarabatanas com dardos infinitos, etc. Mas, mesmo com armas de porte pequeno, eu sabia me virar.

Foram poucas as vezes em que eu e minha mãe nos encontramos com alguém. Mas, quando nos encontrávamos com alguém, sempre fugíamos. Eu e ela havíamos criado uma regra de entrar em batalha com outras pessoas somente quando extremamente necessário. Sorte que nunca precisamos entrar em combate.

Meu ferimento no ombro direito ainda doía, embora em menor intensidade. Era muito raro eu sentir uma dor ali. Não dificultava meus movimentos, mas me tirava um pouco a concentração. E eu sabia porque aquilo acontecia. Era o meu alter-ego, a minha outra personalidade, me lembrando daquele dia terrível.

Se eu me concentrasse, podia conversar com ele. Sempre quando conversávamos, estávamos naquele banheiro flutuante no meio do nada. E, enquanto eu estava no banheiro dentro de minha mente, também estava na vida real. Eu me concentrei e então comecei a conversar com meu outro “eu”.

– Por que você não para de ficar fazendo meu ombro doer? – Murmurei. Ele estava com uma agulha vermelha fincada no ombro direito dele.

– Ah, Franklyn... – Riu, retirando a agulha. Nós dois demos um leve grunhido de dor. – Estou tentando te lembrar do dia que nós nos unimos, meu caro.

– Nós não nos unimos. E eu não sou seu caro. Eu não gosto de você, e não tenho nenhuma vontade de viver com uma outra alma dentro de mim.

– Mas terá que viver, meu “barato”. – Ele riu novamente. Sempre quando ele ria, abrindo aquele sorriso irônico, eu me lembrava daquele garoto que eu havia encontrado no banheiro. Eu havia esquecido seu nome. Mas nunca esqueci a cena em que ele riu e atravessou um portal. – Afinal de contas, somos irmãos.

Eu corri até ele e o segurei pelo pescoço. Senti meus pelos e os pelos dele se arrepiarem.

– Você também não é meu irmão! – Gritei, cerrando meus dentes. – O único irmão que eu tive morreu por sua culpa!

Então ele se transformou em névoa e reapareceu atrás de mim. Ele sempre fazia isso para se escapar de mim.

– Talvez, talvez não. – Ele me olhou, agora com um olhar sério. – Eu posso ser malvado às vezes, mas também sou bondoso, Franklyn. Muitas coisas eu fiz para te salvar. Você pode não lembrar, mas eu lembro. Quando você era criança, lembra-se que sempre te diziam que você tinha déficit de atenção? – Ele estava certo. Meus pais, meus professores, todos sempre me diziam que eu tinha isso. – Que você sempre perdia alguma coisa? Como se houvesse algum tipo de corte na situação em que você tava, e quando reparava já estava em outro lugar ou em outra situação? Era eu quem estava fazendo isso. Estava te ajudando. E você retribui tentando me matar!

– E por que só revelou isso agora? – Falei. Meus punhos cerraram. – Depois de dois anos? Se quer tanto me ajudar, por que me faz sentir essa maldita dor?!

– É como eu falei, estou tentando te lembrar do dia que nos unimos. Só irei parar com ela quando você aceitar que somos praticamente irmãos, e que temos que nos ajudar. Quer ter uma vida de paz e sossego? Aceite-me. E então eu irei te ajudar verdadeiramente.

Eu fiquei calado por um tempo. Na vida real, eu parei de caminhar repentinamente. Eu pensava bastante sobre aquilo. Eu o aceitaria? Isso podia ser um grande risco. E se ele tentasse me trair? Afinal de coisas, era uma outra personalidade minha. Uma personalidade mentirosa, trapaceira, cruel. Mas talvez também tivesse bondade nele. Eu sentia que ele falava a verdade.

– Está bem. – Murmurei, e ele gritou de felicidade. – Mas, com duas condições.

– Ih, lá vem. – Falou, e sua felicidade se esvaiu. – Diga quais são.

– Primeira: Pare com esta maldita dor. – Falei, apontando para meu ombro. – E segunda: Você só tomará posse de meu corpo quando for realmente necessário. Dê instruções se quiser, mas não saia me controlando do nada. Avise-me antes.

– Está bem. – Sussurrou, olhando para baixo. Depois me encarou e estendeu sua mão. – Feito!

Eu a apertei, e então ele se dissipou. Eu estava sozinho no banheiro. Fechei meus olhos e voltei à vida real. A dor havia sumido.

– Agora, vamos caçar. – Murmurei, abrindo um leve sorriso.

Olhei para o céu para ver as horas, depois para as sombras que o sol criava. Eram cerca de 9 da manhã. Havia saído da barraca de acampamento há uma hora e meia, quase. Mas minha mãe não ligava. Ela sabia que eu estava caçando alimentos para a semana.

Devia ser sábado, ou domingo. Talvez fosse terça ou quarta. Eu já não sabia quais dias eram, embora eu lembrasse que se fazia dois anos de guerra. Algo me dizia que aquele era o exato dia desde que ela havia começado.

Observei uma grande árvore que estava há cerca de 20 metros de distância de mim. Era enorme, com cerca de 12 metros de altura. Eu sempre a escalava naquela floresta, pois era ali em que começavam as árvores nas quais eu podia escalar. Grande parte dos galhos das outras árvores eram frágeis e quebravam fáceis quando se pisava no lugar errado. Claro que ainda podia escalá-las, mas mesmo assim havia chances de eu cair e dispensar minha presa com um susto.

Algo que eu havia percebido agora era que minha mãe estava certa sobre eu parecer com Willian. Minhas habilidades de escaladas estavam idênticas às dele: Sabia escalar árvores com extrema facilidade, sem mesmo me cortar. Sabia onde pisar e onde me segurar, quais galhos me sustentariam e quais galhos não me sustentariam, e acima de tudo: Eu sabia perfeitamente como fazer caçadas pulando de galhos em galhos. Era fácil demais. Não fazia barulho, e sempre pegava os animais de surpresa. Em um segundo, ele comia. Em outro, tudo estava negro.

Depois de escalar aquela árvore, sentei-me em um dos galhos grossos dela, que nem ao menos rangeu com meu peso. Eu me concentrei para ouvir todo o som que havia na floresta: O balançar das folhas, o ruído do vento, o som dos galhos se movendo e batendo-se entre si. E os passos baixos na neve. Podia ouvir algum animal se aproximando de alguma árvore próxima de mim. Debrucei-me no galho para sentir o cheiro. Era uma lebre, provavelmente. Ali, naquela floresta, haviam muitas lebres.

Levantei-me no galho, tomei impulso e saltei, atravessando as várias folhas com neve daquela árvore e da outra à minha frente, na qual me agarrei no tronco e subi. O cheiro estava mais forte. Pulei em outro galho, e saltei novamente, agarrando-me em um galho no alto e balançando-me para uma árvore um pouco mais longe, onde eu consegui me segurar em um galho por pouco, antes de cair. O cheiro agora era muito próximo. Olhei para baixo, e vi uma lebre branca como a neve, comendo uma flor. Materializei uma adaga vermelha, e então saltei para baixo. O animal olhou para cima, grunhiu e então morreu.

Ela era grande. Daria para uns três dias. Minha adaga havia se fincado bem em seu coração, onde eu estragava menos a carne. Era muito fácil matar lebres. Desfiz a adaga e agarrei o animal com muito cuidado, ela agora tinha os pelos manchados pelo sangue.

– Desculpe-me. – Falei. Aquilo era outra coisa que minha mãe havia ensinado. Os nos ancestrais, há muito haviam sido índios. Eles tinham muitas regras na caça, e uma delas era sempre se desculpar com a presa depois de matá-la, para mostrar que era preciso a morte dela. Eu segui a mesma regra que a deles.

Retirei minha bolsa de minhas costas e a abri. Ela estava vazia. Coloquei a lebre lá dentro, e depois voltei a fechá-la e colocá-la atrás de mim. Ajeitei minhas luvas de meio-dedo negras e vermelhas, com partes de ferro nas costas dos dedos. Então segui o caminho de volta para casa. Começou a nevar, ao mesmo tempo em que uma névoa se iniciava.

Mas o que de fato me assustou foram os ruídos vindo mais além da floresta. Galhos se quebraram. Concentrei minha audição, e pude ouvir passos e ruídos metálicos.

Soldados, pensei.

Comecei a correr, passando pelas diversas árvores. Os passos se aproximavam. E eu me vi em uma colina, onde havia uma depressão enorme. Olhei para trás, e vi vultos ao fundo, e então me joguei.

Por sorte, a neve amorteceu minha queda, e a neve que estava caindo do céu cobria meus rastros feitos pelo meu corpo no chão. Levantei-me o mais rápido que pude e me escondi atrás de uma árvore. Ouvi passos acima de mim. Inclinei muito pouco minha cabeça e vi com minha Visão Aguçada o soldado lá no topo da colina. Ele empunhava uma arma de plasma.

– Nada aqui. – Falou, e um som de estática de rádio veio como resposta. Eles estavam nos procurando? Não, não tinha como. Nunca saímos daquela floresta. Mas e se eles tiverem encontrado minha mãe? Esperei o soldado virar-se e ir embora para voltar a correr, silenciosa e rapidamente como a neve.

Quando cheguei na barraca, minha mãe ainda estava lá. Estava tudo bem, mas ela se assustou comigo chegando tão repentinamente.

– Mãe, pegue tudo e vamos embora, rápido. – Falei, ofegante. Havia corrido durante 10 minutos, sempre parando para escutar os sons.

– O que houve, filho? – Ela falou. Agachei-me para pegar minha outra mochila. Eu havia largado a lebre na neve, e a minha bolsa estava novamente vazia. Suja, mas vazia.

– Os soldados, mãe. – Ela estremeceu. – Eles nos encontraram, acho eu. Estão procurando por alguém. Pode não ser nós quem eles procuram, mas melhor não arriscarmos.

– Está bem, me dê cinco minutos. – Murmurou, já guardando duas coisas.

Abri minha mochila, para verificar se estava tudo lá: Comida para emergência, meu antigo celular que estava descarregado havia meses, minhas roupas, acessórios, tudo ainda estava lá. Minha mãe guardava sua cama improvisada em sua mochila de acampamento idêntica à minha, e quando acabamos ela desmontou a barraca e a colocou em sua mochila também. Ela havia, de alguma forma, feito com que coubesse milhares de coisas lá dentro. Mas nunca conseguiu fazer o mesmo na minha mochila.

Nós começamos a correr. Ela havia colocado seu casaco de inverno branco, parecido com o meu. Nós os usávamos para nos camuflarmos na neve. Todas as roupas dela eram brancas, até mesmo a mochila. Ela, pelo menos, não precisava se preocupar com camuflagem. Mas eu sabia escalar as mais altas árvores sem precisar de equipamentos e me esconder nos galhos sem problemas, então estava tudo bem para mim.

Eu comecei a suar frio. Tinha medo de eles nos encontrarem. Havia visto só um soldado, mas pareciam ter uns 10 deles. E, caso eles nos encontrassem, seria nosso fim. Estávamos seguindo em direção norte. Devíamos estar em alguma parte do Canadá. Havíamos atravessado dois países a pé, embora isso tivesse demorando 2 anos. Talvez estivéssemos no Canadá há mais tempo. A floresta parecia não ter fim. Corríamos durante muito tempo, e ainda não havia visto nenhum sinal de planícies, cidades ou montanhas. Foi quando ouvimos algo estralar à nossa frente, e um vulto apareceu saltando.

Ele estava todo escondido, com somente seus olhos à vista. Eram azuis como o céu durante o verão. Suas roupas eram todas negras e grossas. Uma máscara de tecido cobria a parte inferior de seu rosto. Usava uma jaqueta negra, juntamente com luvas de inverno e uma calça de moletom cinza escuro. Seus sapatos de escalada estavam sujos de barro.

– Venham comigo. – Murmurou a voz abafada, fazendo sinal para seguí-los. Atrás de nós, pude ouvir passos. Minha mãe recuou. – Não vou machucá-los, só quero salvá-los.

Minha mãe olhou para mim, em busca de respostas, mas eu não sabia se era correto ir com ele. No entanto, ela aceitou.

– Vamos, Franklyn. – Falou minha mãe, aproximando-se do homem encapuzado. – É nossa única esperança. Essa floresta não tem fim.

– Mas, mãe... – Eu ia retrucar, mas calei-me. Olhei para o homem, desconfiado. Conhecia aqueles olhos de algum lugar. – Certo, vamos.

Então, o homem nos guiou em direção nordeste. Atravessávamos as árvores, rapidamente, e vi que descíamos uma colina. Havia pouca neve ali agora. E nós paramos de frente para uma enorme encosta de mais de sessenta metros de altura. Árvores enormes e moitas e arbustos altos rodeavam-na. O homem aproximou-se da encosta e puxou uma moita, revelando uma alavanca escondida. Ele a puxou e uma fenda que havia na montanha começou a se abrir, até revelar um túnel que descia.

– O que é isso? – Murmurei, com medo.

– É nossa rota de fuga. – Respondeu, fazendo sinal para continuarmos. – Venham.

Quando entramos no túnel, reparei que ele havia vários degraus que nos levavam para baixo. O túnel era feito de pedra lisa, e era totalmente iluminado por lâmpadas nas paredes. Como diabos tinha energia ali? Nunca mais havia visto eletricidade em cidades.

Ele desceu o túnel, e nós o seguimos até a saída, e eu quase tive um enfarto. Aquele túnel nos levou a uma enorme caverna. Mas acontece que naquela caverna tinha uma cidade construída, com carros voando, prédios de 50 andares e Mutantes flutuando. A caverna toda parecia não ter fim, pois muito ao fundo ela parecia descer mais ainda. Os prédios pareciam com os de Nova Iorque: enormes, com as luzes acesas e brilhando. Havia algo que parecia ser uma montanha de pedra dentro da caverna, onde tinha um tipo de base instalada. Na parede lateral havia aberturas grandes que mostravam o céu lá fora, e permitia que entrasse a luz do sol e a brisa fria com um ar puro. A neve não entrava na caverna, por algum motivo. O que estranhei foi o fato de termos descido vários metros, mas o clima ter continuado normal. Na verdade, ali parecia estar com uns 20 graus de temperatura, ao invés de 5. Muitos dos prédios foram feitos dentro das pedras da caverna, que mais parecia um buraco de minhoca gigante, como se o Godzila tivesse dado uma visita à montanha há muito tempo atrás.

– Isso é... – Falei, mas não consegui completar a frase. Estava muito surpreso com tudo aquilo. Não lembrava a palavra que eu ia falar.

– Magnífico? – Falou o homem, e eu concordei. Ele riu, então retirou o capuz e a máscara, revelando sua identidade.

– Joseph? – Riu minha mãe, abraçando o homem. Ele também a abraçou, e então eu o reconheci. Era meu tio, irmão de minha mãe.

– Quanta saudade eu tive de você, maninha. – Ele riu. Seu cabelo era negro e bem curto, e sua pele era da mesma cor que a de minha mãe. Estava com uma cicatriz na boca. – E, Franklyn, olha só o quanto você cresceu! – Ele me abraçou, eu também o abracei. – Nem parece mais o garoto de doze anos que eu conhecia.

Meu tio Joseph trabalhava na Europa, como jornalista de um programa de televisão conhecido mundialmente, o “Jornalismo Real”. Quase não tinha tempo para ver a família, mas quando nos via ele sempre nos trazia presentes de lá.

– E onde está Willian? – Perguntou, mas eu e minha mãe nos entreolhamos e não ousamos responder. Nossos sorrisos sumiram. – Ah, não... – Ele olhou para a cidade. Seus olhos ficaram tristes. – Como aconteceu?

– Torrance Upton. – Falou minha mãe, segurando seu braço direito com o outro.

– Aquele desgraçado? – Murmurou, e então cerrou seus punhos. – Ele não tinha morrido?

– Infelizmente, não. – Disse minha mãe. – Kenneth também se foi.

Ele abriu a boca para falar algo, mas voltou atrás. Ele só tocou no ombro dela, que o abraçou firmemente.

– Estão seguros agora. – Falou, com muita cautela. Nós começamos a andar, descendo por uma escada lateral que nos levaria até um outro túnel lá embaixo. — Vocês vão ficar no meu apartamento por enquanto, pode ser?

– Por mim, tudo bem. – Falei, voltando a olhar admirado para a cidade. – Mas como é que criaram essa cidade aqui? Há quanto tempo ela existe?

– Dois meses depois que a guerra começou, um grupo de Mutantes acabou encontrando essa caverna enorme, que há vários “andares”. Acha essa parte da caverna grande? Espere só para ver o andar de cima, que é onde os Mutantes treinam, ou o andar de baixo, onde é a área dos alimentos: as plantações, as florestas, as colinas e os lagos. São quilômetros e quilômetros de extensões!

– Espera... Florestas? Colinas? Plantações? Lagos?! – Exclamei, estranhando tudo aquilo. – Não tem como ter tudo isso em uma caverna!

– Não tem como ter tudo isso em uma caverna normal. Mas essa não é uma caverna normal. É uma caverna “adaptada” pelos Mutantes. Os criadores dessa cidade fortaleza conseguiram uma forma de criar natureza aqui. Há até mesmo animais nas florestas daqui de dentro. E há um sistema de segurança que informa quando há alguém entrando na base, se é Mutante ou um humano. Os humanos pensavam ter atingido o maior nível de tecnologia, mas mal sabiam eles que os Mutantes estavam muito à frente.

– E por que diabos tem carros voadores aqui, se os Mutantes podem voar? – Falei, e meu tio riu de minha pergunta, como se a achasse idiota demais.

– Franklyn, por dois motivos: O primeiro é que nem todos os Mutantes podem voar. O segundo é que há humanos aqui.

– Hã?! – Gritei, e minha mãe, que até agora estava quieta, também se assustou. –Humanos?! Mas eles são nossos inimigos!

– Não se precipite, Franklyn. Nem todos os humanos são inimigos. Muitos dos humanos são contra a Guerra Mutante, assim como muitos Mutantes também são.

– Guerra Mutante? – Murmurei.

– É o nome que foi dado à essa guerra. Mas, de qualquer forma, não há inimigos aqui. Ao menos, não que nós saibamos. – Ele sorriu para nós dois.

– E como você nos encontrou? – Disse minha mãe, encarando-o enquanto ainda o abraçava.

– Foi fácil. Eu estava vigiando a entrada, quando ouvi passos e vi que eram vocês. Por mais impossível que possa ser, consigo ouvir passos na neve, embora ela os silencie.

– Sorte que não era outro que estava vigiando a entrada. Poderíamos ter morrido, dependendo do humor do vigia.

– Mais cinco minutos e você teriam esse destino mesmo. O outro vigia é muito mais ranzinza que eu. Mas isso pouco importa agora. O que de fato importa é que vocês estão a salvo, e nós finalmente estamos juntos.

– Tem razão, tio. – Murmurei, pensando sobre ter humanos e Mutantes vivendo ali, sobre aquela caverna, sobre os soldados aparecendo repentinamente, sobre tudo que havia acontecido desde o início da Guerra. – Tem razão...