Guerra Dos Tronos
5 Fortaleza Quebrada
O Extremo Sul nunca pareceu tão longe de casa, a visão da Fortaleza de Cronos jamais fora tão amada por Perseus de Cronos, filho de Poseidon, o crônida. Percy não gostava de estar em casa, seguindo ordens de Thalia quando ele deveria ser o Lorde, ouvir os resmungos de Jason todos os dias, a alegria sem noção de Hazel e Bianca. Percy sentia falta do verdadeiro caos sobre o tempo em que o pai de Thalia e o de Percy eram vivos, brigavam todo o tempo, fazendo a Casa de Cronos parecer um sanatório. O pai de Nico era tão louco que nem brigava, só vivia agarrado com as filhas.
E qual não foi sua alegria ao ouvir os soldados gritando para abrir os portões, os escravos recuperados que o seguiam mal acreditavam que os soldados iriam abrir sem confirmar nada, tamanha era a confiança no Chefe Perseus. O orgulho do crônida ajudava, a postura o fazia parecer o próprio Lorde e era assim que os escravos o viam.
Logo que os portões se abriram, Percy abriu vantagem da cavalgada e entrou na Casa de Cronos com metros de distância dos outros fugitivos. Circulou o pátio da fortaleza, ao som de palmas e vivas do servos leais e escravos amorosos, desceu de frente a escadaria da torre, onde os outros cinco crônidas esperavam. Uma garota ruiva segurava com força o braço de Nico e olhava assustada para Percy, este nem se importou. Todos estavam sorridentes, felizes pela volta de Percy.
- Sentiram minha falta? — Ele riu como uma criança.
Beijou a mão de Thalia, antes de puxá-la para um abraço apertado. Segurou a mão de Jason e bateu sua testa com a dele em um cumprimento de irmandade. Tocou com doçura o rosto de Hazel e o de Bianca, para depois beijar suavemente a testa delas. Quando Percy parou defronte Nico, seu coração bateu mais forte, ele viu o garoto com um olhar muito desesperado, Percy viu nos olhos de Nico uma coisa que nunca esperou ver, porque o olho esquerdo do filho de Hades estava azul feito o mar, e aquela era a cor da Deusa Aphrodite.
Do mesmo jeito que Percy via o azul brilhante da Deusa no olho de Nico, o filho de Hades via, no olho direto de Percy, distorcendo o verde-mar delicado que herdara do próprio Poseidon, o abismo negro que caracterizava o Deus Ares. Então eles se abraçaram como se fossem irmãos, e como se não se vissem há anos, e sussurraram seus desafios em nome de seus Deuses.
- Vai cair com ela.
- Vou derrubá-los.
E se encararam, o mundo poderia acabar em volta deles. Percy tinha em seus lábios um sorriso vitorioso, mas Nico só se sentia mal por ter de ser daquele jeito, pelos Deuses, sempre por eles. Percy voltou seu olhar para a ruiva e apontou com uma sobrancelha erguida.
- Essa é Rachel Elizabeth, profetisa, vai trazer a vitória para a Deusa Aphrodite.
- Boa sorte. — Ele olhou para os lados, refletindo sobre por onde deveria começar a segunda parte de seu plano. Optou pelo mais básico, falar com a prima. — Thalia, temos muito o que conversar.
- Depois, Percy. Agora — ela respirou fundo e continuou -, por enquanto, estamos em festa. Vamos reorganizar as coisas, depois nós conversamos.
- À sóis — Percy frizou olhando de relance para Nico.
.
.
.
Percy passou a noite de festa sem ter muito o que festejar, enrolava bem todas as pessoas que se diziam preocupadas com ele, não estava cansado, mas deixava isso claro para que não o importunassem por muito tempo. Além das pessoas, existia algo que Percy não conseguiu se livrar, o olhar profundo de Rachel Elizabeth, ela o encarava como se esperasse que ele virasse um demônio gigantesco e aniquilasse os crônidas de uma vez só. Ele fingia não se importar, mas evitava cruzar seus olhos com os dela.
Os festejos na Fortaleza foram diminuindo depois que Percy se retirou para seus aposentos. E na manhã seguinte todos estavam de volta aos seus afazeres, até o Chefe Perseus entrar na Sala de Jantar e assustar os presentes com seu olhar gelado e escuro.
- Thalia, precisamos conversar.
- Percy, o que pode ser tão importante que não pode esperar o desjejum? Sente-se e coma, depois falamos. — Rachel Elizabeth estava à mesa, entre Nico e Bianca.
- Talvez percamos a oportunidade, se não falarmos agora. — O olhar dele frizava a urgência, e ela não deixou de atender a essa necessidade de seu primo.
- Saiam todos, Perseus e eu temos que falar. — Então os crônidas e Rachel se retiravam, Jason com sua natural cara amarrada. Mas Nico não se levantou. — Nicolaus, você também.
- Mas, Thalia, eu não...
- Saia, não me conteste. — Thalia não precisava elevar a voz, seus olhos na cor de bravos trovões assustavam Lordes e Chefes desde seu nascimento, "aquela é filha direta dos Senhor Zeus, que possuiu seu pai Teseu ao concebê-la com a crônida escrava, porque seus olhos brilham em terror como os dele.", e a Lady revirava os olhos com crendices tão idiotas.
— Perdão, minha senhora. — Ele curvou-se e demonstrou em seu olhar o quanto desaprovava e o quanto sentia que aquilo não daria certo.
Percy não se deu o trabalho de sentar, Thalia apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos, eles se encaravam, um choque de olhares fervilhantes. Ele andava de um lado a outro, lentamente, esperando um sinal para começar, então Thalia desviou os olhos para a janela, que mostrava o relógio de sol no pátio do chafariz. Era o momento.
— Eu estive no Extremo Sul.
— De certo que sim.
— Conheci suas defesas — ela se ajeitou na cadeira -, seu modo de atacar. Eu vi o Sul e quem o comanda.
— Diga-me o nome, Perseus — fechou os olhos esperando o pior.
— Leo de Hefesto.
Um silêncio absoluto tomou a sala, Percy mantinha seu olhar sobre ela, querendo uma reação maior que fechar os olhos com medo. Ele não queria dar a sugestão, mas daria se fosse necessário, o peito de Thalia subia e descia em uma respiração pesada, temerosa. Aquele era o pior, estava acontecendo.
— Vamos até lá — Percy declarou.
— Por que?
— Porque sim, Thalia! Vamos acabar logo com a guerra, aproveitar que eles provavelmente estão desarrumados, ainda procurando por mim, um valioso prisioneiro.
— Acha mesmo? — Seu tom era pura ironia.
— Não zombe de mim, você sabe o certo a fazer.
— E seria o certo? Seria mesmo? — Ela se levantou, andando até ele devagar. — Por que não chamar reforços do Olimpo? Lorde Luke de Hermes os mandaria, Lady Annabeth de Belona Athena também. Por que não, Perseus.
— Porque demoraria uma vida para exércitos se deslocarem do Norte para o Sul, os nortenhos são frouxos, não aguentam a tensão de viver entre o terror e a calmaria. — Thalia parecia pensar, mas ainda estava em dúvida. Então Rachel irrompeu a sala em gritos.
— Traidor maldito, afaste suas palavras imundas da sabedoria de Lady Thalia! — Apontava para Percy com o dedo que possuía um assustador anel de serpente com olhos verdes.
— Rachel! — Nico estava ao longe, no fim do corredor, mas viu seu primo imobilizar a profetisa. Percy puxou o pulso dela com a mão esquerda e a girou, colando as costas dela em seu peito e cruzando o braço direto de Rachel no tronco para que o pulso fino da garota tocasse a própria cintura. Com a mão direita, Percy segurava uma faca sobre o pescoço de Rachel, Thalia nem se abalou com a situação. — Percy, por favor, não!
— Para o calabouço — o mais velho declarou, a Lady apenas assentiu.
— Thalia, deixe-a livre. Foi um erro, não acontecerá novamente.
— Não, Nico, não acontecerá. Ela tentou matar Perseus de Cronos, filho de Poseidon o crônida, com sua magia de bruxa. Ela é a traidora, enganou você, nosso amado primo, mas não o fará novamente. — Olhou nos olhos verdes da garota, não desperdiçaria a oportunidade de se livrar da que se dizia profetisa. — Para o calabouço, maldita ruiva. Nicolaus, diga aos soldados para que sejam erguidas as bandeiras, Cronos vai dar as honras do Olimpo. — Sorriu para ele confiante, mas ele baixou a cabeça e se curvou, amargo, como quem sabia que ela cometia um erro, mas sem dizer nada.
Ainda era apenas as pequenas batalhas, e Percy vencia no nome do Deus Ares. Sentia que nenhuma Deusa ou Deus poderia derrubá-lo, e partiu para a marcha de guerra no alvorecer seguinte. Thalia vinha a frente, com um cavalo, atrás dela, Percy, Jason e Nico, cem homens divididos em duas colunas, uma liderada por Hazel, sobre seu cavalo Arion, e a outra liderada por Bianca, sobre o cavalo Lua de Prata. Ninguém era capaz de contestar o espírito de liderança dos crônidas, mesmo depois de três dias.
As muralhas do Sul não pareciam ameaçadoras, mas, ainda assim, Lady Thalia ordenou que todos ficassem juntos, porque, apesar do silêncio, ela estava com um mal pressentimento. Percy disse que iria patrulhar o perímetro e Nico se ofereceu para ir com ele, obviamente ele recusou, mas aceitou a companhia de Jason. Os dois foram dar a volta na enorme fortaleza, e não viram o ataque inteiro, nem sequer ouviram Lady Thalia agrupar os soldados e sumir com Nico pelos domínios da muralha, ou Bianca gritar para que Cronos batesse em retirada. Quando chegaram já estavam de saída, lutaram um pouco para furar a linha por trás e se salvarem e todos fugiram.
Próximos das muralhas da Fortaleza de Cronos, Bianca liderou os homens para entrar, mas ela e os outros crônidas ficaram nos portões, a exceção de Percy, nenhum dos três conseguia entrar depois da perda de Lady Thalia e Nicolaus. Hazel encostou-se no muro, olhando para o nada, Bianca sentou no chão chorando baixinho, Jason andava de um lado a outro sem abrir a boca. Percy olhou para os três e revirou os olhos.
— O que há com vocês?
— Como o que há?! Acabamos de perder Thalia e Nicolaus. — Hazel protestou.
— Mas não perderam a vida.
— O que fazemos agora? — Bianca olhou para Jason.
— Acho que eu sou o Lorde agora — falou com uma triste incerteza.
— Você? — Perseus riu. — Não seja tolo, seu Lorde sou eu agora. Lorde Perseus de Cronos. Acabou o tempo de brisa fresca que a inútil Thalia colocou sobre vocês, ela e Nico vão morrer, eu vou guiá-los para a guerra.
— Você não morreu, por que eles irão? — Bianca ainda chorava.
— Porque Leo de Hefesto não me odeia.
Jason, Bianca e Hazel arregalaram os olhos ao verem Percy entrar na Fortaleza sem remorsos, nenhum dos três sabia que era Leo de Hefesto, caso contrário teriam insistido a Thalia que não fosse, talvez nem Nico soubesse. Jason sentiu que era uma armadilha para sua irmã e tinha mais raiva de si que de Percy, há muitos anos, em silêncio, desejara vencê-la quando fosse a hora, mas agora só tinha a dor de perde-la, e esse castigo era pouco.
Fale com o autor