- Suas últimas palavras. — disse David.

- Termine logo com isso.

O som do tiro soou no vazio do silêncio inscrito naquela noite. Um silêncio mórbido. Junto ao silêncio estava David, que observava o corpo imóvel e em rápida decomposição de mais um monstro morto.

- É o sétimo em três dias. — disse uma silhueta.

- Na verdade oitavo. — corrigiu David — No caminho encontrei um Magno. Aliás, quando irá me revelar seu nome?

- Já disse para me chamar de Anônimo.

- Isso não é nome. Quero saber o nome de quem está por trás desta máscara de ferro.

- Um dia saberá David. Um dia.

- Espero que esse dia seja antes de que eu acabe como ele. — disse David apontando para o monstro que terminava de se decompor.

Anônimo já havia sumido.

David era caçador de monstros. Aprendeu com o pai tudo o que sabia, mas infelizmente não pôde se despedir dele, pois em um certo dia, seu pai simplesmente havia sumido. "Os demônios me levaram" dizia o escrito na parede de sua casa. Seu rosto branco e óculos, junto ao cabelo ondulado deixando cair pelo seu rosto criando uma franja, davam a impressao de que David era apenas um estudante comum.

Enquanto voltava para casa, David, que andava de cabeça baixa, foi surpreendido por uma criança sentada na calçada. Era uma criança magra e de aspecto cabisbaixo e entoava uma cantilena macabra que era composta por uma única estrofe.

"Ó mundo perdido, até quando continuará assim?

O fim está próximo e meu mestre os exterminará...

Dor, desespero e perseguição.. Logo, logo encontrarão...

Logo, logo, em meio à abertura do portão..."

David olhava para aquela criança, que mantinha seu olhar vazio, aproximado-se dela. Ao se aproximar, buscou encontrar o lugar que a criança fitava o olhar.

Não pôde.

A Criança era completamente cega.

- Não se aproxime David. — disse Anônimo.

- Por que?

- Ela está com problemas agora. Saia daqui.

- Mas...

- Deixe-a. — interrompeu Anônimo — Eu a ajudarei.

Anônimo disse com tanta convicção e seriedade, que David resolveu sair do lugar e dobrou a primeira esquina que encontrou. Não demorou mais do que cinco segundos após virar a esquina e David ouviu barulhos. Fortes barulhos. Como se estivessem demolindo um prédio. Pensou em voltar. Hesitou alguns instantes, mas, após ver uma casa pegar fogo por uma chama azul, resolveu voltar.

David não aguentou em pé e caiu de joelhos diante do que estava presenciando.

Anônimo lutava com uma espada na mão direita e um livro de capa preta na mão esquerda. Apesar de usar um sobretudo negro e sua máscara de ferro, movia-se bem. Mas a criança era outra situação.

A criança flutuava a um metro do chão. Seu corpo estava coberto por uma chama azul incandescente que se espalhava por todo o lugar. A criança permanecia de cabeça baixa e uma das chamas seguiu em direção ao Anônimo.

Anônimo por sua vez, levanta a espada bloqueando a chama e corre em direção à criança. Logo em seguida, deixa a espada no chão, abre o livro dando um salto em direção à criança, põe a mão sobre a cabeça dela enquanto lê o livro e, logo em seguida, as chamas começam a cessar. A criança começa a se remexer e abre a boca vomitando.

David assistiu tudo aquilo pasmo. Não conseguia pronunciar uma só palavra.

- Eu disse para ir embora. — murmurou Anônimo.

- Achei que... Precisaria de ajuda...

- Enganou-se.

- Essa criança... O que ela é?

- Apenas uma criança.

- Isso é impossível. Você viu o que ela fez.! Ela é um monstro! Devo matá-la imediatamente!

- Não ouse chegar perto dela. Ela não é um monstro.

- Como pode dizer isto? Você viu o que ela fez!

- Minha luta não é contra carne nem contra sangue.

- Ora! E contra o que é então?!

Anônimo aproximou-se de David, olhou bem nos olhos dele através da máscara e David nunca chegou a ver aqueles olhos cinzentos reluzirem tanto quando Anônimo responde:

- Contra demônios.