Guardians I - The Divine Stones
25 XXV - Psiquê Conexion
Notas iniciais
A noite seguiu de forma que todos estavam apreensivos com o que poderia acontecer. Com o desaparecimento de Luna, as coisas estavam ainda mais tensas.
— Alguma coisa? — Perguntei a Logan assim que o vi no telhado da pousada, sentado e fitando a cidade a nossa frente.
Todos já haviam ido dormir, pois queriam pelo menos estar dispostos amanhã para acordar e seguir com viagem. A notícia boa era que Sebak havia providenciado uma van para que pudéssemos ir mais rápidos.
— Não. — Foi tudo o que meu amigo disse, continuando a observar a paisagem iluminada pela luz da lua.
— Não se preocupe, ela sabe se cuidar sozinha. — Tentei demonstrar solidariedade, mas o fato era que eu também estava preocupado com Luna e não tinha certeza se ela estaria segura naquele exato momento. — Estamos falando de Luna.
Em situações normais ele estaria xingando sua irmã, mas Logan não era mais o mesmo que era há duas semanas atrás.
— Eu devo ser o pior irmão e filho do mundo. — Havia um tom de culpa nas palavras de meu amigo e eu não podia contrariar, pois também me sentia culpado por tudo o que estava acontecendo. Mas o fato era que Logan não demonstrava qualquer sentimento negativo para ninguém, nem mesmo a mim, que sou praticamente um irmão para ele. — Prometi a mim mesmo que iria proteger Luna do que fosse preciso e agora ela está desaparecida, correndo como um lobo pela cidade.
— Você não iria conseguir proteger e salvar Luna de tudo, nem seus pais. — Notei que ele segurava firme as duas Pedras Divinas, temendo que elas desaparecessem também. — Nenhum de nós estava preparados para o que estamos vivendo agora, não se martirize por essas coisas.
— Ás vezes eu penso que é mais fácil desistir de tudo e voltar para casa.
Já fazia um bom tempo que eu não ouvia aquela palavra e acho que não a direi tão cedo.
— Que casa? — Perguntei de forma retórica. — Não temos mais para onde fugir ou se proteger. Nossa casa agora é onde estivermos.
Nunca passou por minha cabeça que algum diria estaria tentando consolar Logan, mas após ter visto e vivido tantas coisas em uma semana, esse pensamento chega a ser ridículo.
— Acho que você tem razão...
Ficamos em silêncio, apenas ouvindo o som do vento balançar as árvores da pousada. Porém Logan continuava inquieto e aflito, até que voltou a falar.
— O que foi aquilo? — Disse ele, deixando-me confuso. — Como conseguimos conversar mentalmente?
— Não faço a menor ideia. — Assenti, lembrando-me de sentir o medo de Logan ao estar cercado por dezenas de Orcs.
— Conexão Psiquê.
Logan e eu nos assustamos ao ouvir a voz de Cleo atrás de nós.
— O que? — Perguntei após me recuperar do susto.
Ela exibiu um sorriso ao ver nossas expressões, cruzando os braços e observando a cidade.
— Isso se chama Conexão Psiquê. — Disse ela. — Poder se comunicar e sentir o que o outro está sentindo só utilizando a mente. É muito comum acontecer isso entre pessoas com um relacionamento forte de amizade.
— Foi assim que encontrou Patrick?
Cleo semicerrou as sobrancelhas, encarando Logan com seriedade.
— Como sabe que temos uma conexão?
— Você disse que rastreou Zargron, mas não tinha tanta certeza do que estava dizendo. — Observou Logan, algo que eu não tinha notado. — Mas quando disse que Patrick estava o seguindo, você parecia estar mais convicta disso.
Ela sorriu ao ouvir aquilo.
— Você já pensou em se tornar detetive? — Brincou ela, fazendo Logan sorrir, o que era bom. — Mas de qualquer jeito, as Conexões Psiquê perdem a força quando os dois estão a uma grande distância, felizmente eu ainda estou sentindo Patrick, mas acho que amanhã de manhã não terei tanta sorte.
— Então quer dizer que Logan e eu podemos conversar mentalmente?
Cleo balançou a cabeça, discordando e ao mesmo tempo concordando com o que eu havia dito.
— Mais ou menos. — Explicou ela. — As conexões ganham mais força com o tempo e a interação entre os dois. Se vocês tiverem uma amizade bem próxima poderão conversar mentalmente, mas isso requer um grande nível de prática. Patrick e eu só temos essa conexão há dois anos e mesmo assim não conseguimos conversar mentalmente, apenas sentir o que o outro está sentindo. Já Kendall e Patrick conseguem conversar mentalmente com facilidade.
— Espera aí, quantas conexões ele tem? — Perguntei, ficando cada vez mais confuso.
Ela riu mais uma vez.
— Duas. — Disse ela. — Na realidade não existe um limite pra conexões, mas quanto mais você tem, mais difícil controla-las.
— Isso é complexo demais... — Comentou Logan, bocejando logo em seguida, o que me fez lembrar que ele era o único que sabia dirigir entre nós, portanto seria meu amigo que nos levaria até Patrick.
— Acho melhor você descansar um pouco pra não dormir no meio da viagem amanhã. — Recomendei, fazendo-o assentir e se levantando.
Logan não retrucou e foi logo para seus quarto, embora soubesse que ele não iria dormir com tanta facilidade, não quando Luna estava perdida por aí correndo perigo.
— Você também deveria ir Kevin. — Disse Cleo, ao sentar ao meu lado assim que Logan desapareceu. — Diferente de mim, você precisa dormir para descansar.
Exibi um sorriso assim como ela sempre fazia.
— Acha mesmo que vou conseguir dormir? — Perguntei. — Depois de tudo o que vi, a única coisa que quero é ficar acordado e afastar os pesadelos possíveis.
Cleo ficou estranhamente quieta, algo que nunca antes havia visto na garota, a não ser após o que aconteceu na biblioteca entre nós.
— Independente de você estar acordado ou não, os pesadelos sempre irão lhe atormentar Kevin. — O tom dela era sombrio e pesado, demonstrando uma grande carga de tristeza e solidão.
Observei Cleo pelo canto do olho e a vi fitando a cidade, assim como Logan e eu antes dele ir. A cidade estava tranquila, apenas iluminada por alguns prédios ou postes, mas nada que causasse poluição visual o suficiente para ocultar as estrelas, que por sinal estavam magníficas naquela noite.
— Isso tudo é seu? — Perguntei, tentando mudar de assunto. Odiava ver ela, ou qualquer pessoa com uma expressão profunda de seriedade e tristeza.
Ela me encarou, não entendendo a pergunta, até que olhei para a casa ao nosso redor.
— Ah, sim! — Exclamou ela ao entender o que estava querendo dizer. — Era do meu pai...
— Não sabia que tinha tanto dinheiro assim.
Cleo riu de meu comentário, fazendo-me sentir melhor.
— Minha família é muito antiga. — Tornou a falar a garota. — Chegamos a governar o Egito por centenas de anos, até que a maldição Selk surgiu.
— Lupa me contou.
— O que temos hoje é o que sobrou dos tempos antigos, mas mesmo assim evitamos usar o dinheiro, apenas para situações de emergência.
— Evitamos? — Estranhei o jeito como ela se referiu aquilo no plural. — Lupa me disse que só restava você de descendente.
Ela mordeu os lábios de forma apreensiva.
— Foi o que pensei até alguns meses atrás. — O som de morcegos voando acabou me assustando, mas ignorei. — Meu pai tinha um irmão que estava desaparecido há anos, pensávamos que estava morto. Mas no ano passado eu notei que o nosso dinheiro havia desaparecido da conta, uma grande quantidade por sinal. Por um instante pensei que havia sido roubada, mas me lembrei que aquela conta era invisível a todos, a não ser pelos descendentes Selk.
— Então você acha que foi seu tio?
— Tem que ser ele.
Percebi que o jeito como Cleo se referia ao tio demonstrava antipatia.
— Você não gosta dele, não é? — Adivinhei.
Cleo riu mais uma vez.
— Está tão na cara assim? — Perguntou, fazendo-me rir e assentir. — Na verdade eu até gosto dele, mas ele nunca demonstrou interesse na família, nunca nos ligou ou mandou recado, sem contar as histórias sombrias que meu pai me contava sobre ele. Então não, não vou muito com a cara dele e não me importo se ele vai com a minha ou sequer saber da minha existência.
Imediatamente lembrei de meu pai. Até hoje de manhã eu não sabia que ele estava vivo ou sequer se importava comigo, mas quando soube que ele havia deixado um presenta para mim meu mundo virou de ponta cabeça. Inúmeras perguntas surgiram em minha mente, mas eu não conseguia encontrar nenhuma resposta para elas, o que me deixava angustiado.
— Sabe de uma coisa...
— Sim, eu sei. — Disse ela no mesmo instante. — Você vai falar que eu deveria procurar por ele, conversar com ele e tudo mais, porque ele é da minha família. Estou certa?
O jeito como Cleo disse aquilo me deixou sem saber o que fazer, pois ela parecia bem nervosa.
— Você sabe ler mente? — Tentei acalma-la, mas acho que não funcionou.
— Não, eu apenas imaginei que você diria isso, aliás, você e Patrick são muito parecidos. — Olhei para ela assim que ouvi aquilo, ficando um pouco irritado e ofendido pela comparação. — Não me olhe assim, quando você realmente se conhecer, perceberá que eu estou falando a verdade.
Pensei em qualquer coisa para responder, mas as palavras simplesmente não saiam de minha boca. Ela parecia tão convicta do que estava dizendo que eu não sabia o que falar.
— Agora eu realmente te recomendo dormir Kevin, amanhã o dia será muito longo e a estrada que pegaremos será perigosa. — Falou ela sem olhar para mim.
Decidi não resmungar, embora soubesse que não iria conseguir dormir. Só conseguia pensar como Cleo estava diferente comigo desde o beijo que havia me dado...
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