Guardians

1 O dia em que tudo mudou


Notas iniciais
Boa leitura

Era uma simples manhã de outono. Lá fora o vento soprava entre os ramos das árvores levando consigo algumas folhas multicoloridas que pousavam pacientemente em um movimento de vai e vem perto das suas semelhantes. Era a sua estação preferida, porém Tumbinho não parecia partilhar os mesmos gostos.

Andando pelos cantos da casa, o gato siamês evitava a todo o custo a brisa gelada que estava lá fora. Por fim chegou à conclusão que o lugar mais quentinho da casa era ao lado do colo do dono. Daniel não se manifestou ao ver a criatura branca acomodar-se confortavelmente ao seu lado. O seu companheiro, nos últimos dias andava inusitadamente apreensivo, e por isso decidiu que apenas o deixaria quieto no seu estranho mundo.

Por vezes perguntava-se o que o seu animal de estimação tanto observava. Sempre com um olhar misterioso, o pequeno analisava o vazio ao seu redor como se houvesse algo que apenas ele pudesse observar. No fim não era muito diferente do que acontecia ao seu dono, que quando cansado parava por breves segundo fitando o horizonte.

O ruido de uma porta a bater fez que com que saísse dos seus pensamentos para se focar na pessoa à sua frente. A conhecida figura de sua mãe entrava descontraidamente no quarto com uma nota em mãos e um sorriso no rosto. Não foi preciso muito para deduzir qual a sua intenção, afinal seus gestos eram como um código nada secreto para que ele fosse buscar o pão encomendado.

O moreno mostrou uma cara aborrecida que logo desapareceu ao se lembrar que lá ao lado havia uma cafetaria onde poderia tomar o seu adorado café matinal. O milagroso elixir da felicidade que o transformaria de uma pessoa irritadiça para outra mais calma e serena. Levantou-se vagarosamente e aceitou o dinheiro, o qual guardou em um dos seus bolsos.

Estava pronto para sair quando Tumbinho lhe lançou um miar lamurioso. Não parecia feliz com a sua saída então para o apaziguar decidiu fazer um pequeno carinho debaixo do seu queixo o qual foi retribuído com um ronronar e uma pata em seu pulso. Este último gesto fez com que ele recuasse com a mão e soltasse uma exclamação de dor.

Aquele simples toque parecia ter sido uma descarga de energia, o que o fez se perguntar o que tinha sido aquilo, porém ao olhar para o pequeno animal que o analisava com um olhar inocente decidiu que devia ser a sua cabeça a pregar-lhe partidas pela falta de café.

A padaria ficava a dois quarteirões de distância por isso decidiu levar os seus fones de ouvido. Fazer isso fazia com que desligasse do mundo ao seu redor por um tempo o relaxando, por isso sempre os trazia consigo. As poucas pessoas que andavam pela rua apresentavam expressões aborrecidas enquanto se dirigiam apressadamente para os seus trabalhos. Pelos vistos não era o único a precisar de um belo café.

Alguns metros à sua frente uma mulher olhava atentamente para a montra de uma loja, examinando os seus produtos com admiração, uma pessoa comum que não lhe teria despertado a atenção caso não tivesse uma pequena criatura flutuando alguns centímetros acima da sua cabeça. Olhou ao seu redor, nenhuma das pessoas que por ali passavam pareciam notar, na verdade nem mesmo a pessoa em questão aparentava ter conhecimento de uma criatura não identificada em cima da sua cabeça. Teriam os seus olhos lhe pregando partidas? Estaria ele ficando maluco? Para se assegurar que não estava a ter alucinações retirou os seus óculos e apertou os olhos com força.

Ela ainda ali estava!

Apesar de não ter grande tempo para refletir sobre o que estava acontecendo, ao passar pela garota conseguiu ter uma melhor visão da entidade flutuante que ainda pairava sobre a sua cabeça.

Assemelhava-se a uma pequena água viva cujo centro do seu corpo possuía uma pequena e ténue luz azul. A primeira vista não parecia ofensivo, mas não podia parar para tirar mais conclusões, afinal não podia simplesmente estacar no meio da rua e ficar a olhar para uma completa desconhecida. O quão estranho e assustador isso iria parecer.

Mesmo assim teve que lançar um último olhar, a curiosidade não teria permitido outra coisa. A moça ainda lá estava e o pequeno também. Era a prova final que não era uma alucinação, mas pelo menos deveria haver uma explicação logica para o que estava acontecendo, de fato há algum tempo atrás ele lera em algum lado que algumas pessoas que tinham problemas nos olhos por vezes viam pontos negros flutuando no ar. Mesmo não sendo muito credível era a única resposta que a sua mente tinha encontrado para o que estava acontecendo.

Finalmente chegando à padaria, receber a sua encomenda não tinha sido difícil ou demorado. Agradeceu mentalmente por isso. Era demasiada bizarrice para uma manhã só. A cafetaria era predominantemente dominada pela cor bege, com algumas decorações sobre grãos de café e alguns bolos que também estavam em exposição. Haviam algumas pessoas então teve que esperar uns minutos antes que pudesse fazer o seu pedido e se sentasse em uma das mesas com visão para o exterior.

O líquido preto percorreu a sua garganta deixando uma sensação quente e relaxante, que o fez descontrair um pouco. Pelo menos durante alguns minutos já que outra daquela criaturas voltara a aparecer. Igual ao último que virar também flutuava perto da cabeça de uma garota, com a diferença que esta vez não se limitava apenas a pairar subtilmente se movendo de um lado para o outro. Esta fazia lembrar um pequeno cachorro saltando por todo o lado feliz por ter companhia, esfregando-se de vez em quando nas bochechas rosadas da menina.

Ela estava sentada em uma das mesas ao seu redor lendo um livro. Daniel decidiu tirar vantagem disso, para poder estudar o fenómeno que estava acontecendo já que poderia deixar de ver aqueles pequenos seres ao fim de algum tempo. Observando melhor as imitações de águas vivas possuíam aquilo que ele decidiu chamar de núcleo luminoso. Essa fraca luz que emanavam das suas cabeças deveria mudar conforme as pessoas que eles seguiam pois este apresentava uma tonalidade rosa muito clara, que simulava um estado de felicidade. Algo que ele assumiu ser o estado de ânimo da garota, ou pelo menos essa seria uma das hipóteses.

Bebeu mais um gole de café enquanto observava a pequena brincar pousando na cabeça dela, para mais tarde se aborrecer e decidir entreter-se com os cabelos castanhos da mesma. Infelizmente devido aos seus movimentos acabou presa e incapaz de se libertar para voltar à saltitante liberdade de antes. Os seus esforços evidentes para escapar como empurrar os fios de cabelo, apenas serviam para piorar a situação. Infelizmente não havia nenhuma forma de ajudar. O pequeno teria que se safar daquela situação sozinho.

A garota encontrava-se apoiada em uma das mãos, enquanto a outra passava as páginas do livro com um ritmo regular e sereno. Não parecia notar que algo flutuante estivesse a brincar ao seu lado muito menos que tivesse acabado preso em seu cabelo, porém acabou liberando-o quando ao passar os dedos para ajeitar o cabelo agora ligeiramente bagunçado.

De seguida tirou um pequeno bloco de notas e um lápis da sua mala onde começou a anotar coisas fazendo algumas pausas enquanto balançava o seu material de escrita, gesto ao qual a pequena criatura decretou guerra. Estava decidida a para-lo e por isso fez com que aos seus pequenos e arredondados tentáculos se tentassem pegar ao pedaço de madeira, que acabava empurrando-a para longe com um dos seus movimentos. Uma batalha vã, mas que ela estava decidida a vencer.

O moreno estava a achar aquele espetáculo fascinante, quando notou algo estranho. A expressão da moça estava cada vez mais saturada. Algo que ele pensou ser devido ao que estava a fazer, no entanto não conseguiu conter a sua surpresa ao vê-la soprar a criatura para longe. Claro que tudo não poderia passar de uma coincidência, porém algo dentro de si dizia-lhe o contrário.

As aparências iludem!

Essa simples expressão sussurrou em sua cabeça como um alerta. Intuitivamente ele pousou seus olhos azuis na face da menina encontrando os castanhos dela. Um arrepio percorreu cada parte do seu corpo. Os seus olhos transmitiam-lhe estranhas emoções. Algo que ele não sabia dizer se era algo bom ou não.

Hipnotizantes era a melhor palavra que conseguiu arranjar para os descrever. Começando num tom claro de cinzento, frio como o metal para depois começar a ganhar uma tonalidade castanha escura, aquele par de olhos dava a sensação que conseguia ver o mais profundo da alma de uma pessoa. Era algo tão cativante como assustador. A sua pele branca contrastava com seus cabelos cor de chocolate levemente ondulados. Estes, mesmo cobertos por um gorro possuíam uma maneira rebelde de ser como a pequena mecha semi encaracolada que tinha em um dos lados da cabeça fazendo lembrar uma pequena antena.

Só conseguiu sair do transe ao vê-la aproximar-se de si, para depois se sentar no banco à sua frente. Ele não se poderia sentir mais idiota, tinha estranhamente ficado fascinado por uma estranha e agora sentia-se atrapalhado por ela estar à sua frente. Juntando toda a coragem que conseguiu levantou o olhar para a garota que o olhava fixamente. No momento sentiu que deveria dizer alguma coisa mas foi interrompido por uma voz doce e aveludada.

— Você tem algum assunto comigo? — O moreno não deu resposta. Não sabia ao certo o que dizer. Se na verdade fosse tudo uma misteriosa coincidência, o que ele lhe poderia dizer? Tudo aquilo que ele tomou como certo sobre as criaturas não poderia passar de uma simples alucinação onde ele deveria procurar um médico o mais rapidamente possível. — Vi que você esteve-me olhando por um bom tempo então pensei que me quisesse dizer alguma coisa!

Que desculpa ele poderia inventar para tornar tudo aquilo o menos maluco possível. Nada lhe vinha a cabeça, e nesse espaço de tempo o seu olhar foi atraído para a pequena agua viva que passou confortavelmente entre os dois completamente alheia do mini ataque pelo qual ele estava a passar. Quando voltou a focar a sua atenção na morena, tomou um pequeno susto pela maneira fixa e desconfiada como ela o olhava. Decidindo que não tinha nada a perder limitou-se a apontar para a pequena que acabara por pousar em seu ombro. O seu olhar desconfiado tornara-se num de surpresa.

— Portanto você está me dizendo que tem algo em seu ombro? — O seu coração parecia querer sair do seu peito. Então ela realmente não conseguia ver absolutamente nada. Sentia-se derrotado, mas ainda assim assentiu de forma positiva. — Então você está me dizendo que também é um guardião? — Ela o disse num tom de dúvida, mas bastou para que uma luz se acendesse no rosto do garoto.

— Guardião? Então você também consegue ver estes pequenos animais?

— Claro que consigo! Afinal eu sou uma guardiã, assim como você. Alias, você é o primeiro guardião que eu conheço além de mim, nesta zona. Por falar nisso quem é o seu mentor? Se fosse possível gostaria que me levasse a ele.

Tinha voltado a ficar mudo. Demasiadas perguntas as quais ele não sabia responder. Por momentos pensou que ela também estivesse maluca. Ela o estava metralhando com milhares de perguntas e ele sentiu uma pequena pontada na testa o que era um presságio para uma grande dor de cabeça que se avizinhava. Ela apercebendo-se do desconforto o rapaz à sua frente parou com todas as questões.

— Desculpe! Eu me apressei um pouco! O meu nome é Luna! — Ela lhe estendeu a mão à qual ele aceitou feliz por as coisas tomarem um rumo mais calmo.

— Daniel, prazer! — Ela sorriu. Tinha traços delicados. Característica que contrastava com a aura feroz que mostrara há pouco. — Para dizer a verdade, eu apenas comecei a ver estas coisas esta manhã! Não faço a menor ideia do que você possa estar se referido quando diz guardiões ou mentores. Para lhe dizer verdade, uma grande parte de mim diz que estamos loucos.

— Loucos não é? — Luna ainda tinha o sorriso estampado no rosto, apenas que agora de uma forma divertida. — Não posso dizer que esteja errado, afinal é preciso um pouco de insensatez para aceitar o contrato. Mas vamos começar pelo início. Pode-me mostrar o seu braço?

Acenando que sim, o moreno estendeu o braço na sua direção, o qual puxou a manga do casaco castanho para cima revelando uma espécie de tatuagem que fazia lembrar a pata de um gato. Não era possível que uma coisa dessas tivesse aparecido magicamente em seu braço.

— Esta é a marca do contrato. A prova legitima que você é um guardião escolhido por um mestre do portal. Olhe!

Com um movimento calmo, ela tombou a cabeça puxando todo o cabelo a um lado revelando a mesma tatuagem em seu pescoço.

— Ou seja a prova legítima que eu não estou maluco você quer dizer! Mas é estranho! — O que poderia ter provocado o seu aparecimento? — ­Eu não tinha nada disto antes de sair de casa.

Luna possuía uma cara intrigada.

— Você por acaso não tem um gato em casa, ou tem? — Daniel concordou não compreendendo o porquê da pergunta. O que isso tinha a ver com o que estava acontecendo? — E ele não terá feito nada com você, que tenha sentido estranho?

A descarga de energia que tinha sentido quando Tumbinho tinha tocado seu pulso.

— Como você…?

— É a conexão. Olhe Daniel para ser sincera não deveria ter que ser eu a explicar tudo isto a você. Não me cabe a mim a essa função, mas não se preocupe pois se a minha teoria for certa nos voltaremos a ver em breve.

Notas finais
Espero que tenham gostado ;)