Notas iniciais
Mais um capítulo com o POV do Patrick. Aviso: contém (alguns) palavrões, mas não acho que precise alterar a classificação. Qualquer coisa me alertem. Fora isso, espero que gostem, até o próximo!

Ainda estava amanhecendo quando cheguei ao cemitério, eu faço isso uma vez por ano, sete dias depois que ele foi embora. Sete dias foi o tempo que levou para ele ser declarado morto. O corpo não foi encontrado, tudo o que a família pôde fazer foi colocar uma placa no cemitério em memória dele. Eu me ajoelho diante da pedra, Jorge Dias Castro/ 1995 -2011 , está escrito em letras de bronze. A placa é pequena demais, não há espaço para colocar meu nome do lado, calculo. Pergunto onde ele está, uma lágrima escorre dos meus olhos. Sussuro baixinho “quero estar ai contigo” um vento toca meu rosto, frio como aço, não era ele, Jorge tinha mãos quentes e firmes. Ponho um ramo de flores azuis ao lado da placa, lembro dele as plantando no jardim de casa. Miosótis, ele dizia, significa “não te esqueças de mim”. Um cavaleiro estava caminhando no campo com sua amada, para impressioná-la ele decidiu oferecer um ramo das flores azuis que cresciam na margem de um rio, com o peso de sua armadura, o cavaleiro se desequilibrou e afundou na água, não te esqueças de mim, foram suas últimas palavras, e assim a dama batizou a flor, que usava nos cabelos em memória do amado. Ele me contou essa história tantas vezes que já sabia até a entonação das palavras. Eu ria dele, dizia que o cavaleiro poderia ter ido a floricultura e continuado vivo. Hoje ainda colho as flores daquele jardim. São a parte viva que restou de Jorge.

Depois que ele foi eu não consegui mais dormir, acho que meus olhos não fechavam por causa do inchaço, por causa das lágrimas, por causa do ódio... De mim mesmo. Queria estar naquele avião. Era como se eu tivesse ficado sem dormir por uns 100 anos, nunca achei que fosse recuperar o sono perdido. Não recuperei... As vezes me acordo no meio da noite pensando nele. Eu dormia bem antes... Como uma pedra, ele dizia. Quando eu fugi de casa dormimos juntos, no estúdio dele, tínhamos tomado um porre de vinho ruim enquanto assistíamos “último tango em Paris” Jorge perguntou se eu tinha comprado manteiga, eu dei um tapa na cara dele. Ele me pegou nos braços, a boca dele era quente, os lábios também. Me entreguei a ele, não tinha medo, confiava nele, foi a melhor noite que já tive. Adormecemos juntos, abraçados. Dormia como uma pedra, ele dizia. Queria se levantar, mas não queria me acordar. Jorge pensava em mim.

Não sabia para onde as almas iam, se existe um Deus, por que não nos destrói? Será um pai sádico que sente prazer na miserável condição de seus filhos ? Por que não destrói a todos de uma vez? Almas penadas talvez, é isso que os mortos viram, o castigo eterno de vagar pela nossa débil existência: Jorge podia estar atrás de mim, gritando meu nome sem eu poder ouvir. Talvez não existisse nada. A vida é tão sem graça, por que a morte também não seria.? Apenas um cadáver decomposto, vagando em meio a água e o sal, até ser comido pelos peixes, peixes que seriam comidos pelos homens, que seriam comidos pela terra, que seria comida pelo sol. A vida é uma cadeia alimentar. Queria apodrecer morto e ser comido pela terra, em vez de apodrecer vivo e ser comido pela dor.

Voltei para casa, não conseguiria ficar ali por mais tempo, não sem desejar estar ali pela eternidade.

Tinha estado no parque. Aquele garoto... Leo, me levara lá, para fazer um trabalho sobre insetos, pessoas caminhavam, corriam, para prolongar por alguns anos a dureza de seus corpos fadados a flacidez inevitavelmente, crianças brincavam em meio a areia, felizes pelo dom de saber pouco sobre o mundo que vieram... Era quase como quando vinha aqui com Jorge, só que naquela época o céu era mais azul. Aquele lugar tinha tantas lembranças. A maioria da pessoas quando quer se sentir melhor olha para o futuro, vê o tempo como uma grande estrada em que o sofrimento é apenas um trecho esburacado, e que logo depois vem um quilometro asfaltado, eu olho para o passado, vejo como antes era tudo mais verde, mais limpo, mais bonito. Pra frente não existe estrada, apenas um grande deserto.

Ele falava na Lady of Shallott, não acreditei que ele poderia sequer conhecer o poema, o que era aquele garoto? Por que falava comigo? Deboche? Pena? Havia de ser um dos dois... Jorge tinha uma répica do quadro da Lady of Shallot, do Everett Millais no quarto... Eu achava tremendamente mal feito, não era um pôster com a foto do quadro, e sim uma réplica feita por um pintor qualquer. Jorge sussurrava no meu ouvido “God in his mercy lends you grace” E me pegava no colo, eu corava. Por que aquele cara tinha tanto em comum com Jorge? O mesmo poema, a mesma música, o mesmo sorriso... A mesma maneira de rir de uma forma original quando não tem nada pra falar... Um dos meus principais inimigos era o destino, e sentia que ele me pregava uma peça.

Cheguei em casa um pouco mais tarde que o previsto, encontrei meu pai na sala, e conjurei mentalmente todas as maldições que conhecia. Dava pra sentir o cheiro de álcool de longe, enquanto duas ou três garrafas de cerveja repousavam no chão. Alguma coisa sobre futebol passava na TV, cobrindo os ruídos da casa velha com as vozes rápidas e artificiais daqueles narradores. Minha mãe tinha se trancado na cozinha, provavelmente. Sobrara para mim.

–Foi visitar a cova daquele viadinho. Não foi? Te vi perto do cemitério... – Meu pai dirigia um caminhão de entregas, era bom e ruim: bom porque ele poderia bater num ônibus, explodir e morrer; ruim porque ele podia me ver em qualquer canto da cidade, e porque as pessoas no ônibus também iam explodir e morrer.

Eu não respondi.

–Foi ou não foi? – Ele levantou a voz. O bigode estava manchado de espuma branca de cerveja, me vinguei mentalmente imaginando porra no lugar.

Não respondi de novo.

–FOI OU NÃO? – Queria matá-lo.

–Sim.

–Mas não tem jeito mesmo... A bichinha ainda tá de luto é?

Não respondi, virei as costas e fui para o quarto, sabia que a melhor das sensações naquele caso, era não dar atenção. Eu já enfrentei ele, já gritei e já chorei na frente dele. Era pior, ele só me chamava de sodomita cada vez mais alto. Sodomita. Ia ser legal se aquele imbecil lá de cima mandasse uma chuva de meteoros pra me aniquilar, eu agradeceria.

–Escuta aqui, não vira as costas pro teu pai! – Ele gritou, imperativo, enquanto me pegou pelo braço, ele machucava. – Que idade tu tem? 17? 18? Já tá mais do que na hora de tu virar homem. – Eu queria olhar nos olhos dele e mandar ele se foder, mas sinto que o bafo de álcool ia paralisar meus neurônios antes de qualquer coisa. Ele me esbofeteou, já estava acostumado. Acho que se repetia uma vez por mês. Teoria do eterno retorno: o ciclo das águas, as fases da lua, as bofetadas do meu pai. Acontece repetidamente. Na primeira vez era mais forte, acho que talvez agora ele estivesse mais velho, ou mais bêbado. Antes ele dizia que Jorge tinha me passado AIDS, que eu ia apodrecer e depois morrer. Eu chorava pra valer, hoje não me importo com nada do que ele diz. Não é a melhor das mortes, mas é morte igual: queimado, enforcado, apodrecendo. Morte é morte. Ele me arrastou pro maldito caminhão, Odeio ser fraco, odeio ser magro, odeio ver meus ossos ao olhar pro espelho, não que eu ligue pra porra de músculos, mas ajudam quando um idiota bêbado tá te arrastando pra onde quer que seja.

Ele não podia dirigir naquele estado, o caminhão ia mais em zigue zague do que avançava pra frente, as ruas estavam vazias, mesmo assim, comecei a sentir ainda mais raiva do meu pai. Eu não ligava em explodir contra um ônibus, mas não queria que minha morte saísse nos jornais.

Ele me arrastou pra fora, era uma casa longe do centro, parecia um bangalô comum, apesar da quantidade de carros ali estacionados e da música com letras fúteis que se ouvia ao longe. Entrei com ele me pegando pelo braço, queria correr dali, mas ia ser pior depois. O bar fedia a álcool, cigarro e gente tarada, mulheres seminuas dançavam com garrafas de cerveja na mão, enquanto velhos que já deveriam ter sido castrados babavam em volta delas. Meu pai me atirou num corredor escuro, dava pra ouvir os gemidos daquela gente fodendo nos quartos.... Ele abriu a última porta, uma mulher lá pelos quarenta anos fumava deitada na cama. Usava um vestido de fenda, que expunha a coxa com extratos de celulite. O quarto cheirava a cigarro e a incenso barato.

–Sheila, esse aqui é meu garoto, te falei dele. É a primeira vez... O menino tá assustado, você sabe como é. – Ele disse com voz de bêbado, eu queria vomitar. A Mulher levantou-se da cama e veio na minha direção, o perfume dela me embrulhava o estômago, de perto dava pra notar as camadas de maquiagem que ela usava pra disfarçar as rugas no rosto. Ela enroscou um braço no meu ombro, queria cuspir na cara dela e empurrar pra longe.

–Deixa comigo, volte em uma hora. – Ela disse, eu não quero lembrar do que o hálito dela tinha cheiro. Meu pai fechou a porta, ela começou a me tocar, beijar meu pescoço, desabotoar minha calça, me acariciar.

–Para, para... Para porra! – Eu exclamei, enquanto ela tentava abaixar minha cueca, eu ia vomitar em cima dela se ela continuasse.

–Ihh... Qual é menino, relaxa. – Disse ela se levantando e tentando beijar meu rosto. Eu empurrei ela.

–Só fica quieta, por favor.- Eu disse, esperava que meu pai não estivesse ouvindo atrás da porta. Se estivesse, foda-se, pro inferno com ele. Já tinha visto decadência humana demais por hoje.

–Vem cá, fica calmo cara. Eu acho que entendi... Tu é bicha né? –Ela disse, achando graça. Fiquei sério.

–Tudo bem, to ligada como é.. Tenho um amigo bicha, a Lorraine... Olha, se tu quiser eu chamo ela aqui pra ficar contigo, mas teu pai vai ter que pagar o dobro. –Ela disse, com uma risada. Ignorei olhando pra parede.

–Qual é cara, já que não vamo fazer nada pelo menos vamo conversar... Teu pai pagou caro pela “psicóloga” aqui. – Ela disse, acendendo outro cigarro. – Isso aí é tranquilo. Tu faz dezoito e se manda, eu fugi de casa quando meu pai descobriu que engravidei do cara que ele alugava um quarto na pensão. E to aqui, to linda. – Ela riu, soprando a fumaça do cigarro.

Não me imaginei com a idade dela, já queria estar morto faz tempo quando isso acontecesse. Não queria passar o resto da vida num prostíbulo fedido. Ela perguntou se queria beber algo, fiz que não com a cabeça. Ela me olhava tentando me conhecer melhor. A maldita hora se arrastava, mas finalmente estava acabando.

–Tranquilo cara... Eu digo pro teu pai que tu mandou bem. – Ela disse, se levantando da cama e dando duas batidinhas no meu braço.

Quando meu pai entrou no quarto, estava mais bêbado do que antes. Ele pagou a mulher, e perguntou como foi. Ela me elogiou, cumprindo o que disse. Meu pai me arrastou pra fora da mesma maneira que entrou, só que com um ar de satisfação nos olhos alcóolicos.

–Tá vendo filho, é assim que se vira homem. – Queria que ele fosse pro inferno, tinha sido o pior dia da minha vida. Esse mundo tá cheio de idiotas, mas meu pai se supera, ele é o maioral, ele deve ter competido pra ser o homem mais imbecil, e venceu. Pro inferno com a masculinidade idiota dele. Eu não conhecia a minha avó, o que deu menos peso na minha consciência em chama-lo de filho da puta mentalmente. Caramba, por que não morro de uma vez. A vida é uma droga. Não se pode nem comparar com nada, porque só se vive uma vez. Ninguém sabe como agir, ninguém nunca passou por isso antes, e é por isso que as pessoas são tão idiotas. São todos atores ensaiando pra uma peça que nunca vai acontecer. Imaginei como seria se a peça acontecesse. Em que ato meu pai diria “Eu sou macho, eu fodi uma puta velha que fede a porra, incenso e perfume barato, meu filho também!”? Imaginei quem seria a maldita plateia que aplaudiria uma coisa dessas. O diretor deveria tirar o espetáculo de cena e passar um teatro de bonecos.

Tá tudo tão errado, eu até queria chorar, mas sei lá. Depois de um tempo as lágrimas secam. Me limitei a me sentar num canto do quarto e amaldiçoar tudo o que existe. Queria desaparecer. É estranho estar no fundo de um poço e não ver nenhuma luz lá em cima. Peguei uma tesoura, hesitante, não conseguia. O cheiro de sangue era o suficiente para me enjoar. Como eu era idiota. Queria ser mais forte, menos fraco. Lígia entra no quarto, escondo a tesoura.

–Tá tudo bem filho? Você chegou tarde ontem...

–Sai. –Não queria discutir. As pessoas tem uma devoção as mães, eu não dava a mínima. Não a odiava, sentia pena. Nada no mundo pode preparar alguém para ter um filho como eu. Mas quem mandou ela ter filhos? Quem mandou ela me escalar pra essa droga de ensaio para essa droga de peça? Ela saiu. Me joguei na cama. Estava tão cansado que poderia dormir por mil anos. Essa era minha vontade. Quando acordasse íamos ter robôs no lugar de humanos, é bem mais fácil tirar da tomada. Meu corpo bateu contra um negócio duro. Acho que nem descansar eu podia, a vida tinha travado uma guerra contra mim, me rendi faz tempo. Era a maldita fita. Eu ri da ironia do destino. Coloquei no rádio, era isso que ele queria, não?

O som invadiu o quarto, me atingiu como um choque, maldição. Por que isso tava acontecendo? Era como uma mão que vinha para te puxar e te jogar contra tudo aquilo que você mais quer evitar. Uma mariposa perdida entrou por uma fresta da janela que eu não tinha conseguido fechar. Artrópodes.

Just don't leave

Don't leave

I'm not living

I'm just killing time

Your tiny hands

Your crazy kitten smile

Seu sorriso de gatinho doido. Seu sorriso.

Notas finais
nota1: 'God in his mercy lends you grace' nesse caso se traduz como "Deus, em sua compaixão empresta beleza a ti" que é o ultimo verso do poema, e uma coisa muito linda de se dizer haha. nota2: a música é true love waits, do radiohead Espero que tenham gostado >< Não se esqueçam... Reviews, reviews!