Guardian Angel
8 Algodão doce
Notas iniciais
Era um daqueles dias monótonos de verão, aqueles dias que só servem para me lembrar o quanto eu odiava o clima daqui. Sei lá quem manda nisso aí, mas não seria má ideia colocar umas nuvens no céu, sabe, só pra variar. Aquela imensidão azul era enjoativa, e a luz amarelada do sol dava um brilho meio sem vida às casas. Não via a hora de sair daquela cidade, contudo, ainda tinha que enfrentar o pior sofrimento na vida de um ser humano: o colegial. Não que eu esperasse que fosse melhor que o básico: devia ser a mesma coisa: só que com mais gente chata, menos comida, e mais livros ruins, nada que uns fones de ouvido não resolvam.
–Filho, vamos, a gente vai se atrasar. – Eu realmente gostaria de falar pra minha mãe que lojas de departamentos não têm horário marcado, contanto que a gente chegue antes das nove tá ótimo, além disso não tem uma corrente invisível entre nós, ela pode ir sozinha se quiser. Pra não precisar dizer tudo isso, escolhi algo mais simples:
–To indo.
Acho que o sol ia derreter meus miolos – os poucos sãos que restavam – mas felizmente a loja não ficava lá muito longe. Eu não sei exatamente por que minha mãe me levava, a justificativa oficial era “comprar roupas pra você filho” mas basicamente era ela quem escolhia, e se eu dava alguma sugestão, ela não gostava. O jeito era tingir tudo de preto depois. Passados uns 20 minutos assistindo a um show da minha mãe pechinchando com as vendedoras, continuamos a caminhar pelo shopping, mas não por muito tempo.
–Oi querida, você não é aquela vizinha que se mudou pra outra quadra essa semana? — Minha mãe adorava barrar pessoas aleatórias que ela encontrava pelos corredores e supostamente conhecia de algum lugar. Nesse caso era a nova vizinha: uma mulher alta, loira que usava os cabelos curtos estilo joãozinho. Ela tava junto com um rapaz alto, cabelos castanho claro e levemente cacheados. Eu achei ele bonito.
–Eu mesma, prazer, Flávia. Ainda to tâo perdida, não encontro nada....
–Tá gostando do bairro,? Eu sou Lígia, prazer. Mas é assim mesmo, eu to aqui faz uns dez anos e não encontrei um açougue bom.
–Nem te conto, lá em casa esse aqui não come carne, tive que fazer uma corrida pra achar proteína de soja ontem.
Eu não sei se existe alguma regra, lei ou “código” de mães, mas o fato é que quando duas delas se encontram no meio da rua elas vão ficar conversando sobre alguma coisa desinteressante enquanto os filhos morrem de tédio. Eu olhei pro filho dela e ele olhou pra mim, não sou muito de contato visual com estranhos, mas dava pra sentir o tédio nos olhos dele. Eu acho engraçado esse sentimento de “irmandade” que se desenvolve quando duas pessoas estão passando pela mesma situação chata. É tipo quando você tá matando aula e encontra alguém da sua escola matando também, vocês ficam com vergonha no começo, mas depois você sente algo como uma cumplicidade. Não falei nada com ele, quem começou a falar foi a mãe dele.
–Bem, esse é o Jorge, meu menino. – Ela dizia, dando uns tapinhas no ombro dele, deu pra ver que ele tava levemente constrangido.
–Esse é o Patrick. Dá oi pro Jorge filho. – Ok, agora era eu o levemente constrangido, minha mãe acabou de agir como se eu tivesse fazendo amiguinhos pré-creche.
–Eai. –Eu disse baixinho, eu notei que ele riu do meu constrangimento
–Então, vocês vão estudar na mesma escola né? –Disse minha mãe. – Patrick você podia ir tomar um sorvete com Jorge enquanto eu termino as compras, já que você não me ajuda a escolher nada. – Disse minha mãe tirando uns trocados da bolsa e me entregando. Eu xinguei ela mentalmente enquanto a mãe do Jorge concordava com ela e se despedia do filho.
Eu fique meio sem graça, apenas saí andando esperando que ele me acompanhasse. Ele saiu caminhando comigo, num daqueles silêncios super constrangedores, aí ele me olhou, e sorriu, e disse:
–Tudo bem, acho que todas as mães são assim. – Ele riu. – Você estuda no Saint Denis?
–Vou começar esse ano.
–Bem, acho que seremos colegas. – Ele riu de novo. –Eu sorri. Odiava ficar sem saber o que responder nessas horas. Não dava pra perceber que ele tava recém no primeiro ano. Ele era mais alto que eu, e dava pra notar uma barba nascendo no rosto dele, ainda que bem aparada. Ele se aproximou da sorveteria e perguntou:
–Vai querer alguma coisa?
Eu tentei contar o dinheiro que minha mãe tinha me dado no bolso, acho que daria para pagar aproximadamente uma colher de sorvete.
–Não, tô legal. – Menti.
–Que isso, tá quente pra caramba, eu pago. – Ele disse. – Me vê dois de pistache.
Eu odiava que as pessoas tomassem as decisões por mim, mas dessa vez ele tinha acertado, pistache era muito bom. Eu tava meio envergonhado com o fato de ele ter pagado pra mim, então tentei sorrir o máximo possível, pra não parecer mal agradecido.
–Eai, diz uma música que você goste. – Ele disse, se sentando do meu lado.
–Assim sem mais nem menos? – gosto musical é algo secreto demais pra mim.
–É. – Ele respondeu. – Sei lá, você não me parece o tipo de pessoa que curte tecnobrega.
Eu ri, de verdade dessa vez.
–Ué, por que não? Me amarro na Gaby Amarantos. – Eu disse, bem sério. Ele ficou me olhando meio espantado. Dei uma gargalhada, ele riu junto.
–Tá, fala sério. – Ele disse em meio aos risos. Agora reparei na risada dele, era engraçada. Sei lá, a risada de todo mundo era meio forçada, pra parecer mais engraçada do que realmente é. A dele não, era engraçada ao natural.
–Bem, você nunca conheceria. – Respondi. Não que eu seja aquele tipo de cara idiota e egoísta que só gosta de bandas que ninguém conhece só porque ninguém conhece, e quando alguém diz que já ouviu falar, ele deixa de gostar; mas o fato era que eu gostava de algumas bandas, e casualmente ninguém as conhecia.
–Tenta aí. Eu conheço bastante. Quer apostar?
–Quero. Qual vai ser a aposta?
–Se eu ganhar eu penso em algo, fala aí:
–The Lonesome Pine Fiddlers? Zdob si Zdub? DeVotchka? Andrew Jackson Jihad? — Ele não ia conhecer.
Ele me olhou com um olhar de quem ganha uma aposta.
–1 Você gosta de Folk, e 2 eu conheço todas.
–QUÊ? Impossível. Fala uma música de cada um. – Ok, eu tava assustado.
–Don’t forget me, Moldovenii s-au nascut, ‘till the end of time e... Deixa eu ver, the reckoning. –Ele disse, engolindo a última colher de sorvete e me encarando com um olhar de superioridade. Ok, eu devo ter saído com os cds grudados na testa e ele tava vendo, única possibilidade.
–Que foi? Por acaso você é um daqueles caras que só gosta de bandas desconhecidas porque são desconhecidas? Aí se alguém conhece você deixa de gostar? – Ou ele lia pensamentos ou a minha cara de espanto era feia demais.
–Não. – Respondi. – Só achava que ninguém conhecia mesmo.
–Bom, temos bom gosto. – ele riu. – E você perdeu a aposta.
Odiava apostas por causa disso. Eu sempre perdia.
–Então, o que tenho que fazer?
–Bem, eu sou novo na cidade, e não conheço ninguém... Eu ouvi dizer que vai ter uma festa na praça da cidade, é um show de uma banda local, só que eu não queria ir sozinho, o pagamento da aposta vai ser sua companhia. – Ele explicou lentamente, como se tivesse medo da maneira como eu ia reagir.
–Bem... Eu não sei se minha mãe vai deixar e... – Eu tava hesitante, quer dizer, acho que todo mundo ficaria se alguém que você conhece faz 20 minutos te convidasse pra ir pra algum lugar à noite. Mas não digo que era exatamente isso, eu acabei de conhecer a mãe dele, e dava pra ver que ele não era nenhum maluco. Eu tava nervoso por outra coisa: eu não sei se seria uma boa companhia.
–Aposta é aposta. – Ele disse, inflexível.
–Tá bom, eu vou. – Admiti meio hesitante. Enquanto nossas mães chegavam com as compras. Esperava que minha mãe deixasse eu ir.
Minha mãe deixou, foi meio estranho. Minha mãe nunca eu deixava eu sair, então eu já perguntava as coisas esperando um não. Dessa vez ela disse sim, sem mais nem menos. Eu poderia considerar que tenho um encontro? Ou será que seria pretensão demais?
Caramba, eu tinha um encontro.
Eu nunca liguei muito para aparência, ou com o jeito que eu me vestia. Geralmente eu usava uma calça jeans meio rasgada, meu all star surrado, uma camiseta de uma das minhas bandas desconhecidas e o cabelo de qualquer jeito. Dessa vez era meio diferente, eu realmente estava afim de passar uma boa impressão. Credo, agora eu entendo por que as pessoas demoram pra se arrumar nos filmes, eu revirei meu armário todo e não havia a droga de uma roupa que prestasse, só as camisetas cinza-e-preto-ponta-de-estoque que minha mãe comprava e umas calças que ficavam largas demais em mim. Achei algo no fundo do armário: uma camiseta preta com o desenho de uma gravata na frente e das bordas de um smoking em volta da gola. Achei que ia ficar legal. Coloquei um all star vermelho (o menos surrado) e uma calça jeans azul escuro. Droga, não fazia ideia do que fazer no meu cabelo, ele sempre tinha uma ou duas mechas que não paravam no lugar, resolvi pentear ele pra frente, meio caído em cima da testa, tava apresentável.
Fui até lá de ônibus, eu tinha combinado de me encontrar às oito, ainda eram sete e meia, mas não gostava de me atrasar. Sentei no banco ao lado do chafariz, onde a gente tinha combinado. Todos os anos tem essa coisa de aniversário da cidade, é basicamente a única vez que o prefeito aparece, a não ser nas eleições, e a única vez que tinha alguma coisa que dava pra chamar de “evento cultural”. Não que eu fosse todos os anos, mas era legal. Mais pra frente tinha um palco montado e uma banda de abertura, já tinha uma galera lá perto, torci para que Jorge não quisesse ir pra frente, não me sinto muito legal em aglomerações.
Quando o relógio deu oito horas ele chegou, eu não sei se fiquei feliz por ele não ter me dado um bolo, ou com vergonha pelo que eu tava vestindo: ele tava com uma camiseta gola v branca com listras pretas, blazer vermelho por cima, calça preta e sapatos. Ok, eu definitivamente me importava com a maneira como eu tava vestido agora, uma cena de o príncipe e o mendigo foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça.
–Hey, esperando faz muito tempo? Quer um algodão doce? – Ele disse, me oferecendo um algodão pela metade que ele tinha na mão, eu nem tinha reparado nesse detalhe. – Eu não consegui comer inteiro, é muito doce. — Ele continuou.
–Acho que é isso o normal né? – Eu ri, ele riu junto.
–Mas então, me conta da cidade. O que tem de bom pra se fazer aqui? –Ele perguntou, sentando do meu lado.
–Bem, os principais pontos turísticos são a praça, a praça, e deixa eu ver... A praça. Ah, abriu uma sorveteria esse dias, e fica do lado da... Praça. –ele deu uma gargalhada. – Na verdade tinha um cinema e tal, mas tal fechado faz uns cinco anos, desde então a locadora de vídeos se tornou meu lugar favorito.
–Então você curte cinema? –ele perguntou tentando puxar assunto.
–Eu respiro cinema.
Ele riu
–Então somos dois. – ele respondeu. – Na verdade, é isso que eu quero fazer.
–Respirar?
Ele riu de novo.
–Não, cinema, na faculdade sabe? –As vezes eu era meio tapado, mas Jorge parecia ter bastante paciência.
–Legal, eu ainda nem pensei direito nisso. – To tentando pensar no que fazer pra sobreviver a 3 anos de ensino médio.
Ele riu
–Acho que vai ser tudo bem, afinal a gente vai estar junto. – Jorge deu um sorriso diferente, e ficou me encarando.Eu não sabia exatamente o que responder, acho que era um daquele silêncios constrangedores. Eu encarei ele de volta, não seria eu a retomar a conversa.
–Olha, eu vou ser sincero, eu quero muito ficar com você.
–E o que te fez pensar que eu sou gay?
–Pra falar a verdade, o seu jeito de sorrir mordendo o lábio é um pouco suspeito. – Ele riu, e se aproximou de mim. Colocando o braço atrás do meu ombro. Eu gelei. Não que fosse a minha primeira vez com um cara, eu já tinha dado meu primeiro beijo no final do ano passado, não quero lembrar daquela história, mas eu não era completamente inexperiente. Só que com Jorge era diferente, ele parecia estar interessado em mim.
Eu não sabia o que dizer, eu tava tremendo um pouco, então eu sorri mordendo o lábio, da minha maneira identificavelmente gay.
Jorge colocou a mão na minha bochecha, e deslizou até a minha nuca e então as minhas costas, com a outra mão segurava meu rosto e se aproximava, nossos lábios se tocaram num selinho enquanto ele virava o rosto para o lado, eu abri os lábios, e nossas línguas se encostaram. A boca dele era molhada, e doce. E as mãos deles me davam calafrios cava vez que deslizavam na minha pele, ele passou uma mão para o meu peito, e começou a me afagar, eu comecei a respirar mais rápido, ele interrompeu o beijo para me dar fôlego.
–E aí, o que achou? – Ele perguntou, me dando mais um selinho, pegando meu queixo com a mão e sorrindo.
–Tinha gosto de algodão doce. – Eu ri mordendo os lábios de novo.
Ele riu de volta, eu passei a amar o sorriso dele a partir daquele momento. Ele me beijou de novo, dessa vez ele me puxou para mais perto dele com um pouco de força, até que minhas pernas estavam sobre as dele, ele continuou a me beijar. E depois me abraçou, e sussurrou no meu ouvido:
–Vamos?
–Que?
–Ver o show.
Eu ri.
Andamos abraçados, eu não consigo lembrar direito das músicas que tocaram naquela noite, mas eu lembro de Jorge me abraçando e me emprestando o casaco na volta, quando já estava frio. Eu lembro do cheiro que ficou no meu corpo e nas minhas roupas. O perfume dele era forte. Lembro do gosto de algodão doce, e lembro de mais uma coisa: de como eu tava feliz.
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