Guarda-costas
74 Capítulo setenta e quatro
Notas iniciais
Hinata sentiu a dor do seu braço antes sequer de abrir os olhos, era uma dor aguda que parecia atravessar o seu ombro até alcançar a sua espinha, tomando todo o seu fôlego pelo caminho.
Parecia quase torturar sentir aquilo, mas o que a fez questionar se ela ainda não estava presa no pesadelo de antes em meio ao fogo e entulhos da explosão que ocorreu ao seu redor.
Mas, enquanto ela se contorcia em dor fazendo o possível para voltar a respirar normalmente, tudo o que conseguia sentir era a superfície macia da cama onde estava deitada.
Hinata parou de se mover, aproveitando a maciez da superfície onde estava deitada, até que conseguiu efetuar dez de suas respirações e só então abriu os olhos novamente.
A primeira coisa que percebeu foi a luz cegante que atingiu os seus olhos, ela esperava encontrar no mínimo algum médico perambulando por cima dela, ou os sinais ensurdecedores de batimentos cardíacos.
Tudo o que uma vez ela tinha experimentado quando esteve no hospital antes. Ela também esperava encontrar Naruto ao seu lado, olhando-a com uma cara repreensiva por ela ter se machucado.
Mas nenhuma dessas coisas apareceram no seu campo de visão.
Ela estava dentro de um espaço pequeno, em cima de uma cama confortável e em cada lugar que ela colocava os olhos tudo o que ela conseguia enxergar era luxo.
Aquele lugar, não se parecia nada com um hospital e, de certa forma, ela se sentiu bastante aliviada pelo fato de não estar em um.
Nada de bom viria, se ela fosse em um hospital, ela estaria muito vulnerável, com as drogas e a quantidade de médicos e enfermeiras entrando o tempo todo no seu quarto, sem ela saber quem era o inimigo.
Nessa situação, se ela não morresse pela dor que estava sentindo, ela definitivamente morreria com um tiro na cabeça, uma facada nas costas, ou um envenenamento por meio do soro que estava no seu braço.
Ela olhou para o lado e percebeu um soro vindo de cima até embaixo na sua mão. Apenas a visão daquele negócio grudado no seu corpo fez seus batimentos acelerarem e foi pensando nisso que ela decidiu retirar a agulha do seu pulso.
Não importava realmente, se aquele soro tinha os medicamentos que estavam tornando as suas dores sustentáveis. Se ela não sabia o que era, ela definitivamente não ia querer nada daquilo.
As merdas que você tinha que aguentar apenas por ser desconfiada demais.
Hinata respirou fundo mais uma vez sentindo as suas costelas afundarem na barriga, ela não conseguia avaliar o quanto estava machucada e, mesmo que tivesse coragem de olhar por baixo da bandagem do seu braço, ela não pensava que tinha forças o suficiente para conseguir tal feito.
Hinata tentou mudar a direção dos seus pensamentos e tentou lembrar do que tinha acontecido, mas tudo que vinha na sua cabeça era de uma sensação forte de calor que vindo pelas suas costas e a atingia em cheio, depois disso tudo era um preto desesperador e o pensamento de que estava para ir para as cucuias.
Ao longe, ela ainda tinha escutado as sirenes dos resgastes. E mais perto, ela escutava os gritos e os gemidos das pessoas ao seu redor, pessoas que chamavam o seu nome principalmente, pessoas que gritavam que a ajuda já estava chegando.
Antes de cair completamente naquela escuridão, Hinata pensou ter escutado a voz de Naruto, a mesma voz irritada que ele utilizava enquanto estava a treinando.
“Levanta Hinata, ainda não terminamos”
Com a dor que ela estava sentido, tudo que ela queria responder servia para mandá-lo tomar no cu, mas nem para isso ela tinha força suficiente. Talvez agora ela teria, porque, sinceramente, que melhor pessoa para culpar das suas desgraças que o seu chefe?
Naquele instante, um pouco antes de apagar, a dor que ela sentia foi amenizada pelos pensamentos do que ela queria falar para Naruto...
O pensamento de que se ela escapasse da morte, ela DEFINITIVAMENTE iria pedir um aumento de salário! Talvez até mesmo férias, seria legal se ele a levasse para algum lugar quente, onde tudo que ela precisasse pensar fosse onde demônios tinha se metido vendedor de sorvete.
Mas ela sabia que aqueles pensamentos estavam longe de sua realidade, porque se ela precisava de algum vendedor agora, era de um que pudesse lhe vender ilegalmente um analgésico forte, sem prescrição médica e que fosse forte o suficiente para apagá-la por uma semana.
A porta do quarto onde estava se abriu e Jiraya entrou. Hinata fechou os olhos novamente fingindo dormir, aquela era uma pessoa que ela não tinha muito entusiasmo em ver tão cedo, porque se ela fosse receber alguma coisa dele seria uma bronca por ter sido estúpida o suficiente em ser pega em uma explosão.
Ela meio que se sentia estúpida também. Era sempre vergonhoso ser a pessoa que precisa de cuidados médicos, quando ela era a guarda-costas.
E, dessa vez, mais que vergonhoso ela se sentia culpada pelos ferimentos dos seus companheiros. Ela se lembrava vagamente que haviam muitas pessoas ao seu redor no momento da explosão, exatamente no alcance do explosivo.
E Shikamaru, como ele estava? Ele daria uma bronca e tanto nela por ela ter sido negligente em não ter percebido a bomba.
Afinal, como demônios ela não havia visto uma bomba estando tão perto? Para o tipo de explosão que ocorreu, o aparelho não devia ser nenhum pouco pequeno e ainda assim ela não foi capaz de notá-lo.
Hinata sentiu sua garganta apertar apenas com o pensamento de que poderia não ter sido ela a vítima, mas sim Naruto e que por culpa da sua negligência ele poderia estar machucado no lugar dela.
Se algo acontecesse com ele, por sua culpa, o que ela faria?
Jiraya veio ao seu lado e tocou levemente no seu cabelo.
— Que porra de susto você nós deu, pirralha. Eu achei que Naruto ia morrer antes de você de preocupação.
— Cadê ele? — A sua voz era seca, e era bastante dolorido falar, mas ela precisava saber onde ele estava. Será que ele estava bem? Tudo tinha ocorrido da forma como ele tinha planejado? Ele se machucou?
Ela tentou não fazer todas aquelas perguntas para Jiraya, decidindo apenas saber a sua localização. Depois disso, ela iria até ele para ter as suas respostas pessoalmente.
Jiraya sorriu amarelo e bateu em sua cabeça mais uma vez.
— Não se preocupe com ele. Saiba que você vai matá-lo do coração antes de qualquer outra pessoa.
Hinata sentiu seu coração acelerar, era muito pouco do feitio de Jiraya apenas enrolar para responder uma pergunta. E ela sentiu que algo estava acontecendo.
— Cadê ele? – ela repetiu.
— Hinata, acalme-se, ele está bem. – Jiraya colocou a mão no ombro de Hinata de forma apaziguadora. Ela sequer tinha percebido que tinha tentado levantar. – Ele teve um ferimento mais cedo mais já está se tratando, ele pediu que eu viesse ficar com você.
— Como assim? – O braço de Hinata deu uma pontada que ela prontamente ignorou. Os remédios que ela havia tirado do seu sangue a deixavam mais esperta, mas em compensação a dor aumentava gradativamente. – O que aconteceu?
— Bom... hehehe, nada demais, ele só... Bem, como eu digo isso... Um tiro! Bem... Ele talvez tenha levado tiro...
Hinata olhou para ele paralisada e nenhum dos dois falou qualquer coisa pelo próximo minuto. A única coisa que retumbava dentro do seu crânio eram as palavras ‘Naruto’ e ‘tiro’.
Naruto iria morrer?
Hinata usou todo o restante de força que tinha dentro dela para tentar se levantar. Mas, o seu corpo voltou para baixo na mesma velocidade que foi para cima. Jiraya segurou com mais força o seu ombro, tocando sem querer na bandagem do seu braço. Nesse instante, a sua visão turvou completamente.
— Caralho! Desculpa... Hinata, eu não queria...
Ela arreganhou os dentes tentando mostrar uma ferocidade que o seu corpo não permitia expressar e sussurrou: — Cala a boca, idiota, e me ajuda...
— Não, Hinata, você tem que ficar!
A porta do quarto abriu mais uma vez e Hinata parou de lutar contra o velho ao seu lado. O seu corpo paralisou ante de cair mais uma vez no colchão.
Seus olhos se encherem imediatamente de lágrimas.
Mas, aquilo era, definitivamente, pela dor do esforço e não por estar, finalmente, vendo Naruto.
Ele olhou para Hinata e sorriu calorosamente para ela. E ela sentiu que a sua garganta estava travada. Ele estava alí, na frente dela, parecendo completamente exausto e ensanguentado, mas inteiro.
Os olhos de Naruto se viraram para Jiraya e toda a gentileza que havia ali, direcionado para Hinata, morreu.
— O que você está fazendo?
As mãos de Jiraya ainda estavam a colocando para baixo com força afundando o seu peso no colchão, fazendo com que o seu corpo já dolorido sentisse ainda mais dor de forma desnecessária.
Hinata não sentia mais nada, além de torpeza, por isso nem mesmo as dores causadas pelas ações imprudentes de Jiraya lhe incomodaram. Ela sentia como se estivesse em um estado de contemplação.
Mas, Naruto era outra história, ele olhou diretamente para as ações da mão de Jiraya, que percebendo a direção dos olhos de seu chefe, retirou as mãos imediatamente.
— Eu estava aqui falando para a nossa Hinata que ela não podia se mover. Não é, Hinata?
Naruto voltou os olhos para Hinata, olhando-a de cima para baixo e Jiraya também olhou para ela esperando a confirmação da sua fala, mas ela não disse nada, apenas puxou o lençol em que estava embrulhada para cima do seu rosto, cobrindo a sua cabeça. Ela se escondeu dos dois e mordeu os lábios com força.
Jiraya olhou abismado para o corpo coberto de Hinata, achando muito estranha toda aquela reação. Será que ele tinha machucado ela muito forte?
— O que foi? – Jiraya perguntou confuso, tentado puxar o lençol de cima da cabeça de Hinata, mas Naruto interviu rapidamente.
— Cai fora!
— Mas, ela...
— Fora!
Hinata escutou as palavras autoritárias de Naruto e as lágrimas que se acumularam nos seus olhos apenas caíram naturalmente pela sua bochecha. Ela estava se sentindo muito estúpida agora mesmo.
A porta do quarto se fechou e Naruto se aproximou da cama dela, sentando no colchão, ao seu lado. Ele pegou a beira do lençol e puxou para baixo.
Os olhos de Hinata estavam ainda mais marejados em lágrimas e o choro corria livremente em sua bochecha. Ela olhou os olhos azuis de Naruto e pegou o lençol de novo para cobrir a sua cabeça. A humilhação queimando no seu rosto.
Ela nunca chorava! Chorar é estúpido!
Mas, Naruto não deixou que ela subisse a sua proteção. Ele colocou a mão no seu rosto e limpou a linha molhada de debaixo dos seus olhos. A mão dele era quente em cima da sua pele e Hinata sentiu ainda mais lágrimas caírem no seu rosto.
Ele deu um peteleco fraco em sua cabeça, antes de falar suavemente.
— O que está acontecendo com você? Você está parecendo um bebê chorão.
Hinata parou de morder os lábios, deixando o soluço preso em seu peito escapar de uma única vez. As lágrimas se intensificaram, molhando o dedo de Naruto que ainda tentava limpá-las.
— Você é um grande idiota! – ela respondeu em meio aos seus soluços.
Naruto sorriu de novo, deixando os seus dedos deslizarem na sua mandíbula, antes de alcançarem a sua boca.
— Eu sei.
Ele deslizou ao seu lado, deitando na cama e puxando ela cuidadosamente para o seu braço. Ela deixou que ele a movesse e tentou acalmar o tremor que percorria o seu corpo. Ela se sentia aliviada e com medo ao mesmo tempo, em uma mistura de sentimentos que estava lhe deixando exausta apenas nesses pouco minutos.
Naruto beijou a sua testa, quando ela finalmente se acomodou no seu peito e começou a ensopar a sua camisa em lágrimas. Aos poucos o cansaço a vencia, até que ela conseguiu fechar os olhos, escutando com bastante afinco as batidas do coração dele.
Firmes, fortes.
Ele estava aqui com ela.
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