Guarda-costas
78 Capítulo setenta e oito
Notas iniciais
Gaara jogou água na mulher na sua frente.
Tsunade.
O cabelo amarelo estava desgrenhado. Os olhos vermelhos de sono e choro. O rosto amassado pelos constantes socos que levara anteriormente, com vários dentes visivelmente arrancados a força da sua boca.
Não havia nenhuma parte do seu corpo que não estava sangrando pela severidade dos castigos que levara.
Para Gaara, ela parecia uma pessoa muito diferente daquela que entrou na sua casa e destruiu a sua vida quando ele ainda era apenas uma criança.
Aquela mulher que sorria enquanto os seus pais pediam pelas vidas do seu filho, já não existia. No lugar estava apenas a sombra da mulher cruel que uma vez ela havia sido.
Naquele momento, qualquer um que não soubesse da história que os rodeava o taxariam de monstro e ela de vítima.
Ele sentiu uma leveza imensa no coração quando percebeu o olhar de medo em sua direção e sentiu todo o poder que a posição de agressor lhe garantia.
Ela estava presa em uma cadeira de metal grudada no chão, com as mãos amarradas às costas e os pés às pernas da cadeira. Sua boca também estava vedada e a única coisa que ela podia fazer era murmurar por debaixo da corda que a mantinha calada.
Gaara jogou mais um pouco de água no rosto de Tsunade e quando ela finalmente manteve-se acordada, ele se afastou do seu corpo, sentando-se em uma cadeira na frente dela.
Um dos homens ao seu lado foi até Tsunade e removeu a corda que a impedia de gritar e, logo, todos saíram da sala deixando os dois sozinhos.
Tsunade não falou nada, nem levantou a cabeça e Gaara podia sentir as ondas de apreensão que vinham dela. Ela estava com medo, porque ela sabia o que viria a seguir.
Demorou muito mais de duas semanas para ele conseguir quebrar aquela mulher, para ela finalmente contar cada um de seus segredos e de sua família. Ela agora estava bastante envergonhada por ter sido tão fraca em sua frente, cantando todas as histórias que não podia como um canarinho, apenas pela possibilidade de sair daquele lugar respirando.
Mas, não havia nenhuma possibilidade dela sobreviver a ele, porque não havia nada que ela pudesse lhe entregar em troca de sua vida, nada que pudesse ser mais valioso que o ódio que Gaara sentia em seu peito.
Tsunade iria morrer. E ela sabia disso.
— Você não se parece nada com a sua mãe, Kankura... – ela disse com a voz rouca entre tossidas de sangue que respingavam de sua boca. – Mas, eu vejo semelhanças com o velho do seu pai...
Gaara não disse nada, apenas cruzou as pernas e deixou que ela iniciasse a conversa. Ele tinha total ciência que ela estava comprando tempo, esperando que alguma ideia brilhante viesse em sua mente para se livrar dele ou até mesmo esperando ajuda.
Ambos sabiam que aquela espera era inútil, mas em vez de acabar com toda aquela cena, ele simplesmente esperou. Era regozijante ver que ainda havia um resquício de esperança nela, mesmo depois de tudo.
— O mesmo temperamento frio, perigoso. – Tsunade sorriu e finalmente o olhou. Os olhos castanhos que uma vez pertenceram a melhor amiga da sua mãe, agora pareciam distantes. – Quando percebemos que ele era frio demais, perigoso demais, já era tarde demais... Não conseguíamos pará-lo. Ele iria devorar a todos nós em um momento ou outro... Porque além de perigoso, ele também era muito ambicioso... – Tsunade gargalhou e outra crise de tosse a assaltou. – Sua mãe sempre reclamava sobre isso nele. Aquele homem não sabe quando parar, Tsu. — ela imitou o tom de voz de sua mãe e Gaara manteve o rosto impassível, apesar da raiva que borbulhava no seu peito escutando a forma carinhosa como a sua mãe se dirigia àquela mulher. – Eu a avisei... – Tsunade disse fracamente. – Eu a chamei naquele dia... Disse que o Grande Sabuko no Rasa iria ter que ser destruído que ela devia pegar todos vocês e ir embora... – Tsunade apertou a mandíbula, o desespero visível nos seus olhos, ela já não estava com Gaara, ela estava naquela noite, a mesma noite que o assombrava. — Mas ela não foi. – A raiva tão típica de Tsunade voltou de uma única vez para o seu rosto. — Ela foi estúpida! Estúpida o suficiente para ir atrás do seu pai, para salvá-lo, em vez de salvar você, seu próprio filho... A sua própria criança. Ela é culpada de tudo isso, eu queria que ela vivesse!
Tsunade perdeu o fôlego, gritando a última frase o máximo que podia, um dos guardas apareceu na porta, mas Gaara apenas levantou a mão e ele saiu de novo.
Ambos não falaram por mais alguns segundos e Gaara começou a sorrir lentamente, mas aquele sorriso não alcançava seus olhos.
— Você nunca se perguntou por que eu estava lá? – Gaara falou pela primeira vez, sua voz parecia divertida e Tsunade o encarou mais uma vez. – Por que eu estava lá Tsunade? Por que apenas eu estava lá, mas nenhum dos meus irmãos estavam?
Tsunade parecia confusa quando ele falou, mas Gaara não esperou ela clarear os pensamentos.
— Por quê? – ele insistiu.
— Porque ela é estúpida! – ela gritou.
— Minha mãe cresceu com você, Tsunade. Ela não era nenhuma tola, só você acreditava nisso porque não gostava de perder para a sua melhor amiga. – Gaara a olhou com desprezo. – Você acha que eu não sabia de tudo isso? Eu também não sou tolo...
— Ela não deveria estar alí... – ela murmurou fracamente de novo, aquela mulher estava perdendo pouco a pouco a sanidade. – Ela não deveria estar alí...
— Mas, ela estava. Por quê?
— Ela não me escutou... – Tsunade continuava repetindo, ignorando-o, mas ele sabia que ela estava escutando tudo.
— Ela estava lá, porque naquele dia, naquele maldito dia... Era meu aniversário.... – Gaara conseguia se lembrar disso como se tivesse ocorrido ontem. As imagens ainda vívidas em sua memória. – Meu pai tinha me levado mais cedo para a casa de campo, enquanto minha mãe ficava em casa fazendo preparações para uma festa surpresa para mim. Por isso que os meus irmãos não estavam naquela casa... Quando você a avisou do ataque, eu estava com o meu pai. O que uma mãe faria nessa situação, Tsunade? Fugiria com duas de suas crianças e deixaria a outra para trás? Ou tentaria salvar todos?
Gaara se lembrou dos relatos assustados que seus irmãos lhe contaram.
— Ela ligou para todas as amizades que ela tinha, mas ninguém a atendia naquela noite. Por que será que todos os seus amigos a abandonaram naquele momento? – Gaara sentiu o seu peito expandir com um sentimento viscoso que o consumia a cada dia. O ódio de ser incapaz. A vergonha de ter sido ele a razão da sua mãe ter se arriscado e morrido. – Ela foi me buscar e morreu.
Tsunade se calou, fechando os olhos como se quisesse parar de escutar tudo aquilo e ser transportada para uma outra dimensão que não fosse a atual ou a do passado tenebroso que os dois compartilhavam.
— Mas, você já sabia de tudo isso. – Gaara a acusou. Ele de fato não precisava contar nada daquilo à ela. – No momento que você a olhou naquela casa, enquanto torturava meu pai, você sabia que algo estava errado. Então, você me olhou escondido... Você sabia o que ela estava fazendo lá, bastava raciocinar por dois segundos para descobrir que ela não estava ali por causa do meu pai, mas sim por minha causa. – Gaara se sentia enjoado, lembrando-se do sangue e dos gritos da sua mãe. Ela havia percebido que Tsunade havia o encontrado e pediu pela vida dele. Pediu em nome dos anos de amizades que elas tinham. – Ainda assim, você a matou. Um tiro na cabeça. Matou a sua melhor amiga. Depois o meu pai. Um tiro no peito, você o deixou sangrando, enquanto ele olhava para a minha mãe morta. Você sequer lhe deu a garantia de uma morte rápida. E depois você me salvou. Você me tirou dalí... Eu sempre me perguntei por que eu? Por que eu saí vivo?
— Ela me pediu.. – Tsunade falou rapidamente, lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas não era tristeza que ele via ou arrependimento. Era vergonha. – Eu fiz isso porque a minha melhor amiga me pediu. Por amor a ela.
Gaara suspirou, sentindo sua garganta apertar, mas aquela emoção durou apenas o tempo de uma respiração e logo foi embora.
— Não. – ele se perguntou durante anos, porque ele havia sido um sobrevivente e a verdade de tudo aquilo o machucou mais do que a morte. – Quer dizer, você de fato me salvou por amor, mas não foi amor a minha mãe... E sim amor a meu pai. – Tsunade parou de chorar e o encarou com olhares enlouquecidos. – Você era apaixonada por ele, assim como a minha mãe, mas você nunca suportou perder o amor da sua vida, para a sua melhor amiga... Não quando você era melhor... Mais rica... Mais apropriada para a função de ser a esposa do homem mais poderoso dentro da tríade. – Ele jogou as palavras rapidamente, porque sequer ele suportava dizê-las. A sua mãe morreu por uma coisa tão pequena e mesquinha. – Você tentou afogar tudo isso dentro de você, mas não suportou ver que ela estava feliz, com o marido que você queria... Com os filhos que você queria... Com o poder que você queria! Então, você matou minha mãe na frente do homem que nunca te escolheu, mas você não conseguiu me matar, porque eu era, como você disse a pouco, muito parecido com o meu velho pai...
Gaara desviou o olhar da mulher na sua frente. Ele tinha nojo dela e de si mesmo, do seu rosto, da sua aparência, da sua respiração, do seu coração batendo. Se ele não tivesse sobrevivido, talvez Kankura estivesse bem. Talvez ela tivesse fugido para um lugar longe, mais quente, ela sempre quis viajar para fora do Japão e passar uma longa temporada na América do sul.
O sol na América do sul é tão quente que seria capaz de aquecer até o coração de gelo do seu pai...
Ela sempre falava aquilo para o irritar, mas seu pai sempre a achou divertida demais para ficar com raiva.
— Você me deixou viver porque eu era parecido com ele. – ele repetiu mais uma vez a olhando novamente. – E você vai morrer porque eu sou parecido demais com ele... Sem qualquer piedade!
Gaara pegou a arma do seu casaco e apontou para a cabeça dela. Tsunade levantou a cabeça, chorando e a balançou furiosamente de um lado para o outro.
— Naruto! – ela gritou quando ele engatilhou a bala.
Gaara a olhou com desgosto, ela ainda não tinha desistido de sua vida.
— Ele é seu aliado, ele está correndo perigo! – Ela gritou com todo o ar dos seus pulmões.
Gaara queria sorrir de tudo aquilo. O seu tempo já havia sido perdido demais naquele lugar, mas Tsunade não parou de falar.
— Você também está em perigo... Existe uma sombra atrás de vocês, alguém que você nunca imaginaria...
Gaara atirou na cabeça, no mesmo exato lugar onde ela tinha atirado na sua mãe. Sangue espirrou pelo seu sobretudo e, apesar da sujeira, ele nunca se sentiu tão bem em sua vida. Ele queria apenas se livrar do peso da existência daquela mulher, respirando o mesmo ar que ele.
E ela se foi.
Os seus homens entraram na sala e ele saiu. Todos já sabiam o que fazer. Gaara passou pelos corredores de metal que o levava para fora do seu esconderijo e se lembrou das últimas palavras de Tsunade, uma informação que foi tão pouco valiosa quanto a vida dela.
E uma informação atrasada. Deidara já havia lhe informado a bastante tempo quem eram os seus inimigos.
K vs Y.
Kushina vs Yumi.
Faltava agora Naruto descobrir aquela guerra oculta que tinha tudo para destruir o restante das famílias da tríade. E quando Naruto finalmente descobrisse o que estava bem debaixo de seu nariz, ele finalmente entenderia a maldição que era pertencer àquele mundo.
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