Guarda-costas
63 Capítulo sessenta e três
Notas iniciais
Depois da reunião, Sasuke tinha escolhido ir direto para o seu quarto, mas antes que pudesse sair do apartamento de Naruto, Hinata o interceptou com pressa, pegou-o pela manga de sua blusa social e o convocou para tomar café no restaurante.
Ele olhou para o lado para ver Naruto observando os dois, enquanto conversava com Chouji no canto, e, automaticamente, Sasuke entendeu que Hinata apenas queria uma fuga rápida dalí.
Ele aceitou usado como rota de fuga, e quando eles entraram nos elevadores e as portas se fecharam, Hinata puxou os cabelos com força em pura frustração. Sasuke assistiu incapacitado, enquanto ela tentava se acalmar e, apenas quando a sessão de histeria passou, ela o olhou com um resquício de cansaço nos olhos.
Parecia que ela não tinha dormido a noite toda.
— Você está bem? — ele perguntou calmamente, não querendo pressioná-la em outro súbito ataque.
— Agora sim. — ela respondeu lhe oferecendo um sorriso tímido que fazia um contraste gritante com o cabelo bagunçado.
Sasuke sorriu e passou a mão na cabeça dela. Hinata ainda parecia a mesma menina de quando ele a tinha conhecido, toda machucada por ter encarado uma briga sangrenta com uma pessoa muito maior que o seu tamanho.
Ela ainda parecia tão destemida quanto naquela época. Neji não precisava mais protegê-la como antes, nem ficar de olho nela para que não se metesse em confusão.
Alguém também já havia assumido aquela posição com muito gosto.
Hinata sorriu para ele com um humor um pouco melhor quando ele terminou de arrumar o seu cabelo e Sasuke sentiu um súbito salto no coração. Os sorrisos dela sempre foram os mais doces para ele, mesmo quando ele tinha certeza que o coração dela estava ocupado por outra pessoa.
O que ele faria quando perdesse aquele pequeno gesto e tudo fosse transformado em raiva? Será que ela realmente o odiaria tanto assim?
— O que foi?
Sasuke foi acordado de seus pensamentos e voltou a sua atenção para ela. Seus olhos o encaravam curiosamente e ele balançou a cabeça para espantar os últimos resquícios de sentimentos ruins no seu peito. Ele abaixou sua mão.
— Nada, estava pensando que pode acontecer muita coisa hoje a noite. Você tem que descansar, parece um pouco cansada.
Hinata bufou parecendo desgostosa.
— Como eu posso descansar meu corpo se aquele idiota vive sugando a minha energia?
— Tão ruim assim? — o elevador abriu e os dois saíram. — Ele foi muito duro com você ontem? Ele parecia preocupado enquanto te procurava.
Hinata abaixou a cabeça, olhando para os seus pés. — O mesmo de sempre.
Os olhos de Sasuke foram atraídos para o pescoço de Hinata, quando ela abaixou a cabeça e uma pequena parte da sua pele foi descoberta pelo enorme suéter que usava. As marca alí indicavam ou uma tentativa de assassinato, ou uma noite de sexo selvagem. Como Hinata ainda estava respirando, ele chutou o último seria mais provável.
Aquilo poderia até mesmo tê-lo surpreendido, se ele já não esperasse que aquilo aconteceria cedo ou tarde...
— Percebo.
Hinata levantou a cabeça e parou de andar. Sasuke tentou disfarçar o sorriso no seu rosto e continuou a se dirigir ao restaurante. Hinata logo o seguiu apressada.
— Percebeu o que?
— Nada. — ele respondeu calmamente abrindo a porta para ela passar.
— Nada é a minha bunda, eu vi o sorrisinho no seu rosto.
Sasuke não pode impedir que os seus lábios se esticassem um pouco mais em um meio sorriso que em nada escondia os seus pensamentos.
— Não é nada disso que você está pensando! — ela foi rápida em tentar resolver o problema, mas euforia apenas fazia tudo parecer mais engraçado.
— No que eu estou pensando? — Sasuke provocou.
— Em coisas irreais. — ela afirmou, seu rosto levemente vermelho.
— Quer dizer que vocês dois não passaram a noite inteira juntos?
— Sim, mas já passamos várias noites juntos antes. — ela respondeu inocentemente, antes de seus olhos esbugalharem. — Oh merda, isso saiu mais errado ainda.... É só que...
— Que…?
Hinata não soube o que lhe respondeu e ela voltou a puxar o cabelo em frustração.
— É por isso que você parece tão chateada? — Sasuke perguntou dessa vez seriamente. Ele nunca teve sentimentos de proteção muito forte por ela, por que ele tinha pleno conhecimento da capacidade dela cuidar de si mesma. — Você se arrependeu?
— Não! — ela respondeu apressadamente explicando a situação. — Sakura colocou umas calcinhas na minha mala e…
Ela parou de falar rapidamente, percebendo que a sua boca havia começado a falar sozinha novamente, antes do seu cérebro perceber com quem ela estava conversando.
— Por favor continue, essa parece ser uma história interessante.
— Não vou dizer essas coisas indecentes para você. — Hinata torceu a boca parecendo irritada e envergonhada ao mesmo tempo. — De todas as forma, ele voltou a ser o mesmo de sempre.
— Ah… Entendo.
— Entende? O que você entende?
— Nada. — Sasuke passou a mão pelo seu cabelo organizando a bagunça novamente.
Os dois pegaram uma mesa e pediram rapidamente uma montanha de comida, ela parecia esfomeada, mas pelo estado do seu pescoço, a noite de ontem havia sido uma coisa difícil de encarar. Por alguma razão ele se sentiu feliz por ela e por Naruto. Os dois se encaixavam perfeitamente bem.
— Você não pode contar para ninguém essa coisa.
— Que coisa exatamente? — Sasuke bebeu um pouco da água disponível na mesa. — Que você dois estão juntos?
— Não estamos juntos! — ela negou veemente.
— Certo. — Sasuke sorriu se lembrando de uma coisa muito mais divertida. — Quando você vai contar para eles?
— Eles? Eles quem?
— Sua família.
Os olhos de Hinata esbugalharam e ela engasgou imediatamente sem ter nada na boca. Sasuke pegou um guardanapo, entregou para ela e deu leves batidas nas suas costas.
— Que merda! Não fale isso nem de brincadeira. — ela disse ainda sem ar. — Você não pode falar nem para o Neji, porque aquele fofoqueiro de bosta vai contar imediatamente para a minha mãe. E você sabe que ela não bate bem…
Sasuke imaginou quantas pessoas pensavam a mesma coisa de Hinata. Mas, bem... Ela definitivamente tinha a quem puxar.
— Tudo bem.
Sasuke pensou que seria muito mais divertido Naruto conhecer pessoalmente aquela família. Ele queria ser uma mosca para saber a reação dele quando isso acontecesse e Naruto finalmente descobrisse com quem ele havia se metido.
— Não fale isso nem de brincadeira mesmo! — ela repetiu.
O garçom chegou com a comida e o celular de Hinata começou a tocar. Ela atendeu imediatamente.
— Ah, é você! — Hinata tossiu mais ainda, mas continuou a falar com raiva. — O que foi?
Uma pausa.
— Nada. Eu só engasguei.
Sasuke não conseguia escutar a voz de Naruto do outro lado, mas pelo visto ele estava preocupado com ela, depois da noite passada ele não podia realmente culpá-lo. Ele nunca tinha visto Naruto tão apreensivo em todo o período que os dois se conheciam e isso apenas porque ela havia saído da sua vista por algumas poucas horas.
— Eu estou comendo com o Sasuke, não posso subir. — Hinata reclamou. — Que merda, não vem aqui não. — ela revirou os olhos e suspirou dramaticamente. — Tá!
Ela desligou.
— Como demônios eu vou levar a minha comida para cima?
Sasuke sorriu, levantando a mão para chamar a atenção do garçom, mas Hinata foi mais rápida soltando um assobio longo e alto para chamá-lo de volta.
O garçom olhou para trás parecendo em choque e algumas outras mesas voltaram a atenção completa para Hinata. Sasuke queria sorrir novamente pela súbita atenção que aquela pequena mulher havia conseguido, mas manteve-se sem expressão, enquanto o pobre garçom se aproximava de sua mesa parecendo que havia sido mortalmente insultado.
— Ei, amigo. Dá para triplicar aqui e mandar lá para cima?
— Perdão, senhorita?
O restaurante era multicultural, logo Sasuke adivinhou que não era a língua japonesa, o motivo da incompreensão dele. Para organizar as coisas e impedir que Hinata colocasse o garçom em síncope, ele traduziu. — Por favor, mande os pratos para o apartamento do senhor Uzumaki, triplicando as porções.
— Isso! — Hinata sorriu para ele. — Coloca tudo na conta dele também, inclusive o café da manhã do Sasuke.
— Não precisa…
— Que isso, deixa na conta do nosso chefe.
Sasuke assentiu e o garçom que foi embora.
— É proposital, não é? — Sasuke perguntou, percebendo a leve perversão nos olhos de Hinata.
— O que?
— Você irritando garçons, mordomos, etc...
Hinata o olhou inocentemente. — Não posso fazer nada, essa raça não gosta de mim.
— Raça?
— Nariz empinado e cabo de vassoura na bunda. Não nos damos bem de jeito nenhum.
Dessa vez, Sasuke que engasgou e Hinata, gentilmente, lhe ofereceu um guardanapo.
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Sasuke chegou no seu quarto um pouco depois de terminar o seu café da manhã sozinho. Assim que chegou no cômodo, ele abriu uma gaveta ao lado da sua cama, onde havia dois celulares. Ele pegou um com aparência mais antiga e desbloqueou.
Na tela estava sinalizada a presença de vários recados na sua caixa de mensagens, todos do mesmo número, porque apenas uma pessoa conhecia aquele específico celular.
Yumi Uzumaki. Ou Yumi Nagato.
Fazia muito tempo que ele não escutava mais nenhuma das suas mensagens, mas hoje, ele queria fazê-lo. Ele estava se sentindo solitário esses dias e agora que Hinata havia o deixado para tomar café da manhã com o seu talvez namorado, ele se imaginou como seria se tivesse a mesma oportunidade de fazer aquilo com alguém.
Ele abriu uma das mensagens de voz mais antigas.
“Sasuke, tudo bem? Como vai, Naruto? Soube da explosão. É uma pena que eu não tenha conseguido avisar mais cedo ou você teria conseguido avisar. Espero que esteja tudo bem. Me chama, sinto sua falta.”
A voz dela ainda era doce nos seus ouvidos e o seu peito apertou em saudades. Fazia muito tempo que ele não a via pessoalmente, ou falava com ela. Ele imaginava que a sua Yumi continuava bela, mesmo com os constantes machucados no seu rosto.
Ele deitou na cama, fechou os olhos e continuou escutando as mensagens, uma em particular, lhe cortou o coração, provavelmente havia sido depois de um dos episódios de raiva de Nagato.
“Sasuke…— dava para escutar ela chorando de fundo e uma música alta no fundo. — ...estou com medo, queria escutar a sua voz. Eu entendo porque você não está me atendendo, mas eu queria escutar a sua voz hoje. Me atende, por favor.”
Ela provavelmente lhe ligou diversas vezes, mas ele estava ocupado demais com a sua nova obsessão. Haruno Sakura. A belíssima rosada que agora ocupava a sua mente todos os dias. Sasuke sorriu sem humor. A primeira pessoa que tinha obtido o mínimo de sua atenção, depois de todos esses anos com Yumi na sua cabeça, era tão triste quanto a própria.
Quantas mensagens daquela forma ele havia recebido de Yumi? Inclusive na época que ele não estava a ignorando? Todas elas faziam um buraco interminável na sua alma, essa destruição apenas havia sido transferida de pessoa, agora quem lhe fazia ficar nesse estado deplorável de angústia era a Haruno.
Ele continuou escutando diversas mensagens. Algumas calmas, outras desesperadas, outras que quase fizeram com que o seu coração partisse. Ele percebeu como a voz dela ia mudando gradualmente para a frieza, era como se ela soubesse o que ele estava fazendo.
E como ela não poderia, quando ele estava sendo tão óbvio quanto o seu desejo de cortar ligações? Ou era isso ou era se afundar mais ainda na depressão em que ele se encontrava quando os dois estavam juntos.
Na última mensagem, havia ainda mais de distância na sua voz, mas ao mesmo tempo, ela parecia muito mais urgente.
“Sasuke, eu sei que hoje você está ocupado com a reunião da tríade. Mas…— houve uma leve hesitação. — O Naruto talvez esteja em risco. Hidan está incontrolável e eu tenho medo do que ele possa tentar. Eu não acho que seria muito difícil para ele pedir a cabeça do Naruto na reunião como um traidor. Eu acho que a melhor coisa que você pode fazer é impedir que ele chegue lá. Por favor, me ligue.”
A mensagem parou e quando a voz mecânica perguntou se deveria apagar ou repetir, ele pediu para repetir. A urgência na voz de Yumi, era muito diferente do desespero que sempre tingia as suas palavras.
Então, dessa vez, ele ligou para ela, pelo que ele jurou que seria a última vez.
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