Guarda-costas
95 Capítulo noventa e cinco
Notas iniciais
Naruto sentiu a sua cabeça doer, mas pela primeira vez em muito tempo, ele finalmente parecia ter acordado. Ele não podia negar que havia gastado muito tempo se preocupando com coisas pequenas, distraído com os seus planos, negócios, ambições, e com a sua própria raiva. Em resumo, ele simplesmente tinha voltado a época em que tinha de treze a quinze anos e possuía uma grande venda em seus olhos.
Ele havia se esquecido o quanto haviam coisas que eram falsas no visual. Que ninguém percebia a natureza, a sua família era a maior prova disso, todo o mundo que o cercava era assim, inclusive as pessoas, inclusive ele.
E ele finalmente havia percebido o seu engano.
Os últimos dias tinham sido tão difíceis que chegaram ao insuportável, ele chegou a se perguntar mais de uma vez, o porquê ele estava gastando todo o seu tempo e resto de sanidade com uma coisa que ele sabia que não tinha como recuperar.
Mas, Naruto nunca foi longe nesse pensamento, porque era impossível para ele voltar atrás e começar do início.
Ele havia descoberto tantas coisas nos últimos dias, e todas essas descobertas aconteceram vindo de pessoas que ele não poderia sequer sonhar que poderiam abrir os seus olhos.
Itachi que lhe revelou que seu pai estava vivo, Sakura que lhe ensinou que a sua família continuava miserável e Hinata que lhe mostrou que ele estava sonhando acordado com coisas que ele não tinha o direito.
Sua Hinata que sozinha tentou fazer o que ele, em todos os seus anos de vida nunca pensou ser possível: cobrar satisfações de um Uzumaki. Hinata simplesmente em seu impulso de ódio, o deixou para trás e correu atrás de vingança.
Não vingança, justiça. Justiça pela pessoa que ela amava tanto. Sakura Haruno.
Naruto queria ter pelo menos um milésimo da coragem daquela menina, porque ele também tinha muitas coisas para tirar satisfação e afogar sua raiva. Sua mãe era uma psicopata, seu tio um mentiroso covarde, seu pai, um verdadeiro idiota cego...
Esta última era uma característica que ele havia herdado do seu pai: a cegueira paralisante que parecia quase inacreditavelmente absurdo para quem acompanhava de longe. Parecia absurda até mesmo para Naruto, porque ele sabia que, dessa vez, ele havia escolhido ser enganado.
Isso porque ele foi prepotente o suficiente para achar que estava forte o suficiente para encarar tudo do qual havia corrido.
Ele achou que voltar para Tókyo, como o herdeiro da família Uzumaki, era a sua forma de mandar todo mundo que sempre duvidou dele se fuder. Ele achou que poderia recuperar a sua mãe, que a muito tempo havia se tornado uma das mulheres mais cruéis que ele alguma vez já conheceu. Ele também achou que poderia destruir com as famílias das tríades e extinguir a insana guerra pela qual o seu pai morreu.
Ele achou que conseguiria enganar a todos, fazê-los acreditar que ele não era nada mais que um filhote sem garras e quando chegasse a hora, ele iria capturar, destroçar e destruir. Mas, em vez disso, ele foi de novo levado pelo nariz.
As suas alianças eram apenas formas de seus inimigos se aproximarem ainda mais dele, os seus planos estavam sendo usados de fachada para que outras pessoas agissem pelas suas costas e o seu amor, foi utilizado apenas como uma arma para rasgá-lo por dentro.
Hinata...
Ela provavelmente o odiava. Ela provavelmente o queria morto com todas as forças das suas delicadas mãos.
E ela tinha todo o motivo para isso, porque ele havia sido um desgraçado com ela também. Ele havia a feito acreditar que ele não mais confiava em sua palavra, que era fácil dar as costas e ir embora sem olhar para trás. Mas como isso poderia ser possível?
Ela era a única coisa que parecia de verdade em sua vida. Tudo que lhe fazia verdadeiramente feliz.
E todas as pessoas que o odiavam sabiam disso. Esse também havia sido um dos seus erros, deixar que acessassem muito facilmente a pessoa que mais lhe importava na vida.
Mas, felizmente, agora ele sabia o que fazer, porque infelizmente aquela distração também havia ido embora.
Naruto chegou em seu destino e os portões da casa foram imediatamente abertos para ele. Nenhum dos guardas que vigiavam aquela mansão apareceram e isso — mais ou menos – significava que a outra parte também queria lhe ver.
Naruto sentiu o sangue circular mais rapidamente no seu corpo e continuou dirigindo até a casa principal. Depois saiu do carro e esperou. Dois segundos se passaram e a pessoa que ele queria ver finalmente apareceu.
Gaara. Sabuku no Gaara.
Naruto puxou a arma de trás das suas costas e apontou em direção ao ruivo que permanecia parado encostado na porta. A distância entre os dois era longa, mas ele estava se sentindo sortudo o suficiente para, em caso de ter uma chance, atirar na cabeça daquele ruivo.
Seu aliado.
Gaara poderia facilmente ser a primeira pessoa que ele mataria. Porque os dois tinha um acordo. Tsunade por sua ‘sombra’ e Sasuke.
Naruto havia cumprido a sua parte do acordo. Tsunade provavelmente estava morta em algum lugar, porque, se havia uma coisa que a família Sabuko no sabia fazer era assassinar prolificamente. Eles simplesmente descartavam as pessoas que queriam ou precisavam.
Tsunade era alguém que ele queria e precisava matar. Assim, como a sua mãe.
Demorou um tempo para ele perceber o porquê todas as coisas que ocorreram, aconteceram de forma tão rápido sem o seu mínimo conhecimento, mas depois que a desconfiança surgiu, foi fácil perceber quem estava por trás de camuflar essas situações.
Sua mãe também havia facilitado bastante a sua procura, deixando um testamento e vários diários contado segredos de pessoas influentes e conhecida, os medos de algumas pessoas, seus próprios, contatos influentes que poderiam lhe alavancar a qualquer momento se precisasse. Várias vantagens que apenas podem ser conquistadas se arrancadas a base da manipulação, chantagem e ilegalidade.
Mas, não havia sido nada daquilo que o trouxe até a porta daquela casa. Isso porque nos diários de Kushina, ela também relatava todas as suas maiores crueldades.
E Gaara era o resultado de uma delas.
Segundo, as anotações, Kushina havia tido um papel muito importante no massacre da família dele, pois ela havia sido a pessoa a contar para Tsunade onde estava a família Sabuko. Pior que isso, ela havia feito a isca para apanhar todos eles de uma única vez, inclusive as crianças.
Uma verdadeira chacina. E o único sobrevivente daquele dia, era o homem ruivo que o observava com olhos gelados.
Naruto queria sentir vontade de matar ele, mas ele não tinha. Obviamente, que se chegasse a tal ponto, ele faria, afinal, um homem fazia o que era necessário, mas ele não tiraria prazer nisso. Não como Gaara tirou, enquanto movia o show atrás das cortinas apenas para alcançar a sua tão almejada vingança.
Gaara continuou a observá-lo cuidadosamente e quando seus olhos finalmente caíram para a arma que Naruto segurava, os lábios dele se curvaram em um sorriso quase imperceptível.
Naruto se irritou com aquela frieza, mas ele já estava acostumado com pessoas assim. Ele avançou com a arma ainda em mãos, subindo o pequeno lance de escadas que o levava para perto de Gaara e quando chegou perto o suficiente para apontar a arma diretamente na cabeça dele, ele percebeu a presença de mais duas pessoas se aproximando.
Naquela distância, eles não poderiam fazer nada se ele realmente resolvesse atirar, mas esse não era o ponto. Naruto nunca conseguiria sair dali vivo se o gatilho fosse puxado.
Naquele breve instante, ele entendeu ainda melhor o momento de insanidade que Hinata havia passado, quando havia enfrentado sozinha todas as pessoas que lhe predicaram. Ele entendeu que não era um sopro de confiança que o empurrava para sempre, mas o simples desprezo pela própria vida.
Hinata havia se sentia culpada por Sakura, Naruto imaginava.
E ele se sentia culpado por ela.
Era como se o evento da sua morte fosse um acontecimento monótono que tanto faz se ocorresse naquele momento, porque qualquer coisa era muito melhor que aquele vazio desesperador que assolava o seu peito.
Gaara também era assim, Naruto facilmente conseguia enxergar a familiaridade de sentimentos nos olhos dele. O mesmo esvaziamento e ausência de empatia.
A diferença entre os dois e Hinata, era que Hinata era uma pessoa normal. Ela poderia ter momentos assim, mas eles passavam... Naruto e Gaara estavam presos nesse sentimento, porque simplesmente não havia ninguém que pudesse guiá-los a outro caminho.
Naruto achou que Hinata fosse o seu caminho, mas o efeito foi inverso. Havia sido ela a ser puxada para o inferno que era a sua vida e não o contrário.
— Que maravilha, os dois se mostrando para saber que está mais preparado para comer bala primeiro.
A voz veio de trás de Gaara e era bem conhecida para Naruto. Kiba apareceu atrás das costas dele e olhou por cima de seu ombro. Naquela distância, Naruto imaginou que Gaara iria sutar, porque pessoas como ele não gostava que ninguém se aproximasse demais, Naruto mesmo nunca conseguia se acostumar com isso, exceto, se a pessoa guardando as suas costas fosse Hinata.
A única pessoa que ele se sentia confortável.
O moreno tocou levemente o braço de Gaara que olhou por cima do ombro em direção a ele. Os dois trocaram olhares por alguns segundos, antes de Gaara suspirar e entrar na casa.
Era como se ambos conseguissem se comunicar sem expressarem uma única palavra. Quase como ele costumava fazer com Hinata. Na verdade, idêntico.
Kiba deu um sorriso envergonhado para Naruto, algo bem pouco habitual de sua personalidade. Naruto conhecia Kiba por ser tão insanamente temperamental quanto Hinata, até mesmo por isso, ele não se incomodava quando ele a substituía em seus dias de folga.
— Hei.
Naruto acenou com a cabeça, mas perguntou com um pouco de exasperação. – Então, você está realmente trabalhando para ele?
Kiba revirou os olhos e olhou de relance para dentro. – Digamos que estamos em uma tentativa de mútuo acordo.
— Acordo? Gaara não faz acordos... Acredite em mim, eu aprendi isso da forma mais difícil possível.
Naruto guardou a arma e passou as mãos pelos cabelos desgrenhados. Fazia quanto tempo que ele não descansava, ou pelo menos dormia por um pouco mais de três horas por dia?
— Eu sei bem disso, mas, dessa vez, eu quero ser a pessoa a te contar.
— E você sabe de alguma coisa? Claro que sim... Você está aqui com ele.
— Não seja tão passivo agressivo. Embora, eu saiba que o que ele fez não foi exatamente correto, mas ainda assim, ele tem as suas próprias razões. Você mesmo estava empunhando uma razão parecida agora a pouco, enquanto apontava a arma para ele.
Naruto suspirou frustrado. – Ele é um filho da puta!
— Eu sei. Ele deixou que muitas coisas acontecessem quando não era necessário, mas isso não foi culpa exclusiva dele. – Kiba colocou as mãos no bolso parecendo tão frustrado quanto o próprio Naruto. – Você e ele são mais parecidos do que você pensa, cada um fazendo coisas que apenas beneficiam a si próprios. Eu não posso falar nada quanto a isso, porque, no meu caso, eu seria o sujo falando do mal lavado, mas eu posso te garantir nessa situação, as coisas acabariam acontecendo igualmente de um amaneira ou de outra.
Naruto começou a andar em frente a porta de Gaara, sabendo onde toda aquela conversa estava se aproximando, mas se negando a acreditar.
Naruto havia lido, todos os diários de Kushina. Todos. Então, ele sabia o que tinha acontecido. Sabia que outra pessoa sentiu uma dor tão imensurável quanto a sua. E ele sabia que aquele conhecimento estava o enlouquecendo pouco a pouco.
Aquele havia sido o motivo de ele ter se dirigido até aquela propriedade. Ele queria informações, mas parecia que Kiba sabia de tudo melhor que Gaara, então ele de fato não precisaria matar o ruivo.
— Você que um nome, não é? – Kiba perguntou, sentindo-se quase triste. – Não foi por isso que você veio até aqui? Eu posso te dar um, mas não acho que isso vai te fazer sentir melhor.
Naruto parou de andar e observou os olhos pretos de Kiba. — Apenas me diga, não pode ser pior do que eu já sei.
Ele disse isso com o coração agitado, sabendo que precisava apenas daquela confirmação como a última pá de cal em tudo que restava de vivo dentro dele. Mas o que Kiba disse conseguiu ser ainda pior.
— Yumi. Yumi é a sua sombra. Foi ela que destruiu a vida de Sakura. Hinata. E a sua.
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