Guarda Costa
24 Pense nisso..
Notas iniciais
Estava quase terminando o filme e o meu musse de maracujá quando me ligam. Demorei mais tempo para achar o controle remoto -que estava em baixo do sofá- do que eu demorei para achar o celular -que de alguma forma foi parar embaixo da minha bunda.
— Alô? — Atendi me levantando, tinha que aproveitar a pausa para esticar as pernas, levar os papeis e embalagens para o lixo.
— Bianca? — Soou uma voz familiar, mas até então irreconhecível para mim.
— É ela. — Arremessei o papel que embrulhava o lanche como um jogador de basquete — Quem é?
— Oi querida. É a Isabelle, mãe da Noah. — Afastei o celular do ouvido rapidamente para ver seu número, mas lá constava que era do celular da Noah.
— Eu estou fazendo um almoço em família — Continuou — E queria saber se você não gostaria de vir aqui.
— Putz.. não vai dar dona Isab- Alguém na outra linha me interrompeu. "mãe, com quem a senhora está falando?"
— Ninguém, meu amor. — Respondeu Isabelle tranquilamente. "mas.. é o meu celular " Afirmou quem supus que era Noah — Não, filha. É o meu. A mãe comprou um igual ao seu. — Riu fraca. "até a capinha do Mario Bros. ?" — Garotos, agarrem sua irmã. — Ela ordenou. "não.. " ouvi alguns pequenos estralos, creio que ela estava batendo na mão dos irmãos " se afastem.. não quero começar a bat- AAAAhh.. Marcos, Marcos me solta Marcos, me solta"
—Tampem a boca dela. — E a voz de Noah desapareceu — Levem ela lá pra cima. — E ouvi vários passos — Agora.. Bianca — Voltou a falar mais perto do celular — Até você chegar, Noah vai ficar trancada sem água, comida e principalmente sem ir ao banheiro. Venha logo, não quero perder uma filha. — Ela desligou. Essa sem duvida nenhuma foi a ligação mais.. perturbadora? Engraçada? Assustadora?
A contragosto coloquei meu musse pela metade na geladeira e fui me arrumar para sair, justo no meu dia do ano preferido. Tomei um banho, e vesti uma camisa de alça branca sem estampa, shorts jeans também branco, jaqueta jeans e um All Star vermelho. Peguei meu celular, carteira e chaves. Tranquei a porta do meu apartamento, me dirigi para o elevador, entrei e apertei o botão do sub-solo.
No sub-solo, caminhei apressadamente até o meu carro, manobrei e sai do estacionamento. Apenas quando parei no primeiro sinal vermelho que lembrei que não sei o endereço de Isabelle. Saquei meu celular e liguei para o número da Noah, quem atendeu foi a sua mãe.
— Pois não? — Pelo tom da sua voz ela sorria.
— Pode me passar o seu endereço? — Ela suspirou... impaciente?
— Vá para a casa de Noah. Marcos irá guia-la a partir de lá. — Novamente desligou na minha cara. Parecia realmente que eu estava negociando com um sequestrador, um chefe de máfia ou até mesmo um traficante.
À três casas da casa de Noah conseguia ver duas figuras encostadas nem um carro preto. Eles pareciam notar minha presença já que antes mesmo de eu identifica-los eles já estavam olhando para o meu carro. Estacionei atrás do carro deles e sai. Eram um cara grande, forte e moreno e uma mulher mulata. Eles se viraram para mim e ficamos nos encarando. Depois do que pareceram horas observando o maior, ele sorriu. Um sorriso familiar. O sorriso de bobo alegre que Noah e Yuri tinham. No tempo que fiquei olhando ele percebi que ele tinha sardas que nem a irmã.
— Podemos ir? — Ele perguntou com o sorriso nos lábios — Aliás, sou Marcos — Ele estendeu a mão esquerda, apertamos as mãos — Essa é a minha esposa Julie — Ela sorriu simpática e apertou a minha mão assim como o marido.
— Prazer, Bianca. — Respondi. O moreno arqueou as sobrancelhas e abriu um pouco a boca, curiosa perguntei — Que foi?
— Nada — Ele se remexeu no lugar olhou para a mulher, que sorriu cúmplice — Devemos ir — Ele abriu a porta traseira do carro para mim — Senhorita.. — Entrei no carro. Logo depois os dois entraram, Julie dirigindo e Marcos no passageiro.
Durante o caminho inteiro não trocamos uma palavra se quer. Eu me concentrava no caminho, nome das ruas, direção essas coisas. Quando estacionamos Marcos anunciou que havíamos chegado. A casa era simples de dois andares, pintado de branco e os telhados azuis. Garagem com uma cesta de basquete pendurada a uns dois metros do chão. No jardim uma casinha rosa com mesa de plastico e uns talheres postos sobre a mesa, todos variando em tons de rosa e branco.
Segui pelo caminho que levava da calçada até a porta da casa. Marcos abriu a porta e me deixou passar primeiro. Para me receber estavam todos que eu supus serem os irmãos, sobrinhos e cônjuges dos mesmos. Eles foram me dando passagem, formando um caminho até as escadas. Yuri estava aos pés da escada com o braço passado pelos ombros de um homem que eu não conhecia, ele estendeu uma pequena chave, sorriu e falou para subir as escada que seria a terceira porta a esquerda. Assim o fiz. Contei as portas na minha esquerda e observei como elas eram totalmente distintas umas das outras.
A primeira na minha esquerda, era cor de vinho e tinha placas de transito muito mal presas com presos. A seguinte, era branca e lisa com vários desenhos em estilo mangá coloridos. A terceira era dividido ao meio, em uma parte era azul escuro com detalhes em preto, a outra metade era o seu completo oposto, Rosa com flores brancas. Abri a porta e espiei. De cara já vi Noah sentada aos pés da cama com os braços para trás e a cabeça baixa. Entrei e me aproximei dela.
— Eu não sei o que é mais perturbador — Começou sem me encarar — Os meus irmãos e sobrinhos se voltarem contra mim, ou, eu estar algemada com a algema de fetiche da minha mãe. — Eu ri e ela me encarou parecendo triste.
— Como você sabe que é a algema da sua mãe? — Me sentei na cama. Ela se contorceu e conseguiu me mostrar as algemas, rosas com pelinhos. Minha risada aumentou e ela empurrou meu joelho com o ombro direito.
— Você veio para me resgatar ou para rir da minha cara? — Ela juntou as sobrancelhas em uma tentativa falha de brigar comigo. Eu me inclinei em sua direção e comecei a roçar o meu nariz no dela. Nossas respirações se misturando, meu coração disparando ao ponto de eu achar que Noah conseguia ouvir. Meu olhar ainda fichado no dela, já o dela, por mais que ela tentasse me encarar seus olhos sempre recaiam para os meus lábios.
— Não sei — Falei — Será que eu vim te tirar daqui? — Ela avançou tentando selar nossos lábios, mas eu fui mais rápida e me endireitei, levantando em seguida, caminhando na sua frente. Ela não conseguia esconder a frustração, sua boca virara um bico e ela fazia questão de ficar soprando a franja do da hora. Caminhei até a cadeira do computador e a trouxe para perto de Noah e me sentei.
— Você estragou o meu dia do lixo — Falei apoiando o queixo nas mãos e o cotovelo no joelho.
— Eu eu com isso? — Ela virou a cara para a esquerda.
— Como punição, pensei em te torturar um pouco antes de te libertar. — Ela me encarou franzindo o cenho. Entrelacei os meus dedos e estiquei minha mão em sua direção, estralando todos os nós. Com essa deixa, Noah começou a se contorcer e sacudir tentando se livrar.
Eu fui me aproximando ajoelhei ao seu lado e comecei a fazer cócegas em sua barriga, só parei quando ela não conseguia guia mais aguentar e começou a gritar "penico! Penico! Pe- Pe- ". Sua respiração estava desregular e ela tinha a cabeça apoiada na cama. A morena voltou a olhar para mim, com uma cara de piedade.
— Me solta, Bibi.. — Fez beicinho — Por favor.. — Peguei a chave no meu bolso e mostrei.
— É essa chave que você quer? — Ela concordou. Eu me aproximei e vi como tinham prendido Noah. Haviam colocado a corrente embaixo do pé da cama, isso me deu uma ideia. Soltei a sua mão direita e joguei a chave um pouco depois dos seus pés — Vai pegar — Noah ficou me olhando com cara de boba alegre e então sorriu vitoriosa.
— Eu só preciso de uma mão mesmo — Ela segurou a minha nuca e selou nossos lábios. O que começou com um selinho, virou um beijo calmo e então nossas línguas começaram a digladiar para ver qual das duas ficaria com o espaço.
Quando o ar nos faltou, nós nos separamos. Eu sentia meu rosto arder, quando olhei para Noah ela estava concentrada em pegar a chave, agindo como se nada tivesse acontecido, mas via sua língua passar constantemente sobre os lábios. Eu me inclinei e peguei as chaves. Noah olhava para elas como um cachorro olha para a sua bolinha, parecia que se eu jogasse longe ela tentaria correr atrás das chaves.
— Deixa que eu te ajudo — Ela sorriu de canto, como se o beijo tivesse me convencido a solta-la — E o beijo não interviu na minha decisão.
— Então acho que devia te beijar mais um pouco — Ela me tocou na bochecha de leve — Que tal? — Falou rosando os lábios nos meus.
— Acho que.. — Ela sorriu de canto — Você está solta. Pode ir. — Eu me afastei e ela olhou para os pulsos, que estavam vermelhos. Ela passou a mão nos pulso e se levantou.
— Valeu — Penteou os cabelos com os dedos.
— Foi nada — Deixei a chave na comoda atrás de mim.
— Não serio mesmo — Ela se aproximou. E a cada passo que ela dava para frente, eu dava para trás. Até chegar no limite que era a parede. Ela colocou uma mão ao lado da minha cabeça, e a outra passou na minha cintura — Eu sei que esse plano maluco da minha mãe foi só para te trazer aqui e te apresentar para a minha família.
— Sua mãe é meio maluca, né ? — Rimos — Ela podia ter me ligado normalmente e não ter te sequestrado.
— É .. — Concordou — Mas talvez você recusasse e se você recusasse.. Eu nunca teria te falado isso.
— Que sua mãe bolou um plano maluco para eu vir aqui? — Sorri.
— Que eu te amo — Meu sorriso se foi — E que eu quero.. namorar com você — Eu estava em choque, meu coração disparou na hora. Não sabia o que dizer, eu balbuciei algo como "aah... buuhh.. uhh.. " fazendo ela franzir o cenho — Que? Não precisa responder agora, Bia. Pensa nisso — Ela me deu um selinho antes de ir. Eu a ouvir indo para as escadas e berrando — EU VOU MATAR QUEM ME ALGEMOU — E desceu rapidamente.
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