GuCilia - Uma História Diferente
12 Capítulo 12 - Voto de Silêncio?
Notas iniciais
— Me perdoa? – O empresário perguntou novamente
— Levanta daí, por favor. – Disse pegando as mãos dele – Não sei se você merece o meu perdão, você me ofendeu muito. – Disse sinceramente
— Eu já imaginava que talvez você não me perdoasse.
— De qualquer forma, aqui não é lugar e muito menos hora pra falarmos disso.
— O que você quer fazer? – Ele perguntou
— Agora? Pensar e dormir. Amanhã conversamos, longe da Dulce Maria. – Disse se deitando
— Está bem. – Ele estranhou o jeito seco de Cecília, não imaginava que ela pudesse agir assim com ninguém
“Eu fiz por merecer. Ai Gustavo, porque você tinha que ser tão idiota?”— Ele pensava
— Não vai deitar? – Ela perguntou o olhando
— Aí, com você?
— Lógico, onde mais? Eu posso estar chateada com você mas ainda te amo.
Ele esboçou um sorriso, mas logo foi cortado.
— Não sorria, a situação não mudou. Eu te amo, a aliança vai continuar aqui onde está, mas só vamos conversar amanhã.
“Meus parabéns Gustavo, olha só o que você conseguiu!”— Ele pensou enquanto se deitava ao lado de Cecília
— Boa noite! – Ele disse
— Boa noite! – Ela respondeu virando-se para o lado contrário ao dele
Cecília sentia seu coração apertar por agir daquela maneira com Gustavo, mas era preciso. Ele a tinha ofendido e magoado, e ela não podia passar por cima da situação, perdoá-lo como se nada tivesse acontecido. Não sabia ainda o que faria, mas tinha certeza que uma oração ajudaria. Em silêncio, pediu a Deus por uma orientação, e dormiu certa de que saberia o que fazer no dia seguinte.
Em seus sonhos lembrava-se de tudo o que já vivera ao lado de Gustavo e Dulce Maria, cada momento estaria eternizado em seu coração. O primeiro olhar, a aproximação, o pedido de namoro, as alianças, os passeios, a viagem, o terror do sequestro de Dulce Maria, o casamento de brincadeira e, por fim, uma briga. Tudo aquilo em menos de uma semana.
Seu amor por Gustavo era algo que lhe arrebatava, lhe dava coragem e confiança para enfrentar um mundo que até então não conhecia. Para ela Gustavo era o homem perfeito, sempre seria, dadas as tantas provas de amor compartilhadas entre eles, e a maior delas sem dúvida seria sempre a atitude dela no sequestro de Dulce Maria. Ela daria sua vida por eles. Como tamanho amor podia ser questionado por causa de um mal entendido?
Quando Cecília acordou, Gustavo e Dulce ainda dormiam. Aproveitou e ligou para Fátima para pedir que fosse ficar com Dulce Maria enquanto ela saía com Gustavo, mas sem dizer o motivo. Já sabia o que fazer e tinha medo que um outro conselho a fizesse mudar de opinião.
— Mamãe? – Dulce chamou
— Bom dia meu amor! Dormiu bem? – Se sentou ao lado da filha na cama
— Mais ou menos!
— Porque minha linda? Teve pesadelos?
— Sim piririm. Eu sonhei com o fogo, com você e o papi me chamando!
Cecília apertou Dulce Maria contra si, e enquanto acariciava seus cabelos tentava confortá-la.
— Meu amor, foi só um susto! A mamãe e o papai estão aqui com você, e vamos estar sempre! Não precisa ter medo, tá?
— E se eu tiver medo, e sonhar com isso de novo?
— Aí você vai lá pra cama da mamãe, pra dormir bem agarradinha comigo!
— Iupiii! Eu adoro dormir com você!
— É, eu sei! Mas fala baixo, pra não acordar seu pai. Olha, daqui a pouco a tia Fátima vai vir pra ficar com você, tá?
— Por quê?
— Eu e o papai precisamos sair pra fazer umas coisas, colocar outra roupa... Depois a gente volta!
Nesse momento uma enfermeira adentrou o quarto, trazendo o café de Dulce Maria.
— Bom dia Dulce! Olha só, seu café da manhã! – Disse falando baixo ao perceber que Gustavo ainda estava dormindo
— Só isso? – Perguntou apontando para o leite e a gelatina na bandeja que estava à sua frente
— É só isso que você pode comer, filha. Mas é só por enquanto.
— Acho bom, porque eu não sou passarinho!
— Não mesmo! Você é a garotinha mais linda desse mundo! – Beijou a cabeça da carinha de anjo
— Com licença, senhora Lários. – Disse a enfermeira se retirando
Cecília fazia aviõezinhos de gelatina para Dulce, que comia com um pouco de desgosto. Gustavo acordou e em silêncio ficou observando aquela cena, tão comum mas ao mesmo tempo cheia de ternura.
— Ela não poderia ter mãe melhor. – Disse depois de alguns instantes, chamando a atenção de Cecília e Dulce
— Eu também acho papi! – A menininha afirmou
— Bom dia filha linda! – Disse beijando o rosto da pequena
— Não vai beijar a mamãe?
— Claro que vou! Bom dia, meu amor. – Arriscou dizer e beijou a namorada, que retribuiu
— Eu já liguei pra Fátima, ela deve estar chegando. Daí nós vamos em casa, conversamos... Tudo bem pra você?
— Tudo bem!
— Quem falou meu nome? – Disse Fátima entrando toda animada no quarto – Bom dia Cecília, Gustavo. Como vai a nossa princesa?
— Muito bem, obrigada! – Respondeu a pequena – O que nós vamos fazer hoje, titia?
— Eu trouxe uns livros que seus pais disseram que você gosta, uns jogos, e a gente também pode ver filmes, conversar, fazer tudo o que você quiser!
— Iupiiii!
— Bom Fátima, nós vamos até em casa, depois vamos sair pra resolver umas coisas. Não sabemos quando voltamos, mas pode ligar se precisar de alguma coisa! Cuida bem da nossa menina! – Cecília falou
— Deixa comigo, ser tia é a minha especialidade! Pelo menos há uns cinco dias! – Brincou – Podem ir em paz, não se preocupem!
— Tá bom então! Filha, obedece a sua tia tá? – Disse dando um beijo na menina
— Pode deixar mamãe!
— Se cuida filha! Até mais tarde! – Disse Gustavo também beijando a menina
[...]
— A Estefânia ligou, queria saber notícias. Eu passei o celular da Fátima, daí ela fala direto com a Dulce. – Ele percebeu que Cecília não o ouvia – Cecília? Cecília! – Chamou um pouco mais alto
— Oi, você disse alguma coisa? – Perguntou saindo de seus devaneios
— Sim, eu disse que a Estefânia ligou pra saber notícias e eu passei o celular da Fátima, daí ela mesma fala com a Dulce. – Ele disse se sentando à frente dela na cama
— Claro, fez bem. É melhor, assim a Estefânia fica mais tranquila!
— Cecília, quer conversar sobre o que aconteceu ontem? Estamos sozinhos em casa, não tem ninguém pra atrapalhar.
Cecília se aproximou dele e o abraçou com toda a força que tinha. Num primeiro momento ele se surpreendeu, mas depois a envolveu em seu corpo de forma confortável. No abraço dele Cecília se sentia segura, forte, livre de qualquer medo, qualquer angústia. Gustavo apertava Cecília contra si, como se assim pudesse absorver toda a dor que ela sentia pela briga, pelo tapa que dera em seu rosto, e pela forma como tinha sido ofendida. Ele se condenava por ter feito sofrer a mulher que mais amava no mundo. Eles ficaram abraçados em silêncio por alguns minutos que lhes pareciam eternos, e que ambos desejavam que fossem.
Quando desfizeram o abraço, os dois tinham lágrimas nos olhos.
— Eu te amo, Gustavo. Te amo mais do que a mim mesma. Por isso eu não quero brigar com você de novo, quero só conversar. – Ela enxugou as lágrimas dele – Só escuta o que eu tenho pra dizer, por favor. – Ele assentiu em confirmação – Desde ontem eu não paro de pensar no que nós já passamos até aqui, desde quando nos conhecemos. Estamos juntos há menos de uma semana e já passamos por tanta coisa... Mas eu não imaginava que depois de todo o romance dos últimos dias, de todo o amor que você disse sentir por mim, você pudesse me ofender, me magoar tanto.
— Me perdoa, por favor. – Ele pediu
— Eu ainda estou muito magoada com você, de verdade. Você não imagina como me doeu ter que te dar aquele tapa! – Ela começou a chorar e ele enxugou suas lágrimas – Eu nunca tinha batido em ninguém, e precisar bater justamente no homem da minha vida, no homem com quem eu quero me casar, doeu muito. Mas... Eu pensei e decidi que enquanto estivermos aqui, com a Dulce no hospital, vamos continuar agindo como casados, pra evitar de termos mais problemas e evitar que ela perceba alguma coisa.
— E depois? – Ele perguntou
— Depois é depois. Quando voltarmos pra Doce Horizonte conversamos de novo, talvez seja bom ficarmos um tempo separados, pra pensar. Porque se na primeira discussão você já agiu dessa forma horrível comigo, imagina quando nos casarmos? Mas por enquanto ainda somos “casados”, as alianças ficam onde estão.
— Obrigado por isso, meu amor. – Pegou as mãos dela
— Não me agradeça, porque a partir de hoje começa um voto de silêncio. Só vamos conversar sobre assuntos relacionados à Dulce Maria. Quando estivermos com ela vamos agir normalmente, mas quando estivermos sozinhos... Nem uma palavra.
Gustavo se surpreendeu com a forma que Cecília escolheu para resolver a situação deles. “Voto de silêncio?”— Ele pensava – Não tirava a razão dela, afinal ele merecia.
— Ok, voto de silêncio. Tudo bem, eu mereço. Esse voto vale pra beijos também?
— Vale. Sem beijos, sem declarações, sem nada. E nem pense em se aproveitar da situação quando estivermos com ela! – Disse com firmeza
Gustavo tinha no rosto uma expressão culpada, chateada. Aquilo cortava o coração de Cecília mas ela precisava ser firme, pelo menos até voltarem pra casa. Ela pensou e decidiu dar a Gustavo um pequeno consolo.
— Vamos fazer uma coisa: Um último beijo, último abraço e última declaração de amor antes do voto de silêncio. Depois disso só quando voltarmos pra casa, se eu resolver te perdoar.
Gustavo se aproximou mais de Cecília, acariciou seu rosto e puxou-a lentamente para um beijo. Talvez o beijo mais apaixonado que já dera nela, como se através dele pedisse perdão. Ela não resistiu em nenhum momento, não queria resistir, queria desfrutar cada eterno segundo daquele beijo porque não sabia quando o beijaria de novo. Sentiu vontade de ir mais longe, mas se controlou. Quando sentiu o ar lhe faltar encerrou o beijo, mas Gustavo a beijou novamente, com mais intensidade. Ela resistiu por alguns segundos mas se deixou levar pela sensação inebriante do beijo de seu amado.
— Eu te amo, Gustavo. Não se esqueça disso nunca. Você é o amor da minha vida, é por você que eu me levanto todos os dias, é por você que eu enfrento quem precisar. Você é meu real e grande amor. – Ela se declarou após se separarem
— Cecília, minha namorada, minha esposa de mentirinha, razão da minha vida. Eu vou provar quantas vezes você quiser que eu me arrependo do que fiz. Vou te conquistar de novo, com pequenos gestos, pequenas provas de amor. Eu prometo, aqui e agora, fazer de você a mulher mais feliz do mundo, e nunca mais te fazer sofrer. Eu te amo.
Ele a olhou profundamente e a abraçou. Se fosse preciso ficaria ali o resto de sua vida, apenas sentindo o perfume doce do amor de sua vida.
Ela permitiu-se chorar mais uma vez, enquanto aproveitava o máximo daquele abraço que ela desejava que durasse para sempre. Se aconchegou nos braços de Gustavo por alguns minutos, e depois de desfazer o abraço disse as palavras mais difíceis da sua vida até aquele momento.
— Sem mais beijos, declarações e abraços. O voto de silêncio começa agora. – Disse enxugando suas lágrimas
O caminho para o hospital foi feito no mais completo silêncio, o que doía no coração deles. O que mais queriam naquele momento era dizer o quanto se amavam, conversar sobre o futuro, fazer planos... Tudo aquilo fora estragado por uma estupidez. Apesar de tudo, entraram no hospital de mãos dadas, como marido e mulher. Para infelicidade deles, a primeira pessoa com quem cruzaram foi justamente o pivô da quase separação: Dr. Moraes.
— Bom dia. – Disse o médico, um pouco desconfortável – Que bom encontrá-los aqui, quero me desculpar novamente pelo mal que eu lhes causei, dizer que encaminhei o caso de Dulce Maria a outro médico e agradecer por não terem me denunciado.
— Não se preocupe mais com isso, doutor. Minha esposa e eu já conversamos e nos entendemos. – Gustavo respondeu, olhando para Cecília – Agora basta que você aprenda a lição.
— Isso eu aprendi, tenha certeza. Mais uma vez me desculpem, com licença. – Se retirou
Gustavo e Cecília continuaram de mãos dadas até chegarem ao quarto, onde Dulce ria de alguma coisa que a tia contava.
— Pelo jeito a conversa está muito boa! – Disse a ex-noviça entrando no quarto e indo até a cama da filha
— A tia Fátima estava me contando histórias de quando vocês eram pequenas! – A menina disse enquanto recebia um beijo dos pais – Ela disse que você aprontava mais que eu e a irmãzinha Fabiana!
— Ai meu Deus, com tanta história pra você contar pra ela, tinham que ser justo essas, Fátima? – Disse a jovem
— Essas histórias é que são boas! – A cozinheira riu — Lembra de quando você fugiu e quase pôs fogo no orfanato?
— Lembro, uma história daquelas não se esquece nunca! Mas dizer que eu aprontava mais que a Dulce e a Fabiana juntas é um pouco demais, ninguém vence essas duas! Quando eu estava lá já era difícil de controlar, imagina agora?
— Ai mamãe, nem é tão ruim assim!
— Ah não? – Ela riu – Primeiro você assalta a despensa do colégio, solta um porquinho da índia no meio de um jantar, suja uma moça com molho de cachorro quente, luta caratê com duas colegas, depois foge de casa, lidera uma manifestação contra a minha saída do colégio, assusta todo mundo com um extintor... Eu esqueci alguma coisa? – Enumerou fazendo cócegas na pequena
— Meu Deus, ela já fez tudo isso? – Fátima questionou, surpresa
— Já! E a maioria dessas coisas ela fez por ideia da Fabiana!
— Mas eu fiz por uma boa causa! Não queria nenhuma mulher feminina perto do meu papi, queria que ele casasse com você!
— E pelo jeito deu tudo certo, porque seus pais estão até brincando de marido e mulher!
— Era isso mesmo que eu queria! Só falta eles casarem de verdade!
— Pra isso ainda falta um pouco, filha. – Gustavo comentou – Por falar nisso, eu preciso sair pra resolver umas coisas, talvez só volte à noite. Tchau pra vocês!
Gustavo saiu do quarto e deixou Cecília curiosa para saber o que ele faria.
— O que será que ele vai fazer agora?
— Deve ser alguma surpresa! – Fátima arriscou um palpite – E deve ser pra você, pra ter saído sem te dar um beijo!
— Pra isso tem outro motivo, que eu te explico depois!
— Vocês brigaram?
— Não, depois eu explico! – Disse apontando para Dulce com o olhar. Por sorte a menina estava distraída e não percebeu o olhar da mãe
Já na rua, Gustavo fazia algumas ligações necessárias para concluir seus planos de surpreender Cecília. Conseguiria o perdão dela de qualquer maneira, não poderia esperar até voltarem para Doce Horizonte. A amava muito e se arrependia profundamente de tê-la magoado de uma forma tão rude.
— Meu amor, eu vou fazer de tudo para conseguir o seu perdão!
Após mais algumas horas ele voltou ao hospital e encontrou Dulce e Cecília conversando.
— Como estão os amores da minha vida? – Ele disse entrando no quarto
— Papi! Que saudade! – Disse a pequena pulando no colo de Gustavo
— Que bom te ver tão bem, filha! – Disse a colocando de volta na cama – Tudo bem, amor?
— Tudo! – O beijou – Onde esteve?
— Resolvendo umas coisas aí.
— Que coisas papi? – Dulce quis saber
— Assuntos da empresa, filha. Cecília, vem aqui fora comigo um minuto?
— Algum problema?
— Não, fica tranquila!
Mesmo sem saber o que ele queria, Cecília o acompanhou até o corredor.
— O que houve, Gustavo? Esqueceu do voto de silêncio?
— Não, não esqueci. Mas eu quero lhe fazer um convite.
— Convite? Isso viola o nosso acordo! Esqueceu que não iríamos nos falar longe da Dulce Maria?
— Cecília, por favor! Eu garanto que você vai gostar! Por favor meu amor, aceita o meu convite!
— Gustavo, eu não devo! Não quero descumprir o nosso acordo, aliás, já estamos descumprindo. – Começou a falar, tentando fugir da tentação de aceitar o convite dele – Além do mais, alguém tem que ficar cuidando da Dulce Maria, não podemos deixá-la sozinha e... – Ele colocou seu dedo indicador nos lábios dela, a interrompendo
— Pare de falar um pouco, meu amor. Esqueça esse voto de silêncio, só por hoje. Por favor, aceite o meu convite! – Pediu novamente
— Eu não tenho porque aceitar esse convite, seja ele qual for. Nós temos um acordo e não vou descumpri-lo. – Ela continuava resistindo
— Por Deus, Cecília! Você vai negar um convite meu?
— Vou. Nós temos um acordo! – Repetiu — Além do mais, que motivos eu tenho pra aceitar esse seu convite? Me dê pelo menos um motivo pra eu esquecer esse acordo e aceitar o seu convite.
— Você se lembra porque deixou o colégio? Por amor a mim e para ter uma família, comigo e com a Dulce Maria! Se não for por mim, que seja pela nossa filha. Por favor. – Ele pediu em tom de súplica
— Eu... Não sei.
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