GuCilia - Uma História Diferente
5 Capítulo 5 - Vida nova
Notas iniciais
Ao fim da festa, Gustavo, Cecília e Dulce Maria foram até o quarto da ex-noviça para pegar tudo o que ela levaria para o apartamento dos Lários. Tinha comprado uma mala bem maior, para que coubessem todas as suas coisas novas. Os três levaram algum tempo pra arrumar tudo, já que sempre perdiam o foco graças a alguma brincadeira da filha ou algum pedido dela pra que eles se beijassem, sempre atendido. Quando terminaram a arrumação, Cecília olhou mais uma vez para o quarto lembrando-se de tudo o que tinha vivido lá, seria grata por tudo sempre; sorriu antes de fechar as portas e sair com o namorado e a filha radiantes até o jardim.
Ao chegarem, uma comitiva os esperava. O coral estava posicionado no palco, com as alunas e as irmãs, e logo à frente estavam a Madre, Pascoal, Inácio, Diana, Zeca e Zé Felipe. Estefânia, Vitor e Gabriel também estavam ali. Começaram a cantar a música “Brincar de Viver”, deixando Cecília tomada pela emoção. Ela assistia àquela homenagem com lágrimas nos olhos, Gustavo percebeu e a abraçou acompanhado de Dulce, que logo estava no colo da mãe. Ao fim, Fabiana piscou para ex-noviça, que retribuiu. A Madre se aproximou e disse algumas palavras.
— Cecília... Estou orgulhosa pelo passo que você está dando hoje ao lado da sua família. Você batalhou contra si mesma por um longo tempo para ter a felicidade e a família que sonhava ter. Entendeu que existem muitas outras formas de servir a Deus. Prova que assimilou tudo o que te foi ensinado, e que eu cumpri meu dever enquanto Superiora, de te guiar e orientar a seguir o melhor caminho. Você foi parte importantíssima em nosso colégio, tenha certeza disso. Sempre carinhosa, dedicada, solícita e disposta a ajudar quem precisa! Você ensinou às nossas alunas que o amor sempre será o mais importante, e que vence qualquer barreira. Eu tenho certeza que todo esse carinho vai ser levado com cada um de nós a vida inteira, e as nossas crianças saberão por em prática o que você ensinou. E a Dulce, — Dizia a Madre já emocionada — que vai ter a sorte de ser criada por você, vai ser uma grande mulher, como você é. Eduque sua filha sempre com amor, carinho, parceria, confiança, mas também com disciplina e firmeza! Você vai fazer muita falta aqui, e te peço que não se esqueça de nós... Venha quando quiser, será muito bem-vinda!
Àquela altura todos já estavam comovidos, e não continham as lágrimas. Cecília colocou Dulce nos braços de Gustavo e se aproximou da Madre, abraçando fortemente a que por muitos anos foi sua referência materna. Talvez com ela tenha aprendido a ser uma boa mãe para Dulce Maria. Depois chegou mais perto dos amigos, que por muito tempo foram sua única família.
— Eu não sei nem o que dizer depois dessa homenagem linda que vocês fizeram pra mim... Sou e vou ser sempre muito agradecida por tudo que passei aqui. Aprendi muito com cada um de vocês. Meninas, — Disse olhando para as crianças – Vocês me ensinaram muito, de verdade. A olhar tudo de um jeito melhor, sem maldade, e podem apostar que eu vou levar um pouco de vocês comigo pra sempre. Inácio, Diana, — Aproximou-se deles – Obrigada pela amizade e conselhos de vocês, também me ajudaram muito nessa escolha de felicidade! – Abraçou-os — E você, Fabiana... Minha companheira de quarto, de vida, pra sempre! Não vou esquecer nunca do quanto já aprontamos aqui pra proteger as meninas, das nossas conversas à noite, dos ensaios do coral, do apoio que você sempre me deu nas dificuldades... Obrigada por tudo minha amiga!
As duas se abraçaram com lágrimas, com certeza sentiriam falta de conviverem diariamente.
— Eu que te agradeço Cecília, pela preocupação, companheirismo e amizade de sempre, e também por colocar juízo nessa minha cabeça! – Disse fazendo todos rirem – E não esquece de mim, vem me visitar!
— É claro que eu venho! – Sorriu – Só te peço uma coisa: não se mete em mais confusão, tá?
— Vou tentar! – Riu, recebendo da Madre um divertido olhar de repreensão
— E o mais importante, — Ela continuou – Protege a minha menina, cuida dela durante a semana, eu conto com você pra deixar ela longe de confusão!
— Vai ser difícil mamãe! – A menina se pronunciou ainda no colo de Gustavo – Mas eu vou tentar, pra deixar você feliz!
— Vem cá meu amor. – Pegou a garotinha dos braços do namorado – Eu te amo muito viu? – Disse beijando as bochechas dela — Eu tô muito feliz de poder ser sua mãe, e vou fazer de tudo pra honrar esse lugar no seu coração!
— Você vai, tenho certeza! – Gustavo disse, dando-lhe um beijo suave
— Chega de chorar! – Exclamou Dulce Maria – Hoje é dia de festa, finalmente minha mãezinha vai casar com o meu papi e morar lá em casa!
— Esse momento pede uma foto! – Estefânia disse, se aproximando com o celular

— Nossa primeira foto em família! – Disse Dulce Maria
— A primeira de muitas filha! – Sorriu a jovem – E por ser a nossa primeira foto juntos, vai pro porta retratos!
[...]
Cecília já tinha estado na cobertura de Gustavo, mas agora era diferente, ela moraria lá. No andar de baixo, já conhecia tudo. Em cima, conhecia apenas o quarto de Dulce Maria. Se surpreendeu ao ver os outros quartos, o luxo que todo aquele apartamento tinha.
— Tá tudo bem, Cecília? – Perguntou Gustavo, ao ver a namorada surpresa e olhando tudo no quarto que iria ocupar
— Sim, — Sorriu – É que eu não estou acostumada com todo esse luxo, até o banheiro parece de novela!
— E você sabe como é um banheiro de novela? – Brincou o pai da carinha de anjo
— Claro que sei! – Riu – Nós assistíamos televisão no orfanato, mas era só nos fins de semana.
— E como era lá mamãe? – Indagou a pequena, sentada na espaçosa cama daquele quarto
— Igual lá no colégio, só que a gente não ia pra casa porque ninguém lá tinha família, assim tipo a nossa. A gente não tinha quem cuidasse de nós, só as freiras mesmo. – Sentou-se na cama junto com Dulce
— E era ruim?
— Era e não era. – Viu uma expressão curiosa no rosto da filha – Era ruim porque a gente não tinha família, mas era bom porque tínhamos sempre amigos perto da gente. As freiras e as outras meninas... Eu vivi lá até os 18 anos, até ir pro seu colégio. A minha irmã saiu antes, porque ela é mais velha que eu.
— Você tem uma irmã? – Perguntou Dulce Maria
— Tenho sim! O nome dela é Fátima, ela é cozinheira igual ao tio Vitor!
— E onde ela mora? – Indagou Gustavo, também sentando na cama
— Em Recife, com o marido. Faz tanto tempo que eu não a vejo! A gente só se fala por cartas.
— Eu tive uma ideia! – Disse ele – Por que não vamos juntos pra lá? Assim eu e a Dulce conhecemos a Fátima e você faz uma surpresa pra ela!
— Olha... É uma ideia ótima! Ela não sabe que eu deixei a vida religiosa, vai levar o maior susto!
— Meu papi só tem ideias boas! – Riu a pequena – Quer dizer, quase sempre.
— Por que quase? – Questionou Cecília
— Ué, quando ele quis casar com o dragão foi uma ideia péssima!
Cecília riu e Gustavo concordou:
— Verdade, já pensou se eu tivesse casado com ela? Com certeza eu não estaria feliz agora! – Disse beijando Cecília
— Não mesmo! – Disseram Dulce e Cecília em uníssono
— Sabe Gustavo... Tem alguém aqui que merece uma recompensa por ter nos unido!
— Concordo Cecília... Sem ela nós não estaríamos juntos agora!
Então os dois começaram a fazer cócegas na filha, que gargalhava sem parar, e as risadas dos três podiam ser ouvidas do andar de baixo do apartamento, onde estavam Estefânia, Gabriel, Silvestre e Franciele, que anotava o cardápio do jantar.
— Olha como eles riem Gabriel! Parece mentira toda essa felicidade!
— Mas não é prima! – Respondeu o padre – Graças a Deus é verdade!
— Agora só virão alegrias dona Estefânia! – Disse o mordomo
— Com certeza, e se depender da minha sobrinha essa felicidade só aumenta! – Disse a estilista
— Isso com certeza, da peruca! – Falou a cozinheira – Se depender da menina já, já eles casam e tem mais um montão de filhos!
Estefânia e Gabriel riram, mas Silvestre não.
— Franciele! Feche o uniforme e vá preparar o jantar e a mesa. Não se esqueça do lugar da dona Cecília, à esquerda do senhor Gustavo. – Ordenou Silvestre
— É pra já, chefinho! – Disse saindo
Viram Gustavo e Dulce Maria correndo atrás da ex-noviça escada acima, escada abaixo por alguns minutos, até que...
— Chega! Eu me rendo! – Gritou Cecília ofegante após perder mais uma corrida para Gustavo e Dulce Maria
— É, chega filha. Vamos nos arrumar pra jantar. – Disse Gustavo chegando à porta do quarto da menina
— Me ajuda mamãe? Quero ficar bem bonita!
— Claro meu amor, mas você precisa de um banho antes, tá toda suja da festa no colégio!
— Quer que eu peça pra Franciele dar banho nela? – Perguntou o empresário
— Não precisa, eu mesma dou banho nela hoje. Faço questão! – Beijou os lábios de Gustavo — Vai se arrumar, nós nos entendemos né filha?
— Sim piririm!
— Tá bom! – Beijou Cecília novamente
Dulce e Cecília entraram no quarto da garotinha, e ela reclamou:
— Eu não quero tomar banho mamãe!
— Mas precisa, você tá toda suja e suada! Olha só pra você! – Riu – Você não pode descer assim pra jantar!
— Tá bom, tá bom! – Se deu por vencida
— Antes vamos escolher uma roupa pra você, vem cá! – Puxou a filha pela mão até o armário dela, e se surpreendeu ao ver quantas roupas ela tinha.
— Nossa, quantas roupas lindas filha!
No fim escolheram um vestido vermelho, com flores brancas bordadas, uma tiara branca, uma meia calça branca com pequenos detalhes e uma sapatilha preta de verniz.
Na banheira, Cecília tentava ajudar Dulce a se ensaboar, mas a menina só queria saber de jogar água em sua mãe
— Dulce, para filha! – Pedia, rindo – Você tá me molhando inteira!
— Você também precisa de um banho mamãe, tá suada!
— De tanto correr atrás de você né sapequinha! Mas você tem razão, eu preciso de um banho! Vamos terminar aqui e enquanto você se veste eu tomo um banho.
Rapidamente Cecília finalizou o banho de Dulce Maria, a deixou se vestindo e foi para seu quarto tomar um banho e se arrumar. Não demorou muito, não queria se atrasar em seu primeiro jantar com sua nova família. Para a ocasião escolheu um vestido verde esmeralda, leve e confortável. Usava apenas a aliança e uma correntinha de prata que havia comprado, com um pingente de uma garotinha, representando Dulce Maria. Foi buscar a filha no quarto, que tentava pentear os cabelos, sem muito sucesso.
— Dá aqui, deixa eu ajudar. – Disse pegando a escova das mãos da menina
Penteava os cabelos da menina delicadamente enquanto olhava a si mesma e a garotinha no espelho. Se sentia num sonho, do qual jamais desejava acordar. Em pouco tempo, estavam na sala conversando e esperando o jantar. Ela fora elogiada por todos, incluindo Silvestre e Franciele.
Após Silvestre anunciar que o jantar estava servido, todos se encaminharam à mesa e Gustavo, um cavalheiro, puxou a cadeira de Cecília para ela se sentar, causando um pouco de estranhamento na jovem. Ela não negava que estava adorando todas aquelas mudança em sua vida, ao ver distribuídos à mesa tantos pratos, talheres e taças, se sentiu um pouco perdida.
— São três pra cada um Cecília. Use sempre de fora para dentro, na entrada, prato principal e sobremesa.
— Ah, entendi. Obrigada Estefânia. E as taças? – Perguntou. Já tivera algumas aulas de etiqueta quando criança, mas nunca tinha posto em prática
— Uma para vinho, a outra para água. Se não quiser vinho nós temos outras coisas. – Explicou Gustavo
— É, eu prefiro não beber vinho ainda.
— Silvestre, por favor. Traga um suco para a dona Cecília. – Pediu o empresário
— Com licença, dona Cecília — Silvestre se colocou ao lado esquerdo da jovem e tirou dali a taça de vinho, logo voltando com outra taça, dessa vez com suco. Não se sentiu confortável ao ser chamada de “dona Cecília”, mas preferiu não dizer nada, percebera que todos ali eram tratados com essa formalidade
“É tudo tão fino, feito com tanta classe” – Pensou a namorada de Gustavo
— Posso fazer tim-tim papai?
— Pode, mas cuidado!
— Um brinde à família mais linda e feliz do mundo! Tia Perucas, tio Vitor, tio Gabriel, papai, mamãe e eu!
— Um brinde! – Todos disseram sorrindo e batendo suas taças
Estavam prestes a começar a jantar quando a campainha toca, e Silvestre vai atender.
— Boa noite, Lários!
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