Grunenwald - Origens De Um Pesadelo
1 Capítulo 1 - O Primeiro Pesadelo
Notas iniciais
Peter suava frio como nunca ninguém suou antes. Terrence o observava com pena do sofrimento do amigo, mas sabia que não devia acordá-lo. Enquanto isso, cenas de uma guerra, a pior delas, passava pela cabeça de Peter, que no sonho lutava incansavelmente com uma espada feita de prata e rubis encrustados no punho, pesada, mas a lâmina amolada ajudava bastante contra inimigos de fumaça, alimentados de toda a bondade de uma pessoa. O exército de pedra de Grunenwald matava, esmagava e destruía todos os resquícios dos Almeaters, ou: Caçadores de Alma, as criaturas malignas que matavam para se alimentar, e matar mais. Os Almeaters eram os pesadelos dos Knevoars, cavaleiros de Grunenwald, que muitos abandonavam a família para erguer o castelo, e ainda tinham esperanças de voltar para casa. Mas, uma vez Knevoar, SEMPRE Knevoar.
De repente, Peter sentiu um súbito calor subindo pela nuca e acordou. Dando de cara com Terrence, sua melhor amiga, uma menina de cabelos loiros-brancos e os destaques e as pontas negras, olhos azuis-claros, destacados por um delineador preto bem marcado. Terrence, que curtia heavy metal, era basicamente o oposto de Peter, que preferia ficar quieto na dele, ao invés de fazer e escutar barulho, mas pela amiga, ouvia todo o estardalhaço da guitarra dela. Logo, olhou pro lado e viu Cameron, seu outro melhor amigo, de cabelos negros em um topete, feito por um secador de cabelo, e olhos castanhos, Cameron também gostava de barulho, mas preferia rock clássico, como os Beatles.
- O que vocês estão fazendo aqui a essa hora da manhã? – ergueu a cabeça e virou para a cabeceira, que continha um relógio digital: 7 e 40 da manhã. – Estamos de férias, lembram-se?
- Claro que sim. Mas a gente marcou de ir surfar hoje.
- E precisa ser tão cedo, T? – Peter perguntou à Terrence.
- As melhores ondes, parceiro. – Cameron respondeu.
- Tudo bem então. – disse, se levantando. – Terrence, onde está seu biquíni?
- Por baixo dessa roupa toda, acredite. – disse Cameron, olhando pra jaqueta de couro preto, a blusa de caveira e a calça também de couro só que dourada e uma bota.
- Sério que você vai pra praia vestida com isso? – pergunta Peter.
- Sério. Não vejo motivos pra trocar a roupa.
- Não vamos discutir com ela, Cameron.
- Ela pode desistir de surfar com a gente. – disse, por entre a porta do banheiro.
- Jamais! Eu ensinei a vocês, não perderia suas primeiras demonstrações! – rimos. – Vamos então, gente? A Kombi está lá fora.
- Trouxe as outras pranchas, T? – pergunta Cameron.
- Óbvio.
- Então vamos! – Peter disse, quando voltara do banheiro, já com o calção de banho.
Saíram então da casa de Peter, que estava deserta, seu pai mais uma vez viajando em uma de suas aventuras (que só parava em casa às sextas), e a mãe, que morreu ao dar a luz, obviamente não estaria em casa.
- Quando seu pai chega? – perguntou Cameron.
- Sexta-feira à tarde. E vai de novo sábado de manhã.
- São as aventuras de novo? – perguntou T, que acabara de ligar a Kombi.
- Sim. Depois que minha mãe morreu, ele não para em casa.
Era uma história triste. Mas Peter não tinha problemas pra conta-la: sua mãe e seu pai haviam se conhecido no Marrocos, e logo descobriram morar no mesmo estado: Havaí. Foram se conhecendo, e ao voltar pra casa, se casaram. A mãe, engravidou aos 35 anos, uma gravidez difícil, cheia de problemas, então, não houve dúvidas de que na hora, teria de escolher entre ela e seu filho. Escolheu o filho, claro. Peter é em homenagem à paz de espírito que sua mãe tanto prezava. O pai, inconformado em perder a amada, deixou Peter com a avó e foi viajar, pra ninguém sabe onde, fazer ninguém sabe o que. Mas aos 8 anos, a avó de Peter também morreu, e o pai teve que voltar, ficou em casa por 2 anos, ajudando e ensinando o filho a se virar, e quando Peter fez 11 anos, foi viajar novamente, e só volta às sextas para ver se a casa está em ordem.
- Ainda bem que hoje é terça-feira.
- Realmente, T. – disse Cameron. – Ele poderia prender Peter para um chá e querer passar a tarde com o filho que quase nunca vê.
- Isso é problema dele. Ele não me vê porque prefere ficar fazendo ninguém sabe o quê.
- Entra, gente! – brigou T.
Entraram na Kombi, no banco da frente, e ficaram conversando até chegar ao destino. Cameron foi o primeiro a entrar na água, porque Peter pediu à T que o escutasse.
- E afinal o que são Almeaters e Knevoars?
- Não sei! Eu só sonhei com isso, não acho que seja real.
- Mesmo assim, é estranho você sonhar com esse tal de... Grunen...
- Grunenwald. Eu sei disso, mas nada daquilo parecia verdadeiro. Vamos deixar pra lá, eu só precisava contar pra alguém.
T tirou toda aquela roupa e deixou que somente o biquíni de couro dourado a cobrisse. Belas curvas, pensou Peter. Logo lembrou que era de Terrence que estava falando. Pegou uma prancha no teto da Kombi, e entrou na água. Agora só restava uma prancha. Peter tirou a blusa, pegou a prancha e entrou n’água para unir-se aos seus melhores amigos.
A sensação de mergulhar no mar, naquela praia totalmente deserta, era maravilhosa. Arriscou ficar em pé, conseguiu umas 2 ondas. Logo avistou a terceira, que era grande demais, então deitou para esperar o baque. Ardeu. Sentiu as costas abandonarem a prancha com a força da onda, não conseguiu ver T e Cameron a tempo, logo já estava dentro d’água, sem conseguir respirar, quando foi surpreendido por uma pancada na cabeça. Uma pedra. A vontade de respirar foi se esvaindo, os olhos ainda abertos foram se fechando, e sentiu que estava voltando aos seus pesadelos. Agora estava de frente a um Almeater seja lá o que eram, precisava lutar contra um ser de fumaça mas suas lembranças felizes e motivadoras pareceram fugir de sua cabeça. Não conseguia lutar contra ele sem uma coisa pela qual valesse a pena. Lembrou-se de seu pai, e de como queria que ele estivesse por perto na infância, e de como sentia falta dele, e arranjou forças para mandar aquele Caçador para longe, pelo menos foi o que viu antes de ser acordado por Cameron.
- Peter? Como você tá cara? – abriu os olhos e viu Came e T, ambos pareciam atordoados.
- Bem. Só um pouco de dor de cabeça. – T pareceu entender. – Eu vou me deitar na Kombi. Continuem surfando, vou tentar descansar.
- Não durma, Peter. – disse T. Mas ele já não iria dormir mesmo, só tentar esquecer. Andou para a Kombi e deitou-se na parte traseira. Não queria dormir, mas com a brisa batendo em seu rosto, era quase um convite. Fechou os olhos e pediu para que não tivesse pesadelos.
Peter se viu numa sala escura, iluminada somente por tochas, um calor doentio, sentado num sofá encapado por veludo vermelho, esperando alguém. Entrou uma bela moça na sala, quase como T, mas tinha os cabelos loiros lisos e sem nenhum negro nas pontas, olhos amarelos-vivo e os lábios vermelhos e com um formato bonito. Vestia-se com um vestido de ceda azul, pesado. Quando Peter olhou para a moça, de uns 16 anos também, ele disse:
- Ever... Senti tanta a sua falta...
Foi quando Cameron acordou o amigo.
- Terrence me contou tudo. E ela disse pra não dormir.
- Foi mal, cara. Mas eu não aguentei, minhas pálpebras começaram a pesar, e eu não tive, bem... Não foi um pesadelo.
- Com o que sonhou?
- Com uma garota chamada Ever. Ela era linda, e eu disse que sentia falta dela, estávamos numa sala escura, quente, e a melhor mobília era um sofá de veludo vermelho.
- Sozinhos? – perguntou Came.
- É. – ele respondeu.
- Vejamos: você estava sozinho numa sala escura e quente, onde estava num sofá, e aí chegou uma garota gostosa e você disse que sentiu falta dela?
- Isso.
- Cara! Esse seu eu dos pesadelos tem tanta sorte!
- Como assim, Came?
- O seu eu dos pesadelos não é virgem!
- Quê?! – Peter absorveu as palavras de Cameron, era uma possibilidade. – Mas eu não vi, não tem como saber. – concluiu.
- Fala sério, Peter! Você e uma garota gostosa sozinhos numa sala? É claro que rolou alguma coisa!
- Não sei, Cameron!
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