Growing up

1 Eu me Lembro


*Como devo começar? Começos... Pra mim, começos são tão difíceis quanto términos. Bom, vou pela ordem cronológica, então.*

1° ano do ensino médio, 2014. 16 anos e um total de 0 feitos importantes. Nova cidade, nova escola: recomeço. É como a minha mãe chama, pelo menos. Desde o ano retrasado, já tivemos uns dois, resultado do relacionamento problemático dela com o meu, assim espero, ex padrasto e apesar deles sempre terminarem e voltarem agora parece ser definitivo. Sou acostumado a essas mudanças e recomeços repentinos; desde a morte do meu pai, quando eu tinha quatro anos, minha mãe desenvolveu essa mania de mudar. Qualquer coisa era motivo para uma mudança radical e eu não a culpo, cada um lida com o luto a sua maneira. De qualquer forma, aprendi desde cedo a não me apegar muito as pessoas, afinal, nunca sei quando ela vai ter outro surto. E por esse motivo eu nunca tive muitos amigos... e nenhum amigo de verdade, até agora. Pelo menos essa é a desculpa que eu procuro usar, porque sei bem que, na verdade, eu que não sou bom com essas coisas... com pessoas. Desde criança, nunca fui. Sempre preferi ficar sozinho e quando tentava me enturmar, nunca dava certo. O garoto chato. Até para as meninas que por algum motivo sempre procuram um amigo gay de estimação eu não servia. Mas tudo bem, isso nunca me incomodou... até agora, até essa última mudança.

Quando minha mãe, meio histérica, disse para eu me preparar pra me mudar porque era só questão de tempo até ela achar uma casa numa outra cidade, surpreendentemente fiquei incomodado. Não com o fato de estar me mudando para outra cidade, mas sim por ir sem nenhum desconforto, sem sentir nada, sem nenhum laço. Então, decidi adotar de fato essa ideia dela de ‘’recomeço’’ – se bem que, no meu caso, tá mais pra um começo mesmo já que até agora nem um laço de amizade me dei ao trabalho de começar. Por isso, estou animado. Bom, pelo menos estou tentando ficar. Além do mais, é uma cidade praiana, não podia ser melhor.

****

Ouço o despertador tocar. 5:40, aquele barulho irritante atravessando o silêncio do meu quarto. Desligo, sento na cama e suspiro. Não tinha conseguido dormir mesmo. Normalmente não me incomodo muito com 1° dia de aula em escolas novas porque sei que vou encontrar pessoas que sempre me parecem as mesmas e que vou ficar quietinho no meu canto, mas agora sim estou nervoso, com aquele frio na barriga. Porque hoje eu prometi a mim mesmo que iria tentar.

Após me arrumar, desço pra tomar café e encontro minha mãe.

— Bom dia, filho. Ansioso? – Ela pergunta, acenando e servindo o café.

— Bom dia. É, um pouquinho. – Admito.

— Ah, agora eu fiquei surpresa. Você, ansioso? Pensei que não ligava muito pra essas coisas.

— É, eu também – digo dando de ombros – enfim, vou nessa, já vai dar 6:40, vou acabar me atrasando. Beijos.

— Lembra do caminho até a escola, né? Boa sorte, filho!

— Lembro, lembro. Tchau!

Saio com o passo apresado, pego minha bicicleta e sigo até a escola. Decido ir pela orla do centro apesar de o caminho ser um pouquinho mais longo, mas gosto do cheiro de maresia, me revitaliza. ‘’eu vou conseguir, eu vou conseguir. Vai dar certo’’, penso enquanto pedalo apressado.

Chego, por fim, arfando na escola. Nunca tinha estudado em uma escola tão grande, geralmente só em escolas que iam até o fundamental e após guardar minha bicicleta fiquei meio desnorteado no pátio gramado lotado e cheio de vozes. Sinto um mal-estar, fecho os olhos e respiro. Apesar de já ter visitado a escola no dia da matrícula, não sei onde fica minha sala. Sigo até a secretaria pra pedir informação e assim que chego encontro com uma garota, aparentemente da minha idade, pedindo a mesma informação.

— Hm, 1° ano, deixa eu ver.... ah sim, isso mesmo, sala 1002 no 3° andar. – Responde quem parece ser a coordenadora. A garota murmura um ok e se vira, quase batendo de frente comigo. Peço desculpas e me afasto um pouco para dar espaço, conseguindo assim dar uma boa olhada em sua aparência. Cabelos escuros, longos e com uma mecha azul gritante que junto com o colar de caveira me deu uma certa vontade de rir, confesso. Ela arqueia as sobrancelhas, como se pedindo licença e percebo que fiquei tempo demais encarando ela. Peço desculpas outra vez e chego para o lado, deixando ela passar. Espero um pouco e acabo a seguindo, já que pelo visto somos da mesma sala.

Ao chegar na sala, me sentei perto da janela, quase na última carteira. Fiquei um pouco decepcionado, confesso. Fora a menina com a mecha azul, todos pareciam ser as mesmas pessoas de sempre. É, mas tudo bem, sei que pra eles eu também sou. Só eu e mais uma menina éramos alunos novos e, aparentemente, a turma era a mesma desde o 7° ano, pro meu desespero. Seria muito mais difícil tentar formar alguma amizade assim; sem chances. E pelo visto eu também era o único aluno lgbt, o que provavelmente dificultaria ainda mais as coisas. Após todas as atividades constrangedoras de apresentação, o professor pediu aquela famosa atividade de começo de ano, escrever uma lista de 10 coisas que você pretende fazer até o final do ano. Durante o resto da aula, percebi pelo canto do olho que a menina de antes, cujo nome descobri pela chamada ser Cecília, não parava de me encarar com um ar de curiosidade, o que me deixou bastante incomodado. Outra coisa que percebi, é que apesar dela aparentemente estudar a bastante tempo nessa escola e conhecer todo mundo, não mantinha nenhuma conversa com ninguém, só trocava algumas palavras monossílabas uma vez ou outra. E apesar do incômodo, da mecha azul bizarra e do comportamento estranho, gostei dela. ‘’Bom, já que eu disse que iria tentar... por que não? ’’, pensei.

Acabou que nem precisei tentar de verdade. No intervalo, ela veio falar comigo.

— Você parece meio perdido. Leonardo, né? – Ela perguntou, parada no corredor, perto da porta, como se estivesse esperando eu sair.

— É, eu tô. Essa escola é um pouquinho grande. Pode me chamar de Leo... Cecília, certo?

— Uhum. Vem, vamos sair daqui, daqui a pouco esse corredor fica lotado.

Fui seguindo ela pela escola até pararmos numa árvore, um pouquinho atrás do pátio principal. – Vai comer alguma coisa? – Ela pergunta – porque eu não estou com fome, mas se quiser, te levo até o refeitório.

— Não, tudo bem. – Sento meio afastado e fico em silêncio, um pouquinho constrangido. Ela pega o celular, coloca um lado do fone e parece procurar uma música. Até que por fim ela se vira e começa a me encarar, com as sobrancelhas arqueadas.

— Você parece ser diferente. Gostei de você. – Ela diz, sorrindo.

— Diferente como? Você também não me parece ser exatamente normal... – digo.

— Ah, você ficou todo quieto, na sua... Fora que nunca te vi por aqui, pela cidade. Veio pra cá recentemente?

—Uhum, esse mês mesmo.

— Legal. E o que você gosta de fazer?

Nada. Nada, nada, nada.

— Ah, eu ouço música... ah, e eu gosto de ler também.

Ela riu e senti meu rosto esquentar de vergonha, o que deve ter sido o motivo da risada dela aumentar ainda mais.

— Você é estranho mesmo. Que tipo de música?

— Depende do estado de humor – digo dando de ombros – mas no geral ouço todos os tipos de música mesmo. Se bem que, ultimamente, tenho ouvido muito My Chemical Romance...

— Sério? Socorro, eu amo essa banda. Saudades, inclusive. É, gostei mesmo de você.

— Mas, me diz, você falou sobre eu ter ficado quieto o tempo todo, mas sou aluno novo, numa escola nova, tenho uma desculpa. Mas você parece estudar aqui há bastante tempo e mesmo assim não te vi conversando com ninguém. Por quê?

— Ah... Bom, é, eu não me dou muito bem com o pessoal. Mais com os meninos, mas eles conseguem ser bem ridículos, então... e as meninas... enfim. Não que eles sejam pessoas ruins, é que simplesmente não rola. Não tenho uma fama muito boa – diz dando de ombros e se ajeitando perto da árvore, cruzando os braços. – As pessoas aqui não gostam muito de mulheres que fazem e conseguem aquilo que elas querem, quando querem. Chamam de nomes vulgares. – Termina, me encarando com um sorriso sarcástico.

Dou uma risada embora tenha ficado meio tenso, não pelo o que ela falou, mas pela forma como o disse, com os olhares... será que estava tentando dar em cima de mim? Conto que sou gay? Melhor não, agora não.

— Entendi. E o que você gosta de fazer?

— Ah, você sabe... coisas. Outra hora eu conto, você parece ser muito certinho. De qualquer forma, sábado um garoto do 3° ano vai dar uma festa, vamos? Eles não costumam chamar muita gente das outras turmas, mas, bom, tenho privilégios adquiridos com.... bastante esforço.

— Ah, festa... não sei se vou poder – espero que ela não tenha percebido o desanimo na minha voz. Não gosto muito de festas, apesar de, sinceramente, nunca ter ido em uma de fato. Mas a ideia não me agrada, muita gente reunida. Música alta, pessoas bêbadas e desagradáveis. – E a gente acabou de se conhecer, já me convidando para uma festa? Não quero decepcioná-la com a minha animação entusiasmante.

— Ah, vamos, vai ser legal, eu prometo. Você vai se divertir, eu garanto. Você precisa conhecer o pessoal da cidade, as pessoas legais daqui. Por favor?

— Hm, tudo bem... vou ver.

— Oba, oba. Não vai se arrepender. – Mal ela termina de falar e o sinal anunciando o fim do intervalo começa a soar, incrivelmente alto e irritante. – Argh, como é rápido esse intervalo. Vamos subir.

Sigo apressado atrás dela, tentando passar o mais rápido possível pelo pátio meio congestionado com os alunos se dirigindo ao mesmo tempo às suas salas. Chegando na rampa que leva ao segundo andar do prédio principal, ela subitamente para em frente à entrada e se direciona a um grupo de quatro garotos parados, encostados na parede da entrada.

— Ei, meninos – diz com as mãos na cintura – tudo certo pra sábado? Onde vai ser?

— E aí, Ceci. Tudo certo. No mesmo galpão de sempre. Não esquece de levar... você sabe, não esquece. — Responde o que estava na frente, que parecia ser bem mais velho, loiro, jeito marrento; parecia ser bem insuportável, apesar de eu tentar ao máximo não julgar as pessoas pela primeira impressão que tenho delas. Se esse hétero top é o organizador, tô fora. Não mereço uma coisa dessas. Virei a cabeça pra dar uma olhada no restante do grupo, então o vi.

*Acho curioso como essas memórias ficam grudadas no nosso subconsciente. Como elas resistem ao tempo. Como quando um cheiro, a até uma simples brisa servem pra revivê-las, como se estivessem rondando seu subconsciente a todo instante, só esperando a oportunidade perfeita pra assaltar você com toda nostalgia que carregam. Sim, eu consigo lembrar. Do que eu senti quando o vi pela primeira vez, sentado no chão do lado daquela rampa. Do cotovelo apoiado no joelho, o rosto descansando na mão direito, aquele olhar preguiçoso. O arrepio que atravessou minhas costas quando nossos olhos se encontraram, como se uma corrente elétrica estivesse percorrendo meu corpo, a forma como meu coração acelerou. O jeito como seus olhos puxados tinham parecido ficar totalmente escurecidos ao semicerrá-los enquanto me encarava. Até o suor nas minhas mãos, por que me lembro disso? Lembro de sentir meu rosto esquentar por causa do meio sorriso que ficou em seu rosto depois de eu ter desviado os olhos por não conseguir encará-lo e de um cheiro, que com certeza não estava lá naquele momento, mas o mesmo cheiro que me persegue em todas as nossas lembranças. Foi como... não foi como se eu estivesse vendo ele pela primeira vez, não parecia que eu estava conhecendo-o e sim... reconhecendo. Ás vezes eu queria poder esquecer, mas só ás vezes. De qualquer forma, como eu poderia?*

Sentado do lado da rampa como se fosse a pessoa mais cansada do mundo, um garoto, parecia ser da mesma idade do primeiro, traços asiáticos, cabelo escuro caindo sob os olhos, tão escuros quanto, que pareciam olhar pra lugar nenhum como se ele não estivesse ali de fato. Deixei de ouvir o que a Cecília e o menino estavam conversando, até o burburinho que o amontoado de alunos subindo a rampa ao mesmo tempo provocava parecia distante. O barulho dos meus batimentos, subitamente acelerados, parecia ensurdecedor. Preguiçosamente, parecendo notar nossa presença só naquele momento, ele gira a cabeça lentamente. Ele me olhou dos pés à cabeça – o que me deixou extremamente envergonhado – e depois me encarou. Não sei o que senti mas sei que senti. Algo que nunca tinha experimentado antes, um arrepio percorreu meu corpo, um calor estranho na boca do estômago. Desvio o olhar, a intensidade como ele me encarou, não esperava aquilo daquele olhar preguiçoso. Mas não consigo, volto a olhar pra ele, que tinha voltado a olhar pra lugar nenhum mas dessa vez com um meio sorriso no rosto. Me senti quente.

— Leo, Leonardo, acorda! Ouviu algo que eu falei? Esse é o Thiago, ele disse que tudo bem você ir comigo sábado. Se você quiser ir, né. – Ele me estende a mão com a testa franzida como se na verdade não estivesse tudo bem. Aperto sua mão e olho por cima de seu ombro e meus olhos encontram mais uma vez o do menino que estava sentado, agora em pé, recostado na parede, com as sobrancelhas arqueadas.

— Hm, prazer. Claro que eu vou. Sábado, né? Vou estar lá.

Thiago dá uma olhada pra Cecília como se perguntasse se ela tinha certeza e após a mesma acenar levemente com a cabeça, ele dá de ombros. – Até sábado, então.

— Tudo resolvido. Até mais meninos. Vem, Leo, vamos subir. – Ela diz, me puxando pelos braços até a rampa. Após chegarmos no 2° andar, pergunto pra Cecília sobre o menino asiático.

— Ah, o Christopher. Ele é meio estranho, não fala muito, mas... Bom, deixa pra lá. Thiago diz que ele é um bom amigo mas não sei, tenho minhas dúvidas. Por quê?

— Nada, nada... só fiquei curioso, ele parecia meio distante.

— É, como você – ela ri. Christopher... repito mentalmente o nome várias vezes. Fazia tempo que não sentia algo parecido... e não me lembro de já ter sentido algo tão forte assim. Aquela necessidade de saber mais sobre, de conhecê-lo, parecia aumentar a cada minuto, como uma pequena obsessão, o que me deixou um pouco assustado, admito. Mas eu tinha decido tentar, não é? Então eu vou, eu vou tentar.

*Ah, se eu soubesse... Se soubéssemos tudo que iríamos passar com determinada pessoa e se colocássemos numa balança as coisas boas e ruins que poderíamos passar com ela, e se no fim a balança não parecer tão equilibrada assim, ainda assim, se soubéssemos, escolheríamos passar por tudo, de novo, de novo e de novo? Ás vezes, acho que não, acho que não escolheria. Mas aquele sorriso, ah, aquele sorriso...*

Notas finais
Ei, pessoas, obrigado por terem lido, amo vocês. Eu estava com essa história a tanto tempo guardada e eu só precisava escrever, então é isso. Provável que eu mude algumas coisas ao longa da história, até o nome da mesma (sou péssimo com isso); mas só terminei as pressas, porque precisava escrever. Sei que esse capítulo foi meio parado, mas, bom, não desistam. Ah, os títulos dos capítulos são nomes de músicas - a letra fala sobre o que eu quis passar com essa parte da história e coisa e tal, enfim, essa, Eu Me Lembro, é da Clarice Falcão. Primeira vez que escrevo e críticas são muito mais que bem-vindas. Obrigado, mais uma vez.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.