Gris
18 Epílogo: Dearly Beloved II
Notas iniciais
Foram meses maravilhosos trabalhando nessa fic, meses que eu nunca vou esquecer. Fui apoiada por leitores maravilhosos, e graças a eles hoje chegamos ao fim de mais uma etapa. Gosto de pensar que fiz o possível, mas a vida é a vida: infelizmente, podemos considerar este um final "bittersweet". É o máximo que a própria situação permite. Mas, acredito, enquanto eles estiverem felizes, este será um final feliz. Então, caros leitores, comemorem: vocês conseguiram fazer esta autora mudar de idéia. (L)
O final original era um completamente diferente, na verdade, era até mesmo pra ter acabado no primeiro epílogo. Mas como não é justo dar esperanças e tirá-las (mesmo que, ironicamente, tenha sido este um dos temas de "GRIS"), aqui estão todas elas devidamente quitadas e renovadas.
As imensas referências a Dualism, Chesrea e etc são apenas um tributo pessoal à Zemyx e suas obras. Porque um final épico merece citações épicas, né? (Mentira, nem foi um fim épico, porque graças ao fato de eu não estar esperando por ele, tive um bloqueio violento em certas partes...)
De qualquer forma, do fundo do coração, espero que tenham gostado desta última vez que vemos Zexy e Demmykins. (L)
Esta autora agradece a todo o apoio e comentários com a promessa de que nos veremos de novo. Não numa continuação, talvez nem numa Zemyx, mas nos veremos.
Beijos~! o/
GRIS
Petit Ange
“Então, leve-me para um verdadeiro Outro Lugar.”
~ Clover (Oruha).
Epílogo: Dearly Beloved II.
Zexion não conseguia lembrar-se com clareza de quando exatamente ele passou a considerar Demyx um “amigo” e, futuramente, um “amor”.
O garoto sempre lhe pareceu alguém muito além de seu alcance, com toda aquela alegria vibrante e aquela aura simplista, tão diferente dele...
~x~x~x~
O apartamento estava em total penumbra, excetuando a grande sala de jantar, onde a luz tênue das velas ocupava o lugar de uma lua minguante que desenhava um bom pedaço do bairro sem energia elétrica.
- Acho que estou me sentindo velha... – a voz feminina riu.
- Bem, não posso dizer que é a única. – disse a voz masculina.
Levando a taça de Cabernet[64] aos lábios, Ayumu encarou a janela e o céu sem estrelas da capital. Sem luz, aquela parte do bairro parecia mil vezes mais melancólica do que era naturalmente. E, pensou, quem sabe não fosse esse o motivo deste lugar ter sido escolhido por seu filho para morar.
A própria casa era imensa e vazia. Não no sentido físico; felizmente, Zexion puxou, dentre tantas outras coisas, seu bom gosto na hora de mobiliar, e aquele era um lar muito refinado.
Mas, infelizmente, ele também pecava no mesmo quesito que ela: não tinha um ar de “lar”. Era impessoal até demais, diria.
Não podia dizer que era porque ele era um homem e, portanto, faltava-lhe o conhecimento básico dos pequenos toques caseiros para transformar um ambiente, porque ela própria também não tinha estas habilidades. A Evolução falhara com ela, falhara horrivelmente, mas bem...
- Vinte e três anos... – ela sussurrou, ainda meio incrédula.
- Na verdade, vinte e três anos e quatro dias. – Zexion replicou. – Você só pôde aparecer aqui no fim-de-semana, mãe.
- Desculpe não ter vindo no dia de seu aniversário...
- Tinha de trabalhar. Eu também estava trabalhando. A culpa não é de ninguém, desta vez. – deu de ombros. – Além disso, você me telefonou no dia e me trouxe um presente. – tocou no livro ao lado de sua taça de vinho. – Isso é o suficiente.
- ...Amanhã já tenho que ir embora. – suspirou.
- Não podemos fazer nada. Temos de trabalhar. – ele deu de ombros outra vez.
Zexion bebeu o resto de seu vinho, olhando de relance para sua mãe, aquela criatura que todos diziam ser de quem ele herdou sua aparência, e em seguida para a rua sem luz.
Já ligara para a companhia elétrica (maldição, a luz faltou, com todos os momentos para isso, bem enquanto seu programa estava gravando. Lá se ia sua reprise) para dar uma queixa do fato, e fora presenteado com a automática resposta de que, dentro de meia hora, a energia seria restabelecida.
Como não tinha nenhum relógio em mãos (incrivelmente), não podia dizer se eles realmente estavam dentro do prazo. Em verdade, estava sentado ali naquela mesa com sua mãe, à luz de velas, desde que a eletricidade acabou.
Encarou-a rapidamente.
Jamais saberia, apesar de somente suspeitar, o quê motivou Ayumu a querer “tentar mais uma vez”, como ela lhe dissera.
Foi um tortuoso caminho, e mesmo agora, dois anos depois, eles ainda tinham problemas. A vida não era um conto-de-fadas: eles não poderiam esquecer todos os anos em que foram praticamente estranhos um para o outro. Ambos erraram, cada qual à sua maneira, mas estavam tentando. Todos os dias.
...Será que, se Ienzo pudesse ver, ficaria feliz pelos dois?
Não sabia.
E, provavelmente, estes pensamentos deviam ser efeito do vinho. Agora que acabara sua taça, ia parar de beber. Precisava estar sóbrio e controlado, e...
- Será que, se aquele menino estivesse aqui, estaríamos sentados aqui...?
...E, mesmo assim, ainda podia ser tarde demais.
Virando-se, completamente pego de surpresa (oh, a vergonha das vergonhas!) diante da pergunta, Zexion piscou:
- ...Provavelmente não. – respondeu, ao recuperar-se do susto.
- Não é? – Ayumu riu de leve. – Ele me lembrava seu pai, no passado. Antes... De nos casarmos. Aposto que, se ele estivesse aqui... Não sei, imagino que nos arrastaria para jogarmos Twister, cartas ou Scotland Yard até a luz voltar.
- É. Ele era irritante assim. – também permitiu-se sorrir um pouco.
Sorriso este que desapareceu assim que viu seu próprio reflexo no cristal.
~x~x~x~
...Parecia ainda irreal e ilógico que uma pessoa como Demyx pudesse gostar dele. Mas em nenhum momento o mais velho duvidaria de seu sentimento.
Às vezes, não conseguia tirar de si a impressão de que foi o destino que os fez se encontrarem.
E, então, Zexion percebia que o outro havia até afetado seu jeito de pensar.
E estranhamente não se importava...
~x~x~x~
Os meses passavam, insensíveis, numa sucessão de rotinas.
Trabalho, fim-de-semana, trabalho...
Às vezes, no meio de tudo isso, ouvia a voz de sua mãe, bebia café e lembrava-se de coisas que rapidamente sumiam de sua cabeça. E continuava somente vivendo. Do jeito que o garoto havia pedido, não?
(Oh não, ele tinha pedido algo como ‘seja feliz’. O clichê básico).
Zexion percebeu, com inegável choque, que a dor estava desaparecendo. Muito devagar, suave, como ondas rebentando na praia.
E percebeu também que não gostava de usar a comparação da água. “Água” lembrava-lhe do garoto.
E. principalmente de seu nome, aquele que tanto evitava mencionar, mesmo fazendo eventuais menções como “ele”, “o menino”, e afins.
~x~x~x~
Zexion não se lembrava de como havia se apaixonado...
Mas, pensava, talvez ele sequer tenha se dado conta do fato. Como tudo que envolvia Demyx, provavelmente as coisas foram apenas acontecendo...
~x~x~x~
Não. As coisas nunca mudaram.
Elas apenas foram passadas por cima, cobertas com pó, só postas debaixo do carpete e deixadas esquecidas.
Isso não era de seu feitio.
E justamente por saber deste fato, sentia-se irritado.
Zexion só percebia o quanto estava se iludindo toda noite quando tentava ler a carta e jamais conseguia passar daquela linha.
Mas sempre acabava dormindo – geralmente uma noite sem sonhos – antes de tomar providências.
~x~x~x~
O cheiro de incenso propagava-se delicadamente pelo ar, enchendo-o de um discreto perfume. Aguilaria.[65] Era o aroma preferido de Ienzo. Costumavam ter desses em casa, antigamente, mas agora só compravam para oferecer ao túmulo do garoto. Talvez porque aquele fosse seu “cheiro”. Ayumu confessara que passou a comprar outro aroma, Sândalo, por isso.
Uma pálida tonalidade de laranja começava a sobressair-se no tecido azul do céu. Estava chegando o fim de mais um dia.
Era aniversário de Ienzo. Porque os meses passaram tão rápido que, quando o mais velho percebeu, estava na hora de viajar. Zexion, afinal, aparecia três vezes (antigamente, antes de ter “feito as pazes” com a mãe, eram só duas) em Nagano, e duas destas eram pelo irmão: o aniversário de seu nascimento, o aniversário de sua morte e, agora, o Natal. Eram datas obrigatórias.
Sua mãe já havia visitado o túmulo do caçula mais cedo. Como sabia que o outro gostava de privacidade neste momento, deixava-o, como o desejado, sozinho para falar o que fosse necessário.
Por isso, quando Zexion chegou ali, não se surpreendeu ao ver a lápide sem nenhuma poeira, e um buquê de rosas brancas e um manjuu já devidamente oferecidos. Permitiu-se um breve sorriso. Bem, agora seu irmão não poderia reclamar de fome: teria dois manjuus só para ele. Nem todos por ali tinham essa sorte!
Após a oração tradicional pela alma do falecido, em meio ao cheiro de incenso, veio-lhe à mente a última vez que o viu com vida.
Era Natal e estava nevando bastante.
Zexion havia voltado de Tokyo para passar mais um feriado com a família, em Nagano, e trazia sempre consigo seu imaculado desempenho universitário (“Nada abaixo de 98,8! Este é o meu irmão!”, eram as palavras do caçula. A mãe também exclamava alguma variação surpresa da frase) e presentes para os dois (felizmente, ele criou seu irmão para não ter aquela ilusão absurda e descabida de Papai Noel, por isso, não precisavam fazer nenhum teatrinho ridículo). Geralmente, com uma semana de antecedência, uma vez que sua mãe precisava de algo com classe, de Shinjuuku, e seu irmão satisfar-se-ia com uma novidade de Akihabara.
Naquele Natal, em particular, lembrava-se de ter comprado um casaco para Ayumu. Ela sorriu e vestiu-o na hora; de fato, ficara muito bonita nele. Foi elogiada por ambos os filhos. Naquelas horas, eles pareciam uma família normal. Era uma satisfação que durava segundos, mas que existia.
Quando Ienzo abriu seu presente, veio com ele um imenso sorriso.
“Ah! Meu Deus, é Dissidia!”
“Tinha uma fila imensa para comprar esse no dia oficial devenda ...”, suspirou o mais velho. “Mas era isso que queria, não é?”
“Era sim!”, provavelmente a animação o impedia de dizer mais que isso.
“Então... Feliz natal”, e Zexion colocou sua mão, de leve, no topo da cabeça do caçula, que não se mexeu.
Naquela noite, mesmo sabendo que teria aula no dia seguinte[66], o garoto jogara até tarde. E, lembrou-se, o próprio irmão mais velho foi testemunha disso, impedindo que a mãe descobrisse o fato. Curioso notar que, no dia seguinte, o mais novo não tinha nem olheiras (e ele nem imaginava até que horas da madrugada o mesmo ficara jogando).
Mesmo assim, Ienzo chegara até o irmão, após o café-da-manhã, depois que Ayumu já saíra para trabalhar, e perguntara: “Ei, você tem mesmo que voltar?”.
Zexion não podia ler o futuro. Nem adivinhá-lo. Em verdade, o garoto jamais deixou ninguém entrever seus segredos; e ele era muito bom em esconder. Por isso, quando respondera “Infelizmente, sim”, ele jamais imaginaria que aquilo seria o gatilho. Ou, ao menos, um excelente estímulo para o suicídio.
“E não vai poder me levar, não é...?”
“Um dia, Ienzo, um dia.”
“...Sei.”
As últimas palavras que trocou com seu irmão foram desprezíveis.
E, quem sabe, fosse esse seu castigo por tê-lo deixado em Nagano: estar sempre vivo e sempre a lembrar delas quando viesse àquele túmulo.
Se o mais novo ainda estivesse vivo, com quantos anos estaria? Dezoito, não? Já poderia muito bem ir com ele para Tokyo. Inteligente como era (por mais que não confiasse lá muito em sua própria capacidade), poderia ter prestado a Toudai e passado sem maiores problemas. Poderiam deixar Nagano, Ayumu e o passado para trás e recomeçarem por tudo o que perderam.
E, então...
A mãe deles ficaria sozinha naquela casa. Ela que, no fim, só era uma pobre vítima, tanto quanto eles próprios.
Tão estranho quanto difícil era admitir aquilo. Mas era só uma questão de ângulo: pode não ter sido o mesmo tipo de dor, mas onde eles foram as vítimas, um dia, Ayumu também já havia sido. E, pensando bem, viver não era exatamente aquilo? A dor e o prazer? Sempre era só uma questão de ângulo.
Sim, era difícil. A morte sempre é difícil. Mas... Graças à perda do irmão, outras coisas que podiam ser classificadas como “agradáveis” aconteceram.
Houve o perdão, houve a reaproximação – tímida, quebradiça, mas que estava sempre tentando –, e também houve... O conhecer.
Se Ienzo não tivesse se suicidado, Zexion jamais teria conhecido Demyx.
Naquele dia, perto de Mooka, se isso não tivesse acontecido, ele teria se visto sozinho, sem ninguém de quem roubar um carro (na teoria. O idiota era estranhamente inteligente nessas horas...). Porque não seria Natal e, portanto, não seria época de Zexion sair de Tokyo. E, sem dúvidas, teria sido pego pelos seguranças e arrastado outra vez para sua prisão domiciliar.
Naquela tarde, as palavras que o irmão mais velho dedicou ao seu falecido caçula no túmulo não foi “Desculpe”.
Foi apenas um “Obrigado”. E ele tinha certeza de que o outro entenderia.
Afinal, como dizia a sabedoria popular, o tempo é o melhor dos remédios. O mais cruel de todos, mas também o mais eficaz.
- Ei, Ienzo...
O sussurro quase perdeu-se no frescor da tarde. Mas era para que se perdesse; assim, quem sabe, chegasse onde realmente devia.
- Onde quer que você esteja... – porque Zexion não acreditava em Limbo dos Suicidas. Jamais acreditaria. – ...Será que você encontrou aquele idiota por lá?
Um lufar de vento. Uma saudade.
Somente o silêncio.
~x~x~x~
...Ele lembrava-se, porém, de encarar os olhos azuis de Demyx e ver algo que não se parecia em nada com qualquer coisa que ele já tivesse estado em contato.
Lembrava-se, com uma amarga nostalgia, de como o garoto jogava seus braços sobre ele, sorrindo naquela pura alegria inexplicável. E de como, naqueles momentos, seu ar parecia ter sido roubado dos pulmões.
Zexion teria feito tudo por Demyx. Uma verdade dolorosa, mas teria...
~x~x~x~
O calendário, acusador, apontava a chegada iminente de uma deprimente época.
- ...Vinte e quatro anos. – suspirou.
Pensando bem, faltavam poucos meses para fazer três anos desde o último dia em que vira Demyx. Esta também era uma época que o calendário fazia questão de apontar a chegada.
Zexion baixou os olhos azuis, encarando o chão.
Até quando aquilo ia durar?...
~x~x~x~
...Um dia, Demyx foi-lhe a coisa mais importante de todas.
Hoje, era só uma memória.
~x~x~x~
“Crítica da Razão Pura”, de Immanuel Kant. Quase quinhentas e cinqüenta páginas. Metafísica total e irrestrita. Ah, sim... Nada como uma leitura agradável num Domingo agradável.
Largado no sofá (e com a TV devidamente desligada. Não ficaria gastando à toa quando a leitura estava assim tão interessante), Zexion bebericou um pouco mais do café que estava ao seu lado, sem desviar os olhos auxiliados por óculos de leitura daquele seu livro. Perdera a noção do tempo há algumas horas e, portanto, não saberia dizer se ainda era tarde ou se já era noite.
Ultimamente, os dias passaram-se num marasmo terrível, a mesma rotina sempre. Pensativo, o rapaz imaginou, em meio às palavras difíceis do livro, se uma possível vida de casado não teria mudado isso.
Chances não lhe faltaram, verdade seja dita. Até lhe haviam feito (aquele conhecido de faculdade – na verdade, nem lembrava do nome dele) aquela proposta de miai[67], que obviamente foi recusada (em retrocesso, Zexion achou que sua reação ao encontro em si foi muito exagerada e precipitada para seus padrões – era algo pelo qual ele não se perdoaria tão cedo – e, também, ele já havia pulado toda a parte burocrática. Um casamento não cair-lhe-ia mal). Antes disso, tentou restabelecer o que sobrara de sua já parca vida amorosa; obviamente, todos seus esforços foram em vão.
Estava pensando muito em casamento, ultimamente... Mas imaginava – sua mente analítica, ao menos – que não seria ruim. Óbvio que traria algumas desvantagens, mas no geral, seria algo bem-aceito. Uma moça agradável, inteligente e que estivesse esperando-o. Não precisava de crianças (até precisava admitir que não as queria), podia ser apenas eles. Estava bom.
Era uma boa vida, esta. Ayumu ficaria feliz. Ele ficaria feliz (ficaria?). A sociedade em si ficaria satisfeita. Então, por que recusara até mesmo uma pretendente para casar (sendo que, precisava admitir: ela estava no nível intelectual perfeito)?
Oh, sim. Tudo tinha um nome.
Aquilo também tinha.
Um nome que ele preferia não pensar, é verdade, mas que estava começando a se tornar um incômodo.
“Até quando isso vai durar?”, pensava sempre.
Zexion fizera tudo o que podia. Aceitara aquele sitar irritante (azul demais. Fazia seus olhos arderem e quererem lacrimejar... Maldito azul), que estava guardado no fundo (mesmo) de seu closet, aceitara as memórias, mesmo pensando muitíssimo pouco nelas, por uma questão de saúde mental. Aceitara o destino e não correu atrás do garoto, nem de sua herança, nem de seu paradeiro.
Fizera tudo o que esteve ao seu alcance. Deu um ponto final ao assunto e seguiu com sua vida.
Mas, e isso era o irritante da questão, Demyx continuava incomodando-o.
Para alguém que, de acordo com suas memórias, estava sempre pedindo desculpas por eventualmente ser alguém egoísta, aquilo era o supra-sumo do egoísmo. Por que não o deixava em paz de uma vez?
“É inútil discutir com o nada, Zexion”, pensou então, num suspiro derrotado. “Isto o levará só ao mesmo nada com o qual está discutindo.”
Uma verdadeira pena que não trouxera desta vez nenhum trabalho para fazer em casa. Gostava de trabalhar dobrado; com isso, era capaz de esquecer a maioria dos problemas. Um antídoto bem melhor (e mais produtivo) que a bebida. Parecia que o maldito imbecil o infectara desde que o conhecera: o mais velho nem conseguia mais ler como antes, como se fosse uma droga tão potente quanto trabalhar. Agora, a leitura apenas o distraía momentaneamente.
Mais uma culpa para Demyx. Um dia – e jurava por todos os deuses –, ia encontrar o túmulo daquele maldito e ia...
...E então?
O que faria se, acaso, realmente encontrasse o túmulo dele?
A resposta? Nada.
Continuaria apático, exatamente daquele jeito. E, numa incrível epifania de dois segundos, Zexion compreendera. Entendera. Veio-lhe a verdade.
Era isso que o estava incomodando. Este era o verme.
Ele não havia feito nada; mas uma parte de si queria ter feito. Uma parte poderosa o bastante para passar mais de dois anos o incomodando diariamente. Como estava obviamente atrapalhando sua vida pessoal, era um “problema”.
Mas o quê devia fazer? Chorar? Já fizera isso. Bem, talvez não do jeito certo, mas meio que fizera.
Completar as fases do pesar, talvez. Porque tinha a impressão de que havia ficado preso na negação inconsciente (mesmo que às vezes ficasse com raiva daquele garoto e de suas atitudes idiotas e, é claro, das conseqüências dessas, mostradas na atualidade) e que ela, como areia movediça, não o estava permitindo passar para as próximas fases.
Sentia que chegava em algum lugar.
É, devia ser isso, não é...?
...O que aquela parte de si queria ter feito?
Uma súbita onda de vergonha subiu-lhe pelo rosto quando um pensamento tímido fez-se apresentar em meio àquele amontoado de coisas sem-sentido.
Correr atrás dele? Mesmo? Zexion revirou os olhos, num auto-desprezo claro.
Jamais faria aquele papel ridículo.
Correr atrás de Demyx não valia a pena. Isso era só um delírio literário de romances de bancas, algo sentimentalóide e ilógico, um desperdício de energias, não algo que, de fato, poderia acontecer.
Não, espere... Por que estava se justificando mentalmente?! Isto conseguia ser mais ridículo que o pensamento em si!
...Até porque o garoto estava morto.
É isso. Chorar pelo leite derramado não era uma política do mais velho.
E, infelizmente, a exuberância também não era.
Certamente, Demyx merecia uma pessoa melhor. Alguém que risse com ele quando fosse apenas ele mesmo, alguém que incentivasse aquela sua alegria contagiante, que sempre estivesse ali presenciando-a... Alguém que compartilhasse seus gostos, suas dores, alguém que pudesse ser bem mais do que ele fora.
De fato, merecia algo muitíssimo melhor que Zexion.
Mas, infelizmente, foi só aquilo que conseguira. Só Zexion. E isso não era algo que pudesse ser mudado.
...Nem o fato de ele estar morto e o outro estar tratando-o como um ser vivente.
Bufou, então, diante daquilo. Maldição.
Demyx morrera jovem. Muito jovem, cheio de promessas irrealizáveis e sem uma pessoa como aquela que ele realmente merecia.
Morrera sem aproveitar quase nada da vida que ele tanto quis.
...Enquanto Zexion estava vivo, mas permanecia tão imutável (por mais que lhe doesse admitir aquilo. Maldita epifania) quanto naquele dia em que se conheceram.
O mundo era mesmo injusto, não?
Fechou, então, o livro, depositando-o delicadamente no chão. Um som seco veio do lado de fora, algo que ele não processou perfeitamente. Ao fechar os olhos, veio-lhe somente a escuridão reparadora.
...De quê adiantaria saber daquilo se não poderia mais vê-lo?
Porque ele aprendera isso com o suicídio do irmão...
A morte significa “nunca mais”.
~x~x~x~
Zexion não se lembrava, exatamente, quando havia se aberto e confiado seus pensamentos para Demyx.
Porém, ele tinha a esperança – e acreditava – que o garoto tivesse lhe entendido naquele pouco menos de um mês que passaram juntos.
Porque ele lembrava-se daquele sorriso no rosto dele que estava sempre lá, para resgatá-lo de dentro de sua fortaleza solitária...
~x~x~x~
Zexion respirou profundamente, afastando-se do notebook. Assim que o fez, além da clássica dor de cabeça (que, diabos, estava se tornando mais freqüente nas últimas semanas. Só esperava não ter necessidade de um óculos com ainda mais grau – ou, pior, um óculos não-exclusivo para leitura), sentiu os ombros tensos.
Mirando os frutos de seu Sábado folgando (ou não, dependendo do ângulo) em casa, uma breve satisfação o acometeu. Estava indo bem.
Precisava, porém, dar seus créditos: em seu antigo apartamento (engraçado como ficava buscando algo para culpar lá dentro), ele não conseguiria aquele silêncio quase sepulcral.
Afinal, era tranqüilo, aquele bairro. Bem mais do que imaginou a princípio (aliás, encontrar isso em Tokyo era raríssimo – chegou a abismá-lo). Depois de uma certa hora, a movimentação caía assustadoramente. Nos fins de semana, esta hora parecia estender-se por quase as 24 de um dia todo. Óbvio, foi justamente por isso que escolheu aquele bairro. Precisava de um certo “retiro mental” após o trabalho (que parecia só aumentar – bom, mas isso também era culpa sua e de sua mania de agüentar uma excessiva carga – a cada dia) e, portanto, ali era perfeito.
Um pensamento veio-lhe, do nada, particularmente divertido (à sua maneira): ele voltava de carro para casa. Portanto, em prática, o único exercício físico que de fato fazia era ir até o mercado e voltar, a pé, já que não era muito longe.
(Mesmo assim, continuava sendo magro. Bom, devia ser porque raramente comia de verdade).
...Será que precisaria comprar um cachorro? Eles eram uma boa desculpa para caminhar um pouco mais. Não. Melhor continuar sozinho.
Ou, quem sabe, um gato... É, eles eram bem mais asseados e independentes. Ah, não... Melhor ainda: nenhum animal. O homem não tinha tempo nem vontade de ser responsável por mais um ser vivo além dele próprio.
Bem, era por isso que preferia estar trabalhando: o poupava de pensar coisas inúteis como aquela. Cachorros...
O relógio do notebook marcava 15h48min quando Zexion levantou-se, sentindo o estômago finalmente reclamar o almoço que ainda não havia ganhado. Aliás, não ganhara também café-da-manhã, uma vez que ele estivera acordado desde as 8h e trabalhara sem parar (o ruim de trazer serviço em casa – ou o bom, para ele – é que quando se distrai o realizando, as horas passam. De verdade). Mesmo um workaholic sabe a hora de dar uma pausa.
Erguendo-se (e ouvindo seu corpo tenso dali), pensou no quê ia comer. Algo prático, óbvio, pois o trabalho o chamava. E algo que combinasse com café; não tinha a menor vontade de beber outra coisa. Estranhamente, “omelete” foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Era mesmo um almoço bem prático.
“Bem, omelete será...”, pensou, então, dando fim à dúvida.
Abandonando o escritório pelo tempo necessário para comer e voltar, ele atravessou o pequeno corredor, chegando à sala. As cortinas estavam abertas, deixando entrever o dia nublado, e o próprio Zexion achou aquilo muito fora do comum, por mais que tivesse a política de dar um banho de luz nos Sábados e Domingos naquela parte da casa, já que pelo resto da semana, a cortina estava sempre fechada.
Quando estava atravessando a sala, com os pensamentos já no quê iria ter de fazer pela Segunda, uma imagem chamou-lhe a atenção na rua, vendo-a pela porta de vidro que levava à sacada.
A pessoa estava de costas, mas...
Aquele cabelo... A cor, o jeito... Conhecia-o. Aquela pessoa...
Uma estranha e inexplicável sensação de urgência pressionou seu estômago de uma forma que não era fome. Uma ânsia de correr para algum lugar, para algum lugar e tocar naquele...
...Espere. Zexion revirou os olhos.
Ótimo, agora estava vendo coisas. E o pior: estava vendo, de todas as coisas possíveis, justamente as que menos devia.
Consolou sua mente (ou seria melhor dizer que sua mente que consolou-o?) dizendo que aquilo devia ser uma miragem, uma reação ao estresse, ou mais um aviso que precisava visitar um oculista urgentemente semana que vem.
“Omelete. Pense no omelete”, afinal, o homem de cabelos azul-acinzentados sabia: somente um pensamento ridículo pode salvá-lo de outro pensamento ridículo.
Aquela imagem deu-lhe a desculpa (mesmo ele tendo prometido para si que ia começar a maneirar) de beber duas canecas de café. Ao suspirar e fechar os olhos – ele não quis sair da cozinha, estranhamente, depois daquela situação na sacada –, dois distintos momentos arrebataram sua consciência.
...Uma voz ressoava dentro de sua cabeça.
Não sabia mais seu timbre exato, nem seu tom. Infelizmente, a memória é traiçoeira – a dele não era exceção – e roubou-lhe estes detalhes em quase três anos. Mas sabia a quem pertencia, sabia o que dizia. E lembrava que era agradável. Gostava de ouvi-la, por mais que fosse irritante.
E, assim, veio-lhe o segundo momento: dor. Não aquela habitual (ainda bem), mas... Oh, desgraça!, teria que trabalhar com uma maldita enxaqueca.
Para sua sorte, nem um cachorro ou gato morava ali, e então não precisaria de mais uma testemunha de sua vergonha: ele fugiu.
Vergonhosamente fugiu (mesmo sem necessariamente correr) daquela imagem na sacada, passando reto e sem diminuir o passo. Sequer lavara a louça, pensando nervosamente no quê faria para voltar ao escritório.
...Tinha medo. Incrivelmente, tinha medo de vê-la outra vez.
Zexion sentou-se outra vez e encarou a mesa. Um caf... Não, sem café.
Não podia negar que lhe pareceu uma reação digna de um alcoólico anônimo, mas, bem... Era mesmo seu pecado.
E, claro, esperava que seu estômago estivesse bem satisfeito agora, pois graças a ele, sentia que não ia mais conseguir trabalhar com eficiência pelo resto do dia (ótimo, agora estava descontente com seu corpo como se ele fosse uma pessoa. Perfeito!).
Em algum momento, ouvira o som de trovões e aquele ritmo musical de chuva derramando-se, e calculou que, afinal, aquelas nuvens tinham mesmo sentido.
Será que não deixara nenhuma roupa secando lá fora...? Ah, não. Estavam todas na máquina ainda.
E, naquele ritmo distraído e estranhamente tenso, ele continuou...
O homem não lembrava, exatamente, quando seus pensamentos acalmaram-se e ele pôde finalmente trabalhar.
Só soube que, quando ergueu-se outra vez, tendo finalmente acabado o serviço, já estava anoitecendo (e a chuva tinha se transformado em uma leve garoa, cujo som mal se fazia presente). As primeiras estrelas provavelmente estariam desenhando-se no céu, por detrás das nuvens (como aquela era a capital, jamais ia conseguir vê-las ali). Incrível; conseguira se concentrar de novo e esquecer aquela...
Um impulso perverso o fez abrir a porta do escritório e espiar o corredor, cuja luz ainda encontrava-se apagada. Sua sobrancelha ergueu-se, descrente.
...Estaria Zexion, ZEXION, fazendo aquilo?
Ligando a luz e indo espiar a sacada de novo?
Muito bem. Era oficial: estava fora de si. Preferia um milhão que sua enxaqueca se transformasse num aneurisma e ele caísse ali mesmo, antes de chegar à sacada e consumar sua vergon...
Deus, aquela pessoa continuava ali, mesmo na chuva.
Ao menos, não estava mais de costas. Mas isso era muito pior: porque, agora, ele tinha certeza de que estava com problemas.
Aquela sensação em seu estômago, de alguma coisa, voltou.
Preferiu, para sua própria paz de espírito, não encarar suas mãos; talvez porque soubesse que, se o fizesse, elas estariam tremendo.
Por um momento, foi como se estivesse em um lugar sem regras ou gravidade. Numa zona onde nada fazia sentido e, ao mesmo tempo, estava tudo certo. Ele perguntou-se se era assim que as pessoas mentalmente comprometidas se sentiam. Não era certo...
Mesmo assim, parecia tão real. Aquele rosto, mesmo de longe...
Mas não fazia sentido. Não fazia.
...Então, por que estava fechando a porta do apartamento atrás de si e dirigindo-se ao elevador? Se ao menos tivesse levado o lixo, teria uma desculpa.
Seu cérebro (ou melhor dizendo, a única parte sensata dele naquela situação) passou a desfiar um rosário de justificativas para o caso daquela ser uma outra pessoa, e tudo não passar de uma coincidência infeliz.
Zexion chegou a hesitar por um momento ao segurar a porta do elevador, já no térreo. Aquilo... Não fazia sentido.
Talvez fossem finalmente os anos todos em que ele não se lamentou ou pensou, voltando com toda a força na forma de uma ilusão física e vergonhosa.
Pensando bem, podia ser apenas uma coincidência, já que estava escurecendo e ali não era o lugar mais iluminado de todos. Além disso, estava garoando e isso contribuía para... Não, mas pela tarde, a figura era a mesma...
Espere. Estava mesmo discutindo a veracidade daquela ilusão consigo mesmo?
(Se um dia encontrasse o túmulo de Demyx, agora sim jurava por todos os deuses, ia cuspir nele. Mesmo. Se hoje Zexion estava daquele jeito ridículo, a culpa era dele. Nem Ienzo fizera aquele estrago permanente no mais velho!).
Abriu a porta do prédio, devagar, censurando-se milhões de vezes por estar fazendo aquilo.
Em verdade, foi um impulso tão perverso que ele nem conseguia explicar. Ou, talvez, fosse sua própria necessidade de explicação (ou ilusão).
Não sabia. Só sabia que a abriu e aquela pessoa foi atraída pelo som.
- ...Ah.
O mundo parou.
Só por um momento, ele quis acreditar em seus olhos. Um momento que pareceu-lhe eterno. Mas não fazia sentido.
Tinha em sua memória uma imagem que não correspondia à realidade. E, por isso, hesitava.
A imagem que guardou por quase meia década em si era a de uma pessoa patética e que sorria por nada. Mesmo assim, seu sorriso mascarava dor. Mesmo assim, era agradável. Ironicamente, seu rosto era uma imagem rápida e quase que desfocada, que se confundia em ilusão e sonho, desvanecendo-se aos poucos como névoa. Talvez, fosse este o fruto de anos bloqueando aquela parte de si.
Mas... A pessoa à sua frente não era, nem de longe, parecida com aquela. Era diferente. Não tanto fisicamente, mas... Havia algo muito diferente.
Ela estava mais velha – suas feições estavam um pouco mais maduras do que recordava (talvez a chuva fosse um fator que estivesse comprometendo suas observações, sem contar o fato de que a rua estava um tanto escura, mas...).
Óbvio, quase três anos (ou já fazia isso tudo?) fariam isso. Parecia estar só um pouco mais alto também (mas Zexion não podia dizer que tinha certeza sobre isso), e...
...Ele parecia mais seguro.
A imagem do passado era-lhe traiçoeira, mas deixava entrever uma pessoa que não tinha o atributo de estar sempre se metendo em encrencas e adiando problemas. Ele também não tinha senso e um monte de outras coisas, mas era aquilo que mais se destacava. Aquela pessoa à sua frente era um adulto.
(Tudo isso era um sonho? Porque, se fosse, queria acordar. Agora.)
- Zexion...!
A voz, tão clara, tão límpida, tão firme, desceu por seu corpo como água desce pela garganta, como veludo, e o fez estremecer.
- De...
E ele jamais chegou a dizer aquele nome. Parte de si agradeceu aquilo: admitir o nome era como relembrar o passado. E o mesmo doía.
Mas, não gostou da maneira como foi interrompido: algo precipitou-se sobre si, enquanto a luz do prédio banhava aquela figura e o tornava ainda mais distinto e reconhecível – e como aquilo era assustador... – e o abraçou. E, de repente, Zexion sentia que não tinha mais contato com o chão.
Uma coisa sólida, fria apesar de quente e real o estava abraçando.
Quis encontrar sentido naquilo tudo, mas...
Alguma vez qualquer coisa com aquele garoto (espere, agora não era mais um) fizera sentido? Alguma vez na vida um sonho fez sentido?
- Você estava mesmo aqui! Que bom! – ele sussurrou. A voz era tão familiar que parecia irreal. – Que bom!
Aquelas palavras mal pareceram terem sido registradas pelo mais velho, que tinha sua atenção bem mais fixada em outras coisas, tais como a água que encharcava o outro e que, agora, estava sendo transferida para sua própria roupa por aquele abraço. E de como isso deixava as mãos dele geladas...
Vagamente, a consciência de que estavam, apesar de tudo, na rua passou-lhe pela cabeça, mas ele não conseguia se desfazer daquele abraço, nem retribuir, nem mesmo respirar...
- Demyx...?
Seu corpo estremeceu. Evitara este tópico por tanto tempo que toda uma avalanche de sensações voltou ao sussurrá-lo.
Um par de olhos azuis fixaram-se nos seus, ao ouvir sua voz.
- Sim! Sou eu.
E Zexion não sabia que ainda tinha algum ar em si próprio para perder até aquele momento.
~x~x~x~
...Ele esteve ao seu lado por tão pouco tempo, mas era assustador perceber o quanto as paredes de Zexion haviam sido destruídas por tudo que vinha do outro.
Apesar de inicialmente relutante, ele dera espaço à Demyx em sua vida e, pouco a pouco, centímetro por centímetro, o mesmo fez do próprio Zexion um pedaço de si próprio. Com a permissão do próprio.
Demyx foi sua vida.
~x~x~x~
Até a parte do banho, até que foi aceitável. Óbvio, Demyx tinha a impressão de que alguma coisa o estava fuzilando por trás, e um arrepio desagradável subiu-lhe a espinha na hora, mas pôde suportar bravamente. Ganhou um conjunto folgado (de onde Zexion tirara aquilo, não fazia idéia – provavelmente foi um presente muito infeliz de alguém que ficou esquecido no armário dele até esta ocasião) e sequinho para vestir, e até mesmo um passe para a cozinha, onde agora se encontrava.
Nunca achou, porém, que o som de uma xícara fosse tão assustador. Encarando a mesa, subitamente interessado em sua falta de enfeites ou padrões, o moreno suspirou, enquanto escutava o outro mexer o café dentro dela com o quê ele só podia classificar de “ódio, puro ódio”, na sua forma mais contida e venenosa.
Subitamente, o som se desfez em passos, e Demyx retesou-se.
A xícara pousou, com mais força do que deveria, na mesa, e o líquido escuro ameaçou escorrer pelas bordas. Porém, o mais novo continuou imóvel, por mais que seus olhos, se tivessem mãos, teriam tentado socorrer aquele café que quase caíra.
Zexion, também já livre das roupas que ficaram molhadas por aquele abraço (que nem fora mais mencionado, como se nem tivesse existido!), sentou-se de frente para Demyx, e seu rosto não exibiu um só traço de contentamento.
- Muito bem.
Ok, ele precisava admitir que sentia saudades da voz de Zexion. Lembrava-se só de que ela era gélida, sempre contida e muito bonita, mas...
Mas não tinha mais noção de que era assustadora daquele jeito...
- Hã...
- Você está louco para me explicar isso tudo. Pausadamente, mas de forma sucinta e inteligível. – e bebeu um gole de seu café, montando um silêncio que pareceu durar uma eternidade. – Não está, Demyx?
Na verdade, a única coisa que ele tinha mesmo vontade de dizer é como sentiu falta daquela mania irritante de café.
- Hã... Eu...
- Ah, eu entendi.
Sorrindo (SORRINDO!) de um jeito muito tranqüilo, o mais velho bebericou um pouco mais do líquido amargo, deixando o calor do mesmo preencher-lhe o corpo.
- Você quer que eu conduza a conversa, é isso? – pegando a colher, ele mexeu o café um pouco mais. – Peço perdão por minha falta de tato.
Repentinamente, Demyx sentiu-se como se tivesse voltado aos quatro anos e agora estivesse levando um sermão do pai.
- Muito bem...
Não, pensando bem, quatro anos era muito. Ele sentia-se era tão humilhado e subjugado por aquele ódio passivo como um bebê.
- ...Onde. Diabos. Você. Esteve?
Após a imitação mais perfeita de um rosnado que o mais novo já vira alguém fazer, seus olhos ergueram-se, e encontraram os de Zexion, hesitantes. Mas precisava confessar de que se arrependeu de fazer isso, porque... Ele achou sinceramente que ia morrer soterrado de tanto ódio.
Achando de repente aquele café a coisa mais boa deste mundo, bebeu-o todo, em goles sucessivos (e não sentiu mais sua língua depois do terceiro, diga-se de passagem), até que percebeu que cometera um erro imbecil.
E agora, com o quê disfarçaria?! Acabara de beber toda sua única rota de fuga!
- E-eu...
- Pare de gaguejar, seu cretino. – rosnou de novo. – E me responda.
Ele respirou profundamente. – Estive trabalhando, desculpe... O TCC tava me destruindo, por isso não pude vir mais cedo...
O outro ergueu a sobrancelha.
- Espere um momento... “Trabalhando”? TCC?
Se sua brilhante e absoluta mente não lhe estivesse traindo, Zexion nunca mais ouvira falar do herdeiro de Myde após ter voltado para Tokyo.
Imaginava que sua morte seria ao menos noticiada, mas não foi. E, só para não pensar mais nisso, achou que fosse um desejo do homem, de ter a privacidade da vida e morte alheia respeitada. Sinceramente, não pensou muito nisso.
Mas, claro, coisas assim voltam à sua mente quando alguém que você pensa estar morto subitamente retorna.
- Eu não vi nenhuma notícia sua na empresa do seu...
- Não estou trabalhando mais lá... – sussurrou.
Sua sobrancelha ergueu-se:
- Não está?
- Não... Na verdade, eu... Nem estou mais no Testamento dele e na sua casa...
Um quase desagradável silêncio separou Zexion da compreensão. – Espere, você foi expulso de casa, é isso?
Demyx precisava confessar que já tivera aquela conversa com o mais velho um milhão de vezes em seus pensamentos.
Em algumas versões, ele neste momento somente o abraçava (essas eram as mais assustadoras, precisava admitir), em outras ele o consolava com algumas palavras sábias daquelas que só ele conhecia, e em outros momentos...
Era exatamente assim. Usava a lógica e destruía qualquer gancho dramático de uma revelação. O moreno sorriu; aquele era Zexion, não?
E ele sentiu falta disso também.
- Meio que fui... Na verdade, eu mais saí do que fui expulso, mas...
- Explique-se. – interrompeu o outro.
- Bom... – suspirou. – Você já deve saber que meus pais se divorciaram, né?
Sim, sabia. Infelizmente, Myde não conseguiu fazer com que uma notícia daquele calibre não fosse divulgada (mesmo que ninguém tivesse falado nada sobre a morte do único filho. Não fazia sentido antes, mas agora até que parecia se encaixar... Vá entender essas pessoas ricas...).
Ao que parecia, por motivos que todos desconheciam, o casal se separara, e a ex-esposa agora estava fora da capital.
- Sim.
- Bom... A culpa disso meio que foi minha...
O sorriso melancólico que Demyx dignou para o nada ao qual olhava enquanto dizia aquilo fez Zexion absurdamente lembrar-se daquele tolo de três anos atrás.
Cada vez mais aquilo adquiria estranhos ares de sonho, um sonho feliz, por mais que tudo gritasse exatamente o contrário. Ele não sabia, sinceramente, se queria continuar sonhando ou acordar, agora.
- Por causa do...?
Ah. Uma estranha dor assaltou-lhe o peito.
Tinha, por um momento, se esquecido da doença de Demyx. Aquela surpresa e o fluxo dela foram tão grandes que minou sua capacidade de pensar racionalmente, e deixou-o apenas com uma impressão palpitante de ilusão.
Fazia sentido, pensando bem, que uma coisa daquelas separasse uma família. Se não o fizesse, a tendência era uni-la ainda mais.
- Não, não... A cirurgia, como você pode ver, foi um sucesso... – o outro sorriu. – Estávamos, na verdade, todos crentes de que eu ia morrer, mas... Milagrosamente, sobrevivi. Mas, sabe... Eu não me senti feliz com isso. Porque sabia que, por ter sobrevivido, teria de voltar àquela vida que eu levava antes de ficar doente... E me deixava tão mal lembrar dela. Não queria mais aquilo...
“Por isso, sentei-me com meu pai e minha mãe, algumas semanas após minha recuperação, e disse-lhes a verdade. Que eu havia invariavelmente conhecido, durante aquela viagem, o sabor da liberdade e o verdadeiro sentido da minha vida. Não queria ser um prolongamento do meu pai – porque eu jamais seria isso. Eu queria ser... Eu. Ter minha própria vida, meus próprios sentimentos, e a liberdade. Obviamente, meu pai ficou uma fera... Quis até me bater por uma heresia daquelas...”
“Então, eu perguntei se ele me deixaria viver, e vi que não. Ele jamais me deixaria. Para ele, eu seria eternamente seu herdeiro, o ‘Demyx’ que correspondia à sua realidade. E percebi que eu próprio tinha alimentado por muitos anos este erro... Então, eu disse que agora eu tinha uma pessoa de quem eu gostava e uma vida que eu queria ter, e que não podia mais voltar ao antigo estado de ignorância. Assim, eu decidi que sairia daquela casa. Fiz uma pequena mala e me despedi dos meus pais. Minha mãe estava colada à cadeira, nem se levantou. Meu pai me ignorou...”
“Quando eu estava em uma rua qualquer, subitamente a realidade veio até mim. Onde eu ia dormir? Com quê dinheiro? Tinha meu cartão ainda, mas... Até quando? Como pagaria a faculdade? O quê ia fazer dali pra frente? Onde ia morar agora? Com quem ia contar para... Pensei em você, sabe. Mas não sabia onde você morava em Tokyo, e percebi que o Xiggy não trabalhava mais para mim, agora que eu tinha saído... Pensei, então, no Axel, mas não quis incomodá-lo com mais isso... Ele já tinha me ajudado bastante.”
“Sabe... Eu não lembro muito bem daquelas primeiras semanas. Retirei todo o dinheiro que consegui da minha conta e me hospedei no hotel mais barato que encontrei. E, então, comecei a organizar minha vida. Invariavelmente, tive de voltar à minha antiga casa para pegar alguns papéis e algumas outras roupas, mas... Aquela foi mesmo a última vez que estive em casa. Resumindo, estou finalizando meu curso, arranjei um emprego de meio-período e consegui um apartamento pequeno onde moro sozinho agora. O Axel quase caiu pra trás quando eu dei a chave pra ele, depois de ter sumido por meses! Tinha de ter visto a cara dele, foi muito hilário! Aliás, parecia um pouco com a que você fez quando nos encontramos...”
Haviam muitas coisas que não foram respondidas com aquele solilóquio. Zexion encarou o chão, pensativo, e cogitou fazê-las, mas não tinha coragem nem idéia de como começaria.
Só agora percebera quantas coisas ele deixara de falar, e quantas vinham num maremoto, desejando serem despejadas naquele momento...
O tempo é mesmo uma entidade muito misteriosa.
- Parece ter sido... Difícil. – comentou.
- Foi sim. – sorriu o outro. – Mas sobrevivi! Eu já tinha dezenove anos... Tava na hora de me virar e deixar de ser “filhinho de papai”, né? Foi difícil me desfazer de certos luxos, mas... Outra vez, sobrevivi!
- Sua casa deve ser um desleixo... – e Zexion quase sorriu ao imaginá-la.
- Eu tento manter em ordem, mas... Não posso negar que é... – sorriso amarelo.
- Demyx...
Eles encararam-se.
- O quê?
- ...Sobre o câncer.
O mais novo apenas sorriu.
- Depois que eu saí de casa, minha mãe acho que percebeu que eu tinha razão, de alguma forma, e se divorciou do meu pai. O resultado desta história, você conhece.
- Sim...
- Ela me encontrou, então, na minha nova casa, depois de já ter se estabelecido em Kyoto, onde mora sua família. Eu ainda estava um caco, e pensava sinceramente quando ia morrer, porque meu dinheiro não ia conseguir custear o tratamento. Tinha um mês ou um pouco mais de vida sem os remédios e a terapia.
“Mas, então, ela veio até mim e disse que pagaria... E pediu desculpas por ter demorado a perceber que todos nós estávamos errados... E me perguntou de você. Se você era uma boa pessoa. Eu disse que me fazia feliz, mas que não poderia encontrá-lo... Ela ficou bem chocada quando soube que você era outro homem, e está tentando lidar como pode com isso até hoje, mas acho que mereço por ter falado com a senhora Ayumu nas suas costas...”
Demyx, então, acordando daquela narração, bateu as mãos na mesa.
- Falando nisso! Como é que está sua mãe?! – seus olhos acenderam-se de novo, esperançosos. Nem lhe passou pela cabeça o quanto estava sendo deveras intrometido, na verdade, como lhe passaria antigamente. – Como estão?! Andaram se falando?! Ainda vai visitá-la?!
- Ela está bem. – Zexion, surpreso e não tão acostumado mais com aquela súbita animação da parte do outro, bebeu mais de seu café. – Temos nos falado com certa freqüência, afinal, acredito que você, não sei como, andou fazendo a cabeça dela...
Demyx sorriu, satisfeito.
- Que bom!
- E você?
- Hã? – então, o olhou, confuso.
- ...Você e o seu pai? Pela sua narração, não me parece que estão bem. – comentou, tentando ser o mais cuidadoso possível em suas palavras. – Você...
- Não, não consegui mais falar com ele. – negou. – Seria muito hipocrisia eu falar com sua mãe e fugir do meu pai, né? Então, eu tentei falar com ele. Cheguei a pedir para o porteiro me deixar entrar, mas acho que meu pai não quer mais saber de mim... Quer provavelmente me apagar de sua memória. Não atende meus telefonemas e nem responde minhas mensagens... Mas acho que... Como sempre, ele está lidando com o problema do seu jeito. Ele perdeu a mim e minha mãe. Sei que deve estar sofrendo.
Um silêncio estranho pairou na cozinha, enquanto lá fora, a garoa transformava-se mais uma vez em uma chuva forte.
- ...Tem tanta coisa que eu quero perguntar, Zexy.
- Sei como é isso.
Ele também tinha muitas coisas que queria perguntar, muitas palavras a serem ditas, mas nada saía. Tudo emaranhava-se dentro de si e se transformava em uma inércia incrédula.
- Você já está com vinte e quatro anos...?
- Não. Ainda com vinte e três... – incrédulo. – Como você...
- É que o Axel também está com vinte e três, mas ele é mais novo que você, acho. Então, achei que já estivesse mais velho.
- Você está com...
- Vinte e um. – sorriu Demyx. – Já posso beber sem você me incomodar~!
“Onde você está trabalhando? No quê?”. “Ainda está na Toudai?”. “Que curso está fazendo, afinal?”. “Onde é sua nova casa? Será que um dia eu posso conhecê-la?”. “Quando fez vinte e um, você saiu para comemorar e beber com seus amigos? Porque você tem cara de quem fez exatamente isso”. “Já está fazendo TCC, é? Que tema você escolheu?”.
“Quando você saiu de casa, sentiu-se desamparado?”. “Não foi difícil nas primeiras semanas?”. “Você sentiu dor por não ter tomado seus remédios?”. “Por que não veio me procurar mesmo assim? Você sabe que eu teria ajudado”. “Por que me deixou sozinho?”. “Por que você foi tão teimoso por todos esses anos?”. “O que o trouxe aqui de volta, Demyx?”. “Por que estava na chuva, lá fora?”. “Por que você está tão diferente, mas continua estranhamente o mesmo...?”.
Tantas coisas que queria perguntar... Mas, se as descarregasse como queria, o moreno o acharia louco. Ou, pior, não teria respostas.
Porque o próprio Zexion não saberia como respondê-las...
Não sabia sequer por onde começar...
- Ah!
- O que foi?
- Eu quase ia me esquecendo! – ele levantou-se. – Onde estão minhas roupas?
- Estão para lavar, mas...
- Onde é a área de serviço?
- Ali atrás... – apontou.
- Um momento!
Desaparecendo pela porta, Demyx só retornou, minutos mais tarde, com uma pequena chave. Com um sorriso inabalável no rosto, ele a entregou para o mais velho.
- Foi a minha desculpa para vir te visitar! A chave da minha casa.
Zexion quase sentiu-se gaguejar. – Por isso você...
- Mas eu não sabia em que andar você mora. Aliás, eu só descobri seu novo endereço porque o Xiggy foi muito legal em me conseguir isso quando veio comemorar meus vinte e um anos comigo (foi uma questão de honra pra ele rastrear você de novo, sabe como é...). Só que aí, né... – ele riu, sem jeito. – ...Eu não sabia se você ainda morava aqui ou mesmo em quê andar estava. Fiquei lá embaixo, pensando... Percebi tarde demais que estava chovendo e não consegui me proteger... Eu meio que tinha esperanças, também, que você me visse.
De novo, aquele maldito Xigbar. Ele suspirou, afastando a irritação.
- E se eu nem morasse mais aqui, por acaso? – mesmo assim, era difícil. Será que Demyx nunca usava sua cabeça?! – O que você ia fazer?
- ...Eu provavelmente ia lamentar muito.
Ambos encararam-se de novo.
- Reconstruí toda minha vida. Tenho uma casa só minha, um emprego só meu, estudo e me esforço todos os dias, tenho amigos maravilhosos e, mesmo doente, continuo tendo o apoio de minha mãe e estou vivo... Só tenho a agradecer, de verdade... Mas... – hesitou. – Faltava alguma coisa. Eu sentia muito a sua falta, Zexy. Faltava você no meio disso...
“Mesmo assim, eu achei que era muito cruel da minha parte aparecer, de repente, quando já tinha pedido para o Axel entregar a carta que eu tinha escrito quando pensei que ia morrer e me considerar ‘morto’ para você... Eu sei que você não gosta de coisas complicadas... E achei que isso seria complicado... Eu... Não queria ser um peso, acho... E tive medo de encará-lo novamente, depois de ter deixado-o sozinho em Nagano e de ter estragado tanto sua vida...”
“Quando percebi, tinham se passado dois anos, mas o vazio em mim nunca diminuiu. E eu imaginei se você também se sentia assim... Eu queria muito vê-lo. Muito mesmo... Então, nessa Segunda mesmo, antes de dormir, eu de repente percebi que eu tenho câncer. Eu vou morrer assim que este coquetel que eu tomo um dia parar de fazer efeito, porque aí as células cancerígenas vão crescer de novo e vão me matar, dessa vez sem chance alguma de sobrevivência. Eu só tenho uns três ou quatro anos de vida, talvez até menos... E estava lá, desperdiçando-a fugindo da única pessoa que me fez realmente viver. Não acha isso idiota?”
“Por isso, eu procurei o endereço que o Xiggy tinha me dado (pensando bem, nem lembro porquê tinha pedido isso pra ele. Acho que esta idéia já estava em mim há muito tempo, mas só a percebi agora), e pensei no quê eu poderia fazer para me apresentar e me desculpar com dois anos de atraso... Aí me veio a desculpa da chave, mas... Parece que não deu muito certo...”
Um súbito raio de compreensão aclarou sua mente.
Então, era isso...
- Que idiota, Demyx. – resmungou.
- Sim... Eu sei... – concordou, sem jeito.
O mais velho levantou-se, mas o outro não se moveu, ocupado demais em conter o rubor que ameaçava tomar conta de seu rosto ao ser repreendido.
- Isso tudo foi tão idiota quanto você.
- Desculpe...
Precipitado, idiota, infantil e sem sentido. Sim... Exatamente como Demyx. Típico de Demyx. Ele devia esperar um amontoado de besteira como aquele; nem sabia porquê ainda se surpreendia.
Que idiota...
Aquela sua teimosia que o impedia de ver que, ali, havia alguém que o apoiava. Aquela sua estupidez que o fazia preferir morrer a perturbá-los.
Era tão imaturo...
E, ainda sim, aquela sua coragem em vir outra vez e pedir desculpas. Aquela sua sinceridade em aceitar todas as conseqüências. Aquela sua fé nas coisas, achando que tudo daria certo, no fim, e que eles conseguiriam superar tudo.
Era tudo tão ilógico...
Como Demyx era estúpido.
E como Zexion o amava por isso.
Aproximando-se dele, ainda sentado, Zexion abraçou-o. Era uma atitude atípica sua, também, mas aquilo não era um sonho? Para quê ter-se, então, explicação?
Não... Não era um sonho.
O contato com seu calor (ele lembrava-se de que, antigamente, o achava bem mais morno do que realmente quente, como devia ser alguém normal. Como podia?) que emanava das roupas secas, aquele cheiro tão nostálgico e estranhamente novo, o toque hesitante e surpreso...
Ah, sim. Era isso mesmo.
Ele nunca mais achou que fosse ouvir outra vez seu coração bater. Ou melhor, Zexion não era acostumado a ouvi-lo. E, muito menos, ouvir outro coração palpitar em sintonia com o seu. E mesmo assim aquilo era absolutamente perfeito; ele sabia jamais ser capaz de trocar aquela sensação por qualquer outra coisa.[67]
Ali estava Demyx: a imagem viva e real.
Aquilo não era um sonho, não é?
Como podia...?
Não sabia. E, se não procurasse respostas (ao menos por agora), sentia que seria mais feliz. Mais uma ação atípica sua, mas aquele dia por si só fora bastante estranho.
Demyx retribuiu seu abraço, e aquela sensação de que o mundo estava somente do jeito que devia ser, nem certo nem errado, apenas do jeito que devia ser tornou-se o próprio cenário, roubando sua respiração, seu tempo, sua vontade de pertencer à qualquer outro lugar que não aquele onde estava.
- Desculpe... – sussurrou o mais alto. – Me desculpe...
- Está tudo bem. – mesmo que não estivesse de fato, para eles, naquele momento, realmente estava.
A chuva pareceu aumentar, o bastante para que Zexion a ouvisse, mesmo que distante. Mas, uma vez que seus lábios uniram-se, não houve mais nada, os sons dissolveram-se como a realidade, como a cozinha, como a própria consciência de ambos, e tudo o que não fosse tão somente aquela sensação tão inebriante que parecia pronta para levá-los à morte.
Ele sentira falta daquela expectativa, aquela que antecedia o próprio beijo, onde sua mente fez um último esforço para conscientizá-lo de uma ilusão. Desnecessário dizer que perdera, uma vez que aquele beijo era suficientemente real, aquelas mãos colocando-se timidamente em seus cabelos azul-acinzentados era bastante convincente, e principalmente... O som de seu coração. Estava ali, indicando vida, presença e cada vez mais o abismando ao perceber que tudo aquilo estava acontecendo mesmo.
Zexion não saberia dizer quanto tempo ficaram daquele jeito, e por um momento pensou que seu ar durara décadas, pois foi o que lhe pareceu. Décadas. Ao mesmo tempo, teve a sensação de que foi apenas um mísero segundo, e aquilo não era o suficiente, e que nunca seria verdadeiramente o suficiente...
A respiração de Demyx soprou em seu rosto, descompassada. Os orbes do mais velho, ao abrirem-se, desviaram-se para sua silhueta, que, trêmula, deixou as mãos segurarem o tecido de sua roupa, numa angústia que fizeram seu próprio estômago experimentar um eco reverberante de pressa.
- Você pode me perdoar, Zexy...? – perguntou, agarrado à camisa dele.
- Já o perdoei, Demyx. – ele respondeu, num sussurro quase que cálido.
Um risinho escapou do mais alto, enquanto os olhos do mesmo encaravam o chão, antes de voltarem a se fixarem no outro azul à sua frente.
- Por que será...?
Meneando a cabeça, ele retomou a pergunta:
- Por que será que você é sempre assim, inesperadamente legal...?
- É porque você é sempre esperadamente idiota. – respondeu.
Demyx riu outra vez. – Acho que tem razão...
- Óbvio que eu tenho.
Segurando as mãos de Zexion nas suas, o outro as levou, calmamente, até seu rosto, e fechou os olhos. Aquele toque nostálgico lhe dava a sensação de que, não importava onde quer que estivessem, aquele era seu lugar.
- Tudo bem. Hoje vou perdoá-lo porque sentia falta dessa arrogância. – sorriu.
- Isso me lembra... – disse, então, pensativo, enquanto traçava linhas invisíveis no rosto do outro, numa carícia delicada.
- Hã? – Demyx olhou-o, não fazendo idéia do que ele estava falando.
- Tinha esquecido de dizer uma coisa há dois anos.
De súbito, mais uma vez sem espera ou explicação, os lábios de Zexion estavam nos seus. E, então, abriram-se sem nenhum som.
Entreabriram.
Fecharam-se.
Abriram.
E houve uma pausa.
Imóvel e sem acreditar completamente no que acabara de “ouvir”, Demyx passou a mão por seu rosto, como se o ato fosse espantar o leve corar que se formava.
E, então, os olhos de Zexion confirmaram sua suspeita.
Seus lábios esboçavam apenas um breve esgar de sorriso, mas seus olhos – ah, aquele azul tão profundo que ele podia perder-se para sempre no fundo deles – estavam irradiando o feliz alívio daquela confissão.
Demyx, assim, sorriu, segurando a mão do mais velho.
- ...Eu também amo você, Zexy.
~x~x~x~
Zexion não podia lembrar-se com clareza de quando e onde, nem de todos os pequenos detalhes e situações, mas uma coisa estava certa.
Eles teriam tempo para recomeçar tudo de novo. E, desta vez, do jeito certo.
FIM.
Notas finais
[65] Conhecido no Japão como “Jinkou”. É um dos mais calmantes de todos, usado principalmente na medicação.
[66] O segundo semestre escolar no Japão termina em Dezembro, com apenas uma pequena folga no fim de Dezembro, antes do terceiro semestre que começa em Janeiro. Na época de Natal, porém, os alunos ainda estão em aula.
[67] Referência à Ches-sama e seus Zemyx maravilhosos. (L)~
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