Gris
12 Capítulo 11: Disquieting
GRIS Petit Ange
“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.” ~ Anna Karenina (Tolstói).
Capítulo 11: Disquieting. [41]
Zexion.
Podia-se dizer, sem nenhum prejuízo à verdade pura e simplesmente óbvia, que Zexion era alguém que prezava a ordem. É verdade que algumas hindus e outras diversas, bem como os próprios estudos científicos, sua Bíblia, diziam que o Universo nasceu do caos.
Mas, oras! O caos arrumou-se. Porque mesmo o próprio caos não suportaria ser assim o tempo inteiro; ele tornou-se ordem e o Universo nasceu graças à essa medida. Essa era a ordem, o correto.
E, afinal, ele seguiu essa ordem sua vida inteira. Ao contrário de Demyx, ele era a ordem, o ômega, o yin. Uma força pacífica, calma, metódica. E que, definitivamente, não se contentava com nenhuma espécie de caos. Então, nada mais lógico que, durante toda sua existência, tivesse procurado sempre a medida mais certa em tudo.
...Devia ser esse o “correto”, não é?
Porque, definitivamente, não era o que ele estava vendo à sua frente. Era, aliás, o exato antônimo de “ordem”. “Caos” puro e simples.
Por ele sempre ter sido alguém que entendia o conceito de tranqüilidade inerente ao estado de ordem universal, Zexion também era alguém que evitava o quanto podia conversas mais profundas – claro, também havia o fator de sua natural reserva em comentar sobre si próprio. Timidez, discrição, chamassem como quisessem –, justamente porque sentia-as como sendo incômodos.
E, pensando bem, graças à essa percepção, ele e sua mãe nunca tiveram um diálogo de fato. Era apenas uma enumeração de fatos, coisas que se fazem com alguém num elevador, num metrô. Sem fator pessoal; pura e simples cortesia.
Aquela era a primeira vez – e percebera isso em choque – em que Zexion viu-se tremendo de vontade de gritar com Ayumu.
Mas não daquele jeito que um terceiro pensaria que ele devia gritar...
Ele queria é apontar para Demyx e, com um certo desgosto, alguma raiva, de fato, mas com um inconfundível suspiro aliviado de quem finalmente sente, do fundo da alma, que pagará toda e qualquer penitência que ainda lhe resta pelas próximas 30 encarnações, berrar: “POR QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ SE DANDO TÃO BEM COM O MEU SEQÜESTRADOR????????”.
Sinceramente? A morte de Ienzo foi, sim, um choque. A ausência dela foi, sim, um choque. Com o tempo, amortecido, mas não deixou de ser sempre um verme que cutucava sua consciência e o incomodava. A relação deles, atualmente, era sempre um choque. Mas aquilo...
Aquilo apenas ultrapassava qualquer limite aceitável, permitido, saudável... Era uma traição em último grau!
Demyx era um imbecil, isso era fato consumado.
Se Zexion quisesse de verdade, poderia tê-lo dobrado facilmente. O garoto podia vencer em altura e, talvez, em força física, mas jamais em inteligência. E no século XXI, era isso que falava mais alto. Principalmente em alguém como o rapaz de cabelos azuis, cuja inteligência até ultrapassava o limiar dos reles e comuns mortais.
(...Aliás, falando naquilo, o fato de não ter feito isso era uma pergunta que pairava várias vezes em sua cabeça – todas elas, sem resposta).
E, depois, ele tinha outras vantagens além da óbvia inteligência. Era o dono do carro, conhecia o caminho por onde estavam indo (e, qualquer coisa, também era dono de um Palm com internet). E, principalmente, por mais que fosse um pouco cruel, não estava fragilizado por nenhuma doença.
Claro que subestimar um inimigo, mesmo um tolo como Demyx, era um erro que Zexion jamais cometeu e não o faria agora, mas mesmo assim, sua vitória era bastante óbvia. Tinha altas probabilidades.
...Mas e se Demyx não fosse um idiota?
Se fosse um seqüestrador sério, centrado, inteligente, meio sociopata, quem sabe, e talvez até com uma considerável carga de mortos em seu passado negro que certamente o condenaria?
SE FOSSE ASSIM, SUA MÃE TAMBÉM ESTARIA ALI, TOMANDO CHÁ, SORRINDO E FALANDO DE AMENIDADES COM ELE???!!!
Zexion sentiu-se prestes a quebrar o ovo em suas mãos e não onde de fato devia fazê-lo, e controlou-se imediatamente.
Tentou contentar-se com o fato de que, se aquilo fosse mesmo verdade, então, logicamente, ele sequer estaria ali. Muito provável que sequer estivesse vivo. Teria suas posses roubadas e seu corpo jogado em qualquer canto. E não sabia se ria ou chorava diante do pensamento.
...Certo, era verdade que até gostava do garoto.
MAS ISSO NÃO MUDAVA O FATO DE QUE ELE TENTOU SEQÜESTRÁ-LO!
E também não mudava o fato de que, graças à inteligência de ameba do mesmo (por que ele sempre se dava estranhamente bem, mesmo sendo um total idiota?! Isso era contra as leis da própria Lógica!), ele havia sido envolvido em uma perseguição insana, improvável e muito imbecil, só para dizer o mínimo. Com dois trogloditas protagonizando-a, do outro lado.
...Sinceramente? Ele preferia ter sido morto por um Demyx sociopata.
Demyx.
A verdade é que ele sabia muito bem que já nascera com uma vida que estava traçada por mãos que não eram as suas desde sempre. Não eram sequer as “mãos do Destino”. Eram as mãos de seu pai, dos sócios dele, do mundo de negócios idiotas onde ele seria chutado muito em breve.
Fora criado, não para ser alguém que devesse buscar o próprio caminho, mas como alguém que simplesmente estava seguindo uma tradição. Só mais uma pedra numa estrada amarela. Sempre considerou-se como parte da engrenagem de um mundo adulto que esteve em movimento antes de sua existência, que estaria em movimento mesmo que ele não quisesse, e que engolir-lhe-ia invariavelmente.
Podia até parecer que “ricaços”, como Axel o chamava (no começo, havia um tom levemente ácido nessa palavra. Com o tempo, ele foi desaparecendo e, hoje, o ruivo só o falava brincando), eram abençoados naturalmente com inteligência, sorte e beleza. Mas Demyx, como um protagonista daquele teatro, sabia que não era assim. Via de longe os pais de alunos menos incapacitados pagarem para que os filhos passassem, tudo o mais secretamente possível. Via de longe adolescentes fazerem planos para heranças, falarem mal de seus velhos, se aproveitarem uns dos outros...
Aquele era seu mundo, afinal. Ele próprio o fazia. E, lembrando-se com nostalgia apreensiva, também recordava de como suas notas eram “ruins” para a perfeição imaculada que exigia sua família (deuses, um dia no qual tirara 8.9, quase fora deserdado!), e de como ele praticamente vendia sua alma para corresponder à todas as expectativas do pai. O pai de terno. O pai de olhar distante. O pai inalcançável.
...Ele pensara muito naquilo quando soube-se atingido por sua doença. Em verdade, pensara até mais do que deveria.
Pensou no que lhe disse Axel, seu único amigo (mentira, os outros eram todos só “conhecidos” e “colegas de classe os quais tinham pais poderosos“) que nunca havia ido sequer para fora de Tokyo: ele havia jogado toda sua juventude fora. Toda sua vida passou como água, escorreu por seus dedos, e agora ele já não podia mais recolher. Estava derramada. Como leite. E nem podia chorar.
“Sim, claro...”, pensou, num resmungo. “E o que isso tem a ver com a situação?”
Parte de sua mente respondeu automaticamente à questão com um despreocupado: “Nada. Só me lembrei disso agora...” (e ele não pôde evitar um risinho mental – se dissesse isso à Zexion, em voz alta, ele iria ficar desgostosamente irritado e falar aqueles “seu idiota“ que tanto gostava de repetir).
Porém, a outra parte de sua mente, um pouco mais séria, quem sabe mais lógica, imaginou que aquele fosse um pensamento profundo e um pouco deslocado para ilustrar o fato de que até alguém como Demyx, para o bem ou para o mal, tinha consciência de certo e errado.
...E, definitivamente, aquela situação em geral estava totalmente errada!
Só para começar, ele estava na casa de Zexion. Aliás, uma casa que ele nunca imaginaria ser daquele jeito. Mas tudo bem, essa parte do trauma já fora devidamente superada após alguns goles de chá. Mas ainda era a casa de Zexion. Aquele fato era só o começo da vozinha irritante que berrava “ONDE ESTOU?!” o tempo todo. Era o início de todas as coisas erradas.
Bem que poderia ficar horas pensando em todas as coisas erradas dali, mas uma delas simplesmente saltou à seus olhos. E, digamos, de uma forma tão chocante que ele não pôde só sublimar como fez com a casa.
Ayumu.
...Pelos deuses.
Há menos de duas, quem sabe três horas, ele estava beijando o único filho que ainda lhe restava (filho esse que – de acordo com as narrações do próprio – não era lá muito querido, mas enfim!).
Notava-se, também, que filho estava no masculino.
E, para completar, debaixo do seu teto. Isso era bastante errado; o suficiente para que ele quisesse sair correndo, por exemplo.
Mas, ah... Como Demyx queria que só aquilo fosse o maior problema por ali!...
Encarou, de soslaio, a mulher que tantas vezes assombrou-lhe os pensamentos, fazendo-o imaginar como ela seria, como agiria, porque tinha tanta influência na vida de Zexion. E, bem... Todas essas perguntas foram magicamente – não respondidas – distorcidas quando adentrou aquela sala.
Sua aparência era comum. Tão comum quanto aquela casa.
Tudo bem que o próprio Zexion não era lá a pessoa mais espalhafatosa do mundo. Aliás, se fosse para comparar, o espalhafatoso era o próprio Demyx, com uma sítar azul e imensa e roupas tão azuis ou claras quanto.
...Mas a imagem que o rapaz de cabelos azul-acinzentados transmitia era a de sofisticação. Classe. Não que ele não a tivesse ainda, mas aquele ambiente tão normal era como ver um pedreiro em um salão de beleza. Uma sensação de estranheza; algo um tanto deslocadamente errado.
(Se ele ouvisse essa comparação, aliás, iria olhar bem nos olhos azuis dele e suspirar, como quem diz “essa foi a sua estupidez mais digna, Demyx”).
E Ayumu, enfim, também era completamente normal.
Não era, como imaginou a princípio, uma megera baixinha, gorda, com um cabelo estilo “colméia”, pintado de loiro ou ruivo, com um batom chamativo ao extremo e alguma pintinha no rosto carregado de maquiagem (ah é, quase esqueceu as sacolas de compra de grifes!).
Tal imagem estava anos-luz distante da mulher com quem conversava ao mesmo tempo em que se sentia em outra dimensão.
A senhora Ayumu era baixa, isso ao menos correspondia. Talvez, Zexion fosse alguns centímetros mais alto que ela. E ele era baixinho (Demyx sorriu mentalmente ao lembrar disso. Zexy não ia gostar nadinha se ouvisse seus pensamentos). Mas, tirando isso, o resto estava errado.
Era magra, muito bonita. Nem parecia que era mãe de dois filhos! Aliás, dois filhos! “Gravidez na adolescência” era um termo muito apropriado para designar a juventude que aquela... Mulher? Moça?, enfim, aparentava. Vestia-se normalmente, nem tão de forma requintada, nem tão simplista; era um meio termo que harmonizava, com as cores escuras da roupa, com sua pele.
Aliás...!
ATÉ LEGAL ELA ERA!
...Como disse, tudo aquilo era muito errado...
Demyx sempre imaginou, talvez no auge de sua imaginação fértil, que tanto Zexion quanto seu irmão Ienzo (era esse o nome, não é? Estava tão nervoso que nem lembrava-se do seu próprio...) tivessem puxado o pai, o marido que a abandonou assim tão cruelmente, e que, dentre tantos outros motivos, isso a tornasse uma pessoa distante para com os filhos, “lembretes” daquele homem odioso.
Mas... Não. Era óbvio que, ao menos Zexy, havia puxado o lado materno da genética. Ele, para a sua surpresa, era muito parecido com sua mãe. Ninguém no mundo poderia dizer que não eram parentes.
E isso só adicionava mais uma observação medonha para a sua lista de “coisas que assustar-lhe-iam para o resto da vida”...
Ayumu.
Sábio era aquele que um dia disse (ou melhor, só podia ser “aquela”. Homens nunca entenderiam, de fato, dessas coisas) que a maternidade é uma verdadeira caixinha de surpresas. No seu caso, ela não vinha com músicas, com jóias ou adornos, mas não deixava, de fato, de ser um ditado mais do que certo para aquela situação.
Ayumu sempre achara – ou melhor, só começara a considerar isso depois do divórcio – que seus filhos nasceram daquele jeito por alguma espécie de brincadeira de Deus. Uma de muito mau gosto, devia admitir.
Seu ex-marido lembrava-lhe o menino de olhos azuis à sua frente. Ele era jovem, expansivo, tinha carisma e um belo sorriso... Talvez tenha sido tudo aquilo que a conquistou desde o primeiro momento. Ou não. Bem, não importava de verdade.
...E, secretamente, ela sempre desejou, desde que descobriu que uma criança crescia em seu ventre, que seu futuro bebê fosse igual ao pai. Em aparência, em personalidade... Como naqueles romances imbecis ou nas novelas ainda mais tolas, uma perfeita cópia do progenitor. E ela poderia, então, ter dois tesouros preciosos.
Foi-lhe, de certa forma, uma decepção ao ver que Zexion nascera igual à ela. Em aparência e, com o tempo, em personalidade.
Ele tinha a inteligência quase afrontosa da sua irmã. Tinha a discrição da própria Ayumu. Tinha a aparência dela também. Mesmo tendo o dom da oratória como o pai, o resto era tudo dela. Não era uma pequena cópia de seu marido; era uma dela. Indubitavelmente, “seu filho”.
Não que gostasse de se lembrar daquela época conturbada, mas com Ienzo fora a mesmíssima, a exata coisa.
O menino também nasceu com os mesmos cabelos, numa nuance mais opaca, com os mesmos olhos, a mesma timidez, a mesma discrição, o mesmo silêncio. A mesma personalidade que jamais se sobressai, apesar de tanto prometer; alguém que prefere ouvir mais do que falar. Uma outra cópia sua.
Talvez, de certa forma, por isso ele e Zexion sempre se deram tão bem...
...E, talvez, por isso que Deus, Buda, seja lá quem fosse, lhe dera aquelas crianças. Para que, quando viesse o inevitável divórcio, as inevitáveis amantes, o inevitável fim daquele conto-de-fadas, ela jamais pudesse renegar aqueles dois: eles eram suas cópias. Seus filhos. Sem dúvidas. Ele é quem podia duvidar da paternidade; não ela.
Depois daquele abrupto fim, veio-lhe a realidade: nenhuma pensão, dois filhos, sendo um deles ainda um bebê. Dois empregos. Era difícil manter ambos. Dormia poucas horas por dia; talvez, tenha influenciado a “dieta de café” de Zexion, afinal, ela própria também vivia à base dele. E voltava tarde da noite; não tinha tempo de ir em reuniões de pais, em peças de escola ou no quer que fosse. E, de alguma forma, suas crianças acabaram por entender o recado tácito: “cada um fará a sua parte aqui dentro”. A parte dela não era ser mãe; e, sim, provedora.
Era tão certo quanto o dia que Ienzo fora criado pelo irmão mais velho. Ela, sua mãe, teve pouca ou nenhuma participação naquilo.
...E, sinceramente, ela achava que Zexion fizera um bom trabalho. Como mãe, só podia se orgulhar de sua criança por ter sido capaz de criar outra criança. Mas eram coisas que desapareciam de sua mente no próximo segundo, dando lugar à preocupações mais realistas, como o próximo salário, aumentos, como pagaria as dívidas e coisas do tipo.
Talvez, seu pequeno tivesse sido absorvido tanto por seu trabalho de ser “pai/mãe/irmão” para Ienzo que houvesse esquecido de ser “humano”.
Porque Ayumu nunca vira ele trazer nenhum amigo para casa. A mesma estava sempre livre. Ele poderia muito bem fazer uma festa de arromba, até; mas a senhoria do prédio sempre lhe dizia: “Não vi ninguém vir ao seu apartamento hoje”. Ou, talvez, ele fosse apenas assim, discreto como sua mãe. Mas sabia que não era isso... Zexion, de fato, não tinha amigos.
Foi assim com Ienzo também, é verdade. Seu caçula também nunca trouxe ninguém para casa. Ela nunca ficou sabendo de nenhuma namorada. Depois da morte dele, seu celular, computador e etc foram obviamente analisados; ali não havia nada. Nenhuma mensagem comprometedora, nenhum indício de “humanidade”. Seu pequeno morrera tão anônimo quanto nascera.
Por isso, foi-lhe uma imensa surpresa ser apresentada ao jovem que, talvez, fora a única pessoa que ela conhecera, além da própria, que sabia que Zexion existia.
- Diga-me, senhor Demyx... – sorriu-lhe, agradavelmente. – ...De onde conhece o Zexion mesmo?
Os olhos azuis do mesmo arregalaram-se, surpresos:
- De onde eu o conheço? Bem... É de...
- Demyx é um ex-colega meu de colegial, mãe.
Ayumu nunca percebeu, mas o rapaz de cabelos revoltosos olhou para Zexion, que finalmente vinha da cozinha com os hot-cakes[42] que estava fazendo, da mesma forma que um fiel olha para o deus que acabou de salvá-lo de um raio.
- Ora... É mesmo? – surpresa.
- Sim. Fomos rivais ao prestarmos o vestibulinho[43] para a mesma escola. No ginásio, estávamos em salas diferentes, mas ao passarmos ambos com as melhores notas, ficamos na mesma sala no colégio. – colocou cada prato disposto à frente deles, na mesa. – Pode não parecer, mas Demyx é bem inteligente. Não é? Obviamente, porque senão, jamais poderia ser sequer meu rival.
Ela também não percebera, mas desta vez, o rapazinho olhara para Zexion como o mesmo fiel, outrora salvo, que agora percebe com horror que uma árvore caiu em cima de sua cabeça e o matou. E nem percebeu o olhar de resposta de “só confirme o que eu disser” do primogênito.
- Ah... Ah, sim! Eu e Zex...Ion – engoliu em seco. Quase ia usar o apelido infame! – sempre éramos bons em tudo, então... Meio que brigávamos pela real liderança...
Ayumu sorriu. – Que coisa, ele nunca me falou disso!
- Não era algo para ser alardeado... – suspirou o mesmo.
- Então, você está em alguma universidade? – ela o encarou, novamente curiosa. – O senhor parecia-me tão mais jovem que fiquei surpresa, agora. Achei sinceramente que estivesse no colégio ainda...
- Ah, que é isso! Todos dizem isso! – gota.
Zexion fuzilou Demyx com os olhos por estar estragando sua desculpa esfarrapada mais brilhante. E sendo impolido com sua mãe. Não naquela ordem, necessariamente. E, mais uma vez, da forma mais discreta possível.
- Como fui para Tokyo depois da formatura, não falei com mais ninguém da escola. Foi até por acaso que encontrei Demyx hoje, quando voltava pra casa. – explicou o outro, depois de engolir mais um pedaço de hot-cake. – Mas estávamos falando disso, não é? Do que estávamos fazendo.
Um breve silêncio separou-o da resposta deveras expansiva do outro.
- Ah, é! – assentiu veementemente. – Eu continuei em Nagano, claro... Mas estou me preparando pra ir para Tokyo e prestar Geidai[44].
Após mastigar o último pedaço de sua primeira hot-cake, a jovem mãe do seu companheiro de fugas esboçou um reconhecimento.
- Geidai, a de música?
- Sim, essa mesma! – assentiu de novo.
- Ora, que interessante...! – o sorriso dela alargou-se. – E o que o senhor sabe tocar, se me permite a pergunta?
- Hum... Violino, na verdade... – ele coçou a cabeça, um pouco sem jeito.
Pelas próximas quase duas horas, a conversa foi basicamente entre ela e o jovem amigo de seu filho, quem descobriu ser um talentoso violinista que pretendia entrar, algum dia, na Orquestra Filarmônica. E também uma ótima pessoa. Zexion limitava-se a alguns comentários ocasionais sobre sua vida e algumas histórias que a própria Ayumu contava; ele, como sempre, estava mais ocupado em ouvir e, por isso, deixou que o foco fossem eles dois.
A mulher também percebeu, sem poder esconder a surpresa que alastrou-se dentro dela por isso, que aquele menino era deveras parecido com seu ex-marido. Em personalidade, ao menos.
E ela não soube definir se aquilo a agradou ou a desgostou, de fato.
~x~x~x~
Quando percebera, além de já estar de noite, Demyx viu-se pensando, com um choque que atravessava as palavras, “como a sua mãe é legal, Zexy!”. Aliás, viu-se até pensando que queria até ter uma mãe como a senhora Ayumu.
Passou a mão pelos cabelos (com cuidado), e cogitou estar em outra dimensão de novo. E, obviamente, preferiu ficar bem quieto quanto à isso com Zexion; ele já não estava satisfeito com toda a “amizade” entre os dois. Ia pular em cima dele se dissesse que pensou aquilo.
Porém, todos seus pensamentos calaram-se quando, diante de si, viu sua mochila ser tirada do porta-malas do carro (bem, ele disse que podia ir embora sozinho, mas Zexion insistiu em acompanhá-lo até lá fora. Finalmente, aquela sua ação tão cortês fez o bendito sentido que devia ter feito desde o começo...). A mesma mochila que ele lembrava-se, junto com a sítar – que, por sinal, também estava dentro do carro –, de estar lá na sala de tatame.
- ...Mas o quê... – engasgou. – Como foi que...? Quando...?
- Não achou que eu inventei toda aquela história para que você, ao sair, levasse suas coisas e mostrasse o óbvio, não é, Demyx?
...Na verdade, o moreno nem lembrou-se de que elas estavam lá ainda. Ainda bem que tinha alguém que fez isso por ele.
- Ora... – e, então, sorriu. – Você é mesmo incrível, Zexy!
- Não, você é que estava tão ocupado conversando com Ayumu que sequer percebeu quando eu saí. – encarou-o duramente. – ...Bom, mas ao menos, distraiu-a a ponto dela também não perceber. – e, por fim, deu de ombros.
- Será...? – ele ficou pensativo. – Acho que um plano tão em cima da hora assim, mesmo para o seu nível, é meio...
- Sem problemas. – Zexion continuou com aquele seu ar blasé. – Ela não vai perceber nada. Na verdade, ela nem se importa com tudo isso.
Havia uma acidez palpável naquela frase.
...E só então Demyx voltou a recordar-se de que, afinal, a mesma senhora Ayumu que riu de suas histórias (inventadas às pressas, com alguns toques de realidade) era também a mesma que chamou seus filhos de “falhas”. Era difícil tentar conciliar essas duas imagens tão antagônicas.
Mas, bem... Zexion também mostrou-se uma pessoa bem diferente do que ele imaginava naquele dia. Sua casa também. É... Ele até podia ter êxito em suas tentativas se soubesse conciliar tudo isso (mesmo sendo assustador).
- Ao invés disso...
- Hum? – ao ouvi-lo, voltou-se imediatamente para ele.
- ...Poderia me responder uma coisa?
- Ah, claro! Pode perguntar! – surpreso por aquele humor deveras volátil (era o mesmo Zexion arrogante dos primeiros dias?), Demyx demorou um pouco mais do que previa para dizer aquilo.
- Bem...
Suspirou profundamente, como que buscando coragem.
- ...Aquilo que você falou é verdade?
- Hã? “Aquilo” o quê? – afinal, foram tantas mentiras numa noite só...
- Aquilo... Sobre a Geidai, a Orquestra, e semelhantes.
- Ah, sim. – Demyx riu. – Na verdade, minha mãe queria que eu tocasse violino, mas eu achava muito entediante! Só sei o básico mesmo... Piano também... E, bom... Eu já tenho meu futuro garantido, mas estou estudando na Toudai[45] mesmo assim. Mesmo eu gostando mais de música do que de negócios, a Geidai não é exatamente o lugar que meus pais querem que eu curse, sabe...
Zexion demorou alguns milésimos de segundo para absorver o que o idiota havia lhe dito.
Mas quando aquilo aconteceu, foi como se houvesse recebido um soco direto no estômago. Com muita força. Muita, muita força.
- Você disse... “Toudai”? – a mesma na qual, um dia, ele esteve? A universidade mais prestigiada do país? Aquela Toudai?! – ...Aquela em Tokyo...?
- Sim. – alheio àquela surpresa (e ao cinismo inerente à ela), Demyx resignou-se a assentir o óbvio.
Ah, a surpresa...
Ei, espere um pouco. Se ele disse que cursa a Toudai, no presente, então...
- ...Demyx, quantos anos você tem?
Só então (QUE VERGONHA!) lhe passou pela cabeça que, afinal, Demyx era um garoto. Ou, ao menos, tinha aparência de um.
...Meu Deus, ele era um pedófilo e nem sabia?!
...Não, espere. Se ele disse que estava cursando a universidade, isso significava que, primeiro, já havia acabado o colégio. Ou seja: tinha dezessete/dezoito anos, no mínimo. Estava, então, no limiar da pedofilia, não é?...
- Hum... Tenho dezenove. Por que a pergunta? – devolveu, confuso.
“Dezenove”. Era maior de idade, legalmente falando... Zexion devia suspirar de alívio? Claro que não.
“Eu... Beijei... Uma... Criança... De... Dezenove... Anos...”, pensou. E quis se matar.
PELOS DEUSES, ELE ERA UM PEDÓFILO!...
É claro, isso não passou de algo extremamente desgostoso só em sua mente. Por fora, ele continuou duro como pedra.
- Ah... Porque você bebeu, Demyx. Ainda não pode ingerir sake. – sussurrou, tentando parecer o mais natural possível, por cima da surpresa.
Ele fez um beicinho. – Isso é o de menos, tá?
- Nem pensar. Já perturbamos muito a ordem pública. – ergueu a sobrancelha, brevemente incomodado. – Você não toca mais em álcool, fui claro?
Chocado, Demyx encolheu os ombros.
- Mas... Mas...
- Nada de “mas”. – e lembrou-se, é claro, daquela bebedeira homérica que tiveram no quarto de hotel há mais de uma semana. Aquela seria uma história que ele enterraria para sempre no fundo de sua memória; o dia em que um garoto passou a perna nele e numa atendente de alguma loja de conveniências das redondezas (...o dinheiro podia mesmo comprar tudo! Até maioridade alcoólica adiantada!).
- Ah... – e o rapaz pareceu murchar. – ...Você também não é maior de idade para isso, aposto! Por que só eu...?
- Nem pensar. Eu tenho vinte e um anos. Posso beber. – categórico.
- Vinte e um? Que legal! – ele sorriu. – Você parece tão mais novo, sério!~
- ...Não estaria trabalhando se fosse mais novo, não é? – gota.
- ...Tem razão. – murchando de novo.
Suspirando, Zexion decidiu trazer uma conversa um pouco mais produtiva (e séria) para a pauta do momento.
- Deixando isso de lado, onde você vai ficar?
Ah, é. Ele quase esquecera-se disso também...
Porque, afinal, Demyx não podia ficar com ele enquanto o mesmo estivesse em sua própria casa. Até porque, para o bem ou para o mal, agora era um “cidadão de Nagano”. Já podia ver-se pesquisando alguns lugares da cidade para não parecer um mentiroso assim, tão depressa.
(Aliás, engraçado como ninguém por ali conhecia seu nome. Ou isso era uma dádiva, um mundo alternativo, ou ele era mesmo só conhecido no seu meio. Isso tudo ou simplesmente seu pai sabia manter a família cercada da devida discrição).
- Vou procurar um hotel. – sorriu, despreocupado.
- Quer alguma indicação ou ajuda? – devolveu Zexion, ainda com aquele tom, agora sim, bem habitual dele.
- Não, não... Não precisa se preocupar. – ele sorriu ainda mais. – Vou estar bem, Zexy. Eu me viro aqui!
- ...Está noite, você estará sem carro e essa é uma capital, Demyx. É perigoso.
- Vou ligar pra você quando chegar em algum hotel então, certo?
- Sabe meu número?
- Sim! – assentiu, obediente. – Você já me deu ele, pode deixar.
“Se precisar de algo, sabe onde é minha casa”. Era o que ele queria dizer. Mas as palavras não saíram; nem jamais sairiam.
- Muito bem... Então vá logo, já está muito tarde.
- ...Está me tratando como uma criança. – ele revirou os olhos, divertido.
- Vá de uma vez. – revirou os olhos também.
Demyx teve vontade de dar meia volta e dar-lhe um abraço. Talvez, sussurrar um “até logo”. Algo ridículo daquele tipo, como naqueles filmes românticos tolos. Mas seria muito insensato de sua parte fazer isso com um rapaz numa rua de capital, num país conservador como aquele. Sua mente, de qualquer forma, dominou a matéria; ele apenas continuou a caminhar, até perder aquela casa de vista.
~x~x~x~
Aqueles sintomas eram inconfundíveis. Completamente inesquecíveis.
Demyx quase sentiu-se como quem saúda, depois de tanto tempo, velhos amigos que nunca mais viu.
Encostou-se na parede áspera, sentindo a brisa da noite da capital apenas aumentando, estranhamente, seu enjôo. O que lhe causou uma sensação inóspita de surpresa – afinal, geralmente, o vento aliviava esses sintomas.
A outra mão rumou, inconscientemente, à testa. Agarrou-a como se aquele fosse o cerne de todo o problema.
Seu corpo doía. Sua cabeça, seu pescoço, seu peito, suas pernas, tudo doía como se fosse arrebentar, como se Demyx fosse um boneco de cordas e o mestre houvesse soltado-as, do nada, fazendo-o cair e quebrar-se.
As luzes, então, se desligavam e tudo voltava a ficar em silêncio. Mas o boneco de madeira continuava quebrado.
Sentiu a respiração descompassada, e apertou mais as têmporas.
Era óbvio que aquilo não o aliviaria em nada. Mas estava tão enjoado que não conseguia mais dar nenhum passo.
A dor era tanta que pressionava sua cabeça e seu estômago ao mesmo tempo; era estranho, já que ambos pareciam extremidades distintas, mas só naquele momento percebeu o quanto a ânsia e a dor podiam estar juntas, de mãos dadas como criancinhas ao saírem do colégio.
Se caminhasse um pouco mais, e disso tinha tanta certeza quanto aquela de que estava de pé, no meio da rua, passando mal a ponto de achar que desmaiaria em breve, iria vomitar tudo o que não tinha comido.
Não podia caminhar enquanto aquela dor não cedesse, mesmo que só um pouquinho. E, é lógico, sabia que ela não cederia sem remédios.
...O que fazer?
Um sorriso atravessou os lábios, inconscientemente, quando lembrou-se de como Zexion não perguntou o quê ele fazia de fato na Toudai, quando contou-lhe que estava estudando nela. Nem os motivos que o levaram a abandoná-la em período letivo. Porque ele era inteligente o suficiente para perceber que aquele não era um período de férias; Demyx deveria estar estudando.
Afinal, fora uma sorte, dentre tantas pessoas, ter encontrado justamente com ele. Porque ele sabia quais eram seus limites, assim, inconscientemente.
Forçou as pernas, então, a caminharem, e obrigou o estômago a segurar a comida um pouco mais. Ao menos, até chegar em algum hotel. Precisava sair da rua; Zexion tinha razão. Podia ser perigoso. Tudo bem que já estava mesmo com a aparência de alguém com um pé na cova, mas não podia morrer por motivos tão ridículos quanto um “passa essa mochila, maluco!” ou coisa do tipo.
Respirando profundamente a cada passo que dava, ele caminhou, perdido na noção do tempo e espaço. Havia pedido informação para uma moça que passava por ali, mas pouco se lembrava do que ela havia dito. Direita ou esquerda?
Ao chegar na esquina e virar para a esquerda, viu a farmácia.
E, com passos que muito lembravam os de um zumbi trôpego, arrastou-se, arfante, até ser engolfado pelo ar frio do ar-condicionado dali de dentro. Uma enorme sensação de bem-estar o acometeu em meio àquele cheiro de remédios.
- ...B-boa noite, senhor. Em que eu posso ajudá-lo? – uma hesitante voz feminina o chamou.
Engolindo em seco, Demyx procurou sua carteira na mochila, evitando olhar para a moça. Era óbvio que ela estava se contendo muito para não perguntar o que acontecia com ele.
...Devia estar mesmo com uma aparência horrível.
Ainda bem que Zexion o dispensara rapidamente. Já não estava mesmo agüentando fingir boa saúde ali na frente da mãe dele e dele próprio.
- Dicodid[46]... O de 10mg... Vocês têm...? – perguntou, imprimindo o máximo de vigor possível em sua voz.
- Ah... Sim, temos.
- Então, quero três caixas... Por favor.
- Mas... – ela hesitou. – Este é um medicamento muito forte, se...
- Três caixas. – e deixou uma nota de dinheiro em cima do balcão. – Posso pagar. Não é preciso receita, não é?
- ...Certo. Um momento. – ela inclinou-se, polidamente, e deixou-o para ir pegar as três caixas que lhe foram pedidas.
Demyx quase sentiu-se inclinado a pedir um copo d’água também.
~x~x~x~
Zexion fechou a porta do apartamento, ouvindo atrás de si somente o silêncio. Provavelmente, Ayumu já colocara a louça na máquina de lavar (um luxo só adquirido depois que ele começara a trabalhar).
...Demyx aceitou bem demais ele estar enxotando-o. Não era simples questão de preocupação com sua segurança. Ele queria ir embora.
Imediatamente, seus pensamentos levaram-no para “aquele problema”, o qual ele não conhecia, mas que existia. Estaria ele passando mal de novo e, por isso, queria ir embora? Para fraquejar sozinho, como foi no ryokan?
Zexion quis correr e impedir aquele idiota de fazer aquilo consigo mesmo. Mas não conseguiu sair do lugar.
- ...Voltei. – disse, então. E suspirou profundamente, contendo-se.
- Seu amigo é muito interessante. – sua mãe, na sala, comentou, com um sorriso, ao vê-lo chegar. – Não achei que fizesse amizade com tipos assim...
- Às vezes, variar o tradicional “clube dos ratos de biblioteca” é bom. – deu de ombros, indiferente ao comentário dela.
- ...De fato. – assentiu, com uma risadinha.
Ele a encarou. Já sabia o que era aquilo. E não estava, excepcionalmente, com a menor paciência para tal.
- ...Vamos tratar dos negócios, então?
Ayumu concordou, sem se abalar:
- É claro. Sente-se, então. Temos muitas contas a serem feitas por aqui.
Notas finais
[42] O equivalente brasileiro de “panqueca”. Porém, nos EUA, Europa e Japão, as hot-cakes costumam ser muito diferentes, podendo às vezes ser até doce (hot-cakes de baunilha, por exemplo).
[43] No Japão, o ingresso ao Ensino Médio (colégio) é feio através de provas (vestibulinhos) que visam preparar o ginasial para o nível de um colegial. Deveras semelhante ao processo usado nos vestibulares universitários brasileiros.
[44] Abreviação de “Tokyo Geijutsu Daigaku”, traduzida como “Universidade de Artes de Tokyo”. É a mais prestigiada universidade de artes do país.
[45] Abreviação de “Tokyo Daigaku”, traduzida como “Universidade de Tokyo”. A mais famosa e concorrida universidade do Japão.
[46] Remédio (leve) da família das hidrocodonas. Tem uma moderada dose de morfina na composição.
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