Gris

6 Capítulo 5: Another Side


GRIS
Petit Ange

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.
~ Anna Karenina (Tolstói).

Capítulo 5: Another Side. [19]

Se aquele fosse um dia normal, Zexion faria duas coisas, obrigatoriamente, tão logo acordasse.

A primeira, levantar-se imediatamente. A segunda, olhar, então, o relógio para ver que horas eram (se fosse cedo demais voltaria à cama, se fosse um pouco cedo entraria no banho. Nunca acordara na hora ou tarde demais).

Acontece que aquele não era um dia normal. Por isso, ele fizera duas coisas completamente diferentes ao acordar.

A primeira, encarar seu pulso atentamente. Nenhuma algema (e, só por precaução, procurou por alguma coisa em seu tornozelo. Também nada). A segunda, com muito cuidado, inclinar-se e tentar ver o rosto de Demyx, virado para o lado oposto ao de Zexion, que parecia dormir profundamente.

Não conseguiu vê-lo. Mas percebeu que o idiota não havia se coberto. Como se houvesse estado sentado por um bom tempo e simplesmente houvesse, então, se deitado e dormido em algum lugar do processo.

Idiota. Tomara que pegue um resfriado”, praguejou, então fazendo o que devia ter feito num dia normal: levantar-se.

Sentindo-se enfim de volta à sua realidade, encarou seu relógio: oito e meia da manhã. E surpreendeu-se.

Ele não soube que horas dormiu. Mas foi tarde, muito tarde. Disso tinha certeza.
Porque passara grande parte da noite ouvindo os lamentos.

Antes daquela noite, Zexion não sabia que alguém podia chorar tanto. Tudo bem, não podia dizer com 100% de certeza que aquilo era um soluçar de pranto, mas parecia. E o tempo que ele durou era assustador.

Pareceu-lhe uma eternidade angustiante, mas devia ter sido só um pouco mais de uma hora. Mesmo assim, era assustador.

E, depois, o som parou. Assim, sem nenhum aviso.

Bem típico de Demyx.

Por isso, acordar assim tão cedo quando foi dormir quase quando o sol já estava nascendo foi, talvez, tão assustador quanto.

(Será que o medo de ver-se preso de novo era tanto assim?).

Tentando esquecer-se daquela madrugada infame, Zexion fez a terceira coisa que faria num dia normal: tomar banho (enquanto pensava, levando suas roupas, que devia começar a procurar uma lavanderia. Não tinha nem como conseguir um ferro de passar para desamassar as que usara).

E quando voltou ao quarto, sem aquele, devidamente vestido e não mais com aquele yukata irritante, percebeu que Demyx continuava dormindo.

Ergueu a sobrancelha, deparando-se com uma dúvida cruel, a primeira do dia: acordá-lo ou não?

O café-da-manhã estava sendo servido, mas o horário estendia-se apenas até às nove e meia. E o idiota não tinha cara de quem, depois daquela noite (deuses, como ela parecia mais um sonho ruim ou uma ilusão do que realidade...), iria conseguir acordar antes das onze da manhã.

E, então, Zexion teve um sobressalto.

Ah... Seu rosto.

Estivera tentando vê-lo. Agora, tinha a chance. E surpreendeu-se: parecia bem mais estranho do que imaginava.

Em livros e filmes, sempre diziam que, quando se dorme, as pessoas ficam tranqüilas. Parecem crianças que dormem em paz porque sabem estar seguras. Ou, simplesmente, perdem as carapaças e as defesas. Ele sempre achara aquilo muito pessoal. Ver alguém dormir era, talvez, mais íntimo que um beijo.

Ou devia ser assim. Porque Demyx, por outro lado, tinha um rosto muito melancólico naquele momento. Claramente, o de alguém sofrendo.

...Será que, então, ele era um idiota por conveniência?

E aquela sua face tão triste era sua verdade?

Zexion quase teve uma síncope quando percebeu-se parado, olhando para o rosto adormecido do companheiro de fuga como um tolo. Censurou-se milhões de vezes enquanto guardava o futon no armário.

Pensar nele era, obviamente, um erro. Era só um idiota que tentou roubar seu carro. Um idiota. Não mais do que um idiota.

Como que subitamente sentindo-se sufocado, Zexion pegou seu Palm, que deixara carregando pela parte da noite, e dirigiu-se à porta para descer e esfriar os ânimos.

Eu sabia! Isso que se ganha por dar confiança à idiotas”, rosnou mentalmente, sentindo que seu rosto começaria a corar (era só o que faltava!) se continuasse assim.

...Estancou, entretanto, tão logo tocou na porta para corrê-la.

~x~x~x~

Os olhos azuis abriram-se com muito esforço, e as pálpebras pesaram como chumbo. Desejava, é verdade, apenas voltar a dormir. Dormir até não poder mais. Como num conto-de-fadas, dormir para sempre.

Mas não podia. Estava ainda em Nikko. A grande Nikko.

Precisava levantar-se, se vestir imediatamente e sair para todos os lugares que conseguisse visitar. Porque o sol alto já indicava ser, no mínimo, dez horas. Talvez, já passasse das onze.

Fez planos mentalmente, procurando em seus parcos minutos com a internet, onde podia ir hoje.

Nos templos? As cataratas Ryuuzu?...

Talvez, ir ao Tosho-Guu e procurar a estátua dos Três Macacos Sábios.[20] Sim... Ele lembrava-se de sua mãe, que sempre falava dos três macacos à ele.

Demyx virou-se automaticamente, procurando Zexion.

Não estava em sua cama (nem a mesma estava lá).

Já saíra, provavelmente.

...Será que dormiu tanto assim? Não, tudo bem, Zexion sempre acordava mais cedo que ele. Aparentemente, era tão sem-graça que devia acordar cedo mesmo, só para não ter nada pra fazer.

- Ah, droga... – resmungou, batendo em sua própria testa (com força, diga-se de passagem) e deixando a mão ali mesmo. – Eu dormir demais...!

Certo, precisava levantar-se. Tinha um longo dia pela frente.

E tirou de cima de si as cobertas, pensando se devia tentar dobrar o futon ou deixá-lo ali para alguém o fazer.

...Cobertas.

Já de pé, Demyx percebeu algo muito instigante: ele não lembrava-se de ter se coberto naquela noite. Não lembrava-se sequer de quando dormiu.

Precisou olhar uma vez mais para o espaço vazio ao seu lado, confuso.

E, então, sorriu.

- ...Obrigado. – disse para o nada.

~x~x~x~

Ele estava preocupado. Odiava admitir, mas Demyx conseguiu deixá-lo daquele jeito. Afinal, “preocupação” era a única palavra que descreveria suas ações. Combinavam perfeitamente, em teoria.

- Adivinha quem éééé~?!

Em prática, porém, o assunto era tratado de uma forma totalmente diferente. Aliás, comparando as duas, a prática estava sendo bem mais fácil.

- ...Você tem três segundos para tirar suas mãos de mim. – Zexion sentenciou.

Demyx revirou os olhos, tirando as mãos de seu rosto.

- Ah! Você adivinhou! – e abriu mais um daqueles seus sorrisos tolos.

Encarando-o, a sobrancelha arqueada, o rapaz de cabelos azuis fitou-o de cima a baixo, como quem procura qualquer coisa errada na figura a sua frente. Bem, a verdade é que existiam muitas coisas erradas com ele, mas, no momento, nenhuma que se encaixasse nas definições que ele estava procurando.

Incrível, o idiota não tinha olheiras. Não estava sequer com a aparência de quem havia desmoronado no meio da noite. Era mesmo um... Idiota.

(Ultimamente, estava usando muito essa palavra. Precisava de um adjetivo mais equiparável àquele grande idiota).

- Está com fome? – emendou rapidamente, antes que se traísse.

- ...Ei, Zexy.

Suspirando de desgosto por ouvir o apelido de novo, ele encarou-o: – O que?

- Você me cobriu. Não sei quando, mas me cobriu. – e Demyx, assim, colocou a mão sobre a cabeça dele, como um cãozinho. – Muito obrigado.

“De nada”, quis dizer.

É claro, seria educado. Seria certo.

ISSO SE NÃO HOUVESSE UM PATETA IDIOTA COM A MÃO EM SUA CABEÇA NO MEIO DO RYOKAN.

- Não. Toque. Em. Minha. Cabeça. De. Novo!... – rosnou. Mais um pouco, e acharia que mereceria o tapinha na cabeça por um sussurrar tão animalesco.

- ...Ora, acordou com o pé esquerdo, é? – afastou-se.

Mais uma vez, sua impaciência extrapolava os limites que ele considerava ‘aceitável’, o que o obrigou a uma retirada estratégica. Suspirou profundamente, encarando Demyx e tentando não achar os pontos negativos de um imbecil que passou a mão em sua cabeça (ARGH!), mas de um imbecil que, definitivamente, estava com problemas obviamente pessoais.

Talvez, ele não houvesse feito aquela avaliação a nível tão profundo antes. Ou talvez porque Demyx era um tremendo mentiroso tão bem-feito que aquela avaliação se perdia entre a necessidade e a raiva por tamanha tolice, tolices essas que ele transpirava, respirava e que pareciam ser a sua própria personalidade. Aqueles olhos azuis não tinham problema algum; ele era um idiota. Pura e simplesmente.

Mas o lamento que fez Zexion ficar acordado até quase o amanhecer também não era mentira. Ele coexistia com aquele sorriso falso.

O rapaz de cabelos em nuances levemente acinzentadas de azul sentiu-se, num misto de incredulidade e vergonha, subitamente, como uma criança inocente que sente na língua o sabor amargo da hipocrisia.

Como alguém consegue fazer isso...?”, perguntou-se. Mesmo sendo óbvio, ele não sabia como Demyx oscilava entre dois extremos daquele jeito tão perfeito.

(Definitivamente, agora era ele quem parecia um pobre idiota que não sabia como funcionava os mecanismos de hipocrisia e mentira social).

- Está procurando algum ponto vital onde me jogar mais um livro e me matar, dessa vez pra valer? – ouviu-o perguntar.

E teve de praticamente morder a língua para não falar no que estava pensando.
Ao invés disso, antes que traísse a si próprio, apelou para uma aproximação um pouco mais objetiva:

- Dez e cinqüenta e dois, Demyx. – meneou a cabeça. – Sem café-da-manhã.
Aparentemente, sua abordagem dera resultado. Ele mudou, do hipócrita ao tragicômico, em um segundo.

- NÃO!... – desesperou-se.

- Acalme-se, dentro de poucas horas passaremos em algum lugar e almoçamos.
E, desta vez, a continuação da abordagem não foi boa. – Ma-mas... Mas e até lá?! Eu tô com fome!

- Então, da próxima vez, não durma tanto. – encarou-o, sério. – Se tivesse voltado cedo para o quarto, isso não teria acontecido.

O moreno suspirou, um meio-sorriso em seu rosto.

- Sabia... – no rosto estava a confirmação e a diversão ao mesmo tempo. – Tava bom demais pra ser verdade isso... Você não me questionando sobre a noite anterior, minha ausência e tudo o mais. Ok, eu caí direitinho.

Zexion não se abalou. – Fiquei esperando você como um tolo.

- Me desculpe. – sorriu, amarelo. – Eu tive de dar uma saída. Aí encontrei algumas pessoas jogando tênis de mesa na volta... Não resisti.

- Ah...

O outro teve de morder a língua de novo (deuses, onde estava sua objetividade e frieza incomparáveis?) para não desfiar uma bíblia de evidências que jamais linkariam Demyx à um jogo de tênis de mesa com pessoas aleatórias naquela noite.

Evidências que iam desde a proximidade da sala de jogos ao lugar onde ele estava esperando o idiota, passando pelas contas mentais que fizera da quantidade de hóspedes (aparentemente, todos os que não dormiam ou jantavam fora estavam ali naquele momento. Fizera as contas mentalmente e as chaves que estavam no armário corresponderiam sim ao número de hóspedes presentes ali), até chegar ao horário, muito tarde, no qual finalmente desistira de ficar esperando. O salão de jogos estava indubitavelmente fechado quando isso aconteceu.

- ...Sim. – tom absolutamente neutro.

E silêncio, em seguida.

- Você estava digerindo a informação. – acusou, divertido.

Zexion apenas ergueu a sobrancelha. Incrédulo.

- Não. “Ah” significa entendimento. – como se explicasse a um retardado.

- Uma pessoa só diz “ah” desse jeito quando não se surpreende, quando... – calou-se de novo. – Você já esperava que eu dissesse isso, né?
Ele já mencionara incrédulo?...

- Já esperava que eu contasse uma mentira. – continuou. E riu em seguida. – Você é um maldito manipulador bastardo, Zexy.

Não, correção: bastante. Abismalmente incrédulo.

- ...Cê não acreditou em nada do que eu disse, né? – o moreno sorriu de novo.

- Não. – teve de concordar, no mesmo tom neutro de antes.

Demyx encarou o chão, desajeitado, como quem procura a maneira certa de dizer alguma coisa na qual pensa no momento.

- E você... Hum... Quer falar sobre isso?... – arriscou.

- Definitivamente não.

Ao erguer-se de onde estava sentado, Zexion guardou o Palm em seu bolso, deixando o moreno para trás.

O mesmo seguiu-o, surpreso. – Eu não sei dizer se você é a pessoa mais fácil ou a mais difícil de conviver que eu já vi, Zexy.

- Branco e preto, Demyx. Branco e preto não se misturam.

- Ah, mas tem o cinza... – replicou.

- Ora, por favor, me poupe! Cinza... – revirou os olhos. – Ao invés disso, coloque uma roupa aceitável.

- Hã? – confuso.

- Vamos ao Nikko Tosho-Guu... – disse, de onde estava. – ...E eu não pretendo sair com alguém vestido desse jeito.

Demyx olhou para suas próprias roupas. Ora, nem estavam ruins!

E, mesmo se estivessem, ele não tinha nenhuma veste que distasse muito daquele estilo. Na verdade, meio que pegara a primeira coisa que viu na frente em seu armário e que não fosse preta e sem graça enfiou de qualquer jeito na mochila...

...Será que devia contar isso à Zexion? Não, possivelmente ele o mataria.

Porém, o que verdadeiramente importava era: ele estava estranho. Muito, muito estranho. Meio bipolar, diria.

Primeiro, o cobriu pela manhã (provavelmente). Isso era fato, e o outro desviou completamente do assunto quando Demyx tocara no mesmo. E, agora, havia até mesmo planejado onde iam ir, assim, sem reclamar, do nada... Como se estivesse fazendo uma surpresa. Não entendeu o que motivou-o a isso, mas quem era ele para reclamar?

Aceitaria de bom grado aquele passeio. Afinal, precisava aproveitar tudo que pudesse. O quanto antes, melhor.

- AE! Obrigado, Zexy!~ – então, atirou-se sobre ele.

Zexion desequilibrou-se, retesando o corpo. Aquele idiota era mais alto (e possivelmente mais forte) que ele! Atirar-se daquele jeito... Queria derrubá-lo? No que o imbecil estava pensando?!

Por um momento, não pôde mexer-se naquele abraço. Ou talvez fosse por que não quisesse se mexer?...

É claro, aqueles pensamentos duraram até Zexion perceber, com uma vergonha mais arrebatadora do que qualquer outro sentimento, que enquanto aquilo acontecia a okami daquele ryokan os olhava de uma forma tão reprovadora (e, pensou ele, com toda a razão) que sua reação foi automática.

- QUER FAZER O FAVOR DE ME SOLTAR?!

E Demyx foi empurrado tão brutalmente que nem teve tempo de entender sinceramente o que aconteceu.

~x~x~x~

Fundado no regime Tokugawa, o Tosho-Guu era nada mais nada menos que o próprio mausoléu de Ieyasu, patriarca de uma família que reinou, e até deu seu nome ao regime, até 1868.

Lendo no panfleto explicativo, Zexion (que ainda sentia-se exausto pela caminhada de vinte minutos que teve de fazer desde a estação para chegarem até ali, já que carros não eram exatamente permitidos e ele não gastaria inutilmente seu dinheiro com aqueles ônibus) também via que o interior do Tosho-Guu era composto de mais de uma dezena de construções, tanto Budistas quanto Xintoístas, cuja característica mais marcante era aquela quantidade absurda de ornamentos e cores vibrantes.

De fato, precisava concordar com aquilo; era quase como uma crise violenta de sinestesia. Ia muito além da visão.

A primeira coisa que Demyx quis fazer ao chegar foi comprar shika-senbei[21] para oferecer aos cervos da floresta que rodeava os templos.

Isso é só em Kyoto, idiota”, mas precisou ser advertido por Zexion, que andava na frente, procurando algum lugar onde pudessem enxergar direito, sem a interferência daquele mar de turistas e visitantes.

Então, vamos para Kyoto?!”, pediu.

Depois de um longo instante de silêncio, no qual o rapaz de olhos azuis como os cabelos até parara de andar, forçou-se a perguntar:

Você está falando sério?...

Claro!”, concordou com aquele seu sorriso tolo.

Incrível. Realmente incrível. Estava mesmo falando sério, o imbecil...

Ah! Veja só, aí estava um novo apelido! Não chegava, é claro, aos pés do que ele merecia de fato, mas já era um bom começo. ‘Imbecil’... Até soava bem.

Vamos continuar”, revirou os olhos, contendo-se para não falar mais que isso.

Depois de ter sido devidamente convencido de que estavam muito longe de Kyoto para chegarem naquele dia mesmo a tempo de alimentarem cervos nos templos, Demyx pareceu contentar-se um pouco com aquele seu destino cruel de nunca alimentar os animais de lá.

Livre de, pelo menos, aquele problema, Zexion deixou-se guiar quase que em modo automático até, talvez, uma das maiores atrações dali: o Yomeimon.

Era estranho. Lembrava-se de Ienzo falando sobre ele. De como todo aquele complexo começara como um simples templo e fora magicamente transformado em uma maravilha na Terra pelo neto de Ieyasu Tokugawa.

O que ele estava estudando mesmo para ter lhe falado daquilo? Ah, é claro. Estavam estudando os patrimônios japoneses e ele falara sobre o dito templo, numa conversa amena. Mas era mesmo ricamente decorado, do jeito que o garoto descrevera. Aqueles detalhes todos folhados à ouro, a madeira firme e forte até os dias atuais... Era mesmo uma maravilha arquitetônica.

...Teria sido mesmo muito divertido levar seu irmão caçula àquele lugar. Ele teria ficado muito feliz.

Olha, olha! Zexy, os Três Macacos!~

Ah, é mesmo...”, concordou, como um adulto o faz deliberadamente, ao ver o outro apontar para lá de forma tão energética (esquecendo-se temporariamente de reclamar por causa do maldito apelido). Uma das figuras mais famosas do templo: Os Três Macacos Sábios.

Continuou daquele jeito por um bom tempo.

Demyx correndo para lá e para cá, pior que uma criança, enquanto Zexion se contentava em apenas tentar seguir seu rastro, porque a corrida o fazia perdê-lo rapidamente.

Houve uma hora em que ele até mesmo falara sobre saírem dali para irem às cataratas Ryuzu. Idéia essa que, por sinal, foi veemente negada pelo outro, que disse ter tempo para, amanhã, poderem ver com calma aquele lugar. Demyx não pareceu objetivar mais do que o necessário naquele caso. Parecia mais decepcionado do que qualquer outra coisa. E comentou que achava uma pena não ser Outono. Diziam que a paisagem de Nikko ficava linda no Outono.

Depois de subirem as escadas do quarto templo das redondezas, subitamente, o moreno encarou Zexion e suspirou.

Zexy, pode esperar um pouco por aí? Vou ao banheiro”, avisou.

Não demore. Esse sol é horrível”, suspirou também.

Assentindo, ele desapareceu de vista.

Literalmente.

E o outro o esperava até então.

Sentado em um dos bancos reservados àqueles que descansavam um pouco da maratona exaustiva que era caminhar de um lado para o outro dentro de templos na mata, Zexion encarou sua lata de chá gelado, que pegara na máquina momentos antes.

Pegara uma para Demyx também, mas o imbecil demorava tanto que não duvidava que o chá fosse esquentar antes dele vir.

Com uma observação casual, quase distante, percebera que não tinha comido nada verdadeiramente sólido desde a noite anterior ao dia em que foi seqüestrado (teoricamente). Nem ontem à noite comera sushi.

Estava a dois dias sobrevivendo de café e lanches rápidos. Aliás, pensando bem, só comera um lanche rápido. Era só café que o estava mantendo de pé.

Não é surpreendente que eu esteja cansado”, concluiu.

Odiava admitir, mas precisaria, tão logo saíssem do Tosho-Guu, passarem em algum restaurante ou lancheria. E, por mais que lhe doesse, precisaria pedir alguma coisa com substância.

Olhou para a tela de seu Palm, rapidamente.

Quase quatro da tarde... A administração fechava nesse horário para os visitantes, apesar de fechar, na teoria, às cinco.

Mas onde diabos aquele imbecil estava há mais meia hora?

Só se tivesse se afogado na privada!

...Pensando bem, aquilo acontecera ontem também. Era a mesma coisa. Ele dizia que faria uma coisa e já voltava e sumia por horas.

Zexion não fazia idéia do quê o imbecil podia estar fazendo ou que tramava.
Sabia que não iria pegar o carro e fugir para longe (bom, ao menos, achava que não...). Mas era estranho.

Será que devo levantar-me e sair à sua procura?”, ponderou.

- Oi, voltei! – não, não seria necessário.

- ...Poderia ter avisado que demoraria tanto assim, Demyx. – respondeu no mesmo segundo, tentando aparentar indiferença.

- Desculpa. – o mesmo risinho amarelo de sempre. – Eu acabei me perdendo e também demorei pra te achar agora...

Era exatamente a mesma coisa que acontecera antes. O maldito tinha algum problema e estava inventando as desculpas mais escabrosas para esconder isso.

...Porque, afinal, tinha um banheiro logo ali. Não demoraria sequer cinco minutos para ir e voltar. Zexion não falara nada, vendo como ele reagiria. Mas Demyx era tão idiota que sequer percebeu o fato de poder ser facilmente desmentido.

- Está tudo bem com você? – perguntou, ao invés disso. – Seu rosto parece ruim.

- Ah, você também vai dizer que sou feio...? – murchou.

- ...Esqueça aquela okami. – suspirou.

Ele meneou a cabeça. – Mas e você, Zexy? Estava aqui nesse sol até agora, mesmo que tenham árvores pra ajudar. Não está ruim?

Ok, agora aquilo estava ficando muito irritante.

- Pare de mudar de assunto.

E mais irritante ainda era o fato do moreno sequer abalar-se em seu sorriso.

- Do que está falando?

...Maldito bastardo mentiroso.

- Ah, que seja... – impacientou-se Zexion. – Pegue seu chá e beba-o. Já deve ter esquentado mais do que devia, de qualquer forma.

- Ah, você comprou um pra mim?! – sorriu, agradecido. – Muito obrigado!~

Demyx adiantou-se e esticou a mão para tocar no metal úmido e gelado. Já podia até sentir o líquido refrescante descer. Afinal, mesmo tendo almoçado relativamente bem, ainda sentia uma estranha fome.

Ele tocou na lata. Teve até a impressão de ter pegado-a em suas mãos. Mas ouviu o som inconfundível dela caindo no chão.

- Ué...? – encarou seus pés sujos de chá.

E percebeu, também, que Zexion se levantava do banco onde estava.

- Está tudo bem? – perguntava-lhe.

Ora, que pergunta! É claro que está tudo bem!, quis dizer.

Mas, subitamente, Demyx não sabia para qual dos dois Zexions devia dizer aquilo. Haviam dois, mas...

- Ué... – repetiu, rindo incrédulo. – Mas eu sei que lavei meu rosto...

- Ei, Demyx?

Ok, não posso mais”, desistiu.

E deixou-se perder a consciência.

Notas finais
[19] Faixa 4 da OST de Kingdom Hearts Final Mix.

[20] Personagens também imortalizados na filosofia ocidental, são os macacos com os dizeres “Não Vejo, Não Ouço, Não Falo”.

[21] É um biscoito especial feito pelos monges dos templos em Kyoto para serem dados aos cervos criados no local pelos turistas e visitantes.