Gris
13 Capítulo 12: Night of Fate
Notas iniciais
“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.” ~ Anna Karenina (Tolstói).
Capítulo 12: Night of Fate. [47]
Ele encarava o café, absorto. A fumaça etérea que escapava da xícara bruxuleava até desaparecer na atmosfera. Era, de alguma forma, uma visão deveras calmante. Ou talvez, simplesmente o distraísse; finalmente, algo com que ele já estava acostumado.
A ironia tingiu seus pensamentos já difusos. Ele estava acostumado com aquele ambiente. Mesmo tendo saído de casa quando mal completara dezoito, num misto de razões que variavam desde prestar a melhor universidade do país no próprio lugar onde ela se encontrava, arranjar emprego enquanto isso, indo até ao clássico fugir daquele lugar agora que podia.
Mas nunca deixara, de fato, de ter se acostumado com aquele silêncio. Em sua casa, em Tokyo, ele era simplesmente... Silêncio. Ali, havia, inexplicavelmente, sempre alguma coisa pairando no ar. Como a fumaça do café fervendo.
A cena era típica: ela terminava o café-da-manhã e limpava os lábios. Não podia negar que Ayumu tinha a majestade, mesmo não tendo mais a coroa. Aí estava mais uma das milhares de coisas que puxara dela, como diriam os pouquíssimos que o conheciam desde pequeno.
Levantava-se, então, pegando a bolsa que sempre deixava no apoio da cadeira. Em seguida, sumia pelo corredor, indo ao banheiro escovar os dentes e, quando de humor aceitável, passar em si mesma algum dos seus melhores perfumes. Demorava em torno de 5min naquela parte da higiene pessoal. Após, voltava a passar pela cozinha e olhava-o rapidamente.
- Posso deixar a mesa com você? – perguntava, então.
- ...E todo o resto. – assentiu.
- Certo. – olhava, assim, para seu relógio, conferindo se estava ou não atrasada. Se não levantou a sobrancelha, é porque ainda estava na hora.
- Se precisar, é só sacar. Depositei ontem a quantia. – falou-lhe.
- Tudo bem. Obrigada.
E ela saía. Sussurrava antes um “até logo”, mais por costume da tradição do que por realmente despedir-se.
...Afinal, há muito tempo a distância matara toda e qualquer intimidade entre eles. E Zexion não era mais um adolescente preso às ordens daquela casa; era um adulto perfeitamente capaz de cuidar-se sozinho. Como sempre foi. Apenas, agora, tinha a lei ao seu lado nesse aspecto. Então, Ayumu simplesmente percebera que era inútil tentar manter algum interesse no filho que havia perdido para sempre.
Tratavam-se, portanto, num acordo tácito e jamais verbalizado, como dois estranhos se tratam em um elevador ou mercado. A óbvia cortesia polida e distante, as palavras neutras. E era apenas isso.
Depois que ele ouvia a porta fechar-se, o silêncio tornava-se de novo apenas silêncio. E ele, apenas por costume, encarava a cadeira onde o pai jamais sentou-se. E, em seguida, a qual seu irmão nunca mais sentaria.
E perguntava-se, afinal, por que continuava ele a sentar ali na sua...
~x~x~x~
Dois dias.
O celular continuava sempre em seu bolso, para o caso de uma ligação – bem típico dele – totalmente inesperada. Mas não tocava nunca.
O fato, de qualquer forma, lhe provava duas coisas: ele não era popular ou bem-quisto em seu local de trabalho. Mas, então, sorria, ironicamente; porque, afinal, jamais dera seu número para ninguém (a menos que estivesse em algum lugar que isso era uma obrigatoriedade). E, depois, não queria amizade com nenhum aqueles neófitos arrogantes.
O segundo fato era, então, um pouco mais preocupante: não era necessário. Por Demyx, especificamente.
Ele prometera ligar tão logo pisasse em algum hotel, mas passaram-se dois dias, e nunca houve ligação. Num primeiro momento, num impulso tolo e irracional, achou que ele houvesse sido assaltado pelo caminho, talvez morto. Isso seria ruim, realmente, principalmente quando a Polícia descobrisse com quem o cadáver andava naquele seu quase um mês antes da morte – e isso sem mencionar os tais perseguidores do carro preto. Esses preocupavam-no bem mais.
Mas, afinal, se isso tivesse mesmo acontecido, algum detetive, como o bom rato farejador que era, já teria aparecido à sua casa. Se isso não aconteceu ainda, é porque Demyx estava absolutamente bem; apenas não queria ligar.
Invariavelmente, lembrava-se, então, daquela noite onde o garoto não conseguiu esconder seu estado e vomitara atrás do carro. Foi uma visão desgostosa, deveras medonha, mas principalmente, reveladora. Alguma parte de seu cérebro pareceu acender, dizendo “ah... Então, era por isso que ficava sumindo”.
E repetia isso, mentalmente, para si. Porque lembrava-se bem de que o garoto dissera que “os remédios acabaram”. Isso significava, em poucas palavras, que sua condição iria piorar, não é? Sendo Demyx o completo imbecil teimoso que era, estava provavelmente isolando-se em algum lugar e evitando ligar. Até quando? Não fazia a menor idéia.
Todos aqueles pensamentos, porém, desapareciam no momento em que tocava na porta de correr, aquela do lado do seu próprio quarto.
O cheiro de ar abafado invadiu suas narinas no instante seguinte. O quarto estava sempre fechado. Eventualmente, Ayumu limpava para não acumular pó, mas foi um acordo entre ela e o próprio Zexion que ninguém mexeria em nada dali. Permaneceria do mesmo jeito que Ienzo, o dono original do quarto, o deixara. Ou, ao menos, do jeito mais original que podia ficar depois da Polícia ter revirado tudo em busca de alguma nota suicida ou algo do tipo.
Ele não gostava muito de entrar ali. Foi-se o tempo onde o fazia sem se preocupar, porque seu irmão o chamava com alguma dúvida da matéria que estava estudando, ou porque estava se sentindo mal. Agora, não havia mais ninguém ali. Na verdade, sequer sabia porque continuava a visitar aquele quarto abandonado; e, bom, devia ser pelo mesmo motivo inexplicável do porquê continuava vindo à Nagano, mesmo que Ienzo já estivesse morto.
O quarto dele era tão impessoal, olhando assim. Sem a sua presença, ficava muito mais fácil observar isso. Aquela família, em geral, não era de demonstrar sua personalidade em seus móveis ou em fotos de todos juntos. Mas aquele era um quarto muito vazio. Podia-se dizer que era tanto de menina quanto de menino; porque não havia nenhuma separação de gêneros. Os lençóis eram brancos, sem estampas. O armário não tinha nenhum adesivo. Não havia pôsteres na parede. O notebook era absolutamente normal. Nenhum bicho de pelúcia. A mochila escolar havia sido guardada no fundo do guarda-roupas e os livros escolares, doados.
Eles haviam levado tudo durante as investigações. Os cadernos, o computador, revistaram o quarto de cima a baixo em busca de alguma nota... E, depois, disseram que o máximo que acharam com um toque humano foi uma redação sobre a importância de um lar.
Ayumu dissera que Ienzo fizera uma grande faxina em seu quarto algumas semanas antes de seu suicídio. Foram sacolas de “tralhas inúteis” para o lixo. Não havia mais como recuperar aquelas coisas. E isso fizera Zexion, que se manteve calado durante todo o caos das investigações, pensar que, afinal, aquilo não foi um ato apaixonado e tolo, um arrebatamento idiota.
...Seu irmão planejou com cuidado. Estava pensando no futuro muitas semanas antes do futuro de fato. Aquele foi um suicídio frio e completamente racional. O que tornava tudo muito pior.
Disseram que ele havia amarrado uma corda no pequeno e simplista lustre do quarto. Não havia a nota fiscal dessa corda, e a mãe não a tinha visto até então. O relatório médico-legista foi implacável: esmagamento da traquéia. Não houve quebra do pescoço. Como foi feito por um leigo e não por profissionais, ele demorara bem mais para sufocar do que o normal graças a isso. Quando Zexion pesquisara, viu que o suicídio com uma corda era bem mais fácil de improvisar do que encher o quarto de algum gás ou colocar um saco em sua cabeça.
Sentou-se na cama, suspirando. Ayumu descobrira o corpo na manhã seguinte ao suicídio. Alegara ter voltado muito tarde e simplesmente dormiu. Quando fora acordar o caçula para ir para a aula, encontrou-o. Já estava morto, mas não necessariamente recendendo, o que levou à conclusão, depois confirmada pelo óbito, de que morrera pela parte da noite, no começo dela, precisamente.
Seu álibi era bom. Talvez, um pouco cruel para uma mãe, mas compreensivel. E bom. E depois provou-se ser mesmo suicídio. O caso se resolveu assim; sem culpados, sem muita dor. Restou, assim, providenciar o velório e dar um ponto final àquele drama inútil.
Olhando pela janela eternamente fechada, o rapaz quase deu um princípio de sorriso de ironia. Ele jamais se formou, mas pairou em sua mente.
O pai esteve no velório de Ienzo. Ele foi procurado para ter acesso à notícia do suicídio do filho do casamento anterior e foi encontrado, depois de alguns dias de investigação, em Yokohama[48], casado com outra moça. Tinha uma filha pequena com ela. Ao que contaram, mostrou-se chocado com o acontecido, e teve a decência (ou fora uma decisão idiota?) de vir, ao menos, despedir-se do filho que jamais conviveu com.
Zexion lembrava-se da cena. Não tinha memórias do pai. Tinha, quando eles se divorciaram, idade o suficiente para se lembrar, ao contrário do irmão falecido, mas preferira apagar aquelas memórias; talvez porque soubesse que não levava a nada tê-las consigo.
Foi, portanto, uma surpresa interessante rever sua figura depois de tanto tempo. E perceber que ele não tinha nada a ver com aquela pessoa. Ele apertara sua mão, porque não teve coragem de arriscar nenhum abraço ou contato do tipo, dizendo qualquer coisa como “você cresceu”. Com Ayumu, foi o mesmo – apenas sem aquelas frases inúteis de pai ausente.
Só fora embora ao fim do velório, não antes de prestar seus serviços, caso precisassem de algo. A ex-esposa foi categórica ao dizer que aquilo estava suficiente. Agradeceu polidamente sua vinda ao velório de Ienzo, e se despediram ali. Zexion não precisou falar com ele; mas lembrava de ter se despedido como mandava as regras da boa e polida convivência social, da qual ele era um adepto convicto. Voltara, então, para Yokohama no dia seguinte.
“...O que eu estou fazendo aqui?”, perguntava-se, então, olhando o teto.
Vir ao quarto do caçula sempre parecia, de alguma forma, ajudar em sua capacidade intelectual. Talvez, simplesmente instigasse-o a pensar mais estando ali, onde alguém morreu.
...O que estava fazendo ali? Em verdade, ainda devia algo à Ayumu?
Pagara todos os gastos com o enterro. Isso há tempos. Freqüentemente enviava-lhe dinheiro; isso porque vira desde cedo o quanto ele era importante, e o quanto faltava por ali. Prometera que não deixaria mais ele faltar para ela e Ienzo. E tinha vinte e um anos e uma carreira altamente promissora, dentre tantos motivos, justamente por aquele. Tudo bem, o caçula morreu depois, mas continuava tendo uma obrigação, moral talvez, com sua mãe.
(Isso cutucava seu intelecto egoísta, é verdade, mas não podia fazer nada. A lei podia correr atrás dele se sua mãe resolvesse se queixar – e isso acabava com qualquer reserva que ele podia ter a respeito).
Havia correios, de qualquer forma. Podia, como sempre, mandar por ele ou, ainda mais fácil e certo, pelo banco. Então...
Por que continuava vindo à Nagano, sendo que nada o prendia ali?
“Édipo”. Essa era a resposta amarga e sarcástica em sua mente. E, num misto de embaraço e incredulidade, ele quase via-se inclinado a concordar. Mas não tinha certeza se era isso, e apenas isso.
Olhando para o notebook fechado em cima da mesa (por que ainda não lhe deram-no para algum lugar? Nem sequer usavam aquilo por estar ali naquele quarto!), ele deixou a mente vagar para o velório: se fechasse os olhos, podia sentir o cheiro de incenso materializar-se. Era um cheiro forte. As fumaças deles enchiam de ainda mais branco o lugar. Isso porque o branco era a cor do luto oriental e, como mandava, estavam usando roupas brancas naquele dia.
Haviam alguns colegas de classe do caçula no velório. Eles não falavam entre si, apenas olhavam o caixão com uma melancolia distante.
Uma, em especial, uma jovenzinha de óculos, limpava uma discreta lágrima. Essa mesma menina, mais tarde, dirigiu-se à Zexion, timidamente.
“O senhor... É o irmão mais velho do Ienzo-kun, não?” – ela perguntou-lhe.
“Sim, sou.” – respondeu.
“...Eu sou Izumi Kitazawa, a iincho[49].” – apresentou-se. – “Gostava muito do seu irmão. Sinto muito pela perda...”
Ele lembrava-se de ter pensado que ninguém iria entender a sua perda, mas não precisava dizer isso à menina.
“Obrigado.” – curvou-se, numa mesura formal.
“Ienzo-kun costumava me ajudar a carregar os livros, já que estávamos sempre na Biblioteca... Ele era uma pessoa muito legal. E fazia textos maravilhosos. Eu até tinha dito, uma vez, que ele devia ser um escritor.” – sorriu a garota, com um ar de dolorosa melancolia na voz. – “Ele sempre falava de você. Achava-o uma inspiração... Perguntava-se o que o senhor acharia se ele realmente se dedicasse à escrita.”
Zexion tinha certeza de que ouvia tudo, mas ao mesmo tempo lhe parecia que simplesmente entrava em um ouvido e saía no outro.
Talvez, porque pensar no futuro que o garoto nunca mais teria fosse algo um pouco mais doloroso do que parecia a princípio. Mesmo assim, sentiu-se aliviado, de certa forma: ao menos, alguém notara seu irmão. Alguém sentiria sua falta, nem que fosse por algumas semanas.
“Entendo...” – suspirou, então. – “Muito obrigado, Kitazawa-san, por ter estado com meu irmão.”
“Não, não me agradeça, por favor...”
E, de repente, sorriu de leve. Mesmo cheio de dor, era um sorriso deveras engraçado.
“...O senhor é mesmo como Ienzo-kun o descreveu.” – e, ao perceber-se cometendo tamanha descortesia, inclinou-se num pedido de perdão. – “Desculpe, não pude evitar.”
...Será que aquela menina ainda lembrava-se do colega suicida?
Nestas horas, ela devia já estar no colégio. Talvez, quase finalizando-o. Talvez, nem mais se lembrasse desse acontecido. Ou ele fosse só uma sombra branca, azul, verde e ainda mais branca em sua mente.
...Ienzo devia estar terminando o colégio.
Suspirou. Nunca achara nenhum dos escritos do garoto. Aparentemente, em sua fria decisão de suicídio, ele apagou qualquer vestígio de uma vida social com a precisão de um psicopata. Arquivos de computador, folhas de caderno, possíveis diários... Não havia nada que indicasse que ele foi, de fato, um ótimo escritor como dizia a representante daquele dia.
E aquela mesma precisão revelou-se, também, o motivo pelo qual tantas vezes, ao deitar-se, à noite, perguntava-se: “por que?”. Não havia nenhum texto; mas também nenhum ‘adeus’.
A única coisa que restou, talvez por descuido, talvez minimamente planejado, foi aquela redação escolar.
Lembrava-se dela. Afinal, lera-a tantas vezes depois...
Lhe parecia, pensando assim, que afinal, aquela redação era sua própria carta de suicídio. Talvez, uma libertação. “Estou buscando meu lar em outro lugar”, basicamente. Fazia sentido. Aquela casa não era mesmo o lar de ninguém.
...Se era assim, então, por que ele continuava vindo ali?
E, então... Onde, de fato, pertencia?
Subitamente, Zexion ergueu-se, como quem tem seu estômago agarrado por aquele frio ansioso e incômodo. Uma estranha verdade abateu-se sobre ele como um bloco de concreto.
Ao olhar em volta, naquele quarto de ar viciado, naquela casa cheia de amargura perdurando como teias de aranha na parede, ele subitamente compreendeu... Estaria buscando seu lar onde nunca o foi, de fato? Uma busca tão tola e edipiana (de fato) pareceu-lhe tão vergonhoso, para o intelectual que era.
Se fosse assim, então seu irmão foi muito mais inteligente. Ele podia não saber onde era seu lugar, mas sabia onde não era; ali.
...Uma imagem, então, formou-se em sua mente.
E, no instante seguinte, Zexion soube que precisava sair.
Por tempo indeterminado.
~x~x~x~
Antes de sentir na própria pele, Demyx jamais acreditara naquelas pessoas que diziam que era possível, sim, sentir tanta dor a ponto de ficar enjoado. Não lhe parecia certo, simplesmente, que o estômago pudesse ser pressionado numa ânsia incontrolável só porque alguma parte de si latejava um pouco de dor.
Talvez, fosse contra aquela sua lógica de que, no máximo, havia apenas ralado o joelho ao aprender a andar de bicicleta. Era como uma mulher que nunca acredita na dor do parto, de fato, chamando as mulheres que o enfrentavam de “frescas”, “exageradas”, até que elas próprias sentissem na pele aquela dor, até que elas próprias fossem as “exageradas”.
Era a mesma coisa. Parecia-lhe, outrora, ridículo aquela ciência, mas, agora, tudo o que ele queria era simplesmente voltar àquele estado de antigamente. Aquela inércia, a doce ignorância.
Lembrou-se de quando fazia aquelas curas e tratamentos experimentais todos, naqueles primeiros tempos, onde a esperança era uma constante. Elas também deixavam-no extremamente enjoado. Mas, na sua doce ignorância de achar-se gradativamente curado graças àquelas coisas, ele suportou a agonia com uma calma digna de seu nome.
Pouco tempo depois, porém, os enjôos de sua doença e os de seu tratamento uniram-se, tornando-se um só emaranhado de dor, tudo convergindo para um único ponto, e ele lembrava-se de ter passado noites revirando-se na cama e achando que iria morrer se vomitasse mais uma vez. Incapaz até de pedir ajuda; talvez porque era só naqueles momentos de solidão que percebia a extensão de sua própria mortalidade.
Suspirou. Afinal, Demyx não mudara muito desde aquele dia. Continuava sendo a mesma pessoa que sofria e não conseguia melhorar.
Ou melhor... Agora, ele era só um covarde. Havia, sim, um meio de melhorar. Mas era como cortejar a morte. Literalmente.
E ele não sentia-se inspirado a morrer, nem nada extremo do tipo. Ao menos, não enquanto terminasse aquilo que estava fazendo.
Quando ia tocar na grande porta de vidro do hotel, um rapaz vestido de preto o fez antes dele, numa mesura polida e silenciosa. Quase esquecera-se de que, por ali, ele não precisava fazer nada. Apenas aproveitar e pagar sua estadia ao final.
- ...Obrigado. – sussurrou. Mas, talvez, mais por reflexo; sequer estava prestando atenção, de fato, no ambiente.
Demyx lembrou-se, randomicamente, de que jamais ligara para Zexion.
Será que ele estaria preocupado? Irado? Provavelmente, ia matá-lo tão logo tivesse a chance. Jogar um daqueles livros enormes dele em sua cabeça.
Mas ele não tinha coragem de ligar para Zexion. Porque conhecia os limites de seu corpo. Aprendera há muito tempo a conviver com eles, desde a época da descoberta de sua doença, dos tratamentos. E, justamente por conhecer seu corpo melhor do que ninguém, sabia que ele não podia mais entrar naquela casa sem, só para ser o mais otimista possível, ter um ataque de enxaqueca e desmaiar vergonhosamente na frente da mãe dele. Ou dele. Ambos seriam terríveis.
Não queria que o rapaz tivesse ainda mais trabalho. E, principalmente: não queria que ele visse seu estado. Sem os remédios especiais, só lhe restaria aqueles que podia obter sem nenhuma receita. E eles não eram nada. Teria de ter uma overdose para que a dor fosse embora só um pouco. E aí, seria a mesma coisa que jogar todo seu esforço, até então, para o alto...
Isso não podia acontecer. Nenhuma daquelas duas coisas podia acontecer, então, ele estava evitando a ambas pensando que Zexion estava bem em sua casa e que ele podia se virar sozinho sem seu “motorista”.
Com duas sacolas plásticas na mão, uma da farmácia e outra de uma loja de conveniências próxima, ele dirigiu-se até o balcão da recepcionista, mostrando a carteira de identidade.
- ...A chave do quarto 504, por favor. – pediu.
- Um momento. – a jovem assentiu.
Os olhos dela pareceram encarar a tela do computador um momento, hesitante, antes de voltar-se para o garoto:
- Pelo que consta aqui, senhor, uma pessoa já está com ela...
Ele engoliu em seco. E um pressentimento horrível espalhou-se por seu corpo como água na banheira.
~x~x~x~
Por mais que fosse mais rápido subir pelas escadas, se estava assim com tanta pressa para chegar lá em cima, Demyx preferiu, para o bem de sua saúde e de sua sanidade mental – porque, assim, poderia ficar pensando enquanto o elevador panorâmico subia, devagar – seguir pelo elevador. Apertara diversas vezes o botão, como se isso pudesse fazê-lo ir mais rápido, mas manteve-se, apesar disso, relativamente calmo.
Ao chegar no quinto andar, os poucos passos que o separavam de seu quarto foram decididos, firmes e... Mesmo assim, hesitantes.
Tocou na maçaneta e percebeu-a passiva à sua pressão. A porta abriu-se sem nenhum som. Abriu-se. Como imaginou, já estava aberta antes. Alguém esteve ou, pior, estava ali dentro.
Em um primeiro momento, sinceramente, achou que fosse “Xiggy” (ele odiava esse apelido). Xigbar era suficientemente inteligente para achá-lo ali, mesmo que não estivesse usando nenhum cartão de crédito para ajudar a despistar. E Xaldin era forte o bastante para que, mesmo sem nenhuma chave, pudesse entrar sem problemas naquele quarto.
Mas, aquela foi uma suposição que durou segundos. Porque, no instante seguinte, veio-lhe à mente alguém bem mais inteligente que podia fazer isso...
- Você me assustou. – ele falou, fechando a porta atrás de si.
O som baixinho da TV foi tudo o que Demyx ouviu. E a mesma era, também, tudo o que iluminava o quarto escuro (já que o abajur dali estava com a luz mais tênue possível). O volume diminuiu ainda mais quando Zexion tirou seus óculos, que usava para ler, e largou o controle, em seguida, em cima da cama onde estava sentado.
- Esse quarto é mesmo muito bom. – comentou, ignorando a sua frase. – Como o esperado de você, Demyx, sempre o melhor lugar reservado para o sono. Sim. O susto foi temporário. Ele já fora embora.
Haviam tantos outros sentimentos agora. Todos eles brotavam solitariamente, berrando como nunca para serem escutados.
E havia uma pressão incômoda em sua têmpora. Mas não chegava mais a ser aquela dor excruciante de antes. Talvez o susto houvesse até mesmo tirado-lhe a atenção daquele foco específico.
- ...Como me achou? – perguntou, assim.
- Só precisei fazer-me a pergunta “se eu fosse um imbecil como ele, onde eu iria dormir?”. – deu de ombros. – Eu conheço Nagano e a sua mente. Foi bem simples.
Engolindo uma ressentida pergunta, Demyx suspirou.
- ...Como conseguiu a chave?
- Não foi difícil convencer a recepcionista.
Demyx sorriu de leve. – Tenho medo da sua lábia, Zexy.
Eles ficaram calados. Ambos os olhos azuis, aquele azul profundo de Zexion, e o mais claro de Demyx encararam-se, chocaram-se como duas geleiras, como dois maremotos de ciano puro. O som daquele programa qualquer que passava na TV era praticamente ignorado.
- ...Fale. – instigou o moreno.
Zexion continuou parado, o livro já fechado em seu colo.
- ...Pode falar, Zexy.
- “Dicodin”, Demyx. – ele, então, suspirou. – ...Está doendo tanto assim?
- ...É o máximo que posso comprar sem receita.
- Quantas caixas tem em cima dessa mesa? – e, com um aceno de sua cabeça, indicou a mesinha de cabeceira, a qual estava cheia das mesmas.
- Algumas. – e sorriu.
Aquele sorriso, por todos os deuses, desagradou Zexion profundamente.
- ...Ele é o mais próximo de “morfina” que alguém pode ter sem receita. Fiz uma pesquisa na sua ausência. – falou, sem se mover. Nenhum dos dois o fazia. – Era por isso, então, que não me ligou, não é?
Assentiu, sério:
- Eu já sabia o que diria, Zexy. Não há muito que se possa fazer, e... Eu não quero ir pra um hospital.
- Por que toda essa teimosia?
- Você podia ter descoberto o que eu tenho. – ele mudou de assunto, porém. – Era só ter usado seu Palm. A Internet e sua mente são milagrosas.
Meneando a cabeça, Zexion negou aquilo. Negou-o em sua essência.
- De fato. E, para ser sincero, tenho minhas dúvidas. – deu de ombros. – Mas não vou me meter. Como você disse antes, “não há muito que se pode fazer”.
Demyx viu-se engolindo em seco. Sentiu, subitamente, os olhos arderem; era como se tivessem jogado sabão neles. Umedeceram assim, sem que ele sequer percebesse. Mas não foi o bastante; as lágrimas não caíam. E, possivelmente, jamais iriam derramar-se.
- ...Você realmente tem sua teoria, Zexy?
- Muitas. Sem novas pistas, porém, mesmo Holmes fica desorientado. – e encarou, distraído, a capa de seu livro fechado.
- Posso ouvir alguma...?
Erguendo a sobrancelha, Zexion preferiu abordar outro assunto.
- Essas sacolas... Mais remédios?
Erguendo-as, Demyx aumentou aquele seu sorriso já congelado, cansado. Esse, atualizado, parecia bem mais genuíno do que o outro que foi morrendo aos poucos.
- E algumas besteiras pra comer! – mostrou o logo da loja de conveniências dali de perto. – Pretendia assistir alguns filmes, comer besteiras, mas você me assustou...
- ...Você vai ter uma overdose, assim.
- Não, não. – sacudiu, tranqüilamente, a cabeça. – Nem mais a morfina consegue me pegar de jeito. Já estou acostumado, Zexy.
Ah, a sensação de que todo o rosto parecia arder diante do efeito de algum ácido maligno era horrível. Seu peito doía; mas ele nunca teve problemas cardíacos. A dor de cabeça tornou-se um pulsar constante, algo com o qual ele já estava plenamente acostumado. Mas a dor no peito...
Uma dor como aquela ele não havia sentido ainda. Não ali. Era uma dor que se alastrava como infarto. Percorria os braços, descia pelo estômago, martelando-o, não como um enjôo, mas como uma pontada, uma ânsia que ele não sabia descrever. Ia descendo pelas pernas, deixando-as fracas, prontas a caírem sem mais suportarem seus próprios pesos. E, principalmente... Subia pelo pescoço, até sufocar sua garganta.
“Que sensação mais nojenta...”, ele pensou. E odiou-a profundamente.
- Isso já... – ele continuou, porém, lutando para manter aquele seu sorriso que parecia tão despreocupado para os outros. – Essas coisas não me incomodam mais...
Ele desviou o olhar, calando-se repentinamente.
- ...Fale. O que quer me perguntar? – mas Zexion, como dissera, já o conhecia o suficiente para saber ler suas ações. Ou, ao menos, aquela.
- É que só percebi isso agora...
- ...Você não é a mais inteligente das pessoas, de fato. – disse, esboçando um princípio de sorriso sarcástico que nunca se concretizou.
Demyx também sorriu.
- Por que você está aqui...?
Aquela não era uma pergunta qualquer. Os olhos azuis de Zexion encararam os de Demyx, buscando o verdadeiro sentido da questão.
Fechando os olhos, suspirou. – Meu quarto é o 602.
Ele arregalou os olhos. – Vo... Você está aqui nesse hotel?!
- Algum problema?
- E-espe... Espera...! – com a surpresa, o garoto até deixara cair as sacolas, dessa vez. E nem percebera que, até então, nem havia saído de perto da porta. – Você está, então, com duas chaves?!
(ISSO ERA POSSÍVEL?! NÃO EXISTIAM MAIS LEIS POR AQUI?!?!).
Olhando, desinteressado, para a TV, o outro concordou. – Ainda não tive tempo de levar minhas coisas lá para cima.
- Como... Como fez isso, Zexy...? – chocado.
- Já disse, não é difícil enrolar a balconista. Só precisei de uma boa e plausível tragédia novelesca.
Ele assentiu, boquiaberto. Como é que Zexion conseguia fazer aquelas coisas?!
Um dia, jurava, iria apresentá-lo ao seu pai! O homem ia adorar conhecer e ter por perto como contratado, talvez, alguém como ele, que despistava seus “serviçais” e até enrolava um serviço de atendimento de... “Última geração”, na falta de palavra melhor.
Um verdadeiro cretino! Zexion era, precisamente, tudo o que tentara ser a vida toda, mas não foi. Seu, de fato, total oposto.
- Mas por que isso...? – sussurrou, então, depois de (parcialmente) recomposto. – Você... Tem a sua mãe. A sua casa. Por que...
- Sabe... – interrompeu-o, antes que terminasse. – Eu pesquisei num dicionário online a palavra ‘lar’. Ele me deu a definição de que isso é, basicamente, “um lugar onde alguém pode descansar e ser capaz de construir propriedade privada; residência; refúgio e conforto”. E, subitamente... Percebi que meu lar não era lá. Na verdade, acredito que nunca foi. Eu... Estou simplesmente buscando meu ‘lar’. Para alguém que sempre teve uma boa oratória como eu, nessa situação, preciso admitir que não estou achando as palavras que queria usar, de fato. É até inexplicável, se formos ver bem... Não há motivos, de fato, para que eu esteja aqui. Mas estou. Porque...
Suspirou.
Em qualquer situação normal, ele provavelmente acharia aquilo muito embaraçoso. E jamais sequer pensaria em tal barbárie.
Mas, naquele momento, naquele silêncio... Simplesmente pareceu-lhe o mais certo. Era algo até “normal”. Como se estivesse, de verdade, aceitando o que devia ter aceitado e enxergado desde o início.
- ...Eu estou aceitando-o, Demyx. – sussurrou. – Sendo assim... Você poderia me aceitar também?
Estranho. Ele já estava acostumado com aquela sensação de sempre haver algo descendo por seu corpo. Começava na cabeça, de alguma forma. Era sempre uma dor latejante, incômoda, que nunca ia embora. Ela se arrastava lentamente, preenchendo cada poro, viajando por cada veia. Não deixava nada para trás senão um raio de agonia que o fazia remexer-se em dor à noite.
Dessa vez, porém... Não era, exatamente dor. Em verdade, era uma sensação sem nome. Não era desagradável. Era só sem nome.
E, no momento em que ela o preencheu por completo, tão rápida, tão certa, ele sentiu alívio. Um imenso alívio. Era como estar flutuando. Achou que fosse cair no chão, porque as pernas não o sustentavam como deviam. Elas tremiam; o corpo todo tremia, numa ânsia tão inominada quanto.
Mas, instintivamente, Demyx soube o quê fazer. E não parou para questionar-se logicamente o porquê, ou como... Apenas seguiu-a. Esqueceu-se de tudo.
Zexion sentiu o impacto quando aquele idiota jogou-se sobre ele, sem avisos, e escondeu o rosto em seu peito. O controle e o livro caíram, não necessariamente na ordem, ao chão, mas ele não se preocupou com aquilo. Houve, em si, uma quota tão grande de sentimentos tão antagônicos que lembrou-lhe, brevemente, deles próprios: havia pena, ternura, raiva, impotência, amor, tristeza, amargura, calma... Nem tinha noção, até então, de que conseguia reconhecer tudo aquilo.
Imaginou ter sentido algo úmido em sua camisa, mas não ouviu nada senão a respiração pesada do outro. Estaria...? Não. Pouco provável. Mas seus braços estavam agarrando-se à ele com tanta força. Como se Demyx, de alguma forma, achasse que a única pessoa que podia protegê-lo do mundo era Zexion.
- Dói tanto... Não... Ou melhor... Doía tanto... – o garoto sussurrou, tão baixo que o som da TV chegou a atrapalhar. – Quanto mais remédios eu tomava, parecia que mais doía... Não parava.
...Ah, mas como aquilo era errado. Ele não conseguia protegê-lo sequer da dor. Não deveria estar sendo abraçado daquele jeito.
- Mas... Não dói mais... Agora, não está mais doendo.
Os braços de Demyx envolveram-no mais, e por um momento, achou que fosse começar a sufocar. Era um aperto tão angustiado que doía – não só fisicamente. Havia algo em toda aquela dor que ele deixava transparecer que parecia fazê-lo ter a impressão de estar tentando engolir uma pedra.
- Por favor... Fique comigo, Zexion. – sussurrou ele, ainda mais debilmente. – Ao menos até a dor passar... Não me importo mais de estar sendo egoísta... Apenas... Fique aqui comigo.
Demyx calou-se após aquele pedido rouco. As mãos agarravam a camisa do outro com uma força que o próprio desconhecia. Sentia que, se afrouxasse aquele aperto um pouco que seja, iria perdê-lo para sempre.
...Ele não queria mais aquela dor.
Quando os lábios de ambos tocaram-se, desta vez, não houve nenhum solavanco. Não houve surpresa. Não houve nenhum pensamento; eles estavam infectados de puro branco. Era como se estivesse fazendo algo tão natural quanto respirar. A mente dava voltas, como se jogada em uma montanha-russa, e ao mesmo tempo estava completamente ‘imóvel’. Sentia um leve pronunciar de tontura, ou algo muito parecido, mas não era ruim.
A imagem que gravou, agora repassada enquanto de olhos fechados, não era nada daquilo que desejava ter visto. Demyx era um imbecil; devia ter continuado assim. Para sempre? Talvez. Porque, afinal, aquilo não era assim tão ruim. Era, de certa forma, um charme. E era algo que o atraía. Aquele sorriso tão despreocupado, aquela maneira tão única de encarar tudo e todos... Ele admirava a coragem idiota daquele garoto (é claro, ninguém jamais saberia disso – mesmo).
Sentiu, então, o peito comprimir-se numa triste agonia que não lhe era inteiramente desconhecida. Se era assim, então... Se ele devia estar sempre tão feliz, tão cheio de vida... Então, por que Demyx estava tão triste? Não devia ser assim. Ele é quem devia ser aquele sério, aquele “sem-graça” e, de acordo com as palavras do moreno, aquele do “você devia vir com um dicionário”.
...Zexion podia ser assim. Não se importava. Mas Demyx... Ele não devia estar daquele jeito. Era errado; e pareceu-lhe sempre errado, desde a primeira vez, desde aquela noite em Nikko. Não deveria existir nada além de felicidade naquele rosto. Aquela felicidade tão jovial e inútil, aquela idiotice que o fazia ser o bom e velho imbecil que sempre era.
Tudo aquilo era errado. Aqueles remédios, aquela situação, aquela vontade tão desesperada de chorar como um bebê... Jamais teria as palavras para descrever quão distorcido era.
Por que sempre tão errado...?
Por que sempre com ele...?
Engolfado naquela onda de estranha e ansiosa melancolia, ele tocou no rosto do outro. Estava quente. Estava insuportavelmente quente. Mas era macio. A pele... Ah, os cabelos também o eram. Sempre imaginou que não deviam ser; pareciam “agressivos” demais para aquela estranha maciez.
Sem perceber, seus lábios pousaram no pescoço do outro. Podia ouvir a respiração dele; estava rápida. Podia senti-la estrangular na garganta. Aquela pele tão pálida parecia igualmente tão convidativa. Ele não soube quando, porquê... Quando viu, havia mordido-a. E surpreendeu-se; estava muito quente. E não era o suficiente.
Ele queria encher aquele pescoço, aqueles lábios, aquela pele, queria enchê-lo de marcas, preencher seu âmago com sua essência, até que estivessem ambos saturados um do outro. Queria-o só para si – aquele calor, aquele arfar, aqueles olhos azuis – tudo só para si. Queria gravar aquela imagem para sempre na memória, mesmo que parecesse tão triste.
Ah, queria tantas coisas que nem podia numerar em sua mente que subitamente parecia tão inútil.
E, ao se afastar daquela pele macia, Zexion encarou Demyx, que tinha na face um tom rosáceo que pareceu lhe dar um aspecto ainda mais sagrado. E ainda mais, pelos céus, tentador.
- ...Eu nunca fiz isso antes. – mesmo assim, aquela ciência atingiu-o num repente, deixando-o brevemente sem ação. – Com um homem, digo...
Parecendo pensativo por alguns instantes onde só o som baixo da TV foi ouvido, Demyx também encarou-o, como quem não sabe o que fazer.
- Houve uma vez em que eu achei que quase tinha feito isso, mas... – sussurrou, contendo um riso ao lembrar-se da cena. – Mas não tinha, não. Eu... Também não sei o que devemos fazer...
Zexion ergueu a sobrancelha:
- Você já quase fez isso?
Demyx encolheu-se diante o olhar obviamente desgostoso dele.
- Bo-bom... A gente tinha bebido demais, e... E achamos mesmo que tínhamos feito algo, mas... Mas depois vimos que não... Foi só um alarme falso, e...
- “A gente”. – a sobrancelha ergueu-se mais. – Você e quem?
Demyx quase achou que, se pensasse naquele dia, onde ele e Axel acordaram na cama do segundo semi-nus e com uma dor de cabeça horrível, que anunciava uma ressaca memorável pelo resto do dia, iria, de alguma forma, ter aquela informação sugada da sua cabeça por Zexion (e nem queria imaginar como), e o mesmo ia jantar a cabeça de Axel na mesma noite.
- Você vai mesmo dar esse ataque de ciúmes... Tipo... Agora, Zexy? – ele riu.
Recobrando a razão e obviedade após aquela pergunta, percebera que, de fato, a hora requeria outras perguntas bem mais importantes.
- Não deve ser tão diferente assim... – comentou, pensativo.
- Sério que temos de pensar pra fazer isso? – gota. Às vezes, ele tinha medo de Zexion. Às vezes. – Não é algo simplesmente natural?
- Bom, ambos somos inexperientes neste quesito, e...
- ...Que ótima história pra contar no futuro! – o garoto revirou os olhos, ainda com o riso irônico nos lábios. – Minha primeira vez foi estragada, porque precisamos de um manual. Ficamos meio presos no capítulo 3, “como desabotoar uma camisa”!
- Escute aqui...
Colocando seu peso nos cotovelos, Demyx ergueu-se e calou o outro com um beijo. Aparentemente, dera certo, porque qualquer que fosse a coisa chata – e ainda mais... Broxante? – que ele pretendia dizer foi devidamente engolida.
Suas mãos, então, passaram a desabotoar aquela camisa escura e sem-graça que o outro estava usando (e todas elas eram meio assim, na verdade. Se soubesse fazer isso com aquela, saberia com todas!), desafiando o seu capítulo 3 imaginário. Zexion o encarou num misto de espanto e estranho gosto pelo ato.
- Bem, vamos fazer do nosso jeito, já que estamos sem manual. – ele ironizou, sorrindo. – Eu digo se você está indo bem, Zexy.
E, para o espanto (ainda maior) do rapaz de cabelos azuis, as mãos (tão quentes, tão macias...) do outro, que pareciam hesitantes a princípio, envolveram seu pescoço com uma súbita segurança de quem já conhece seu território.
- ...Agora, beije meu pescoço de novo, sim? Eu estava gostando.
Ah. Aquele calor tão bom, mas tão incômodo, que parecia pressionar ansiosamente algo em seu estômago até tudo se transformar em estranhas borboletas, voltara com toda a força quando Zexion finalmente processou aquela frase.
Inclinando-se, tocou com seus lábios, outra vez, aquele pescoço do qual, quando mordeu-o num ponto da garganta, Demyx deixou escapar um gemido abafado.
E Zexion achou que nunca havia escutado algo tão lindo.
~x~x~x~
Xigbar jogou os pés sobre a mesa, estalando o pescoço em seguida.
- Quando eu botar as mãos naquele garoto, vou matá-lo... Olhe até onde ele nos faz andar. – resmungou, virando mais um copo de whisky.
“Até porque eu sei que ele vai usar aquele maldito apelido de novo”, pensou, então, e seu desgosto aumentou exponencialmente. “Xiggy. Xiggy... Vou pegar aquela cabeça que só pensa besteiras, e...”
- Não precisa fazer isso. – Xigbar, aparentemente bem mais calmo que o outro, disse, tão logo também virou seu copo.
Encarando o fundo vazio do mesmo, quase teve vontade de rir. As imagens mentais eram deveras agradáveis.
- Lembre-se de que, além do garoto, tem aquele outro que está ajudando-o.
- O dono do carro... – o mais baixo resmungou de novo, desinteressado.
- Vê? Se não pudermos matar um, matamos o outro. – e, naquele tom neutro e naturalmente ameaçador de Xaldin, ninguém poderia saber se o mesmo falava sério ou se era uma brincadeira.
Assentindo, até gostando, de alguma forma, de imaginar aquilo também, Xigbar olhou para fora, para a noite daquela cidade irritante.
- ...É. Chega de brincadeira.
Notas finais
[48] A uma das maiores (e a segunda mais populosa) cidades do Japão. O maior museu de literatura do país se encontra lá.
[49] Literalmente, “representante de classe”, em japonês.
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