Grey Hat
1 Capítulo 1

—- [IK] began pestering [RV] at 16:11 --
I.K: hey
I.K: o que extamente vc está fazendo?
I.K: exatamente*
I.K: …
I.K: ok
I.K: já são cinco horas
I.K: e vc continua online
I.K: ou vc tá com uma raiva profunda de mim
I.K: ou está salvando o mundo de algum super vírus complexo demais para eu entender
I.K: quer meu palpite?
I.K: seja lá qual for a opção certa
I.K: vc tá ferrada
—- [IK] is no longer connected. --
Balançou a cabeça de um lado para o outro, por mais que o tempo passe, Ink não muda nada. Com ele era sempre assim, amar ou odiar, ir ou não ir, chorar ou sorrir, tudo no preto ou no branco, sem meio-termo. O que, na sua opinião, fazia com que as coisas se tornassem ainda mais dramáticas do que realmente deveriam ser e ficassem duplamente mais irritantes.
River nunca entendeu por que as pessoas sempre preferiam ver as coisas dessa forma. Por que não poderia existir um cinza? O ar, por exemplo, ela odiava a sensação de sentir o vento batendo em seu rosto todas as vezes que saia de casa, mas sem ele não poderia viver. Conclusão? Mesmo que odeie sua existência, não tinha palavras para descrever o amor que sentia por ele por deixá-la viva.
De qualquer maneira, não é hora de discutir questões sobre sua filosofia de vida, tem um milhão de problemas a espera. Olhou novamente para a tela do computador e dando um suspiro abriu suas mensagens, tinha um cara irritante esperando por ela.
—-[RV] began pestering [IK] at 17:43 --
R.V: lamento te dizer
R.V: mas ñ sou incrível o suficiente para salvar o mundo
R.V: além de ser uma perda de tempo
R.V: estou resolvendo uns assuntos...
I.K: e o q seria esse GRANDE assunto?
R.V: oh
R.V: achei q ñ iria aparecer tão cedo
I.K: pse
I.K: para vc ver o quão legal eu sou
I.K: ( •̀ .̫ •́ )
R.V: ಠ_ರೃ
I.K: de qualquer jeito
I.K: fdc
I.K: o q vc tá fazendo?
R.V: ah
R.V: eu não posso contar
R.V: é pessoal...
I.K: tem algo a ver com aquele seu trabalho?
R.V: s
R.V: …
I.K: …
I.K: não me diga que você vai apagar essa conversa dps
R.V: claro sir
R.V: flw
I.K: bye
—-[RV] is no loger connected --
Ao terminar de conversar ficou observando aquele site, ele foi feito com o objetivo de se comunicar anonimamente com as pessoas do mundo todo, sua proposta era bem simples para falar a verdade.
Se criava um nickname qualquer, escolhia alguma sala de bate-papo e começava a conversar com estranhos na esperança de virarem amigos. Nada inovador. Porém tinha algo que diferenciava ele dos outros, ela não entendia como, mas os desenvolvedores conseguiram deixar aquilo incrivelmente ruim.
As mensagens demoravam para chegar, as vezes eram enviadas para as pessoas erradas, letras eram trocadas do nada e aquela fonte, oh céus, aquela fonte. Ela era muito bizarra e de vez em quando as letras mudavam de cor, não por cores normais como a azul ou vermelho, eram cores extravagantes com amarelo neon ou rosa choque.
No entanto, mesmo com todos esses defeitos, ele a prendeu. Não só ela, mas mais alguns estranhos também, Ink era a prova viva. Eles se conheceram por um erro, literalmente um erro. Uma mensagem que ela havia mandado foi acidentalmente encaminha para um tal de 'Ink' e foi ai que ficaram sabendo da existência um do outro. Claro que no primeiro momento não foi uma conversa muito amigável, pois a mensagem era cheia de xingamentos, direciona para um completo idiota que estava falando mal da sua série (na época) favorita.
Conversas carregadas de ironias, xingamentos e muito sarcasmo marcaram seus primeiros anos de amizade, agora estavam no cinto ou sexto ano (?) e por mais que agora sejam de fato amigos, um insulto ou outro ainda escapa.
Fecha o estranho site em que ela e seu amigo conversavam frequentemente, e abre uma janela anônima, antes de começar a trabalhar tinha que analisar qual seria o seu alvo. Escola Foxcroft.
Entrou no site oficial e começou a ler algumas coisas sobre o lugar. Tipo: particular, gênero: misto, uniforme obrigatório: sim, tipo de acomodação: dormitório. Xeretando um pouco mais, achou vários e vários textos sobre o local, porém não tinha a menor chance de ler tudo aquilo, não era dedicada o suficiente para isso. Olhava rapidamente os parágrafos e lia uma frase ou outra, parou no ultimo parágrafo e começou a ler.
“Nossa missão é desenvolver cidadãos responsáveis e informados, pensadores críticos e líderes de colaboração. Somos uma comunidade promovendo o desenvolvimento de integridade, caráter e as habilidades necessárias para a aprendizagem ao longo da vida.”. 'Caráter', claro que sim. Se realmente existisse um pingo de honestidade nessas escolas, ela provavelmente estaria morando na rua ou com seus pais.
Solta um suspiro e alonga seus braços, está na hora de levar isso a sério. Seus dedos começaram a digitar em uma velocidade absurda e na sua tela milhares de janelas foram abrindo uma atrás da outra. O que tinha nelas? Eram tantas letras, cores e números que não sou capaz de descrever o que era aquilo tudo.
Depois de alguns minutos, uns dez mais ou menos, River se encosta novamente na cadeira, exausta e surpreendida. Não esperava que aquela escola, diferente das demais, tivesse um sistema de segurança tão bom. Mas não o suficiente. Sua tela ficou completamente preta e um cadeado branco apareceu bem no meio, com uma barrinha indicando '65%' se movendo lentamente. Aparentemente isso ia demorar.
Aproveitando o “intervalo” vai até a mini geladeira que ficava no canto da sua casa e pega um refrigerante. A parte boa de se morar em uma quitinete é que não é preciso andar muito para pegar alguma coisa, além, é claro, de ser bem mais barato que um apartamento normal.
Ao abrir a garrafa já consegue sentir todo aquele gás, fazendo uma careta dá o maior gole possível, por mais que odiasse aquilo, era o que mantinha ela acordada depois de várias noites passadas em claro.
Quando voltou para sua cadeira a barra já estava em 98%, ficou alguns segundos encarando-a como se tivesse o poder de fazê-la andar mais rápido e quando finalmente completou, não pôde evitar de pensar que no fundo, bem lá no fundo, conseguiu fazer com que aquilo andasse mais rápido.
Ao completar 100% o cadeado se abriu e na tela apareceu uma lista com centenas de nomes, que a medida que iam passando, ficavam mais impossíveis de saber como eram sua pronuncia. Ok, o mais difícil já foi, agora é só achar o nome e mudar as notas... Qual era o nome dela mesmo?
—Merda. – falou procurando o papel com o nome pelos bolsos do seu casaco, não poderia perder isso agora. Começou uma busca desesperada pela montanha de lixo, roupas e papéis que tinham sobre o a sua cama. –Qual era o nome? Qual era nome? – sussurra frustrada, conseguia lembrar de milhões de códigos, mas um simples nome? Não poderia esquecer algo tão banal quanto um nome.
No meio do seu desespero acaba tropeçando em um dos seus tênis e cai derrubando uma pilha de livros no chão. Bem, há males vêm para o bem, não é mesmo? Enquanto estava estatelada no chão, viu um pequeno papel azul saindo de um dos seus livros, estranho.
—Papel azul? Por que diabos eu tenho essa cor de pap-AH! – um lampejo de memórias passa pela sua cabeça, entusiasmada pega aquele bilhete do livro.
Quando foi se encontrar com sua provável nova cliente esbarrou com um vendedor ambulante, por sorte não causou nenhum dano na sua mercadoria. Depois de se desculpar tentou ir embora, mas ele segurou seu braço e pediu que levasse esse papel com seu telefone, caso estivesse interessada em alguma das suas mercadorias, poderia ligar que ele as levaria na sua própria casa para avaliá-las com calma.
Como não possuía nenhum outro papel no momento, usou a parte de trás do bilhete para anotar o nome.
—Amelia Mitchell. – volta para sua cadeira e começa a busca. Infelizmente os nomes não estavam em ordem alfabética, então teve que redobrar a atenção para não deixar nada passar pelos seus olhos.
Trinta. Quarenta. Cinquenta minutos! Meu Deus, quanto tempo iria ficar nisso?! E ainda por cima era cada nome mais esquisito que o outro, por que ninguém ali poderia ter um nome normal? Tipo Bob, na sua escola tinha pelo menos uns cinquenta Bob's!
Quando achava que não poderia piorar, encontrou o pior nome de todos. Joshua Joseph Harrison Franklin. Como alguém tem a ideia de por um nome desses no filho? Isso causa traumas nas crianças, sabia? Não se conteve e abriu a fixa de Joshua.
Pelo menos para compensar esse nome o tal Joshua era bem inteligente, BEM inteligente. Suas notas eram simplesmente perfeitas, uns belo 10 em todas as matérias, uma coisa incrível de se ver nos dias de hoje. Já invadiu diversas escolas ricas, mas nunca viu um aluno sequer ter a média 10 tem tudo.
Sua curiosidade aumentou incrivelmente, não conseguiria mais se controlar. Escolheu mais um nome qualquer para comparar as notas, tinha que ver se Joshua era algum tipo de gênio ou coisa do tipo.
—Não brinca... –sussurra abismada, clica em mais nomes, isso não pode estar certo.
Perdeu a conta de quantas fixas bisbilhotou, aquilo era surreal demais. A média de todos os alunos eram iguais, um perfeito 10 em todas as matérias.
—Que tipo de escola é essa...
Pelo menos agora conseguia entender por que Amelia estava tão desesperada para mudar sua nota, em um lugar onde todos tiram 10 um 8 deve ser inadmissível.
Depois de ficar alguns segundos impressionada demais até para piscar os olhos, balança a cabeça e lembra por que está ali. Continua descendo nome por nome, mais uns vinte minutos se passaram até que finalmente o nome de Amelia aparece.
Abrindo a fixa dela no meio de um mar de dez, se encontrava um intruso. Um enorme e severo oito, em química.
—Está na hora de acabar com você pequeno invasor. –as vezes, ela mesma se impressiona o quão estranha pode ser.
Até que foi bem rápido, questão de minutos. Um grande e belo 10 se encontrava no lugar do 8. Mais trabalho concluído com louvor.
********
—A-Ah sim! Pode deixar ha, ha. – mal tinha acabado o banho e já tinha mais um problema na sua cola, serio, quando as férias começam?!
Erica Malone, uma colega de classe estava ligando para saber sobre os preparativos para o festival, no qual River, por algum motivo desconhecido até para a própria, disse que ficaria responsável. Era um festival de despedida, já estavam em dezembro e daqui alguns dias as aulas iriam acabar.
Não entendia por que a escola inventava essas coisas, era apenas uma das várias despesas desnecessárias. No final das contas, talvez tenha se oferecido para ajudar com o intuito de tentar se enturmar com os outros alunos e criar “memórias inesquecíveis” ou só tenha feita isso para que ninguém venha reclamar dela por “nunca ajudar a classe”.
Seja lá qual foi o por quê, se arrependia profundamente. Enquanto Erica não parava de falar bobeiras sobre quais cores deveriam ser os enfeites vai até o espelho e começa a se analisar. Talvez já seja a hora de pintar o cabelo de novo, a cor de agora era um castanho avermelhado, estava em duvida entre preto e loiro para a próxima.
—Acho que vai ser preto... – deixa escapar.
—Que? – pergunta Erica.
—Ahn? Ah, não é nada. Continua. –preto iria realçar seus olhos castanho esverdeados.
Passa a analisar seu corpo agora. Aperta sua barriga e faz uma nota mental de começar a dieta semana que vem. Humm, será que faltava mais alguma coisa para reclamar sobre sua aparência? Sua altura? Nam, já tinha conseguido se conformar com o fato de ser a menor da turma, não se irritava mais ao escutar as risadinhas quando falava “quando eu era pequena”.
—Ok Erica. Não se preocupe, vou cuidar de tudo. Até mais.
—Mas e s–
Estava muito exausta para lidar com pessoas agora, amanhã iria se desculpar com ela por desligar na sua cara, agora iria voltar ao computador e quem sabe dormir depois.
Como se já não tivessem sido surpresas demais para um dia só, outra a esperava assim que ligasse o aparelho. Assim que desbloqueou a tela tomou um susto ao perceber que havia recebido um e-mail. Só usava aquilo quando algum jogo ou site pedia, tirando isso, não se lembra da última vez de ter trocado e-mails com uma pessoa real.
Ao abrir a caixa de entrada seus receios se confirmaram, um novo problema colossal acaba de cair sobre suas costas. Na verdade não ao abrir a caixa de entrada, mas sim ao ver que lhe enviou aquele e-mail.
From: foxcroft@foxcroftacademy.org
To: blueman@gmail.com
Subject: querida hacker, River Stallman.
—Oh merda.
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