Greta

1 Prólogo: Ondas Assassinas.


Notas iniciais
Para as Brendas.

"Eu morrerria por você, mas não viveria por você." — As Vantagens de Ser Invisível.

Enquanto caminhava em direção à água, os pés sentindo a areia morna e a cabeça a mil, Greta perguntava pra si mesma se estava ficando maluca.
A praia estava deserta. Até porque, ela pensou, não era muito comum que as caravanas de pessoas animadas aparecessem de noite; naquele horário, o local era reservado, quase que com uma placa, para pessoas perturbadas.

Mas Greta não era assim. Gostava de trabalhar com certezas.

A medida em que ia avançando, a água nas canelas, depois nos joelhos, e em seguida cobrindo a gola de seu suéter azul claro, pensou em tudo. Em quanto tempo eles demorariam para encontrar seu corpo, ou se ele seria devorado pelos peixes, como com seu pai e sua mãe.
Ela sabia que em pouco tempo deixaria de ser uma pessoa e passaria a ser um cadáver, e isso não a havia assustado, pelo menos não até os calmantes começarem a fazer efeito.
Era um relaxamento que ia contra sua intensidade e agitação naturais, contra o momento, contra tudo. Quando Greta começou a perder o controle dos músculos do corpo e a água tocou seu nariz, seus pulmões tentaram, como em um impulso natural e automático, se livrar daquilo, aquela coisa horrível, o sal entrando nas narinas e ardendo. Não imaginava que na pratica tudo seria tão assim. A maré a puxou, como se puxa um amigo pelo braço, como o vento leva uma folha frágil.
E antes que pudesse se dar conta, estava debaixo d'água.
Tentou mexer os braços e as pernas, em vão; havia tomado um número bom de comprimidos.
Porque não achava que fosse dar certo. Greta, na verdade, esperava que alguém brotasse no meio do mar, e então puxasse ela pra cima, e depois lhe desse uma dura por ter assustado tanta gente daquele jeito.
Mas agora estava morrendo, e sentiu com medo. Greta nunca havia se sentido mais assustada. Porque aí está uma verdade: não existe conforto quando se está morrendo. Não existe jeito de morrer feliz.
E enquanto seu cérebro perdia o oxigênio, o corpo perdia a vida e o coração batia como se soubesse que jamais o faria de novo, emitiu um último pensamento, uma súplica final, ouvida apenas pelas ondas. "Não". Porque não queria morrer, e havia tomado a decisão tarde demais. Greta fechou os olhos, como se tivesse escutado uma resposta, um sussurro do mar azul escuro. E só então entregou os pontos.