Greta

2 Capítulo um: Sinto Muito.


Notas iniciais
Enjoy!

Eu acho que nunca vou esquecer da sensação que tive ao acordar no meio da noite e encontrar a cama de Greta vazia.
Porque naquela noite, especificamente, eu havia tido um pesadelo terrível, envolvendo muita água e uma tempestade monstruosa. E eu estava lá. No meio do mar, perdendo o fôlego, perdendo os sentidos, perdendo a vida. E Greta havia me dito que sempre que eu tivesse sonhos ruins eu poderia ir pra cama dela, o que eu sempre fazia, e com uma frequência assustadora ela estava acordada. Não acordada com as luzes acesas, se mexendo, dançando ou qualquer coisa assim, simplesmente acordada, olhando pro teto, encarando o gesso branco.
E isso não me assustava, nem um pouquinho.
Então eu me deitava ao lado dela e ela me envolvia com seus braços pequenos, resmungando que era menor do que sua irmã mais nova e isso não era nada justo.
E naquela noite, quando eu entrei no quarto dela e vi a cama arrumada, eu sabia que Greta não iria mais voltar.
Eu simplesmente sabia, mas tentei ser otimista.
Então eu notei que havia um papel em cima da cama, um coração preto com duas únicas palavras, quase combinando com as duas lágrimas que saltaram do meu rosto quando eu virei aquela droga várias vezes, frustrada, tentando descobrir se ela havia escrito alguma coisa a mais.
Mas não.
Era só "Sinto muito". Como se isso resolvesse alguma coisa. Como se isso fizesse doer menos.
Eu guardei aquilo no bolso da calça do meu moletom, lugar onde ele continuou, três dias depois de Greta ter cometido suicídio.

Eu não me lembro de muita coisa, pra falar a verdade, mas não consigo esquecer do berro de dor que minha tia liberou quando atendeu o telefone, e em todas as suspeitas se confirmando dentro de mim, porque eu sabia que algo terrível tinha acontecido a minha irmã.

Mas não havia passado pela minha cabeça que ela podia estar morta. Não nitidamente. E foi por isso que quando a minha tia disse, Olivia, senta aqui, e depois cuspiu tudo, foi a minha vez de berrar. Alto, estridente e sincero. Então eu subi as escadas, desesperada, e fui até o quarto de Greta. Deitei na cama, me enrolei em seu edredom azul e fiquei ali, chorando, esperando que ela voltasse para que nós duas pudéssemos dormir juntas.
Mas ela me deu o bolo.

Eu não comi e nem bebi nada por três dias, até que o meu tio veio bater na porta do quarto, pra dizer que eles iriam enterrá-la.
Se nós estivéssemos em Los Angeles, todos os amigos dela teriam lotado o cemitério. Mesmo que Greta insistisse que não tinha nenhum amigo. Mas nós havíamos nos mudado pra Malibu havia apenas um mês. Ainda que Greta tivesse ficado apenas 27 dias na nova casa.
E o glorioso funeral foi presenciado por mim, tia Helen, tio Wayne e alguns adolescentes perturbados que veneravam seu suicídio.
Deveria existir repelente pra esse tipo de pessoa.

Eu realmente queria dizer algumas palavras, mas percebi que não valia realmente a pena. Greta merecia muito mais do que aquela porcaria barata.
Então eu só tirei o coração preto de dentro da minha bolsa e coloquei lá, junto com ela, sem que ninguém percebesse.
Ela fedia, mas não estava tão feia. Estava usando um vestido preto, como se estivesse de luto pela própria morte.
Encarei seu rosto pela última vez, desejando estar lá no lugar dela. O homem deu o sinal.
E cobriram ambas de terra, Greta e suas desculpas.

Depois disso nós entramos no fusca e dirigimos a caminho de casa.
Wayne diz que tem o fusca porque acha charmoso e retrô, mas tia Helen e eu compreendemos que ele não tem dinheiro pra comprar outro carro.

Então simplesmente ficamos quietas quando o carro resolve dar problema, que foi mais ou menos o que aconteceu naquele dia.
Wayne socou o volante com ódio, e eu cravei as unhas na espuma do banco.
Ele chutou a porta e abriu o capô, tentando achar o erro, até que um monte de fumaça saiu e a cara dele ficou preta.
Em um dia normal, Greta estaria rindo e fazendo alguma piada sarcástica sobre o estado dele, e eu estaria chorando de rir, mas acontece que ela estava morta.

– Helen, aonde foi que você colocou aquele ímã de geladeira com o telefone do reboque?

– Na geladeira, ora.

– E por que diabos o telefone do reboque está na cozinha e não no carro, Helen?

– Porque o seu fusca não é uma geladeira, Wayne.

Os dois continuaram discutindo, mas eu não escutei mais, porque coloquei meu fone. Não consegui distinguir qe musica estava tocando, porque estava entorpecida.

E de repente senti as lágrimas fazendo força pra sair, quase machucando meus olhos.

Eu precisava sair daquele carro, eu precisava ficar sozinha, ou então iria explodir.

– São quantos quilômetros, daqui até em casa? — perguntei, cerrando os dentes. Elas não iriam sair. Não na frente de todos.

– Só mais uns dez, querida. — tia Helen respondeu, afagando as minhas costas. Sempre detestei esse tipo de carinho.

– Então eu acho que vou andar. Até em casa, eu quero dizer. — olhei pra ela, implorando pra que entendesse que eu precisava de um tempo.

– Mas... — "Merda", pensei. Ela havia hesitado. — Mas você sabe como chegar?

Não.

– Sei, sei, sei. — qualquer coisa sair do carro.

– Está com o celular? — ela perguntou. Eu apontei os fones e indiquei que sim.

– Então... Então nós nos vemos lá. — ela me deu um abraço e um beijo. — Eu sei que o que aconteceu não foi nada legal, Olivia, mas você precisa se manter...

– Tchau, tia Helen. — eu a interrompi.

Abri a porta do carro e andei até uma distância considerável, Wayne ainda mexendo nas coisas do carro dele e sem prestar atenção em nada.

Só comecei a correr quando o fusca virou um pontinho azul no calor. Eu corria desesperadamente, como se estivesse atrasada para algo importante, e eu estava. Pra chorar. As lágrimas começaram a sair sem permissão, e eu precisava correr mais rápido, então tirei as sapatilhas pretas e fiquei só de meia calça. O chão estava quente, mas eu mal podia senti-lo. Só queria correr até minhas pernas sumirem.
O que ardiam eram as lágrimas, quentes e teimosas, encharcado meu rosto.
Eu lembrei de Greta e de como ela corria bem e de como eu jamais seria tão boa corredora. Porque Greta sempre havia sido mais. Mais bonita, mais engraçada, mais criativa, mais interessante. E eu era sua irmã estranha, aquela que as pessoas cumprimentam por educação, que olham com cara de cu e depois desviam e fingem que não estavam olhando. Perto de Greta, eu não passava de uma anoréxica esquisita.

Então eu corri mais, o coração palpitando, as sapatilhas escorregando dos dedos e o coque feito com laquê se desgrenhando.

Eu não sabia porque, mas precisava ir para a praia. Precisava encarar o mar que havia me roubado a minha irmã, e com urgência. Tentei manter o ritmo, o que estava dando relativamente certo, antes de eu tropeçar em alguma porcaria alheia e dar de cara no chão.
Bem, não exatamente de cara, mas quase lá. Consegui amortecer a queda com as mãos, mas não poupei meu joelho, e nem a meia calça de Greta.
Estava lá. Um círculo vermelho e quente no meu joelho, com sangue escorrendo. Eu olhei em volta pra ver se tinha algum carro ou qualquer sinal de vida na rua. Quando notei que não, relaxei os ombros e me sentei no meio fio, gemendo de dor e examinando o machucado.

– Preste atenção enquanto corre, Usain Bolt. — me virei pra ver quem tinha provocado, e ele estava parado lá, com um sorriso completamente sacana no rosto. Não dava pra saber se era alto ou médio, considerando que eu estava sentada. Mas dava pra ver os olhos escuros, quase pretos, e o cabelo dourado brilhando no sol.
Ignorei sua presença e continuei a olhar o joelho, considerando minhas condições de andar os dez quilômetros restantes sem morrer.

– Aliás, seu joelho está uma maravilha. Quanto sangue.

Forcei um sorriso, deixando bem claro que não era um sorriso-sorriso, e sim um sorriso-forçado.

– Ah, então você não é de muito papo.

A quantidade de sangue que sai do meu joelho não costuma me levar ao delírio verbal.

– Você está me deixando triste, com toda essa ignorância. — ele se sentou ao meu lado e eu recuei dois dedos. — Podia pelo menos me dizer o seu nome.

– Maxinne Nielle. — disse, por fim, enquanto me decidia entre rasgar a meia ou fica com todo aquele sangue grudando na perna. Não iria dar meu nome verdadeiro pra um estranho.

– Olha, e ela fala também. Gabe Harbish. — até o nome do cara era nome de babaca.
Qual é, eu não sou a única que julga as pessoas por nomes, certo? Se você estivesse em uma roda e tivesse que conversar com um Spencer ou um Gabe, qual dos dois escolheria? Porque eu definitivamente não cairia na conversa de um Gabe.

– Pode calar a boca e me deixar pensar? — implorei, metade ódio e metade desespero. O dia estava sendo uma merda total.

Ele ignorou meu pedido.

– Quem morreu? — me virei pra ele e estreitei os olhos, tentando manter a calma.

Respirei fundo, enquanto rasgava a meia calça que era/havia sido da minha irmã.

– Por que você acha que alguém morreu, Sherlock? — perguntei, irritada, sentindo uma dor incomum ao levantar.

– Seu rosto está inchado, você está vestida de preto, as olheiras estão fundas e parece coisa recente. Elementar, meu caro Watson. Ou você veio de um funeral ou é uma gótica das bravas.

Cretino.

– Por que você não experimenta cuidar da sua vida? — lancei, agarrando meu celular e me preparando pra ir embora.

– Ela anda bem desinteressante nos últimos dias, sabe como é. Nada de enterros e joelhos sangrentos.

– Que ótimo pra você, babaca. — comecei a andar, mancando um pouco.

– Eu duvido muito que você consiga chegar lá nesse ritmo. — ele provocou, e eu me virei.

– Você tem um carro? — ele fez que não com a cabeça. — Então vê se me deixa em paz, imprestavel.

Ele disse mais alguma coisa, mas eu não escutei porque estava longe demais, mancando como um cachorro que quebrou a pata.
Eu teria que me apressar se quisesse chegar a tempo na praia.

🌊🌊🌊

Eram 14:15 quando eu pisei na areia, um pé envolvido pelo tecido fino e o outro não, e havia sido a pior manhã da minha vida. Larguei as sapatilhas no chão quente e me sentei em cima delas, encarando o grande e inegavelmente lindo mar. E me perguntei no que é que Greta estava pensando, quando fez o que fez. Se ela havia pensado em papai e mamãe. Se havia pensado em mim.
Porque eu pensava nela. A cada minuto do dia.
Os policiais haviam dito que acharam o corpo dela só um dia depois, que foi quando tia Helen recebeu a ligação. E Greta estava tão horrível, inchada daquele jeito, que mal se parecia com a minha irmã. Lembrava bastante a minha mãe, quando estava em seu próprio funeral, dois anos atrás. Ela também havia morrido afogada.

O mar havia assassinado as três pessoas que eu mais amava no mundo, e eu não conseguia me conformar, não conseguia aceitar que eu iria chegar em casa e Greta não estaria fazendo panquecas de chocolate e assobiando Complicated.
Eu não vi quando começou, mas quando me dei conta estava numa série de beliscões no braço e na coxa, sem parar e sem sentir dor. Eu não fazia aquilo há alguns anos, e foi quase libertador. Eu não me importava com as marcas no momento, mas sabia que seria difícil esconder depois. Só que mal dava pra enxergá-las. Havia tanta água nos meus olhos que embaçava a visão, e a maresia era tão salgada que parecia dilacerar meus lábios.
O canto da praia que eu tinha escolhido estava praticamente deserto, então foi estranho sentir dois braços me envolverem por trás. Mas naquela hora eu não me importei. Estava precisando muito de um abraço.

– Achamos que você poderia estar aqui, querida. — tia Helen disse, enquanto segurava minhas mãos, para que eu não pudesse mais continuar. Ela tirou seu cardigan preto e colocou em cima de mim. — Veja o que você fez com o seu joelho, Olivia. Vai doer muito pra consertar isso, você sabe.

Então estendeu a mão e eu a agarrei, porque nós duas sabíamos que ela não estava falando do joelho.

Notas finais
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