Greta
4 Capítulo três: Tópico Greta.
Notas iniciais
"Ei, Olivia, nós vimos você saindo da casa do Gabe na quinta!". Eu andava escutando tanto, tanto esse comentário, que só faltava alguém me parar no meio da rua (o que seria ainda menos provável, já que eu só fazia a rota casa>escola>casa) pra me dizer isso.
Mas, tecnicamente, eu não estava indo até a casa do Gabe, e sim a casa do Adam. Não que fosse menos ruim, claro.
O Adam era tão idiota e cretino que havia pedido aos meus tios para que eu fosse até a casa dele, todas as quintas, com a desculpa de que eu precisava de "suporte emocional e psicológico". E para que eles não recusassem, as consultas eram de graça. Maldita hora onde eu coloquei GRETA naquela droga de papel. Eu deveria desenhado uma cenoura segurando uma faca ou qualquer outra coisa realmente assustadora.
A ordem era de que Gabe ficasse no andar de cima, fazendo qualquer porcaria no quarto, mas ele sempre dava um jeito de me incomodar no final das sessões com perguntas estupidamente ridículas, como "o que você acha de sair pra tomar sorvete qualquer dia desses?", e "está livre na sexta?". Como se eu fosse responder.
Naquela quinta feira em especial, as coisas estavam totalmente um saco.
Havia chovido muito e como meu único meio de transporte era uma bicicleta, eu estava encharcada.
Assim que eu cheguei, Gabe estava sentado no balanço, conversando com alguém no telefone.
Ele colocou a mão embaixo, pra tapar o som.
– Como você está hoje, Usain Bolt?
– Molhada.
– Costumo causar esse efeito nas mulheres. — ele disse, com um sorrisão estampado no rosto.
– Ah, meu Deus, eu sou mesmo tão transparente assim? Eu quero você, eu preciso de você, oh baby, oh baby. — segui para o consultório do Adam, que era basicamente um quarto com uma poltrona, um divã, e uma mesinha de centro com água e biscoitos.
Depois de perguntar como havia sido a semana, e receber qualquer coisa como resposta, ele começou uma série de perguntas que eu já conhecia bem, porque ele sempre perguntava as mesmas coisas, mas alterando um pouco as palavras.
– Quando você soube que Greta havia morrido, como se sentiu? — com dor. Com raiva. Abandonada.
– Eu fiquei bastante mal. — respondi, enquanto bebia um pouco da água que estava ali.
– Quer comer alguma coisa, Olivia? Os biscoitos do pote estão frescos.
– Eu... Acho que não. — certeza que não. Comer havia se tornado raro pra mim. Quando não me lembrava de comer, poderia passar dias inteiros sem colocar nada no estômago.
– Mas você está magra. — ele destampou a caneta, e eu sabia que ele ia escrever "anorexia" ou qualquer coisa assim. E eu definitivamente não precisava de mais uma nota na folha de Adam.
Então eu comi um dos biscoitos de limão, mesmo que mastigar fosse dificil e engolir fosse pior. Era como se um simples biscoito tivesse espinhos e estivesse arranhando a minha garganta.
– Voltando ao tópico Greta. — "tópico Greta".
– Eu acho que não tem muito o que falar sobre isso. Ela morreu, eu estou viva, isso é uma droga, só.
– Você não queria estar viva? — Adam perguntou, já destampando a caneta.
– Não, não foi bem isso que eu quis... — mas ele já estava escrevendo furiosamente na folha de papel. — dizer.
– Desde quando começou a sentir essa vontade de morrer?
– Não, Adam, você entendeu errado. Só porque a vida é uma droga não quer dizer que eu vá me matar. Todos nós sentimos vontade de morrer as vezes — respondi, impaciente.
– Então você quer morrer. — ele concluiu.
Adam era idiota ou o quê?
– Eu não gosto da vida que estou levando no momento, mas não vou fazer nada pra acabar com ela, porque acho isso errado e egoísta.
– Então você acha que Greta foi egoísta quando tomou os comprimidos?
Não respondi.
– Olivia, seus tios me contaram que Greta tinha pensamentos parecidos com os seus sobre a morte. Dizia que a vida era uma droga, que as coisas não valiam a pena. Eles temem que você tenha o mesmo fim que ela.
– Acontece — eu respirei fundo, cerrando os dentes e liberando a raiva por todas aquelas semanas de consulta — que eu não sou a minha irmã. Eu me chamo Olivia, tenho dezesseis anos e queria saber por que é que vocês todos acham que eu vou tomar uns relaxantes e pular no mar, sem dar valor a nada ou ninguém, sem pensar na minha família ou nas pessoas que se importam. Mesmo que ninguém se importe. — tomei fôlego, porque ainda não tinha acabado. — Então meus tios descobrem que Greta morreu e acham que eu vou fazer o mesmo, por isso me mandam pra um cara que eu totalmente não conheço e tampouco confio, que compartilha da mesma opinião deles. Repetindo: eu não sou a Greta. Não sou! — bati com um dos braços na mesa, fazendo com que a manga do suéter abaixasse um pouco.
– Olivia, o que significam essas marcas roxas no seu braço?
Merda.
Adam ignorou todas as outras coisas que eu havia dito, inclusive sobre ele ser um idiota que eu não conheço e confio, e começou a escrever uma nota no rodapé da folha.
Não precisei erguer muito a cabeça pra ler "autoflagelação".
– Desde quando você faz essas coisas? — ele perguntou.
– Desde que eu descobri que a dor é boa pra mim — eu respondi, baixinho. — Eu costumava bater com a cabeça na parece quando tirava alguma nota ruim, ou então dar alguns puxões no meu cabelo. Mas agora são só os beliscões.
– A autoflagelação é uma forma de punição. Por que está se punindo, Olivia? Você se culpa pelo que aconteceu com Greta? Acha que poderia ter impedido?
– Eu...acho que... — no momento em que eu ia responder, o sinal indicando que a sessão havia acabado tocou, bem alto e estridente, como se dissesse "eiiiii, o que você pensa que está fazendo, abrindo a sua vida pra um psicólogo?". — Eu acho que tenho que ir, Adam. Até a próxima quinta.
– Até mais, Olivia. — Adam estava visivelmente decepcionado.
Havia sido o nosso maior progresso nas últimas quatro semanas, e eu estava assustada com o quanto havia falado.
Na saída, Gabe me puxou pra um canto.
– Ei, está afim de destruir um pouco a casa do Adam? — ele perguntou.
– É a primeira proposta interessante que você me faz. Como?
– Ele vai pra uma conferência de psiquiatras esse fim de semana. Estava pensando em dar uma festa de três dias. Comida, vandalismo, piscina e música. Você topa?
– Vandalizar coisas do Adam parece totalmente atraente, mas as pessoas não. Então eu acho que vou pensar — respondi, mesmo sabendo que não viria.
– Até mais — ele disse, mas eu não respondi. — Grossa.
Montei na bicicleta e pedalei morro abaixo. A paz interior não havia me invadido após contar algumas coisas pro Adam, mas definitivamente eu não estava mais tão entupida.
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