Green's, as cobras também rugem
2 Capítulo 1 - Mansão Malfoy
— Sinceramente, Rose, eu não consigo entender como você gosta desse programa – reclamou Scorpius, mas sentou-se ao lado de amiga. Rose desligou o seriado que estava assistindo e olhou para Scorpius com raiva.
— Friends é um clássico americano trouxa. Eu costumava ver com a minha mãe e tia Gina – Rose aproximou-se de Scorpius e deu um beijo em sua bochecha. – Bom dia, senhor enjoado.
— Eu não sou enjoado, esse programa é muito chato! – Defendeu-se Scorpius. – Não sei como você conseguiu convencer o meu pai a comprar uma tevelisão trouxa.
— “Televisão” – corrigiu Rose com uma expressão vitoriosa. – E eu o convenci porque ele pareceu bastante interessado nos filmes.
— Ele amou o filme Orgulho e Preconceito. Na época, ele ficava falando que havia comprado porque você passava metade das férias aqui, mas já o peguei várias vezes assistindo sozinho aos filmes. Só você mesmo para convencer um Malfoy a comprar uma teve... ops, televisão. Ainda prefiro gastar numa vassoura nova.
— Pare de reclamar no meu ouvido, garoto chato – resmungou Rose e ligou novamente no programa.
— Vou fazê-la comprar algo que eu queira para a sua casa – brincou Scorpius enquanto abraçava Rose. A ruiva revirou os olhos.
— Nós já compramos ou você se esqueceu daquele campo de Quadribol que meus pais fizeram para você e o Alvo pararem de reclamar que não podiam treinar?
— É muito feio mentir, senhorita Weasley. Você gosta tanto de Quadribol quanto a gente.
— Certo, certo. Mas vocês também usam. Sabe, papai fica muito chateado quando perde para você. Fica resmungando pela casa dizendo que já perdeu tudo para o filho do Malfoy: eu, o Alvo, Quadribol...
Scorpius achou graça da revelação. A verdade é que sempre havia se dado muito bem com os pais de Rose – dentro do limite possível. Rony Weasley sempre fora um pouco ciumento quando se tratava dos filhos.
Os dois amigos voltaram a atenção ao episódio de Friends que passava na televisão. Scorpius franziu o cenho e olhou para Rose.
— Esse Chandler... ele não era amigo da Mônica?
— Era – concordou Rose, sem entender. – Mas eles acabam dormindo juntos durante uma viagem à Londres e, naturalmente, começam a gostar um do outro.
Ao terminar de explicar a relação das personagens, Rose deu-se conta de que Scorpius continuava abraçado a ela. Sentiu o rosto corar, mas o amigo não pareceu notar a sua reação. Estava concentrado no seriado.
— Mas eles não eram melhores amigos, certo? – Scorpius continuou o questionamento. Rose não soube dizer a razão, mas sentiu como se tivessem dado um soco em seu estômago.
— Não, realmente não eram tão amigos assim – concluiu no momento em que Alvo entrava na sala, causando o tumulto de sempre.
— Bom dia, flores do dia! – Exclamou o garoto abrindo os braços para os amigos. “Lá vem o furacão” murmurou Scorpius enquanto Alvo largava-se no sofá, entre o amigo e a prima. Scorpius continuou murmurando palavras inaudíveis.
— Se você acordar o meu pai de novo, ele vai acabar te proibindo de dormir aqui – alertou Scorpius. – Ele fica particularmente irritado quando o acordam e...
— ALVO SEVERO POTTER – os três se encolheram ao ouvirem o berro do corredor. Rose prendia o riso e Scorpius balançava negativamente a cabeça. Quanto à Alvo, o garoto parecia pensar se era uma boa ideia esconder-se atrás do sofá, mas essa tática só funcionava quando era menor. Ainda analisava o espaço entre o sofá e a parede quando Draco Malfoy entrou, furioso, descabelado e de pijama, na sala de estar. Encarou Alvo com um olhar assassino.
— Eu já perdi a conta de quantas vezes você me acordou com os seus berros e pisadas fortes. Você é o quê? Um trasgo por acaso? Se continuar a me acordar desse jeito, serei obrigado a expulsá-lo da minha casa.
— Não adiantaria – murmurou uma voz sonolenta. Patricia acabara de entrar na sala e parou ao lado de Draco – Bom dia, senhor Malfoy. Pensei ter ouvido a sua doce voz clamando pelo Alvo.
Draco corou levemente e murmurou maldições para Alvo. Mas a verdade era que o garoto havia se tornado o favorito de Draco, depois do seu filho. Patricia encaminhou-se até o amigo e deu um tapa em sua cabeça.
— Grite novamente daquele jeito e eu serei obrigada a lançar um feitiço em você. Eu estava no meu sétimo sono – reclamou Patricia, jogando-se na sua poltrona de sempre.
— Sete é um número muito específico. Quantos você tem? – Questionou Alvo.
— Dez – respondeu Patricia fazendo o amigo rir. Astoria entrou na sala e todos os adolescentes saudaram animadamente a anfitriã. A mulher olhou para o marido e balançou negativamente a cabeça.
— Isso é jeito de aparecer na frente dos convidados? – Reprovou, analisando a aparência de Draco – Suba para se trocar, querido.
Draco resmungou mais algumas maldições, mas voltou para o quarto. Astoria cumprimentou a todo o grupo, dando um beijo na cabeça de cada um. Alvo deu um beijo em sua mão, fazendo a mulher rir e seu filho revirar os olhos. Rose apontou para Patricia, que dormia tranquilamente jogada na poltrona. Um sorriso maroto surgiu no rosto de Alvo e o rapaz se levantou.
— Al, é melhor não – começou Rose, mas era tarde demais. Alvo havia acabado de soltar um alto e longo assobio no ouvido da amiga. Patricia acordou assustada, olhou para os lados procurando a fonte do barulho. Ao ver Alvo rindo, levantou-se com um grunhido e saiu correndo atrás do garoto.
— Eu desisto desse pirralho. Isso daí foi falha do Potter – reclamou Draco ao quase ser atropelado por Alvo e Patricia no corredor.
— Como se fosse possível dar um jeito nele – murmurou Rose para Scorpius. O amigo concordou com a cabeça.
— O que vocês pretendem fazer hoje? – Perguntou Astoria enquanto todos se encaminhavam para a sala de jantar, onde a mesa de café da manhã já fora posta.
— Planejamos visitar a minha avó – respondeu Rose. Um elfo apareceu e colocou duas jarras na mesa. – Obrigada – agradeceu a menina, sorrindo para o elfo. Scorpius franziu o cenho.
— Não precisa agradecer a todo momento – disse o rapaz, colocando dois pães em seu prato.
— Mas eu quero – respondeu Rose com severidade. Scorpius corou de vergonha.
— Obrigado – murmuraram Scorpius e Draco quando outro elfo apareceu trazendo uma bandeja de doces. O pequenino os encarou, sem entender.
— Doeu agradecer? – Rose olhou para Scorpius e Draco, satisfeita. Astoria prendia o riso enquanto os dois loiros comiam em silêncio, os olhos focados em seus pratos.
— Será que precisaremos acordar a Anna e o Danny? – Patricia acabara de se lembrar dos gêmeos.
— Não será necessário – respondeu Rose, apontando para os dois que chegavam de pijama e expressões sonolentas.
— Al, você me acordou – resmungou Anna. “A todos nós” resmungou Draco. Astoria lançou um olhar ameaçador ao marido.
— Anna, quando tivermos nossa casa e nossos filhos, como você acha que eles te acordarão? – Perguntou Alvo, piscando para a amiga.
— Os seus filhos podem correr do jeito que quiserem. O dia em que os meus filhos correrem desse jeito, eu fujo de casa.
— Nossos filhos serão lindos – continuou Alvo, fingindo sonhar acordado. Daniel encarava o amigo, irritado.
— Meus pêsames, Anna – disse Draco fazendo todos rirem.
— O que faremos hoje? – Perguntou Daniel tentando mudar de assunto, servindo-se de torradas.
— Vamos à Toca – respondeu Scorpius com um sorriso maroto.
— Mande, quero dizer, deseje, er... Mande um oi a todos – tentou dizer Draco, falhando de leve na simpatia. Rose e Scorpius trocaram olhares divertidos. Aquele era um grande avanço para Draco Malfoy.
— Peça à Molly a receita do bolo que ela nos enviou na semana passada – pediu Astoria. – Estava divino. Gostaria muito de aprender a cozinhar assim. Isso me lembra que eu comprei um livro de receitas e uma caixa de doces para a sua avó, Rose. Por favor, não se esqueça de levar.
— Pode deixar, senhora Malfoy. Mas, se vocês quiserem, por que não os visitam conosco? Toda a família estará lá. Você pode conversar pessoalmente com a minha avó, com certeza ela adorará a visita.
Draco começou a resmungar desculpas para não precisar ir à Toca, mas Astoria levou a mão à boca do marido. A expressão de Draco era de desespero e Scorpius sentiu pena do pai.
— Nós amaríamos – Astoria disse para Rose. Draco arregalou os olhos na direção do filho. Scorpius apenas se encolheu na cadeira.
— Vocês podem dormir lá. Podemos preparar uma caminha super macia para o tio Draco no quarto do tio Rony – Alvo sugeriu e lançou um olhar malicioso na direção de Draco. O homem o encarava com olhos assassinos. Astoria riu, divertida:
— Acho que isso seria muito para o meu marido.
Astoria retirou a mão da boca de Draco. Seu marido encontrava-se vermelho e totalmente desamparado, enquanto partia um pedaço de torta. Evitando os olhares alheios, Draco murmurou devagar:
— Seria um prazer encontrar a sua família, Rose – Rose sorriu, agradecida, para Draco. Alvo tentava prender o riso em vão.
— Ah, papai. Como você é um homem educado – brincou Scorpius. – Aposto que o tio Rony vai ficar muito contente com a sua visita.
Draco limitou-se a fazer uma careta e continuar a comer a torta.
— Que horas nós vamos? – Perguntou Anna.
— Depois do café – avisou Rose.
— Draco – começou Astoria -, você pensou em passar no trabalho hoje, não foi? Avisa que não conseguirá ir – Draco concordou com cabeça, mas parecia desejar, intimamente, a opção de trabalhar. Levantou-se e foi na direção do seu escritório. Pareceu lembrar-se de algo e virou-se para o grupo que tomava o café.
— Que horas você acha que voltamos da Toca? – Perguntou Draco olhando para Rose.
— Se bobear, a minha avó só deixará vocês saírem quando o dia terminar.
Draco engoliu em seco, concordou com a cabeça e continuou o seu caminho. Parecia derrotado.
— Tio Draco não consegue esconder a sua felicidade em ver minha família – debochou Alvo, comendo um pedaço de torta.
— Ele está em êxtase – ironizou Scorpius.
— Ele está se acostumando com a ideia – Astoria defendeu o marido.
— Depois de cinco anos! – Exclamou Daniel e Astoria
o reprovou com o olhar. Daniel sorriu sem graça. – Mas quem está contando? Vocês se lembram quando o Scor apresentou a Rose e o Alvo como seus amigos? Eu achei que fôssemos todos morrer.
Todos os presentes riram ao relembrar a cena:
“Rose e Alvo caminhavam ao lado de Scorpius, arrastando suas devidas malas. Rose tinha uma expressão preocupada e os lábios brancos. Os três se dirigiam à Mansão Malfoy.
— Scorpius, o que você disse para o seu pai exatamente? – Perguntou.
— Eu falei a verdade – começou Scorpius, mas Rose desconfiou ao ver um sorriso maroto -, que eu convidara alguns amigos para dormir na minha casa durante as férias. E vocês vieram! Estou muito contente! – Exclamou Scorpius, apontando para a mala de Rose como se perguntasse se a amiga precisava de ajuda. Rose balançou negativamente a cabeça.
O grupo de sonserinos havia acabado de completar o seu primeiro ano em Hogwarts e Scorpius ainda não contara ao pai sobre suas novas amizades. A única que estava ciente era a mãe, através das cartas que haviam trocado escondidos de Draco.
— Meu Merlin, ele vai ter um ataque – murmurou Alvo para Rose. Virou-se para Scorpius. – Foi difícil convencer os nossos pais a nos permitirem te visitar. Estávamos jantando na Toca quando a sua carta chegou.
— Foi um tanto engraçado – disse Rose. – Papai explodiu durante o jantar e mamãe teve que segurá-lo. Ele ainda não sabia da nossa amizade, apenas a minha mãe e a tina Gina. Alguns dos nossos tios tentaram dissuadir nossas mães, mas vovó Molly fez um belo sermão.
— Eu quero ver é a reação do meu pai – Rose olhou, irritada, para Scorpius. Estava prestes a argumentar que ele deveria ter preparado o pai, quando Scorpius abriu a porta de sua casa e deu um berro indicando que chegara:
— Mãe, pai! Meus amigos chegaram! – Fez um gesto indicando que Alvo e Rose entrassem na grande mansão. Rose encolheu-se intimidada com a magnitude da casa.
Scorpius acabara de fechar a porta atrás de si quando Astoria apareceu na sala, os braços abertos e um sorriso no rosto.
— Senhorita Weasley, senhor Potter – estendeu a mão em cumprimento. Alvo balbuciou algo inaudível.
— Por favor, senhora Malfoy. Pode nos chamar de Rose e Alvo – pediu Rose, apertando a mão da anfitriã.
— Então, assim será – disse Astoria ainda sorrindo.
— Cadê os outros? – Questionou Alvo no exato momento em que Patricia entrava correndo e se jogava no amigo. Daniel vinha mais atrás com Anna ao seu lado.
— Oi, Rose e Alvo. Vocês tinham que ver a cara do senhor Malfoy quando eu contei que era nascida trouxa – Patricia disse. – Pensei que ele fosse infartar! Vocês estão bem encrencados.
— Obrigada, Paty – ironizou Alvo. A garota deu de ombros. Rose engoliu em seco, mas Scorpius segurou sua mão, apertando-a gentilmente.
— Fiquem calmos. Vocês continuarão a ser meus amigos, amaldiçoados ou não – brincou Scorpius piscando.
— Scorpius? – Alvo e Rose assustaram-se ao ouvirem uma voz grossa aproximar-se pelo corredor. Draco Malfoy acabara de surgir na entrada, uma pasta preta em sua mão. Localizou os recém-chegados com os olhos e andou na direção de Rose. A menina soltou um gemido baixinho de desespero.
— Pai, esses são os meus amigos – começou Scorpius, indicando Rose e Alvo. O pai já estendera a mão para Alvo quando o filho completou -, Alvo Potter e Rose Weasley.
Alvo estava prestes a apertar a mão de Draco, mas o mesmo a recuou no meio do caminho.
— Como? – Draco olhava para Scorpius, incrédulo. Seu rosto adquiriu uma coloração avermelhada. – COMO É?
As crianças recuaram, distanciando-se de Draco, ao passo que Astoria caminhara até o marido e apoiara a mão em seu ombro.
— Acalme-se, Draco – pediu gentilmente. O marido olhou para a mulher como se ela tivesse enlouquecido.
— Me acalmar? Me acalmar? – Repetiu Draco, pasmo. – Como assim uma Weasley e um Potter vão dormir na minha casa? Vocês esperam mais o quê? Que eu conte histórias de ninar sobre a minha infância? – Astoria abriu a boca para responder, mas Draco já se virara para Scorpius:
— SCORPIUS MALFOY!
— Pai! – Exclamou Scorpius, indignado. – Isso é jeito de tratar os meus amigos?
— Seus... seus... seus amigos? Amigos? Há! Amigos, foi isso mesmo que você falou? – Scorpius olhou preocupado para o pai, que parecia prestes a ter um colapso nervoso. – Desde quando um Malfoy é amigo de um Weasley? Pior. De um Potter?
— Desde o meu primeiro dia em Hogwarts – respondeu, calmamente, Scorpius. – Para ser mais exato, foi durante a nossa viagem de trem para Hogwarts.
Draco cambaleou para trás, largando a pasta que segurava, e colocou a mão na cabeça. Astoria fez menção de segurá-lo, mas Draco se ajeitou e apontou ameaçadoramente para Scorpius.
— Você e eu. Escritório. Agora! – a última palavra foi berrada. Scorpius bufou, mas obedeceu e seguiu o pai. Os outros correram, seguindo-os, mas Draco já fechara e trancara a porta do escritório.
— Você enlouqueceu? – Sibilou Draco, sentando-se em uma das poltronas de couro do cômodo. Scorpius sentou-se à sua frente. O filho revirou os olhos e apenas respondeu:
— Não.
— Primeiro você faz amizade com uma nascida trouxa. Não questionei, não sou o meu pai – defendeu-se Draco, tentando mostrar que era um pai razoável.
— O nome dela é Patricia.
— Tanto faz! Essa não é a questão! Agora, você me traz um Potter e uma Weasley para dormir na minha casa! Na minha casa, não! Na MANSÃO MALFOY! O que seu avô diria se soubesse disso?
— Quanto exagero, pai.
— E-x-a-g-e-r-o? – Repetiu Draco Malfoy, pausadamente. Scorpius apenas deu de ombros. Draco suspirou, cansado, passando a mão no rosto. – Como isso foi acontecer? Como você ficou amigo de dois grifinórios? Não tinha mais ninguém da sua casa? Hogwarts está ficando sem estudantes?
— Eles não são da Grifinória – rebateu Scorpius. Draco bufou, impaciente.
— Certo. Lufa-Lufa, Corvinal. Tanto faz! Só são menos piores que Grifinória.
— Eles também não são da Lufa-Lufa e da Corvinal – respondeu Scorpius, agora prendendo o riso. Draco franziu o cenho, sem entender.
— Mas, como? Eles – parou de falar quando entendeu o que aquilo significava. – Não! Você está mentindo!
— Não estou! – Disse Scorpius, rindo. – Se quiser, eu peço a eles para mostrarem o uniforme que, provavelmente, trouxeram nas malas.
Draco permaneceu sem falar durante alguns segundos, estático em sua cadeira.
— Uma Weasley e um Potter na Sonserina – falava consigo mesmo, absorvendo a informação. – Meu Merlin! Minha casa está decaindo!
Scorpius já se prepara para contra-argumentar, mas calou-se quando Draco começou a rir.
— Eu teria pago qualquer quantia para ver a cara do Weasley e do Potter quando souberam para qual casa os filhos foram selecionados.
— A reação foi melhor do que a sua, tanto para a casa quanto para a opção de amizade deles – disse Scorpius, cruzando os braços. Draco estreitou os olhos em sua direção. O garoto corou, levemente, por ter exagerado. — Bem, o senhor Weasley nem tanto. Mas o senhor Potter foi tranquilo.
Draco gargalhou com gosto ao imaginar as reações de Rony. Scorpius aproveitou que o humor do pai parecia ter melhorado.
— Pai – chamou com a voz baixinha -, não foi o senhor mesmo que uma vez disse se arrepender por julgar os outros pelo sangue? Não foi você quem me disse para ser uma pessoa melhor?
Draco corou violentamente. Mexia-se desconfortável na poltrona, resolveu levantar-se para não precisar encarar diretamente o filho.
— O senhor vai julgar a Paty pelo sangue dela? – Perguntou Scorpius e Draco o olhou, indignado.
— Não vou julgar a sua amiga nascida trouxa, se isso o preocupa. Mas aceitar essa amizade com a Weasley e o Potter.
— Qual seria o problema? – Perguntou Scorpius. Draco pareceu refletir sobre a pergunta.
— Bem, eu não sei se você notou, mas eu não sou íntimo dos pais deles.
Scorpius riu do pai.
— Mas não poderiam ser apenas colegas e respeitarem a escolha dos filhos? Eu gosto muito deles – pediu Scorpius e Draco permaneceu calado por um momento, avaliando a situação.
— O cicatriz e o cabeça de cenoura já sabem disso?
— Claro. Inclusive, aprovaram a vinda deles. E é Harry e Rony.
— Tanto faz. E eles concordaram com essa amizade?
— Se eles estão aqui, só posso imaginar que sim. Foram um pouco relutantes no começo, mas, pai, as pessoas mudam, os tempos mudam. Eu gosto da Rose e do Alvo, eles são os meus melhores amigos desde o primeiro oi.
— Eu estou pagando por todos os meus pecados – murmurou Draco, exasperado.
— Você vai dar uma chance a eles? – Perguntou Scorpius, esperançoso. Draco bufou, mas concordou com a cabeça.
— Se você está feliz é o que importa. Não tenho mais forças para ir contra todos, até porque eu não quero que a sua mãe me expulse de casa.
Scorpius riu e foi até o pai, abraçando-o afetuosamente.
— Apenas me faça um favor. Sem mais surpresas. Nenhum namoro ou casamento com pessoas dessa família – disse Draco, rindo.
— Pai, eu tenho doze anos! – Exclamou Scorpius, mas sentiu um leve rubor na face, o que não passou despercebido por Draco. O sorriso murchou em seus lábios.
Scorpius abriu a porta do escritório, animado. Daniel e Anna caíram para dentro do cômodo assim que a porta foi aberta. Draco olhou, assustado, para o grupo de pessoas que tentava ouvir a conversa.
— Até você, Astoria? – Perguntou Draco, indo de encontro à mulher. Astoria encolheu os ombros e apenas murmurou algo sobre estar curiosa sobre a sua reação. – Você sabia dessa história?
Astoria arregalou os olhos com a pergunta surpresa do marido. Draco, percebendo o susto da esposa, fuzilou-a com o olhar.
— Acho que alguém tocou a campainha! – Exclamou Astoria, afastando-se do grupo. Draco seguiu a mulher, reclamando sobre ela ter escondido a história toda.
— Volte aqui, Astoria! – Berrou Draco quando a esposa começou a correr, distanciando-se. Scorpius sorriu aliviado ao ver que o pai parecia se divertir ao correr atrás da mãe.”
O grupo ainda se recuperava das gargalhadas quando Draco entrou novamente na sala de jantar.
— Por que estão rindo? – Questionou o homem encarando, confuso, a esposa.
— Estávamos nos recordando da sua reação quando soube da amizade deles – disse Astoria, apontando para o filho e os amigos. Draco corou ligeiramente sem graça.
— Peço desculpas pelo meu comportamento naquele dia – murmurou contrariado.
— Que isso, tio Draco! Sem cerimônia! – Exclamou Alvo, abraçando Draco Malfoy. O homem o encarou, como se ele fosse uma aranha gigante.
— Largue o meu pai, Al – pediu Scorpius, mas estava rindo da reação do pai. Draco afastou-se de Alvo.
— Crianças – Astoria começou a falar, levantando-se da cadeira. – Acho melhor começarem a se preparar. Precisamos sair se não quisermos chegar tarde. Draco, vamos nos arrumar também.
Todos obedeceram a anfitriã e se encaminharam para os seus devidos quartos. Rose estava arrumando a mala quando ouviu alguém bater na porta.
— Pode entrar – cantarolou e continuou a arrumar a mala. Sentiu alguém colocar as mãos em sua cintura e pulou de susto, virando-se. Scorpius a encarava com um sorriso.
— Meu Merlin, Scor! Você quer me matar do coração?
— Nossa, Rose. Quem você achou que fosse?
— Seu pai – ironizou Rose e voltou a arrumar a mala.
— Quem mais faria isso com você? – Perguntou Scorpius, confuso.
— Considerando que eu não estava preparada para você fazer isso – Rose respondeu, sem olhar para o amigo -, também não sei quem mais faria.
Scorpius sentiu o rosto arder de leve. Rose não pareceu notar o efeito que sua frase tivera.
— Já que você está aqui, me ajuda com uma coisa? Pega aquela maleta ali no armário, por favor.
Scorpius foi até o armário e pegou a maleta indicada por Rose, entretanto, a mesma abriu em sua mão e o conteúdo caiu todo no chão. A ruiva deu um berro ao ver Scorpius abaixar-se para recolher as suas roupas íntimas. O garoto ergueu-se, chocado, segurando uma de suas calcinhas de renda.
— Largue isso, Scorpius! Pelo amor de Merlin! – Exclamou Rose correndo até o amigo. Scorpius parecia ligeiramente sem graça.
— Rose, que calcinhas são essas? Eu não me lembro de ter te dado essas calcinhas – brincou Scorpius. Rose já recolhera todo o conteúdo e fechara a maleta.
— Você nunca me deu calcinha, Scorpius! Nunca mais faça isso!
— Eu estava brincando, Rose! Mas, olhe, elas realmente são muito bonitas – Rose sentiu um calor subir dos pés à cabeça ao notar um sorriso malicioso surgir no rosto de Scorpius.
— Pare de falar sobre isso!
— Sobre o quê? – Rose virou-se, assustada, para Alvo. Não notara quando seu primo adentrou o cômodo.
— Sobre as calcinhas da Rose – respondeu Scorpius. Alvo franziu o cenho.
— Por que estão falando sobre as calcinhas da Rose?
— Porque ela usa calcinha de renda sexy – indicou Scorpius, rindo. Alvo arregalou os olhos, fingindo estar chocado.
— Que isso! Cadê? Eu quero ver!
— Ninguém vai ver a minha calcinha! – Exclamou Rose, exasperada. Alvo tentava tirar a maleta de sua mão.
— Eu não me lembro de ter dado calcinhas indecentes à Rose – falou Alvo, pensativo. Rose revirou os olhos.
— Ninguém merece vocês dois!
— O que está acontecendo? – Perguntou Daniel entrando no quarto. – Por que estamos todos no quarto da Rose?
— Estamos tentando ver a calcinha dela.
— Eu deveria entender isso? – Daniel olhou confuso os três amigos.
— Aparentemente, a Rose tem uma calcinha sexy de oncinha e um chicote – falou Alvo fazendo Scorpius gargalhar. Rose olhou, espantada, do primo para Daniel.
— Ele está mentindo! – Apressou-se a falar. – Pare de inventar coisas, Al!
— Rose Weasley! – Exclamou Daniel, sorrindo maroto. – Como não descobrimos isso antes?
— Daniel Zabini, não finja que está acreditando no meu primo!
— Qual é da reunião? – Anna acabara de entrar no quarto. Antes que alguém pudesse responder, Alvo apontou para Rose e exclamou:
— Estamos falando sobre o fato da Rose ter uma calcinha de oncinha, um chicote e algemas!
Rose soltou um berro, desesperada, e escondeu o rosto nas mãos.
— Não fique assim, Rose. Você ficaria muito bonita com esse conjunto! – Anna piscou para a amiga.
— Anna, pelo amor – murmurou Rose, desesperada.
— Sobre o que vocês estão falando? – Patricia entrou no quarto. Rose ergueu as mãos para cima e berrou quando viu que Alvo já abrira a boca:
— EU NÃO TENHO UMA CALCINHA DE ONCINHA, UM CHICOTE E ALGEMAS!
— Nossa, que específico – Patricia arregalara os olhos, espantada. – Eu tenho uma calcinha de oncinha, ela é bem bonitinha.
Rose olhou, incrédula, a amiga. Patricia deu de ombros. A ruiva notou que os três rapazes a encaravam com sorrisos no rosto.
— Chega! Todos saiam do meu quarto, agora! – Berrou Rose, empurrando os amigos para fora. – Saiam! Onde está a privacidade nesse grupo?
Rose bateu a porta do quarto e encostou-se na mesma, ajeitando os cabelos. Os passos dos amigos se distanciavam, mas ainda conseguiu ouvir a voz baixa de Patricia:
— Ela tem realmente um chicote?
/-/
— Vamos logo que eu quero ver o circo pegar fogo! – Exclamou Alvo, animado, enquanto todos se encaminhavam para o jardim. Astoria puxava o Draco, que resmungava contrariado.
— Como nós vamos? – Questionou Rose. Astoria apontou para um duende de cerâmica no jardim. – Ah, um portal!
Quando o grupo se reuniu em torno do duende, Astoria olhou para cada um dos adolescentes.
— Crianças, tratem-se de se comportar na Toca – todos concordaram com a cabeça. – Nada de assuntos sobre calcinhas.
Rose corou, envergonhada, e fuzilou Scorpius e Alvo com o olhar. Os dois garotos não pareciam arrependidos por Astoria ter ouvido a conversa e riam descontraídos.
— E nada de dar trabalho para a senhora Weasley, entenderam?
— Nós nunca demos trabalho para a nossa avó – ironizou Alvo olhando para Rose.
— A vovó nos ama, mas pode ser bem assustadora quando quer – disse Rose e Alvo concordou. – Você se lembra daquela vez que nós pegamos gnomos e escondemos por toda a casa? – Scorpius riu com a lembrança.
— Ou aquela vez que resolvemos jogar Quadribol no telhado? Bons tempos.
— Também teve o dia em que o Daniel deixou cair as bombinhas que comprou na loja do seu tio – Patricia apontou, rindo, para Daniel. – A casa ficou fedendo a peido de trasgo durante dois dias.
— Meu Merlin – exclamou Astoria. – Eu preciso indenizar a senhora Weasley.
— Isso não é nada. Meus tios faziam coisas bem piores – garantiu Rose.
— Pior do que quando você estourou uma bomba de bosta no sótão, onde mora o vampiro?
Rose deu um sorriso amarelo para Anna.
— Quando o Alvo pegou a varinha do senhor Weasley para aumentar a casa e, na verdade, a encolheu.
— Ou quando a Rose tentou abrir um pote de biscoitos enfeitiçado e quebrou o nariz do Scorpius.
— Certo – interrompeu Astoria -, eu quero que vocês evitem repetir todas essas histórias.
— Imagina o que eles não apontam em Hogwarts. Não sei como não são pegos – ralhou Draco.
— Capa de invisibilidade – responderam todos em uníssono.
— Uma mãe não precisa saber desses detalhes – pediu Astoria. – Prefiro acreditar que vocês se comportam na escola. Muito bem, no três todos seguram o Portal. Um, dois, três...
Respiraram fundo ao sentirem o cheiro de grama molhada do jardim da Toca. Estavam ajeitando as roupas quando a porta da frente foi aberta e, por ela, saíram vários ruivos. Draco gemeu como se sentisse dor. Astoria repreendeu o marido com um leve tapa na mão.
— Olha! Os verdinhos! – Exclamou Ted, acenando para o grupo.
— Que ótimo. Os sonserinos chegaram – brincou James enquanto os recém-chegados se encaminhavam para a Toca.
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