Greco Schmidt - Em Uma Viagem Sem Destino

9 Capítulo 9 - Septus Mandou, Kastian Cumpriu


Não é sempre que um herói tem o poder do pai dos Bruxos Maiores, Thorino, mas não sei se fiquei feliz em saber disso. Eu nem se quer sabia onde estava a verdadeira espada de Conrad — pai de Roxye — mas pela Madame Norma, eu sabia que deveria sonhar.

— Os Bruxos não vão atacar tão cedo — Concluiu Roxye — Desde que meu pai derrotou Blacko, ele só retornou agora — Eu contara a Roxye dos meus sonhos, esta manhã.

— Mas não devemos ficar aqui fora — Disse eu — Posso ter o poder de Thorino, como você mesmo disse, mas isso cansa bastante.

Porch não dizia nada, desde quando eu usei a força de Thorino, contra as Bruxas Maiores.

— Vamos — Disse Roxye — Minha casa não fica muito longe.

Seguimos Roxye pela cidade, a cidade estava deserta. Paraízzo parecia ser bem maior do que um povoado, pela minha visão, mas era muito silenciosa. Já era noite quando chegamos em uma pequena casa, com duas janelas, e uma porta de madeira. Roxye bateu na porta, mas não entendi o porque, afinal, ela mesma disse, que aquela era sua casa. Então uma senhora, de meia idade, apareceu na porta. Ela usava um vestido feito de farrapos, cobertos por retalhos, e um avental por cima do vestido. Tinha o cabelo negro, bem negro, como o de Roxye, e olhos cinzentos.

— Posso ajudar, crianças? — Disse a senhora — O céu não está tão bonito, esta noite.

Roxye, que estava na minha frente, e da de Porch, pareceu olhar para o chão, e sua voz pareceu estar desaparecendo.

— Boa noite, Sra. Ruschel — Disse ela — Podemos entrar? Esta esfriando, e não temos para onde ir.

— É claro, minha jovem — Disse Sra. Ruschel — Entrem — E abriu um enorme sorriso no rosto.

A casa era pequena, uma cama no canto da janela, uma lareira no outro canto, e uma pequena cozinha na frente...ESPERA, essa era a casa de Roxye, a casa que ela estava com a mãe quando eu sonhei com ela, na primeira noite que dormira nesse mundo. A Sra. Ruschel nos levou até a cozinha, e nos mandou sentar na pequena mesa, feita de madeira. Roxye, desviara todos os olhares, que eu fizera a ela.

— Estão com fome, crianças? — Perguntou a Sra. Ruschel — Meu filho Lucca, foi buscar nossa galinha, ele virá logo — E abriu um sorriso acolhedor.

— Amora...você...você tem quantos filhos? — Perguntou Roxye, escondendo uma lágrima, no canto do olho direito.

— Um só, minha querida — Respondeu Amora — Ele é meu orgulho. Filho único.

— Quem é o pai dele? — Perguntou Roxye, se mostrando interessada.

— Um mineiro, só o vejo em finais de anos — Respondeu Amora — É uma pena, pois ele foi e sempre será o único homem da minha vida.

— Você...você não lembra de mim? — Perguntou Roxye, um pouco mais triste.

— Não. Não sei nem seu nome. Mas temos os cabelos iguais, que coincidência. Ah, já sei, você deve ser do Caneca dos Ladrões, trabalha lá?

— Não, eu...eu... — Disse Roxye, que pude jurar que falara: Mãe.

Nesse momento, um menino de uns 12 ou 13 anos, cabelo negros como o da mãe, roupas surradas, e pé descalço, segurando uma galinha, entrou na casa.

— Peguei uma das grandes, mãe — Disse o menino, levando os olhos até nós — Quem são eles?

— Lucca, que falta de educação. Eles são viajantes — Disse Amora — Você conhece essa jovem do Caneca dos Ladrões, meu filho?

— Não, mãe — Disse Lucca — Mas, o que eles estão fazendo aqui...

— Estamos de saída — Disse Porch, era a primeira vez que falara, desde o acontecimento com as Bruxas Maiores — Vamos pessoal...

— Não, não, não, não — Interrompeu Amora — Faço questão que passem a noite aqui, vou preparar o ensopado de galinha, traga o frango aqui, Lucca.

O menino passou por nós desconfiado. Roxye não contia mais o choro, e olhava freneticamente para Lucca, com lágrimas nos olhos. Depois de algum tempo, se juntamos a mesa, e começamos a comer o ensopado, que por sinal, estava ótimo. — Então — Começou Lucca, parando para mastigar o pedaço de frango — De onde vocês são?

— Mosague — Disse Porch, sem olhar para o menino — Mosague Ranflebith.

— Dizem que os peixes de lá, são ótimos — Comentou Amora — O ensopado está bom?

— Sim — Disse Roxye, sorrindo — Está muito bom, mãe...

Amora olhou para ela sem entender, e abriu um leve sorriso.

— Espero que "mãe" — Disse ela — Seja um elogio pra vocês, adoro elogios.

— E você...você lembra do "pequenina", Amora? — Disse Roxye — Quando você fazia um coração para mim e falava: Você é minha pequenina, Roxye. Nunca vou te abandonar."

Amora pareceu parar, olhou para frente, sem piscar. Deixou o ensopado cair da colher no prato, ela parecia estar em transe, e então Lucca a chamou:

— Mãe? — Disse ele — Mãe?

— Sim, meu filho? — Disse Amora sorrindo.

— Você ouviu o que ela...

— Bom, já está tarde, e vocês vão partir amanhã cedo, é bom irem dormir. Lucca, mostre onde ficam as redes pra eles, querido — Interrompeu Amora, comendo mais um pouco do ensopado e sorrindo.

No meu sonho, eu estava de novo na sala branca, e Ouro estava lá.

— Meu senhor — Saldou ele — Você...você descobriu seus poderes.

— Sim, Ouro — Disse eu a ele — Eu tenho o poder de Thorino, o pai deles, não é ótimo? — Disse eu, sem nenhum entusiasmo.

— É a melhor coisa que um herói pode ter, meu senhor — Disse Ouro — O senhor deveria se sentir honrado.

— Por que, Ouro? — Disse eu a ele, novamente — Eu nem sei onde está a espada verdadeira. Talvez, eu nem possa derrotá-los...

— Não diga isso senhor — Disse Ouro — Esta no seu sangue, o senhor é o verdadeiro herói.

— Me ajude então, Ouro — Disse eu — Eu não sei onde encontrar a espada.

— Apenas sonhe Greco, apenas sonhe...

Agora eu estava em uma outra sala, dessa vez a sala reluzia a ouro. Existia seis cadeiras, mas somente cinco estavam ocupadas. Duas cadeiras eram maiores, mais reluzentes. Um homem velho, com barba e cabelos pretos, trajando um terno preto e segurando um cajado com a ponta reluzindo uma cor azul, estava sentado em uma das cadeiras maiores. A outra cadeira, estava ocupada por um mulher de cabelos cor de terra. Seus olhos eram verdes, como os de Tarantêla, porém, esse verde era mais vivo. E para minha surpresa, reconheci duas mulheres sentadas em cadeiras menores e prateadas. Uma tinha enormes chifres de minotauro, a outra um cabelo cinza, até a panturrilha, da cor do céu nublado. Era, Lunia e Tarantêla. Na última cadeira ocupada, estava um homem magro, bem magro, quase uma caveira viva. No alto de usa cadeira, tinha dois urubus enormes, que ficavam imóveis, parecendo parte da mobília.

— Kastian, meu filho — Disse o Bruxo Maior, sentado na cadeira de ouro — Cuide daquela cartomante idiota, pra mim, ok?

— Por que eu, pai? — Disse Kastian, o homem magro, quase caveira — Peça a alguma de suas filhinhas imprestáveis, que foram embora com medo de um heroizinho.

— Você é o Bruxo dos mortos e da morte, Kastian — Disse o Bruxo Maior, na cadeira de ouro — Eu dei uma ordem, cumpra.

Kastian revirou os olhos, com desprezo, e desapareceu feito névoa da sala.

— Pai, nós...ele possui o poder de Thorino... — Disse Tarantêla.

— Silêncio — Retumbou o Bruxo Maior — Vocês fracassaram com um dos heróis mais jovens que já tentou nos destruir.

— Septus, querido — Disse a mulher do lado dele — Elas...ficaram com medo, eu também ficaria. Ele possui o verdadeiro poder de nosso pai...

— Não dirija sua palavras as nossas filhas, Kirina — Disse Septus — Agora, vá.

— Eu tentei ajudar, meninas — E Kirina saiu da sala, como névoa, igual Kastian.

— Eu espero que Blacko continue ajudando — Disse Septus — Ele está indo bem. Coisa que vocês não fazem, imprestáveis.

— Nós nunca fomos mortas por heróis — Disse Tarantêla — Ele foi o único.

— Não fale de seu irmão, quando ele não está aqui, Tarantêla — Disse Septus — Vocês erraram hoje, como ele também errou.

— Ele sempre foi seu filho preferido — Disse Tarantêla — Mesmo sendo o mais novo.

— Silêncio — Retumbou novamente Septus — Agora vão, preparem nossa humilde surpresa para Greco, mostrem-no nossa força.

E uma risada ecoou pela minha cabeça.

Dessa vez, eu não acordei suando, eu acordei todo molhado de água gelada.

— Até que fim, herói — Disse Roxye — Já estava desistindo de te acordar.

— Precisava me acordar assim? — E olhei para minha roupa e para a rede onde eu estava, as duas encharcadas.

— Foi o único jeito, Greco — Disse Porch, que já estava a mesa, comendo. Ele e Roxye riram.

— Ei — Falei — Guarde um pouco pra mim — Levantei, e corri até a mesa.

O pão estava ótimo. E a conversa com Amora também. Então eu comecei a contar para Roxye e Porch sobre meu sonho, enquanto Amora, estendia a rede e a minha roupa molhada, que Roxye havia jogado água, tentando me acordar. Depois que contei o sonho todo, Roxye disse:

— Pelo menos Tarantêla e Lunia, levaram uma lição — Disse ela.

— Você não está entendendo, Roxye? — Disse Porch — Eles estão preparando uma surpresa para nós. E tenho quase certeza de que não é coisa boa...

A conversa foi interrompida, quando a porta da frente se abriu e Lucca surgiu, gritando:

— Mãe? Mãe? — Disse ele — Mamãe?

— Sim, Lucca? — Disse Amora vindo para dentro, com um sorriso no rosto.

— É a Madame Norma — Disse Lucca — Ela está morta.

Por um momento todos ficaram quietos, então eu disse:

— Eu acho que Kastian fez uma visita para ela esta noite.