Eu acordei suando freneticamente, o quarto onde eu estava era de um hotel muito chique. Tinha uma cortina de veludo, vermelha, bem escura, como sangue velho. No quarto também tinha muitas almofadas e poltronas de veludo, também havia um carpete bem gostoso. A cama era forrada com a melhor seda, e os travesseiros, pareciam feitos de nuvem, e já era de manhã, uma leve brisa saia pela janela, uma brisa gelada, com cheiro de morte. Eu me levantei, coloquei a roupa que estava, tinha dormido com um pijama, que agora, estava empapado de suor gelado. Tirei rapidamente, sem despregar os olhos da porta, com medo de que Lunia poderia entrar. Abri a porta do majestoso guarda-roupa de madeira polido, ele era enorme, dava do chão até o teto, daria aproximadamente dois de mim. Abri ele. Tirei da pratilheira mais alta, uma mochila de couro, e coloquei tudo o que encontrei que me ajudaria a sobreviver fora do Reino. Depois de colocar algumas maçãs vermelhas enormes, uma garrafa de suco de caju, um pedaço de torta de limão, e algumas balas de menta, na mochila, fui até a janela, e lá embaixo, joguei-a, e ela caiu bem em cima de um arbusto, onde ninguém lá embaixo poderia ver. Mas não pudi ir junto com ela, era muito alto, era como se eu estivesse no 4º andar de um prédio, então pensei em sair escondido, mas essa hipótese foi excluída quando bateram na minha porta. Procurei algo para me defender, mas eu sabia que Lunia não iria vir sozinha, ela era uma Bruxa Elementar, e só de pensar nisso, minha cabeça doeu, os Bruxos ouviam até os pensamentos. Não encontrei nada, e então não tinha mais o que fazer. Se Lunia me encontrasse aqui, ela iria querer me ver morto. Afinal, eu fui escolhido para ser o matador dos bruxos, e não poderia fracassar que nem Ouro.

— Quem é? — Disse com a voz trêmula — Eu...eu não preciso de nada.

— A Rainha Lunia Schorban quer ver o senhor — Disse um homem, com a voz de matador — Sou um dos Cavaleiros, da Cavaleria de Chardes.

— O que ela quer comigo? Eu não tenho nada a falar para ela. Vão embora.

E então, a linda porta de madeira polida, cai pelo chão, fazendo um enorme estrondo que ecoou pelos corredores do Castelo Negro. Eram aproximadamente 9 homens coberto por armaduras prateadas, com cinturões de espadas na altura do quadril, e com uma rede de prata presa da cabeça cobrindo até o pescoço.

— Lunia disse que podíamos fazer isso — Disse o primeiro Cavaleiro da frente — Não vamos machucar você, se não for preciso. — E então deu um sorriso no canto da boca, e tirou a espada do cinturão.

Eu ainda estava parado, não podia lutar com 9 Cavaleiros, cheios de espadas e armaduras, que nem uma faca de prata que tinha vindo com meu jantar, conseguiria perfurar.

— Acho que vocês devem saber quem eu sou não é? — Disse olhando nos olhos de cada um. Agora eu já estava em pé, em posição de ataque. — Caso vocês queiram me matar agora, sua Rainha vai matar vocês, ela quer falar comigo, então abram espaço, vão, abram.

Os Cavaleiros se olharam, e então, guardaram suas armas, e abriram um enorme caminho para mim, talvez conseguisse até passar um enorme caminhão de entrega. Segui com eles até uma enorme porta de vidro, onde dentro da sala de copas, havia Lunia, com seus chifres de minotauro, ela estava com a mesma roupa de ontem, porém estava um pouco mais sonolenta, talvez passara a noite toda acordada.

— Muito bom heroizinho, agora já descobriu quem eu sou. Sim, eu sou uma dos 5 Bruxos Maiores, ou os Bruxos Elementares, como vocês, inferiores, gostam de nos chamar. Mas inferiores cai bem a vocês, nós Bruxos Maiores, demos um nome bem aos nossos escravos. — E então ela estralou o dedo, e uma moça de mais ou menos uns 15 anos, quase a mesma idade que eu, saiu em disparada. Ela tinha cabelos negros, bem negros... opa, ela era a menina junto a lareira que eu tinha visto. Então ela crescera, e virara uma das Borbons de Lunia.

Ela serviu o café Lunia. E quando ia se retirar, ela olhou para mim, ficou 5 segundos ligada a mim, eu e ela, e só pude entender uma coisa: fuja.

— Sente-se ao meu lado, se tiver coragem, Schmidt — Disse Lunia, mostrando todos os dentes — Ou você é como sua mãe? Uma pobrezinha choramingona?

— Sou muito mais corajoso que a senhora Lunia, que pelo que percebi agora, não tem nada de senhorita.

Eu já podia olhar para os olhos dela, eu não sentia mais o calor, mais o prazer de olhar para ela. Ela parecia uma víbora pra mim agora. E foi quando eu percebi, que ela não tinha o rosto que toda mulher gostaria de ter. Ela não tinha a pele lisinha, ou os olhos azuis. Ela tinha uma pela asquerosa, os olhos cor de fogo, praticamente, uma faísca, esperando para se multiplicar.

— Então heroizinho. Passou sua última noite bem? — Disse-me Lunia — Como você sabe, eu dispensei a ajuda do homem que você ouviu quando chegou.

— Ele me pareceu confiante, senhora Lunia — Retruquei — Devia ouvir seus semelhantes.

— Meu querido, eu não sou um espelho de prata. Nem mesmo uma pessoa. Eu sou o pecado, eu sou o perigo, eu sou a traição.

— É claro, você é a Bruxa do Fogo, do pecado, do prazer, da traição. Você é Emeralda.

— Pra um jovem inferior como você, eu estou impressionada. Então, eu sou Emeralda, ou era. Não gosto desse nome de pedra que meus pais tolos me deram. Lunia Schorban, esse é um nome inflamável.

— Você se esconde atrás do que não é, Rainha. E isso, não é uma atitude de um Bruxo Elementar. — Um som de trovão ecoou pela sala.

— Na verdade meu jovem. Eu me escondo através das minhas atitudes. Você achou mesmo que todas as pessoas que eu matei, iriam se safar de mim assim, tão fácil?

— Você guarda as almas deles, embaixo de seu castelo. É claro.

— Você não está usando os olhos, meu querido. A Floresta dos Corvos...

— Você não quer dizer que...

— Exatamente, meu jovem. Agora você sabe o porque que eles bicam as pessoas, eles querem avisar para irem embora, ou terão o mesmo destino que eles, porém todo mundo acha que fazem isso, porque são criaturas inferiores. Eles são espíritos, transformados em corvos, pelo meu irmão Kastian, Bruxo dos mortos e dos espíritos.

— Ele...ele existe.

— É claro, seu tolo. Todos nós cinco existimos. E você tem a simples tarefa de nos matar, ou sua família, virarão corvos. E você também, mas daqui a milhões de anos, avisará a outro heroizinho da sua missão, da missão que você fracassou.

— Só se você passar por cima de mim, sua bruxa.

Então eu levantei, e com a faca que eu iria comer, cortei a garganta de Lunia, tão rápido, que nem eu mesmo consegui me reconhecer. Por um momento, todos, até mesmo os guardas, pararam. Lunia tentava respirar com mais força. Então seus olhos começaram a ficar vermelhos como fogo. Agora seus olhos inteiros — e quando eu digo os olhos inteiros, é os olhos inteiros mesmo — começaram a pegar fogo, e ela começou a murmurar bem baixinho, e um par de escorpiões subiram de seu vestido negro, e foram até a garganta, e começaram a reconstruí-lá. Eu não sei da onde surgiram aqueles escorpiões, mas ai lembrei que ela também é a Bruxa do veneno. E depois disso, eu só ouvi a voz da menina de cabelos negros, que estava no meu sonho, e que serviu, Lunia falar:

— Corra! Por aqui — E ela me mostrou um caminho para as porta de fundo. — Rápido.

Segurei na mão dela, e foi como se eu fosse um personagem de vídeo-game, ela me conduziu, me puxando pelo braço direito. Saímos em disparada, rodeando as Borbons, e objetos. Parecia que não tinha mais fim. Eu estava cansado, mas se parasse, os Cavaleiros, que Lunia, mandou correr atrás de nós, iriam me pegar, então eu não iria parar nem se eu estivesse morrendo. Chegamos para uma parte que dava para um enorme vale. Esse era o lado de trás do castelo. Mas o da frente era coberto por gelo. Agora sim eu coloquei em minha cabeça: aqui não é um lugar de humanos. Segui a menina por uma torre que a escada era em volta da torre, chegamos ao chão e seguimos descendo pelo vale, os Cavaleiros gritavam, mas a menina desviava e andava tão rápido e tão segura de onde estava indo, que eu mal conseguia vê-los. Pegamos uma certa distância dos Cavaleiros, eles podiam ter ido pegar os cavalos, se os cavalos não tivessem asas, claro, então descemos um pouco mais o vale, então a menina parou. Olhou para os lados, e embaixo dos arbustos, ela abriu uma porta, onde se você fosse um pouquinho gordo, você não iria passar, e os Cavaleiros iriam pegar você. A princípio hesitei, mas entrei rapidamente, seguido pela garota. Estava escuro, e então, ela foi acendo velas nos quatro cantos do pequeno lugar. Que em cima da porta estava escrito: "Borbons Galeria". Depois que ela acendeu as velas, eu pude ver o significado do nome do lugar. As Borbons guardavam tudo aqui, tudo que podiam: pratos, copos, talheres, roupas, móveis — porém pequenos — cortinas, comida, até quadros. Então uma mochila de couro voa em minha direção.

— Aqui está a sua mochila — Disse a menina de cabelos negros — Não podemos ficar muito aqui, alguma das Borbons irá abrir o bico logo.

— Ah, muito obrigado — Disse eu — Obrigado mesmo, como você se chama?

— Não tenho mais nome, sou um Borbon — E ela fez uma referência como se eu fosse um Bruxo Maior e fez uma cara de desgosto.

— Fale seu nome, pelo menos eu preciso saber.

— Roxye, eu me chamava Roxye.

— Belo nome. Prazer, eu me chamo...

— Greco, você é o herói de agora. Ouro não resolveu nada, pelo que minha mãe me contava. Espero que nos ajude, heroizinho.

— Eu...eu não sei como fazer isso. Eu preciso de ajuda também.

— É só matar os Bruxos Maiores. Haha.

— Pra você é fácil falar. Não é a heroína.

— Eu estou tentando te ajudar. Agora se você quer morrer com uma flecha na cabeça — e de trás de sua cabeça, ela tira um enorme arco dourado. Do mesmo modo sombrio que Roger fez, antes de entrarmos na floresta.

— É claro, você veio para me ajudar. É por isso que eu sonhei com você, com sua mãe explicando que um herói deveria vir logo. Você, Roxye, você deve vir comigo.

— O que tem Amora? O que tem minha Mãe?

— Bom isso não importa, você é minha parceria agora.

— Você só pode estar brincando comigo...

Coloquei a mão na boca dela, mas ela compreendeu o porque. Havia Cavaleiros passando em cima de nós.

— Precisamos sair daqui — Disse-me Roxye, depois que os Cavaleiros sumiram — Eu vou com você até a aldeia. Sei um cara que pode te ajudar.

— Obrigado Roxye, agora, preciso de uma arma. Onde encontrar?

Roxye virou para trás, guardou a flecha na aljava e mexeu em algumas caixas. Então ela tirou uma espada negra. Parecia feita de vidro preto, como o castelo.

— Essa era a espada de meu pai — Disse Roxye — Ele foi o único que conseguiu matar um Bruxo Maior.