Saímos depois do almoço, em busca da verdadeira espada de Conrad. Foram eu, Roxye, Phillip e mais quatro Recrutas — Tirano, Cuco, Auff e Alogan — e estávamos decididamente a voltar somente com a espada, mesmo que isso teria que acabar com morte de alguém.
Só percebi que estávamos bem longe de Paraízzo, quando saímos por entre as árvores que cercavam o Aglomerado, pois não fazia noção de onde era aquele lugar. Não havia montanha a vista, e só víamos mais chão.
O calor era muito forte. Parecia que Lunia, a Bruxa do Fogo, havia mandado uma mensagem para o sol, pedindo que ele esquentasse muito mais nosso mundo. Era estranho todo esse calor, pois de manhã, tinha até um certo frio, e ninguém, mesmo que não saiba nada de temperatura, descordaria de que era praticamente impossível aquele calor. Felizmente, existiam muitas árvores pelo caminho, mesmo sendo pequenas, elas acalmavam um pouco o calor.
Andamos muito, mas ainda não víamos montanha, ou nem mesmo uma cidade, ou vila. O calor parecia aumentar a cada minuto, até que a primeira vítima foi pega. Cuco caíra no chão desmaiado.

— Me ajudem — Disse Phillip, colocando a mão na cabeça de Cuco — Me ajudem a levar ele para aquela sombra ali.

Carregamos Cuco até a árvore mais próxima, e sem nenhuma frescura, Phillip jogou a água gelada de seu cantil na cara de Cuco, o que fez com que ele acordasse, desorientado.

— O que? — Perguntou ele, olhando para os lados — O que aconteceu?

— É, ele está bem — Concluiu Tirano, tomando um pouco da água do próprio cantil.

Depois de uma parada embaixo de uma árvore e aos pés de um lago, enchemos os cantis, comemos alguns sanduíches que pegamos no Aglomerado e seguimos viagem. Andamos mais, e o calor quase nos deteu, mesmo antes de tocarmos na espada.

— Precisamos parar — Disse Phillip, e todos olharam para ele como se fosse um agradecimento — Vamos arrumar um acampamento embaixo daquele pinheiro.

Descemos nossas bagagens, e então fomos arrumar nossas coisas. Tirano e Cuco foram buscar madeira, para acendermos a fogueira, Auff e Alogan foram buscar algum animal para comermos, e Roxye foi arrumar as barracas. Eu e Phillip ficamos encarregados de fazer uma ronda através do local. Andamos e analisamos tudo. Era um local bom, talvez o topo de uma colina.
O sol já ia se pondo e o por-do-sol era impressionante. Fiquei no alto de uma pedra e olhei para ele. A brisa batendo em meu rosto, a natureza ali. Pensei em como esse mundo vivia as custas dos Bruxos Maiores, e em como eu poderia derrotá-los. Mas um pensamento surgiu em mim. Eu imaginava eu e Roxye, conversando. Ela estava linda em um vestido, e parecia muito feliz, aquilo talvez, fosse algo que eu quisesse ver nela.

— Pensando na vida, Greco? — Disse Phillip atrás de mim, o que me fez assustar e virar em direção a ele.

— Pensei que já tivesse voltado para o acampamento — Disse eu, sério.

— Me desculpe — Disse ele — Não quis assustá-lo.

— Tudo bem — Disse eu — Já tomei susto maiores. Vamos andar.

Então, desci da pedra, e começamos caminhar ao longo da grama verde do local. Era bem agradável, e Phillip não era um cara de perguntar muita coisa, não estava com vontade de responder, queria saber.

— Será que deixar Auff e Alogan no comando do jantar, irá ser uma boa ideia? — Perguntei a Phillip, com medo que ele me interpretasse mal — Não que eles não sejam bons, mas são novos.

— Fique tranquilo — Respondeu ele sorrindo, sem preocupação, como se estivéssemos em férias de verão — Eles são ágeis, e sabem calcular antes de se aproximar de um animal. O jantar vai estar ótimo.

— Por um momento — Disse eu — Achei que fossem irmãos. Tipo, eles tem a mesma altura...

— Mas eles são irmãos — Disse Phillip, já não sorrindo — Eles foram trazidos bem pequenos para o Aglomerado. Tinha uns 8 ou 9 anos. Alogan é o mais velho, ele tem 16 anos. Nem parece né?

— Não — Respondi — Eu nunca o ouvira falar, desde que saímos do Aglomerado.

— Ele é muito reservado — Disse Phillip — Mas...eu vou contar, tudo bem.

— Me contar, o que? — Perguntei a ele, confuso.

— Bom, o pai de Auff e Alogan, o Sr. Turner — Começou Phillip — Trouxe seus dois filhos para o Aglomerado as pressas. Kirina pediu de presente a Septus os dois meninos...

— O que uma Bruxa Maior iria querer com dois meninos? — Perguntei a ele, ainda mais confuso.

— Bom, ela viu a inteligência deles — Respondeu Phillip — E ela queria para a coleção dela.

— Coleção de pessoas? — Perguntei

— Exatamente — Disse Phillip, parecendo não gostar daquilo — Kirina parece ser a doce Bruxa Maior, mas é a mais perversa e menos justa, mesmo sendo a Bruxa das Leis. Ela coleciona pessoas a séculos, e reduzem eles a tamanhos de bonecos. Eles moram em um local na casa de Kirina e Septus, mas a Bruxa, ainda brinca com eles.

— Como você sabe disso? — Disse eu — E como o Sr. Turner, sabia que ela queria fazer isso?

— Bom, são lendas — Respondeu Phillip — Mas o Sr. Turner, trabalhava no castelo de Kirina, e ele mesmo podia jurar que vira essas pequenas pessoas. Já como ele sabia que isso aconteceria, acho que foi meio de surpresa, pois ele trouxe seus filhos para o Aglomerado, correndo, sem parar.

— Podíamos ter trazido pessoas que saibam lutar — Disse eu — Não que sejam inteligentes.

— Eu também concordaria com isso, Greco — Disse Phillip, concordando com a cabeça — Mas, eles são os únicos que sabem onde é mais provável que a espada esteja. E eles também lutam bem com espada. Alogan sabe até atirar flecha.

— Isso é ótimo — Disse eu — Preciso falar com eles, mais tarde.

— Essa noite vamos ver o mapa — Disse Phillip — Eles estão tentando desenha o castelo de Lunia faz um bom tempo, e acho que estão acabando.

Eu sorri pra ele, e começamos andar de volta pro acampamento. Então, quase na entrada, dei de cara com Tirano falando com Roxye, ele sorria. Dei uma passo pra trás e revirei os olhos, e Phillip, observou isso.

— Roxye nem dá atenção a ele — Disse Phillip — Ela não se interessa por valentões.

— Ele me dá raiva — Disse a Phillip — E se acha muito. Argh. Não gosto dele.

— Ei — Disse Phillip, sorridente — Temos mais com que se preocupar. Deixe ele de lado, vamos nos ajuntar a eles.

Depois de alguns minutos, Auff e Alogan chegaram carregando alguns animais. Um tipo de galinha e alguns esquilos. Tirano e Cuco já haviam preparado a fogueira, e desde a conversa com Phillip, tentei chegar o mais perto de Roxye. Não era ciúme, era raiva de Tirano, talvez, eu nem sabia o porque.
Comemos sob a luz da fogueira, mas a verdadeira luz, era da lua. Ela brilhava cada vez mais quando a noite ia se prolongando, e avançando. Corujas faziam seu barulho, como todas as noites, e voavam de vez em quando, para lá e para cá, nos assustando de vez em quando também.
Quanto mais a noite se avançava, e quanto mais a lua brilhava, mais frio ficava. Já era um frio de bater os dentes, e então eu percebi que não fora Lunia que havia mudado o tempo, e sim Septus. Ele nos queria ver mortos.
Depois de comermos, eu fui falar com Alogan e Auff. Auff ainda comia, mas Alogan estava tentando desvendar alguma coisa no enorme mapa que estava no chão.

— Oi — Disse a ele — Esse é o castelo de Lunia?

— Sim — Respondeu Alogan, olhando pra mim — Quer ver de verdade, o Castelo Negro?

— É claro — Disse, sorrindo.

O mapa era desenhado perfeitamente sobre o papel. Mostrava tudo, ou quase tudo. Uma parte ainda estava sem fazer. Eu tentei tocar para ver se não era o papel, mas não tinha nada, embaixo de uma torre, não tinha continuação.

— Eu não sei o que tem ai — Disse Alogan, infeliz — Nem meu irmão.

— Tudo bem — Disse a ele, sorrindo — Vamos ir para lá, e você poderá saber.

— Alogan — Disse eu, olhando pro menino — O que aconteceu com seu pai?

— Eu não sei — Disse o menino, sem me encarar.

— Ele foi soterrado — Disse Auff, entrando na conversa — Com casa e tudo.

— Como assim, Auff? — Perguntei, interessado.

— Depois que Kirina não nos achou em casa — Continuou Auff — Ela forçou meu pai a falar, mas ele não abriu o bico. Então, a Bruxa da Terra, soterrou a nossa casa. E até hoje ninguém...

— PARA! PARA! — Gritou Alogan — Para de falar dele, e dela.

Eu olhei para Alogan, ele estava chorando, mas parecia raivoso, capaz de matar um tigre (iria sugerir que ele pegasse Carybin, mas não era a melhor ocasião para isso).

— O que está acontecendo aqui? — Disse Phillip, correndo até nós, com todos os outros a seu pé.

— Eu...eu só falei do nosso pai — Respondeu Auff — Ele tem crises com isso.

— Greco — Disse Phillip, olhando pra mim — Foi isso mesmo?

— Sim...é, eu não sabia disso — Respondi a ele, confuso — Me desculpe Alogan, eu não sabia.

Alogan levantou, e saiu correndo para a sua barraca. Sem fazer muito barulho, Phillip disse a Auff.

— Não fale mais nada sobre isso na frente do seu irmão.

Então a última faísca da fogueira se apagou, e só a luz da lua, nos dava noção do tempo.


Como todas as noites, eu sonhei com Ouro. Eu estava na mesma sala de sempre, e agora, Ouro não estava com Conrad.

— Mestre — Saldou Ouro, educadamente — Falta pouco.

— Olá, Ouro — Disse eu, sorrindo — Sim, mas ainda não chegamos nem no castelo.

— Eu sinto que o senhor vai ter mais ajuda antes de chegar ao castelo, senhor — Disse Ouro — Uma ajuda de alguém que você conhece.

— Isso é bom, não é? — Perguntei a ele.

— Sim, vai ser ótimo — Respondeu Ouro.

— Está ocorrendo tudo bem, então? — Perguntei, feliz.

— Não sei senhor — Disse Ouro — Eu vejo coisas boas e ruins pela frente. Pessoas morrendo.

— Ouro, Thorino...ele ainda está...vivo? — Perguntei a ele.

— Sim, senhor — Respondeu-me — Não sei por quanto tempo.

— Diga a ela que aguente — Disse a Ouro — Eu vou honra-lo.

Só deu tempo de ver Ouro assentir, e já estava em outro sonho. Eu agora estava no castelo de Lunia. Como eu sei? Eu lembro da sala de jantar dela. E seis cadeiras haviam sido ocupadas. Na ponta da mesa, não estava Lunia, e sim Septus. E do lado direito dele, Kirina. Lunia, Tarantêla, Kastian, também estavam na sala de jantar, e um homem grande, enorme, sentado do lado de Kastian.

— Bom — Começou Septus — Essa noite, estamos reunidos aqui, para celebrar o novo corpo de Blacko.

Cinco pessoas bateram palma, menos Tarantêla, que saboreava seu prato com muito gosto. Lunia parou logo em seguida.

— Obrigado, pai — Disse o homem forte — E Tarantêla, cuidado talvez a comida não te faça bem.

— Você não ousaria fazer nada contra mim, seu Místico idiota — Respondeu ela, nervosa.

— Meus filhos — Disse Kirina — Não precisamos fazer isso.

— Lunia — Disse Septus — Espero que seu exército seja grande. Pois eles chegarão amanhã.

— Sim, pai — Respondeu Lunia — Eles não sabem nada do meu castelo.

Nessa hora, me deu vontade de rir da cara dela. Ela não sabia nada do mapa. Nenhum sabia.
Borbons se aproximavam da mesa, seus rostos estavam pálidos, afinal, eram Bruxos Maiores, qualquer bobagem, e eles iriam matá-las. Mas a má sorte estava com as Borbons hoje. Uma menina de uns 13 anos, tropeçou no carpete, e derrubou um pouco de suco na mesa, e que caiu no vestido de Kirina.
A Bruxa da Beleza, olhou para o vestido e para a Borbon, e então eu vi a coisa mais assustadora que eu já vira. Ela tinha uma cara de terra, como se tivesse saído do chão. Presas do tamanho das unhas de Lunia, e olhos de cobra. Septus desviou o olhar, devia ser difícil olhar para aquilo. E então a Borbon remexeu, sacudiu e caiu pelo chão, em pedaços. Eram vidros, o barulho foi claro. A Bruxa Maior transformara a Borbon em cacos de vidros. Ela tinha esse poder, ela conseguiu matar uma Borbon só com o olhar. E depois, a Bruxa voltou a comer seu jantar, naturalmente, como se nada tivesse acontecido.

— Querida — Disse Septus — Acho melhor nós irmos.

— Tudo bem, Septus — Disse Kirina — O jantar foi ótimo, filha — E fez um leve sorriso para Lunia. E então ela e Septus se desfizeram em névoa.

— Eu também vou — Disse Blacko, o homem forte — Adeus.

— Espere, irmão — Disse Kastian, virando névoa, como o irmão.

— Irmã — Disse Tarantêla, a Lunia — Você é uma Bruxa Maior, não deixe pequenos heróis destruí-la. Boa noite — E se dissolveu em névoa.

— Não posso fracassar — Disse Lunia a si mesma — Heevy! — Gritou ela — Coloque os Srs. Schmidt no porão. Vamos esperar Greco.


Acordei suando. Estava na barraca, e aquele calor me fez sair de lá as pressas. Quando coloquei o corpo pra fora, me enrolei na coberta, pois eu já estava batendo os dentes. Então eu vi algo que fez meu coração bater. Eu vi Roxye, ela estava sentada na pedra onde Phillip me assustou, e então, corri para lá.
Quando cheguei mais perto, eu pude perceber que ela estava chorando, e bem triste. O cobertor em qual ela estava parecia encharcado, e ela tremia de frio. Tirei meu cobertor e coloquei-a nela. Ela virou para mim, sorriu e me abraçou, e caiu no choro novamente. Depois que ela se acalmou, eu tive coragem e perguntei.

— O que foi, Roxye?

— Sabe, Greco — Começou ela, enxugando os olhos — Quando você disse que eu era a pessoa com quem você devia derrotar as Bruxas e os Bruxos Maiores, eu achei que tivesse pirado. E falei que só chegaria com você, até uma ajuda. Mas você percebeu que eu não te deixei ainda, não é?

— E nem vai me deixar, não é? — Disse a ela.

— Você é a própria ajuda, Greco — Disse ela — Enquanto você estiver aqui, eu vou estar aqui. Quando eu me despedi de minha mãe...Amora, quer dizer, ela me disse pra mim nunca te abandonar, pois você seria minha ajuda, a minha ajuda de vencer a dor.

— Eu...é verdade, eu sempre vou ajudar você, não importa o que aconteça — Disse a ela.

— Você não entende — Choramingou ela — Eu e você...bom, eu sinto tanta saudade da minha mãe. Eu sei que nunca mais vou ter ela de volta, mas não aguento mais chorar de noite, eu pareço forte, mas sou como vidro, me derrube e eu quebrarei...

— Roxye — Disse eu — Você é pessoa que eu mais acho corajosa. Você me salvou das garras de Lunia, se não fosse por você, eu não estaria aqui...

— Mas eu devia fazer isso...era o meu dever — Disse ela — Eu não quero mais os Bruxos Maiores, precisamos acabar com eles.

— Vamos acabar — Disse eu a ela — Eu prometo.

Eu achei que acabaria beijando ela, mas ela se levantou e saiu, foi em direção a sua barraca. Eu pensei nisso, e me achei bem idiota, achando que ela iria me beijar. Mas eu apenas sorri, foi um bom começo.
Me dirigi a minha barraca, e dormi até ver a cara de Phillip me acordando, de manhã.


Tomamos um café da manhã reforçado — um café bem quentinho, um pão do Aglomerado, e muitas frutas frescas — Desmontamos nosso acampamento e seguimos viagem.
Pensei que Septus iria nos dar uma folga, mas mesmo de manhã, dava pra fritar um ovo no chão. Era quase impossível continuar andando por muito tempo. Fizemos várias paradas e em uma delas, eu pude falar com Alogan.

— Como você conseguiu esconder o mapa dos Bruxos Maiores?

— Bom — Começou ele, sorrindo — Eles são poderosos, mas não enxergam bem. E eu consegui criar uma espécie de mapa invisível aos olhos deles.

— Você é um gênio — Disse eu, sorrindo — E...desculpe por ontem...eu não sabia...

— Relaxa — Disse ele — Eu só sinto falta dele, como Roxye também sente falta da mãe.

— Como você sabe disso? — Perguntei.

— Não é difícil você ouvir choro de meninas — Disse ele — Ainda mais quando você esta acordado trabalhando em um mapa invisível, que requer concentração.

— O que você ouviu? — Perguntei, envergonhado.

— Você fcomeçou bem — Concluiu ele — Só faltava o beijo.

— Vamos pessoal — Disse Phillip, atrapalhando nossa conversa — Andando.

— Não fale a ninguém — Sussurrei a Alogan.

— Sou um túmulo — Disse ele, sorrindo.

Andamos bem mais, fizemos mais algumas paradas, e depois começamos ver uma montanha. Arregalamos os olhos e começamos a correm cada vez mais rápido. Então chegamos ao pé da montanha.

— A montanha que cerca Paraízzo — Pensei, comigo mesmo.

Então começamos a subir e contorná-la. Chegamos ao outro lado, agora nem o calor mais atrapalhava, pois você sabia que iria chegar logo ao seu destino.
Demos de cara com Paraízzo. No primeiro instante que eu vi-a, pensei que todo a sua beleza havia sumido. Agora só restava fumaça negra e coisas destruídas. Paraízzo havia sido excluído do mapa.