Greco Schmidt - Em Uma Viagem Sem Destino
10 Capítulo 10 - O Poder Máximo De Um Herói
Muitas pessoas estavam rodeando a tenda de Madame Norma para ver o que acontecera.
— Eu não quero ir lá ver — Disse eu a Roxye e Porch — Precisamos ir embora.
— Ir pra onde? — Perguntou Roxye.
— Eu não sei — Disse eu — Mas a espada de Conrad, não vai cair aqui do céu.
— Como você pode saber disso? — Disparou Roxye.
— Não precisa ser nem um imbecil pra saber disso — Respondi a ela.
— Vamos parar, pessoal — Disse Porch — Eu sei...eu sei um lugar onde podemos ir.
Eu e Roxye desviamos o olhar um do outro. E fitamos Porch. Por que do nada ele sabia de um lugar para podermos ir? Ele nunca falou disso a viagem inteira.
— Onde é esse lugar? — Perguntou Roxye, desconfiada.
— É atravessando por lá — Falou Porch — Devemos atravessar aquela montanha.
Ele nos mostrou uma das quatro montanhas que rodeavam Paraízzo. Pelo que percebi, ela era a maior, era toda marrom, e o bico cheio de neve. Alguns animais voadores sobrevoavam a montanha, como se quisessem avisar que algo está acontecendo lá.
— Então vamos — Disse eu — Todos nós sabemos que a espada não vai cair voando em nossas cabeças.
— Esperem — Disse Roxye — Eu preciso...eu preciso me despedir dela. Preciso agradecer a ela.
Eu sabia de quem ela estava falando. Era de Amora. A mãe dela. Então eu não segurei-a, deixei-a ir. Depois de alguns minutos, ela voltou com os olhos cheios de lágrimas, e com os olhos também vermelhos.
— Foi tudo bem? — Perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
— Sim — Mentiu Roxye — Ela pediu pra mim cuidar de vocês, e não deixar vocês passarem fome — E então mostrou sua mochila cheia de lanches.
Partimos em direção a montanha. Na estrada silenciosa de Paraízzo, pude ver melhor o porque do nome da cidade. Ela era silenciosa, sem aqueles montes de máquinas barulhentas. Ela era única, e tinha um cheiro agradável de pão assando. Ela parecia uma ilha, vivendo sobre a natureza, sem ninguém interferir. Quando o sol estava abaixo de nós, paramos embaixo de uma árvore, na sombra, quase ao pé da montanha. Era um lugar perfeito para um lanche, uma brisa irresistível passava pelos nossos rostos, e o cheiros de flores, deixava o lugar ainda mais perfeito. Amora, preparara alguns lanches para nós essa manhã, ela não iria deixar-nos seguir viagem de mãos vazias. Ela preparara sanduíches com atum, suco de tamarindo, e uma cesta de pães extra. Tudo estava ótimo, e ainda mais naquele lugar, ficava melhor ainda. Alguns pássaros sobrevoavam a nossa árvore, e de vez em quando, um esquilo ou outro, aparecia para pegar as migalhas que deixávamos cair no chão. Então, Porch quebrou o silêncio, e a harmonia.
— O que aconteceu com sua mãe? — Perguntou ele.
— Não quero falar sobre isso agora — Respondeu infeliz, Roxye.
— O.k, desculpe — Falou Porch.
Porch não era muito de falar. E de ontem pra hoje, ele parecia com uma cara triste, com medo, faminto, mesmo estando alimentado e com sono. Não me preocupei tanto, pois depois que acabara tudo isso, teríamos tempo pra nos cuidar. Seguimos viagem. A montanha não estava tão longe assim de nós. Ela era enorme de perto, muito mais do que de longe. Subimos a montanha em circular. Parecia que ela tinha um caminho traçado, uma escada subindo a montanha em círculo. Eu não fazia ideia de onde estava, e pelo que percebi, Roxye também não fazia ideia de onde estava. Porém, Porch nos conduziu pela montanha numa facilidade inacreditável. Ele parecia um guia. Parecia que conhecia a montanha desde quando nascera. Talvez conhecia. Passamos por vários lugares estranhos, e então, chegamos em um lugar onde mais a frente havia uma pequena depressão. Ela era redonda, como um olho. A areia na depressão, parecia escorregar e cair no meio dela. Muita areia se juntava lá, mas aos poucos eu pude ver um brilho diferente, um brilho intenso. Então, o brilho aumentou, e aumentou, até não dar mais para olhar. Depois que ele abaixou, eu pude ver, mesmo não acreditando. Uma espada de vidro negro, coberta por um sangue vermelho velho, como a cor das cortinas do meu quarto, no castelo de Lunia.
— Ajudei vocês bastante — Disse Porch — Não acham?
Tentei olhar para Roxye, mas ela não retribuía os olhares. Eles estavam presos a verdadeira espada de seu pai. E então, pela minha surpresa, Porch foi de joelhos para a depressão, e caiu em frente a espada. Quando ele pegou ela, ela brilhou cada vez mais na luz do sol.
— Essa é a verdadeira espada de Conrad, Greco — Disse Porch, sorrindo pra mim — Essa foi a que ele derrotou Blacko.
— Sim, essa mesmo, Porch — Disse a ele — Agora volte pra cima.
— Vocês não perceberam mesmo não é? — Disse Porch — Não perceberam em como eu estou de ontem pra noite. Com sono, esfomeado, como a solidão. E como eu sou inocente, e transmito medo.
— Solte essa espada, Porch — Disse Roxye, acordando do transe — Ela pode estar enfeitiçada.
— Não está, Roxye — Disse Porch — Essa é a verdadeira espada, a que seu pai me derrotou.
— Do que você está falando? — Perguntou Roxye.
— Vocês até parecem ser mais inocentes que eu agora — Disse ele — Eu sou o Blacko. O Místico Superior. Eu sou o Bruxo da Escuridão.
Se eu falar pra vocês que meu corpo estremeceu, acredite. Um ar gelado subiu em todo meu corpo, e eu não pude conter o medo.
— Solte essa espada, Porch — Disse eu a ele — Venha pra cá. Essa pode ser a armadilha dos Bruxos Maiores.
— E essa é. Essa é Greco — Disse ele — Essa é a armadilha de nós, Bruxos.
De repente, o céu começou a ficar escuro, nuvens de tempestade foram formando, e um vento surgiu não sei da onde. Raios também retumbavam no céu.
— O que você fez com Porch? — Rugiu Roxye.
— Você sabe muito bem — Respondeu Blacko — Eu tive que matá-lo. E posso dizer que não foi uma tarefa difícil. Ele é um idiota.
— Como você pôde? — Disse ela, agora mais silenciosa.
— Sou um Místico, Roxye — Disse Blacko — Eu vivo em corpos mortos. Matei ele com o medo, e foi o mesmo que eu fiz em sua mãezinha. Enlouqueci-a.
Olhei para Roxye, ela chorava, não de medo, nem de agonia. Mas de raiva de Blacko. Pensei em como a mãe dela havia enlouquecido, e em como ela não se lembrava mais da filha. Foi Blacko, então. Ele pode fazer o que quiser. Ele é um Bruxo Elementar. Nesse momento, Roxye tirou uma faca do seu cinturão, e foi em direção a Blacko, ele nem se mexeu, e então Roxye parou.
— Devolva minha visão, Blacko — Arquejou ela — Lute comigo.
— Como quiser — Respondeu ele.
E então pude ver que Roxye focalizou Blacko, e percebi que sua visão havia voltado. Mas Roxye não teve tempo de atacar. Blacko se transformou em sombras, e ficando mais escuro ainda, depois de alguns segundos ele voltou. Mas ele não estava no corpo de Porch. Porch não estava mais lá. Agora Blacko era um fantasma. Ele era todo preto, como a escuridão, e tinha olhos brancos, e os dentes também, ainda mais brancos. Sorria freneticamente.
— O que vocês fez com o corpo dele? — Gritei para Blacko.
— Você achou mesmo que eu iria ficar no corpo daquele moleque? — Disse Blacko olhando pra mim, agora sem sorrir — Meu irmão Kastian, está procurando um corpo descente pra mim.
— Você...você... — Disse Roxye — Você não presta como seu irmão.
— Bom, fiquem com a surpresa heróis — Disse Blacko, agora voltando novamente a sorrir — E eu, vou ficar com isso aqui — E me mostrou a verdadeira espada de Conrad.
Não deu tempo de eu correr em direção a Blacko, ele desapareceu como névoa, e posso falar a vocês, eu odeio quando isso acontece. Tentei correr depois, mas meus pés pareciam feitos de concentro. Olhei para Roxye, ela estava de joelhos no chão, chorando com a mão no rosto. Então fui para perto dela, e falei:
— Vamos Roxye, não vamos querer ser pego por essa surpresa dos Bruxos Maiores. — Segurei ela e puxei. Ela levantou, e andou, ainda com a faca na mão.
Estávamos quase saindo debaixo da nuvem de tempestade, quando ouço um rugido. Esse rugido não era de leão ou algum animal normal. Então eu e Roxye nos aproximamos da depressão. Vocês podem falar que somos idiotas, sim, nós fomos, mas não pensei direito. E então, uma mão do meu tamanho saiu da terra, da depressão. E depois uma cabeça enorme. Quando fui ver, estava de cara com um Gigante de mais ou menos 8 metros de altura, rugindo feito louco. O Gigante enorme rugindo, e as nuvens tempestuosas brandindo raios, iriam dar uma ótima nostalgia, se eu não estivesse prestes a morrer. Tirei minha espada do meu cinturão, ela era como a de Conrad, só não era a verdadeira. E Roxye pegou seu arco e flecha, e guardou sua faca. Ela tinha acabado com todas suas flechas em Paraízzo, quando Tarantêla e Lunia apareceram, mas agora ela tinha encontrado mais flechas lá mesmo. Então atacamos. Mas tudo foi em vão. Tentei jogar minha espada nele, mas ela simplesmente bateu em sua pele e voltou pro chão. Roxye tinha gastado quase todas suas flechas, pois a aljava, parecia leve demais, pra ela. Sei que não é o melhor momento pra notar muito, mas quando Roxye lutava, ela ficava cada vez mais bonita. Seu cabelo negro balançando, sua força de vontade, sua concentração, ajudavam ela, ela ficava quase perfeita. Mas isso escapou da minha mente quando o Gigante me golpeou nas pernas, voei a três metros dali, levantei nervoso, pensei que iria usar o poder de Thorino, mas nada aconteceu, eu me concentrei, mas parecia que, Thorino estava com preguiça hoje, até que o rugido do Gigante, me fez recuar.
— Gorgon! — Retumbava o Gigante — Gorgon!
De cara eu não fazia ideia do que seria, então olhei pra Roxye, e entendi o que ela sibilou: É o nome dele. Mas nesse momento de distraio dela, o Gigante golpeou ela, fazendo-a recuar, assustada. Agora ele tinha me deixado nervoso, não sei porque. Depois que eu vi aquela cena, eu fiquei chocado. Eu pude perceber que mesmo vendo os chifres da Lunia, mesmo vendo o fantasma de Blacko, ou até mesmo tendo que destruir os Bruxos Maiores, nada disso era o bastante para me chocar, como cena que eu vi. Eu senti raiva, e tudo o que eu fiz agora, eu não estava em si. Me ajoelhei, fiquei em contato com a terra, coloquei a mão no chão, como se eu fosse apostar uma corrida, fechei os olhos e gritei algo em outra língua, que não me perguntem o que seria, pois não faço ideia do que seja. Depois disso, senti que fazia parte da terra, como se eu tivesse nascido da própria terra, me senti mais forte, mais raivoso. Senti meu sangue correr pelas minhas veias, senti o batimento do meu coração, senti o vento açoitando meu ouvido. Então, uma aura dourada me contornou, eu parecia reluzir feito ouro, como se fosse feito completamente de ouro. Então, bolas enormes de pedras começaram a cair do céu, diretamente em partes do corpo de Gorgon. Depois raios de milhares de volts descargaram sobre ele. E então eu pensei mais ainda em Roxye, em como ela perdera a mãe, em como ela vivera todos esses anos ao teto de Lunia e em como ela tentou se aproximar da mãe. E o que me fez explodir de raiva de Gorgon, foi lembrar dela murmurando: Mãe. O chão tremeu, os animais pararam, o céu parou de lançar raios, as pedras pararam de cair também. Uma pequena rachadura surgiu em minha frente, e foi crescendo até chegar no Gigante, que caiu no nada, a milhares de metros da terra.
O céu se limpou, as pedras que caíram do céu, viraram pó, os pássaros voltaram a cantar, era como se não estivesse acontecido nada.
— Greco, eu não acredito — Veio falando Roxye, até mim, com os olhos arregalados — Você possui mais poder do que um herói já teve.
— Não fale bobagem — Disse eu, constrangido.
— Você possui mais poder que Thorino — Disse ela — Não quer dizer que seja mais forte que ele, quer dizer que recebeu mais benção dele, do que qualquer herói.
— Mas...isso é bom?
— É ótimo, Greco. E você ainda sabe controlá-la.
— Mas, como Thorino dá a benção pra um herói?
— Bom, meu pai explicou uma vez. Thorino é o Senhor do Equilíbrio. Quando os Bruxos Maiores nasceram, o mundo esqueceu de Thorino, e apenas uma pessoa lembrou dele. Essa pessoa foi Aleto. Ele foi o primeiro herói, e fez Thorino voltar a vida. Então a partir daí, Thorino dá uma benção em cada herói. Essa benção dá ao herói, força, sabedoria e um ex-herói para ajudar-lhe.
— E porque, Thorino me escolheu?
— Bom, eu não sei. Talvez ele saiba que você é o verdadeiro herói.
— Isso ainda tem que ser revisto. Está muito complicad...
Só me lembro de desmaiar, e sonhar.
Estava numa sala branca, como a que sempre Ouro me visita. Dessa vez, ele não estava sozinho, ele estava com um homem de mais ou menos 50 anos. Ele estava vestido com uma roupa de combate, e vestia também um cinturão, porém, sem nenhum espada.
— Mestre — Saldou Ouro — Este é Conrad, o único herói que conseguiu derrotar um Bruxo Maior.
— Prazer — Disse Conrad — Como vai minha filha?
— Bem — Respondi-lhe educadamente — E como vai o senhor?
— Indo, meu jovem — Respondeu ele — Espero que aproveite o seu poder.
— Obrigado — Agradeci — Acabei de derrotar Gorgon, um Gigante.
— Sim, sim — Respondeu ele — Eu estava do seu lado, com Ouro.
— Mestre — Interrompeu Ouro — O senhor não tem muito tempo. Com os seis Bruxos levantados, será quase impossível.
— Deixe o jovem em paz, Ouro — Falou Conrad — Ele sabe o que deve fazer.
— Sim — Respondi — Eu acho que sei.
Agora estava de volta naquela sala com as seis cadeiras, e dessa vez, somente quatro estavam ocupadas — Septus, Kirina, Tanrantêla e Lunia — E a verdadeira espada, estava no colo de Septus.
— Vejam, meninas — Disse Septus — Seu irmão conseguiu.
— Ele continua tendo o poder de Thorino, pai — Disse Lunia — E agora?
— Vamos guardar a espada, Lunia — Disse Septus — E você sabe onde.
— Ele irá buscá-la nas sombras do meu castelo — Disse Lunia sorridente.
E pela segunda vez, o sonho acabou com o riso de Septus.
Acordei no colo de Roxye em uma cama em uma pequena cabana. Ela era de madeira. E no canto, uma pequena lareira. Tentei levantar, mas Roxye me impediu.
— Não, não, Greco — Disse Roxye — Phillip disse que você precisa descansar.
— Quem é Phillip? — Perguntei a ela.
— Estamos no Aglomerado de Blooglonian — Disse Roxye
— Não importa agora — Disse a ela — Eu sei onde está a verdadeira espada de seu pai. Precisamos retornar ao castelo de Lunia.
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