Greco-Romana

5 Tento ser simpática


Eu não hesitei em ir para cima dele. Ele desviou. Tresh era hábil com a espada e seus movimentos não eram tão lentos. Meu conceito de gordos serem mórbidos caiu. Tresh veio em minha direção. Eu levantei minha perna o mais alto que consegui, o chute era para tê-lo acertado se ele não tivesse esquivado e depois segurar meu braço.

-Romana!-Era Jay. Ele parecia desesperado. -Pelo amor de Ares! Para de arranjar encrenca. -Ele veio descendo a pequena ladeira.

Eu e Tresh ainda estávamos brigando. Eu acertei um soco em sua boca, começou a sangrar.

-Romana!-Jay correu em nossa direção.

Jay tirou minha atenção e eu olhei para ele. Tresh aproveitou a distração e me pegou na costas.

-E agora, filha de Roma?-Ele me perguntou.

-Me larga! Isso é desigualdade! Olha o seu tamanho, e olha o meu.

Bem, eu ainda não me apresentei fisicamente. Mas eu sou magra, cabelos enrolados até as costas. Não sou o tipo que é parda e do tipo que é branca, sou mais ou menos. Era baixinha e tinha quinze anos.

-Me larga!-Repeti.

-Com prazer!-Tresh me jogou no chão.

-Ei! Eu sei que ela mexeu. Mas compra briga comigo! Seu...seu...-Jay disse

-Gordo?-Falei.

-Enfermeiro, eu quis dar um susto nela. Não vou comprar briga com você.

-Primeiro, eu sou um médico. É diferente. E outra, se a história de Romana me der motivo para te bater, eu irei fazer isso.

-Médico, não. É aprendiz, ou seja, enfermeiro. E Romana, conta sua versão. Vou sentar aqui e esperar. Compre briga comigo. -Tresh colocou a mão em sua boca que estava sangrando. –Magrela -Ele me disse.

Jay me ouviu. Ele me olhou com um olhar 'ele não teve culpa'.

-Não vou te bater, Tresh. Mas vocês dois se forem se bater, façam isso igualmente. -Jay se levantou, e me ajudou a levantar.

-Obrigada.- Tresh levantou a sobrancelha.

-Quer um conselho? Lava seu ferimento. Vou estar na enfermaria se quiser ajuda. -Jay fez um sinal que estava de olho nele e em mim. -Romana?

-Que?

-Vem. Sem brigas. E a senhora vai me contar a história da pedrada.

-Ela mereceu. -Subimos a pequena ladeira. Mas voltei porque minha Adaga ficou lá, foi proposital. Acho que eu e encrencas temos um certo fetiche. Todos os semideuses tem. Mas a minha vontade de brigar estava alta nesse dia. Disse para Jay que ia pegar algo no chalé e voltei correndo onde Tresh deveria estar.

-Minha Adaga. -Falei para Tresh que ainda estava sentado, só que com minha Adaga na mão.

-Aqui. Aproveita e enfia ela em mim.

-Seu desejo é uma ordem. -Fingi que ia acertá-lo. Ele me olhou com uma cara de 'que?'-Porque não esquivou ou me atacou? Digo, agora.

-Porque eu sou gordo. Sai daqui.

-Eu sei que você é. Mas eu me sentiria honrada se você comprasse briga. -Sentei do lado dele.

-Você não cansa?

-Do que?

-De tentar arrumar encrenca. Eu vou acabar de batendo.

-De novo? Eu ainda quero te dar uns bons tapa, garoto.

-Mais? Você já rasgou minha blusa e eu ainda tomei um soco. -Ele colocou a mão na boca-Que ainda está sangrando. -Ele olhou para seu sangue no dedo.

-Estamos quites. Você me deixou sangrando também.

-Foi sem querer. Era treino. Você levou para o lado pessoal.

-A claro. Qualquer um aqui quer minha cabeça. Tenho motivos que fez isso por que quis.

-Não foi.

-Vem aqui, deixa eu ver isso.-Eu me aproximei dele para ver o ferimento.

-Larga a Adaga, ai penso se você se aproxima.

-Aqui, olha. -Coloquei ela no chão. -Posso ver?

-Não. Vai embora. -Ele virou de costas.

Eu queria ver o que eu tinha aprontado. Eu agachei até ele e tirei a mão dele da boca.

-Cuidado. Está ardendo. -Ele ergueu o rosto para que eu analisasse melhor.

-Acho que você vai ficar bem. É melhor lavar e passar algo ai. -Falei me sentando na frente dele.

-É. Eu acho que é só isso. E seu braço?

-A, não foi nada de grave. Jay enfaixou, mas nem ponto precisou dar.

-Você é dramática. Não precisava de tudo isso.

-É, talvez. Posso te fazer uma pergunta? Porque se disser que não, eu irei perguntar.

-Então sim. Agora faz o contrario e não pergunta.

-Você se mexe bem assim...quero dizer, com esse peso?

-Porque todos implicam com isso? É normal ser gordo.

-Gordo é normal. Mas acontece que fazer o que fazemos não é normal ter seu peso.

-Porque você é de Roma e está aqui?

-Não desconversa. Você primeiro.

-Porque eu contaria isso para a garota que deixou eu tomar ar nas banhas?-Ele me mostrou o rasgo na sua camisa. O excesso da sua gordura estava notável. Eu ri. Ele riu comigo.

-Desculpe. Tem que me contar porque quero conversar. Não quero te machucar. Ou faço amizade ou fico com vontade de te matar.

-Convincente. Bem, eu descobri a pouco tempo que sou assim. Não é porque sou gordo que sou nerd, ou que fico jogando video-game. Na verdade, eu nem sei porque sou assim, afinal eu nunca fiquei parado.

-Mas você se move bem. Isso é bom. Você jogava video-game?

-Porque todo gordo tem que jogar video-game? Sim, eu jogava. -Ele sorriu.- Minha vez. Porque veio aqui?

-Acaso. Embora isso não exista na nossa vida. Eu estou esperando ser castigada por algo. Não sei o que vai acontecer comigo.

-É, sempre tem um motivo nas nossas vidas.

-É. Sabe, eu estou conversando com você, mas ainda quero te bater. Porque?

-Porque eu te superei, e ainda na frente do acampamento.

-A é. Deveria calar a boca. Se não te mato aqui mesmo.

-Vá em frente. -Ele levantou.

Eu levantei, peguei minha Adaga e disse:

-Não quero. Talvez você seja útil. Tchau.-Sai andando. Ele nem me respondeu.

Voltei para enfermaria. Jay estava fazendo outros curativos. Ele pediu para que eu ficasse lá. Quando ele terminou ele disse que ia me levar até a quadra.

-É enfermeiro fixo?

-Me chame de médico aprendiz, menos de enfermeiro. Isso me incomoda. E talvez eu seja fixo. Gosto de fazer isso. Sou lindo, amo música, mais amo mais a medicina. Sou um filho de Apolo.

-Você é convencido.

-Encrenqueira. E por falar nisso, quero saber o episódio da pedra.

-Elas estavam rindo. Simples.

Eu e Jay ficamos discutindo. Até que encontramos com Jessy.

-Romana, você arranjou encrenca por uma manhã que vale por um dia. Se quiser bater nela, está autorizada.-Disse Jay.

-Oi tampinhas. -Disse Jassy.

-Fala, girafona. Ai no seu polo está frio ou quente? A, ta fresco.-Eu ri. Jay riu também.

-Romana, eu vou te pegar e te amassar como uma formiga.

-AI! Para! Cala a boca! Isso me irritou! Que saco! Olha, se não calar a boca eu vou te dar uns tapas. Fica shiu ai.

-Nossa, a tampinha pegou pressão? Ai que medo.

-Ai, vai embora. Você é tão chata que nem te bater quero mais.

-Eu vou. Mas é porque tenho outras pessoas a aterrorizar. -Quando ela saiu andando ela esbarrou propositalmente em mim.

-Vai pela sombra. -Gritei.

-Ela ainda vai te bater, você ainda vai revidar e eu ainda vou me meter encrencas por sua causa.-Jay disse.

-É. Sabe que eu reparei que você é bem carismático. Todos aqui parecem gostar de você.

-Sim. Eu sempre ouvi coisas boas sobre mim mesmo.

-Nossa, que sútil. E que tipo de caquinha você tem na cabeça para se bandear comigo?

-De novo isso?

-Eu ainda estou curiosa.

-Eu penso em te responder. Olha, tenho que fazer umas coisas. Já já é o almoço. A gente se encontra no refeitório.

-Ok. E o que eu faço?

-Tenta se juntar com o pessoal. Sem ser atacada, claro.

Jay foi em uma direção e eu em outra. Acabei indo para a quadra. Tinham uns campistas jogando vôlei. Fiquei de olho. Eu percebi que eles me olharam quando eu comecei a falar sozinha.

-Foi mal galera. Pensei alto.-Eu sai de lá com vergonha. Também, estava batendo altos papos comigo mesma. Sabe como é. É sempre bom ter uma boa companhia.

Deu a hora do almoço. Fui para o refeitório e fiquei sentada até todos chegarem e sermos servidos. Tresh se sentou longe de mim. Acho que ele me achar estranha, porque uma hora eu quis matar ele, e a outra eu fui ver o que eu tinha feito com ele.

-Vamos agora treinar nossa habilidades com arcos. -Falou Jay, quando nos encontramos na frente do refeitório. -E só para você saber meu irmão mais velho do chalé sete que é nosso instrutor.

-Legal, queridinho do professor. -Falei.

-Ignoro. Como foi sua missão de se enturmar?

-Fracasso. Fui para a quadra, mas não fiquei afim de jogar.

-Entendo. Ai, tem muitas pessoas legais aqui. É saber quem são elas.

-Vou fazer isso como?

-Não sei. Seja você. Só que sem querer bater na pessoa. Faça também piadas. Mas que não as ofendam. Eu acho que você tem jeito para piadas.

-Educado da sua parte.

-Sim. Seja educada. Se ofereça para algo.

-Olha para minha cara de quem quer fazer esforço.

-Olha para minha cara, to querendo te ajudar.

-Ta, Jay. Ta.

Na aula de arco e flecha Jay se separou de mim. Ele disse que queria que eu tentasse puxar assunto com alguém. Eu topei.

-Oi, eu sou Romana. Desculpe se estou puxando assunto com você, e se estou te incomodando. Mas eu sou legal. Sabia que a capital da Itália é Roma? Meu acampamento é o romano, acho que é por isso que ninguém gosta de mim aqui. Ou será que eu fui muito agressiva? Não sei, mas não me bata, porque se fizer isso, vai fugir com os meus princípios de ser legal.

-Você é tagarela sempre?-Me perguntou Tyler.

-Tyler. Oi. Não vi que era você. E sim, as vezes falo demais. Desculpe.

-Tudo bem. E se você for educada assim, acho que se enturma.

-Sério?

-Sim. Você já tem eu como companhia. -Ele puxou uma flecha e atirou no alvo.

-Que legal. Mais um filho de Apolo.

-É.E por falar nisso, ainda não descobriu seu pai, ou é filha de Hermes mesmo?

-É, sou filha de Mercúrio.

-A sim. E usa os termos gregos. Não exigindo muito. Sabe como é.

-Hermes. Hermes. Sou filha de Hermes. -Disse segurando o arco. Pelo menos nisso eu era boa. Em segurar. Minha mira só é boa por causa que atiro facas, geralmente.

Tentei essa tática de ser legal, ainda no treino de arco e flecha. Foi com cinco campistas. A primeira saiu de perto de mim. O segundo me jogou um monte de cantadas, eu sai de perto dele. Os outros dois campistas era Travis e Connor, eles riram da minha cara, mas ainda assim, conversaram comigo. A outra foi Verona.

-Você está se saindo bem. -Disse ela com os braços cruzados.

-Sou melhor em qualquer coisa que não seja espada. Sei que a maioria usa ela, mas sei lá. Adaga para mim já é ótima.

-Eu queria discutir isso com você, mas eu não uso arma. Eu nem luto. As vezes eu só fico olhando para o nada.

-Porque será? Filhas de Vê...Quer dizer, Afrodite. É Afrodite, né?

-Sim, é. Eu achei você legal. Quer me ajudar com uma coisa?

-Depende-Disse pegando uma flecha.

-É bem simples. Me ajuda a ver que batom fica melhor em mim.

-Tenta rosa. Mas não claro. O forte. Pink. Me cheguei.

-Entende disso?

-Eu fui cobaia das suas irmãs do lado romano. Elas sempre falavam disso. Impossível não lembrar.

Verona me fez perguntas sobre a versão romana das filhas de Afrodite. Eu falei bastante coisas que a deixou prestando atenção em mim.

-Ai até que enfim acabou essa chatice. Olha, eu não sou fútil sempre. Eu sirvo para ser isca. Sempre fazem isso comigo.-Verona me disse quando saímos do treinamento.