Greater Good — Interativa
7 V. ❝The Head That Wears The Crown
CHAPTER V — The Head that Wears the Crown
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Dec,
O Rei se recusa a enviar tropas auxiliares, e não consigo dobrá-lo. Continue pressionando os aliados das fronteiras, e por favor, aguente firme. Reforce as forças que ainda restam.
A cavalaria está chegando.
Ronan fechou a carta novamente, não mais que um bilhete. No canto esquerdo, ainda era possível ver a marca distinguível de sangue.
Declan morreu acreditando na promessa de um recado que nunca veio a se cumprir. Até o último momento—até que tivesse uma arma contra o peito.
Ele lançou um olhar pela janela.
Agora todos pagavam o preço.
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Uma criada desfilou pelo salão, equilibrando uma coroa de flores azuis e brancas nos cabelos negros, enrolada numa impecável toga branca que deixava um dos ombros magros e elegantes exposto. A pele escura da moça parecia brilhar com o contraste do tecido, e sua beleza arrancou alguns suspiros do pequeno grupo que se reunira para assistir à exibição.
— Tia Anna? — Morgan perguntou de lado. — Preferiu a número dois ou três? O creme contrastou bem com as cores veranis do arranjo da Dois, mas eu acho que as cores frias e o branco pérola da Três estão maravilhosas.
Alina fingiu soltar um som apreciativo enquanto balançava a cabeça num falso tom analítico. Honestamente, não saberia diferenciar branco-pérola de branco-creme nem que lhe comprassem um novo par de olhos, mas aprendera há tempos que o segredo para saber algo era fingir que sabia.
Piscou os olhos duas vezes, correndo-os pelas criadas vestidas nas toalhas de mesa, e se vendo perdida nos infinitos tons de branco, partiu para as flores, que cada uma empunhava de um modo diferente: a Um usava-as como pulseira, a Dois como coroa, a Três como um belo cinto ao redor da cintura recheada, a Quatro as tinha atravessado por um dos ombros como uma faixa premiada, a Cinco fizera um bom trabalho em emaranhá-las à trança ruiva, e assim por diante. Eram doze delas, no total. Dali sairia o pano e arranjo de flores a ser usado nas mesas de recepção às selecionadas.
O pequeno desfile, ideia de Morgan, que parecia particularmente satisfeita com o próprio trabalho, pareceu ser motivo de alegria entre as criadas, que foram desafiadas a fazer suas próprias combinações — e logo se tornou um concurso, e muitas delas tinham porte de passarela.
— Eu acho que vou levar três delas comigo, se Sua Majestade não se importar, — Morgan comentou baixinho. — Elas ficariam maravilhosas na minha nova coleção de inverno.
Alina acenou com a cabeça.
— São boas meninas, — concordou. — Elas não vão muito longe aqui no palácio.
Subitamente, a porta foi aberta. Todas as faces se voltaram para o homem que acabara de chegar, vermelho como se tivesse corrido uma maratona. Antes que a rainha sequer percebesse, estava de pé, uma das mãos pressionando o pingente que descansava entre seus seios.
— Majestade, — ele fez uma reverência profunda, na altura do quadril, parecendo procurar por ar no processo. — O rei Orion está requerendo sua presença imediata no jardim.
Jardim. Certo. Não podia ser nada grave.
Se voltou para a corte, que a encarava, esperando por uma resposta.
— Me desculpem.
Ergueu a saia do vestido para acelerar o passo, e antes que pudesse cruzar o portal, ouviu a sobrinha chamando.
— Escolheu alguém, Majestade?
Ela correu os olhos rapidamente pelas moças. Não que ela soubesse diferenciar os milhares tons de branco, que cobririam as mesas. Por fim, escolheu a número Três, simplesmente porque azul era sua cor favorita.
Então se apressou pelos corredores, em direção ao marido.
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— Orion. — Alina engoliu em seco, parando alguns passos de distância do homem, que tinha as costas viradas para ela.
Ele não desviou sua atenção da paisagem, e simplesmente ergueu uma mão para que ela pegasse. Sem relutância alguma, Alina a tomou, deixando-se emparelhar com o marido. O movimento leve fez com que a saia longa de seu vestido roçasse brevemente contra a perna do homem, que pareceu alheio até mesmo ao toque dele.
— Está tudo bem? — perguntou, massageando círculos nas costas da mão dele.
Orion virou-se para ela com um meio-sorriso — há muito perdido, ela pensara. O mesmo meio-sorriso que a havia conquistado, anos antes, quando estiveram presos pela nevasca num palacete em Ravka. Séculos pareciam ter se passado, pensou ela enquanto inspecionava o rosto bonito, mas indubitavelmente envelhecido e cansado, do marido.
— Agora preciso que algo tenha acontecido para convidar minha esposa para um passeio no jardim?
A resposta a pegou de surpresa.
— Oh. — instintivamente, levou uma mecha solta de cabelo negro para trás da orelha. Limpou a garganta, olhando para o chão como uma adolescente. — Suponho que não.
Ele a puxou para mais perto, cruzando seu braço no dela, entrelaçando seus dedos.
Oras…
Havia tanto tempo que não se sentia… Daquele modo. Uma sensação quente percorreu seus interiores enquanto caminhavam lentamente pelo extenso e belo jardim, apreciando a paisagem.
— Protaski, — ele chamou, e o apelido carinhoso (que ela também julgara perdido em algum lugar do passado), na língua materna dela, soou como como as engrenagens de um relógio antigo.
Alina sorriu, levando a outra mão para acariciar o braço dele.
Ele parecia tão mais descansado, embora sua postura estivesse curvada para frente e os passos mais deliberados, menos fluidos. Mas melhor que ela o havia visto em algum tempo.
— Você ainda se lembra. — notou em voz alta, estupidamente.
Orion deu de ombros.
Continuaram em silêncio. Passaram pela fonte, pelo campo de flores, pelas árvores, altas e imponentes, seguindo os ladrilhos de pedra. Os sapatos dela, ligeiramente de salto, estalavam contra a pedra num ritmo quase hipnótico. Ela podia sentir o cheiro da chuva que caíra na noite anterior, e da que estava prestes a vir.
Quando uma brisa suave bagunçou seus cabelos e atingiu os braços nus, Alina desejou estar vestida em mais que o simples, porém elegante, vestido de cintura alta e gola corte-canoa. Orion, para sua surpresa, pareceu perceber o leve tremor da esposa e tirou o próprio casaco de couro batido, um que ele tinha desde que ela o conhecia, para vestir ao redor de sus ombros.
Agradecida, ela sorriu.
Estava se sentindo estranhamente confortável. Como não se sentia há muito, muito tempo.
O céu tomava uma coloração azul-arroxeada do fim do dia. O Sol já havia desaparecido quase por completo. Orion apontou para um banco de pedras entre as árvores num convite silencioso para que se sentassem.
Alina sabia que o homem com quem se casara era um homem de poucas palavras. Ultimamente, também era um homem de poucas ações. Ela não o culpava. Não era apaixonada por ele – mas o amava. O conhecia do mesmo modo que conhecia a si mesma, – melhor que qualquer um. Estavam sintonizados, sincronizados.
— Como vai Cassian com todos os preparativos? — perguntou ele, olhando para cima.
— Eu não saberia, — ela soltou um suspiro arrependido. — Aquele garoto é tão aberto a falar de coisas do coração quanto nós dois juntos.
Ele riu, levando os nós dos dedos dela aos lábios.
— Acho que fazemos um belo trabalho.
Alina considerou.
— Ele também.
Seu casamento não foi exatamente espontâneo, mas também não foi forçado. Nem arranjado. Apenas terrivelmente conveniente, para um vasto grupo de pessoas, que se gostassem. E com pouco esforço de ambas as partes, a consideração distante que sentiam um pelo outro se transformou em apreço, estima, então em camaradagem, amizade e, por fim, parceria cúmplice.
Eram parceiros por ação e consequência. Não eram apaixonados. Céus, não. Mas compartilhavam de um laço muito mais profundo, muito mais transcendental que algo tão efêmero quanto a paixão; o eram pai e mãe, tiveram filhos juntos, filhos pelos quais se sacrificariam num piscar de olhos.
— Alina, — Orion chamou, cobrindo a palma da mão dela com a própria. — Você se lembra de quando fomos coroados?
Ela se recostou no banco, um sorriso pairando no ro
— É claro.
— Fizemos escolhas difíceis, — ele continuou, parecendo perdido nos próprios pensamentos. — Das quais eu não me arrependo.
— Eu também não.
Silêncio.
— Cassian vai precisar fazer escolhas difíceis também, você sabe.
— Não deve ser difícil para ele, — comentou, os olhos perdidos no horizonte. — Ele estava acostumado a se sacrificar por Illéa muito antes de sequer cogitarmos sua cabeça para o trono.
Orion pressionou os lábios, então suspirou.
— Governar não é só se sacrificar, mas sacrificar os outros também, — ele não ousou encontrar os olhos dela. — Ele não entende isso. Não ainda.
Imediatamente, Alina sentiu uma acidez subir pelo estômago. Seu filho, seu filho… Ele não era nada menos que maravilhoso. Um homem que lutou e sangrou pela nação, um homem de quem ela tinha orgulho.
— Ele está disposto a morrer pelo país. Eu diria que meu filho...
— Mas está disposto a viver por Illéa também? Morrer em glória, num campo de batalha, minha querida, é fácil. — perguntou num tom retórico. — Ele precisa de aconselhamento nesse momento, Alina Starkov.
— Oh, Orion…
Eles se encararam, e ele tomou ambas as mãos dela entre as suas, seus olhos implorando.
— Eu preciso de você no Conselho.
— Bem, eu ainda sou a rainha, — ela observou. E até que Cassian encontrasse uma esposa, ela continuaria sendo, continuaria com o voto válido no Conselho. — Ele precisa de mim nesse momento.
O marido balançou a cabeça.
— Não como um ombro de apoio, não. Mas fazendo perguntas difíceis, pressionando lados até que ele… Até que ele sinta. Nem que para isso ele tenha de explodir.
Mais silêncio, mas dessa vez deliberado. Estavam travando uma batalha.
— Orion, Cassian é meu filho, — ela sustentou o olhar dele, bravamente. — Não me peça para não ser sua mãe. Eu não poderia.
Ele sorriu, e foi um sorriso triste, que não alcançaram seus olhos.
— Às vezes pais fazem escolhas difíceis.
E ele saberia.
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Cassian bebia vinho à trilha sonora da chuva do lado de fora enquanto terminava de checar os papéis. Vez ou outra, a sinfonia de gotas de água se quebrando na superfície do mundo exterior era complementada pelo ribombar de um trovão distante, seguido pelo clarão de um relâmpago, que desenhava uma cicatriz no céu escuro e iluminava a sala escura do jovem rei.
Piscou duas vezes para dispersar o sono que insistia em pesar suas pálpebras. Largou a caneta sobre a mesa e correu as mãos pelo rosto, reprimindo um bocejo.
Apoiou o queixo em uma das mãos, piscando quase violentamente. Os olhos já começavam a virar para trás, e ele tentava forçá-los a encarar a frente. Eram apenas sete da noite, e tudo que ele queria fazer, que seu corpo queria fazer, era dormir.
Céus. Eram tantos papéis, tantas decisões onde o “sim” e o “não” eram a diferença entre a vida e a morte.
Fechou os olhos por um momento. Só os descançaria — que mal tinha, certo? Que mal-
O bater da porta fez com que o cotovelo se desequilibrasse, fazendo com que sua cabeça, que se encontrava apoiada na palma da mão, caísse. Se levantou com um pulo, desperto e assustado.
Se deparou com a figura da Marechal Cassandra no centro da sala, parecendo inabalada pelo pequeno deslize do rei.
— Majestade.
Ele limpou a garganta, sentando-se mais ereto na cadeira.
— Sim?
— O prisioneiro já está nas celas do subterrâneo, — anunciou.
Cassian balançou a cabeça vagarosamente, ainda processando a informação.
— Alguém viu?
Ela negou com a cabeça, parecendo orgulhosa de si mesma.
— Nem mesmo os empregados do palácio. Fomos discretos, como o senhor pediu.
— E já obtiveram algum avanço em conseguir algumas respostas?
Só o rosto da mulher foi resposta suficiente. Ele suspirou, beliscou a base do nariz para se livrar da dor de cabeça que sempre dava as caras quando era privado de sono. Se levantou da cadeira para se encaminhar até a porta, mas Cassandra continuava em pé na sala, encarando-o calmamente.
— Cassian, — ela chamou, e dessa vez, quem falou com ele foi uma mulher, uma mulher que ele não estava inteiramente certo que conhecia. — Você está indo muito bem.
Ele se surpreendeu com a ternura das palavras da tia, mas mais ainda, com o sentimento de reafirmação que aquela simples sentença lhe trouxe.
— Obrigado.
— Seu pai… — um sorriso leve irrompeu de seus lábios quando ela se interrompeu. — Não sei se é meu lugar te contar isso, mas acredito que é uma informação valiosa.
Ele franziu o cenho, e a marechal continuou:
— Seu pai desapareceu na terceira semana de governo. Simplesmente desapareceu. Por uma semana inteira, sua mãe foi rei. Quando o encontramos, ele tinha um bronzeado e um estômago muito, muito ruim. Ele havia ido para as Ilhas Malvinas.
— Meu pai?
— Ele estava um poço de nervos. Mas quando voltou, ele havia mudado. Como pessoa, como governante. Estava mais compenetrado em seu trabalho, — disse ela, olhando fundo nos olhos do sobrinho. — Ele não foi sempre esse líder forte e impenetrável. Eu sei disso porque troquei suas fraldas. A coroa sempre pesa, mas depende de você construir sustentação para aguentá-la.
Ele ficou ali, parado, contemplando as palavras de Cassandra como se tivesse recebido um soco no estômago. Num bom sentido.
— Eu… Obrigado, tia.
Ela acenou.
— E você não precisa carregar o peso dela sozinho.
Imediatamente, o evento do qual participaria em algumas poucas semanas pulou na cabeça. De algum modo, entre suas inúmeras obrigações reais e mesa repleta de papéis, ele havia se esquecido.
— Achar uma rainha nessas circunstâncias é...— ele comentou, afastando-se da porta até que tivesse o quadril pressionado contra a mesa. Cruzou os braços na frente do peito e suspirou.— É altamente improvável.
— Você se tornar rei era altamente improvável, e aqui estamos nós.
Um relâmpago iluminou a sala, e num gesto reflexivo, Cass olhou para cima, esperando que a energia caísse. Naturalmente, ela não caiu. Em Skyhaven, a energia ainda era à fio. Mas ele não estava mais na base aérea, elevada acima das nuvens.
— Rowan Goselyn colocou uma corda no meu pescoço, — ele balançou a cabeça. — Eu não gosto disso.
Cassandra notou a reação do sobrinho e sorriu levemente.
— Pense um pouco, certo? E não só como a consequência das ações de uma jornalista particularmente intrometida.
Cassandra se virou e saiu, mas ele permaneceu encarando a porta por muitos, muitos minutos.
Pensando.
Mas principalmente assustado com a facilidade que teve para interpretar aquele personagem, — não mais que um teste.
Assustado com a facilidade que teve para culpar Rowan Goselyn, quando a todas aquelas consequências eram frutos das suas próprias ações.
Abriu e fechou o punho, apertando a beirada da mesa enquanto, lá fora, o mundo se dobrava às vontades da tempestade.
Céus.
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