Greater Good — Interativa

4 III. ❝Long Live the King


CAPÍTULO III — ❝The Room Where it Happens

A coroa pesava.

O pescoço doía.

Mas Cassian se manteve ereto. Era uma coroa cerimonial, tradicional, em ouro e outras pedras preciosas.

Pessoalmente, achava-a horrorosa. Muito exagerada, muito européia. O tipo de coisa que reis ingleses usavam há séculos e séculos atrás.

Usava também seu uniforme militar cerimonial, que era igualmente pesado e inconveniente — embora o achasse bonito. Impunha respeito. Talvez fosse só sua alma militar falando mais alto, mas Cass sentia como se as pessoas estivessem prestando atenção quando o vestia.

Ergueu a mão em juramento, as lágrimas queimando por trás das orbes.

Sentiu o peito apertar, as palavras do discurso ensaiado entalarem na garganta muito antes de dizê-las.

Aquele deveria ser o momento glorioso de Helena Schreave. O momento com o qual sonhara sua vida toda. Se lembrou daqueles diversos momentos quando crianças, sentados sob a sombra das árvores. Quando ela fazia uma coroa de flores para si mesma, pegava um dos galhos do chão da relva para fazer de espada e ordenava — ordenava — que Cassian se colocasse de joelhos. Então o proclamava rei também, e juntos governavam o maravilhoso reino das formigas, e das árvores. E dividiam o mundo — o céu e todas as estrelas e satélites ali presentes eram dele; a terra, as flores e o sol pertenciam a ela.

Eram momentos doces.

Mal sabiam que, para ele ser rei, ela teria de estar morta.

— Eu, Cassian Theodore Starkov Illéa-Schreave-

Sua boca se movia para o público, mas sua cabeça voava.

Voava.

Helena.

Pela primeira vez desde sua morte, sentiu o chão estremecer. As paredes opulentas do Salão Cerimonial cederem. Lembrou-se da garotinha de olhos azuis e cabelos pretos num rabo-de-cavalo que empunhava galhos como se fossem espadas, e de uma moça de olhos azuis e cabelos pretos que empunhava espadas tão facilmente quanto se fossem galhos, e então uma mulher — que não precisava de nenhum dos dois para ser aquilo que tanto almejava. Se lembrou-

Se lembrou de que ela era sua irmã.

E estava morta.

Esse tempo todo, fingira que não havia acontecido. Que Helen estava longe, mas não inalcançável — não morta. Era fácil. Não era como se vissem um ao outro o tempo todo; Cass não frequentava o castelo, ou a terra firme, muito, pois estava quase que sempre estacionado na Base Aérea, bem longe de casa.

Mas agora — agora ele sentia. Ela não estava de férias, não estava numa missão diplomática, não estava a um clique de distância. Não estava no castelo — ele estava. Não estava no banheiro, ou na Sala de Controle. Não estava resolvendo um assunto de importância máxima.

Estava, simples e dolorosamente, morta. E ele estava ocupando seu lugar. Seu legado.

Se voltou para a multidão.

Agora era Cassian Schreave, Rei de Illéa. E deixaria um legado no mundo — em nome dela, e de tudo que queria ser.

Silêncio. O mais absoluto silêncio. Então, inesperadamente, ouviu-os entoar em coro:

— Longa vida ao Rei!

As madeiras na lareira crepitavam. Cass deixou-se seduzir pelo movimento das chamas, pela dança perigosa que performavam bem em frente aos seus olhos. Convidativas.

Saboreou o vinho e deixou-o queimar na boca por alguns segundos antes de engolir. Atrás de si, os convidados da reservada festa conversavam em voz baixa, quase um murmúrio coletivo. A saleta brilhava nos mais diversos tons alaranjados, devido à luz das velas que dava ao lugar um clima íntimo, quase como num sonho.

Não havia imprensa, nem indesejados convidados para quem fazer sala. Apenas família e amigos próximos. O Marquis de Lafayette era o mais próximo de um intruso, sendo enviado da corte francesa para assistir à cerimônia de coroação do novo rei illeano, e ainda assim, era uma companhia agradável.

Cassian contemplou nas chamas, talvez um tanto melancólico, sua existência. Reuniões sociais eram, dificilmente, seu tipo de coisa. A ideia tinha partido da rainha Alina, e ele apenas concordou porque ela era, bem, sua mãe.

— Tão soturno, com o fogo iluminando seu rosto assim. Pensativo, eu diria. Ou simplesmente vazio. Está se sentido vazio, Sua Majestade? A coroa tende a ter esse efeito.

Cass não se incomodou em se virar para a voz. Ele sabia muito bem a quem pertencia. Yelena, sua prima, Tsarevna de Ravka, em breve Tsarina. Alguns anos mais velha que ele, e sabia seduzir tão bem quanto as chamas na lareira.

Ele não a respondeu, apenas tomou outro gole da taça.

— Lorcan já se retirou, — ela ignorou a ausência de resposta da parte dele e soltou um risinho baixo. — O bastardo sempre teve as melhores desculpas. Talvez você queira se juntar a ele. Pode ser a última chance antes que tia Anna arranje um casamento pra você.

— Agora não, Yel, — pediu, não se sentindo no clima para cruzar fogo com ela. Sempre foi um exercício bem interessante, mas não naquele momento.

Não quando tinha o peso do mundo nas costas.

Ela se sentou no descanso de braço da poltrona e suspirou, enterrando seus dedos longos e elegantes nas mechas escuras de Cassian.

— Ah, querido, — inclinou-se para dar um beijo em sua testa. — Eu também queria que ela estivesse aqui.

Ele piscou repetidamente, afastando as lágrimas dos olhos. Se olhasse para Yelena, se pensasse demais...

— Se ela estivesse, eu não estaria, não é mesmo?

Yelena deu de ombros, repousando o queixo no topo de sua cabeça. Cass deixou-se repousar contra o peito dela. Ela e Helen foram amigas íntimas, compartilhando os anseios de serem, ambas, o futuro de uma nação.

— Talvez.

Ele fechou os olhos e inspirou profundamente. O universo tinha um senso de humor mordaz.

— Meu pai não está bem. — Admitiu por baixo da respiração.

— Conte-me uma novidade, querido, — seu tom era divertido, mas delicado.

— Não… Digo, de verdade. — Engoliu em seco. — Não sei se percebeu, mas ele mal participou da cerimônia. Já foi para o quarto. Ele não… Eu não acho que vá estar aqui para me guiar nos primeiros anos de reinado.

Silêncio.

Ela afagou seus cabelos, carinhosamente.

Cassian era jovem. Inexperiente. Mesmo que quisesse mudar... Não sabia se estava triste de estar perdendo um rei, um conselheiro, ou um pai.

— Talvez não, — concordou. — Mas ele esteve aqui todos esses anos. As dicas estão por todo lado.

Ele se separou dela, finalmente. Observou-a por um longo minuto e acenou com a cabeça. Era uma mulher sábia. Seria uma governante excelente para Ravka. Ela e Helena tinham tanto em comum — além do nome semelhante.

— Já foi procurar o Lucien? — perguntou, de repente. Ela abriu a boca e a fechou novamente. Hesitando. Cassian sorriu. — Meu Deus, quando vocês vão parar com essas preliminares infinitas e completar o ato?

A luz baixa não deixava que soubesse se ela havia enrubescido ou não, mas apostava que sim. Antes que Yelena pudesse insinuar algo a respeito dele e de Lorcan, a rainha Alina apareceu em sua frente.

— Cassian.

Sua voz soou seca.

— Mãe? — se afastou do abraço da amiga, imediatamente alerto.

Ela olhou para a sobrinha de relance.

— Yel, poderia nos dar licença por um momento? — pediu, calma e composta. Yelena olhou para o primo, e depois de deixar alguns tapinhas acalentadores em seu braço, deixou a poltrona.

Cassian se colocou de pé.

— O que houve? É o meu pai?

Ela apertou os lábios numa linha fina e balançou a cabeça em negação. Um nó se desfez em seu peito. Alívio ou o quê, ele não sabia.

— Venha comigo.

— Onde?

— Apenas venha, Cassian.

Cass seguiu a mãe pelos corredores do palácio, tendo problemas para acompanhar os passos rápidos da rainha-mãe. Anna era absurdamente rápida para alguém de sua idade.

Parou em frente a uma das portas que ele sabia levar à sala de controle. Quando criança, era expressamente proibido de entrar ali. É claro que isso não o impedia de fazê-lo. Fora uma criança particularmente rebelde, e felizmente o exército o havia corrigido.

— O que estamos fazendo aqui?

Anna não respondeu. Ela girou a maçaneta e o empurrou para dentro antes que ele pudesse protestar. Agora ele era o Rei. Ninguém o impedia de entrar em lugar algum.

Virou-se para o interior da sala. Havia um telão cobrindo uma das paredes, e cabines de projeção holográfica em tempo real para o chefes das grandes nações, mas nada disso estava sendo usado agora. A única coisa que iluminava a escuridão da sala era um painel dividido em partes, que rodava um filme. Lorcan estava inclinado sobre ele, ao seu lado, estava a Marechal Cassandra.

Ao perceber o movimento da porta, ela se virou para ele e bateu continência. Seu coração saltou dois metros. É claro que ela faria continência para ele — mesmo que ele fosse mais novo, e até algumas horas atrás, de patente inferior a dela. Mas agora ele era o chefe da nação, o Rei. E de patente superior a todos. A realização disso fez com que se sentisse levemente desconfortável. As coisas mudaram.

Ele acenou, sem saber exatamente o que fazer. Nem Tia Cass nem a Marechal Cassandra eram mulheres muito afáveis.

Lorcan, que observava a interação com o rabo do olho, soltou uma risada baixinha.

— Vossa Majestade, — disse, num tom que era claramente divertido. — Desculpe pela minha falta de decoro. — ele gesticulou com a cabeça para as mãos, obviamente ocupadas em mantê-lo em pé.

Cassandra revirou os olhos e balançou a cabeça em desaprovação com as más-maneiras do filho. Lorcan não era um militar, e debochava abertamente dos métodos arcaicos e ritualísticos deles. Sua mãe, obviamente uma militar no corpo, nome e alma, já havia desistido de convertê-lo e o considerava a ovelha negra da família; todos os Schreaves que não eram reis e rainhas estrangeiras, eram militares. (Exceto os filhos do tio Sirius, —mas para ele, ovelha negra seria se houvesse militares em meio a sua prole.)

— Alguém gostaria de me explicar o que está acontecendo? — perguntou, se esquecendo que bastaria uma ordem para que tivesse a informação nas mãos.

Lorcan se voltou para as telas e ampliou o vídeo que passava. Cass franziu o cenho. Fogo, gente correndo em desespero. Um carro despencou do céu.

— Começou há mais ou menos quinze minutos, — explicou Cassandra, como se desse as estatísticas de um jogo de futebol. Aquilo era parte de sua rotina.

E da de Cassian também. Finalmente estavam falando de algo que entendia.

— Onde?

— Na costa. Estamos esperando pelas suas ordens.

Ele piscou.

— Isso é-

— Veritas, sim. Já estão se responsabilizando.

Empalideceu de leve, afrouxando o nó da gravata. Queria seu uniforme — o uniforme não-oficial, do dia-a-dia.

— Ataques pelo mar?

— Também. Recebi uma ligação de Hannisport. Não conseguiram impedir o avanço. São muitos.

O rei olhou para a tia em busca de aconselhamento. E embora naquele momento ela não fosse sua tia, mas sua subordinada, Cassandra acenou levemente com a cabeça, encorajando-o a tomar uma decisão com sua recém-adquirida autoridade.

Voltou os olhos para as telas. Fogo. Desespero. O peso da responsabilidade.

— Procedimento padrão, — respondeu, intimamente familiar com as táticas. — Duas levas. Marinha e aeronáutica. Fazer prisioneiros, não mortos. Queremos informações.

Ela sorriu brevemente, em aprovação. A Rainha colocou uma das mãos em seu ombro.

— Sim, senhor.

Notas finais
Obrigada pelos comentários, menines! Estou amando escrever a história ;) AH! A primeira tarefa da fic: Fazer um teste de personalidade Myers Briggs em nome da personagem de vocês. Eu, pessoalmente, recomendo o 16personalities, porque é bem detalhado. Está em inglês, então vocês podem escolher outros. https://www.16personalities.com/free-personality-test Me enviem o tipo de personalidade da personagem de vocês via MP. Vai ajudar muito no desenvolvimento ;) Valendo: 15 pontos! Até mais! p.S. Enviem suas fichas via MP! :D