Gray School
12 Branca de Neve, a peça- parte II
Notas iniciais
-Mas o que diabos...?
Olhou para baixo procurando achar o que atingiu sua cabeça. Um sapato. Um sapato feminino. Virou-se para cima na esperança de achar a dona e dar umas porradas nela. Isso mesmo, ela ia ver só. Antes de qualquer agressividade, algo bem maior caiu sobre ele, que tentou evitar, mas não conseguiu e acabou batendo a cabeça no chão. Algo estava em seu colo.
-Ah, me desculpe, eu escorreguei. Eu devia ter amarrado esse lençol mais forte.
-O que você acha que...?- as palavras morreram na boca do moreno ao ver quem o encarava sentado sobre si.
Uma garota, vestido branco de detalhes e renda pretos. Os cílios bem longos, os olhos delineados e com sombra preta, em contraste com a pele perolada naturalmente, seus cabelos brancos, presos em um coque com pequenos fios caindo sobre seus ombros. Uma garota extremamente bonita. Ficou sem fala por um bom tempo, observando a garota a sua frente o que contribuía para a vermelhidão de seus rosto. Quando recuperou a consciência, não evitou uns xingamentos e palavras grossas, só quando se acalmou pode pedir.
-Tsc. Saía de cima. Agora.
-Hã? Ah, sim, me desculpe.
Levantou e saiu do colo do rapaz, bateu em seu vestido para tirar a sujeira que se acumulou.
-Aaah, o vestido era branco...Bem, eu só vou entrar pegar a comida e ir embora, mesmo.
-Ei, moyashi.
Uma veia saltou levemente na testa da garota “Moyashi??”
-Por que você...?
-Por que eu caí? Eu não amarrei o lençol direito, eu queria descer e ver o baile, mas a madrasta não me deixa sair do quarto.
-Ah...Claro, por que não sair pulando janelas?- disse ironicamente enquanto se levantava.Olhou para o copo espatifado no chão- tsc, derrubei o copo.
-Hm, você... Estava no baile?
-Sim, para meu azar.
-Você é...?
-Kanda. Príncipe Kanda. E você é uma moyashi. Fim das apresentações.
-Ah, você é o tal príncipe- levantou um dedo, como se lembrasse- o mais bonito dos rapazes mais bonitos hihihi- disse em tom de deboche.
— Que seja, vou voltar para essa droga de baile.- virou-se novamente para a porta, esperando não ser interrompido. Por isso a veia de sua testa quase estourou quando o braço da garota entrelaçou no seu e o impediu novamente.
-Me proteja. Por favor. Eu quero entrar lá.
-Nem pensar, se vira palerma.
-Por favor- apertou ainda mais o braço do rapaz, que ruborizou ainda mais.- pelo menos vá lá e pegue um dango para mim. Não conte para ninguém que estou aqui.
-Tsc. Eu já disse, para de me atrapalhar e resolve sozinha!! Chove moyashi do céu e ainda quer me dar ordens! Que retardada.
-Hunf, retardada?? Como se atreve seu..seu..Cabeludo.
-Velhinha.
-Franjinha de cuia.
-Albina desgraçada.
-Hunf, você poderia parar de ser grosso!!
-E você de ser chata!! Tsc.
-Pára com os “tscs”!!
-Ai, que irritante que você é!!
A essa altura os gritos dos dois soavam por todo o salão, a música parou para ouvir a discussão melhor. A dança parou. O baile parou. Alguns riam, outros ficaram indignados. Krory ficou desesperado em apartar a briga e disfarçá-la, mas nada fez. A rainha por outro lado ficou com o rosto tão vermelho quanto seus cabelos flamejantes.
Chamou guardas, andou até a porta batendo o pé e nada dos dois pararem. Abriu com tanta raiva, que a porta quase quebrou e se espatifou por toda a varanda. Agora tinha a atenção dos dois para si.
-BRANCA DE NEVE!!! EU AVISEI!!VOLTE JÁ PARA SEU QUARTO E DE LÁ NÃO VAI MAIS SAIR!!- gritou, deixando Allen mais branco que já era. Kanda arregalou os olhos e soltou a gola que segurava de Allen.
-Mas, madrasta...
-NÃO QUERO SABER!!ALLEN, VOLTE PARA SEU QUARTO!GUARDAS!!!
Os guardas já estavam preparados, agarraram Allen pelos braços e o levantaram no ar. Ele nada fez em protesto. Só olhou para trás e encarou o japonês no chão onde a estava estrangulando alguns segundos atrás, com um olhar um pouco triste. Este devolveu um olhar preocupado. O que iriam fazer com ela?O salão inteiro observou os guardas carregando a pessoas para fora do salão.
-Ufaa.- o ruivo limpou a testa- o que estão olhando, continuem o baile!!
A música, a dança e os papos recomeçaram.O baile continuou como se nada tivesse acontecido. Pelo menos para os outros convidados, mas para Kanda...
-Então o nome dela é Allen... Foda-se, é moyashi para mim- continuou olhando para o céu. O que acontecera com a garota?
Allen se encontrava em seu quarto, deitada na cama, brincando com o vestido que ainda usava, o cabelo já estava desmanchando. Mas não importava. Voltou a dar suspiros. Nem ao menos pegou um dango. Nem ao menos conversou direito com Kanda.
-Hunf, aquele chato, me atrapalhou. Agora já sei. Lavi provavelmente vai me expulsar do palácio... Tenho que pedir desculpas ao Johnny, ele fez tudo aquilo para mim e eu...
Lágrimas escaparam de seus olhos prateados, úmidos, e desceram pela sua bochecha, molhando o travesseiro em que depositava sua cabeça.
-Que seja...- apertou o travesseiro com mais força.
Narrador: No dia seguinte, Lavi não se aguentava de tanta raiva que se acumulava em seu coração. Será que Kanda se interessou por Allen? Como ela apareceu na festa? Por que? Para roubá-lo? Não ia deixar barato.
Lavi entrou no palco andando de um lado para outro, pensativa.
-Sim, isso é o certo. Já me decidi. Ela não pode mais ficar aqui no castelo.- andou até aquela mesma parede e a empurrou como da outra vez e revelou o espelho.
-Espelho, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?
-Já disse e repito. Branca é e sempre será a mais bela.
-Não diga besteiras!! Você deve ser cego! Só queria ouvir uma última vez. Eu serei a mais bela, já fiz minha decisão e chamei um caçador, Daisya, acho que era esse o seu nome.
-O que pretende fazer??
-Matá-la é claro. Se não há mais corpo não há beleza, certo? Ela irá para junto de seu papai e mamãe.- se virou, não dando chance para o espelho dizer algo contra. Chamou os guardas novamente e estes trouxeram um rapaz com desenhos roxos no rosto. Usava um capuz e carregava uma arma e uma faca.
-Ora, você deve ser Daisya, o caçador.
-Sim, madame.
-Tenho uma missão, pagarei uma fortuna!! Leve aquela branquela para a floresta, bem longe e mate-a. Quero que me traga seu coração.
-Como quiser, madame.
-Hoje a noite. Assim não terá ninguém por lá.Hohoho- abanou o leque e saiu rindo maleficamente como sempre fazia.
— Para onde estamos indo?- a albina corria. Estava frio e por isso usava um xale por cima de seu vestido.
-Para a floresta. Ordem de sua madrasta. — o caçador mal olhava para a garota que ficava atrás dele. Ia abrindo caminho e afastando plantas.
-Eu sabia... Por fim esse dia chegou. Ela não me aguenta mais.
-...
-Eu só gostaria de saber porque...
-Não é óbvio. Ela quer ser a mais bonita, cargo que no momento você ocupa. Se você morre o corpo bonito irá apodrecer na terra e deixará de existir e ela subirá de posição.
-Besteira. Tudo besteira- deixou escapar uma lágrima ao pensar em seu destino. Não paravam de adentrar na mata.- eu não fiz nada...
-... Acho que aqui está bom.
Daisya parou e Allen trombou logo depois, assustado com a parada brusca. Se virou para a garota pela primeira vez e a viu limpando uma lágrima. Esta percebeu e rapidamente coçou o rosto e se virou para ele. Para espanto do homem, sorriu melancolicamente.
— Vamos, faça. — disse com os olhos úmidos- é isso que ela quer.
Ergueu a faca e esperou que ela fechasse os olhos com medo de receber o ataque, algo que não fez. Continuou olhando para ele, determinada. Se fosse para morrer, então que morresse, assim como seu pai que tanto a amara. Daisya encarou aqueles olhos por um tempo, bastante encantado, afinal não é todo dia que a mulher mais bonita está à sua frente. Baixou a faca lentamente, relutante.
-Corra.- proferiu com os olhos voltados para baixo
-Hã?
-Corra. Eu vou enganar a rainha. Há uma casa mais à frente, acho que pode pedir ajuda. Não vou deixar que você continue sofrendo até a morte por causa daquela megera. Eu era...Bem próximo de seu pai. Um guerreiro, pode ter certeza.
-Obrigada, muito obrigada- se afastou antes que mudasse de ideia e deixou o caçador sozinho com seus pensamentos. “Agora quero ver, como vou enganar aquela rainha...”
Correu, correu, correu. Trombou em árvores, quebrou galhos. Seu vestido já não era o que podíamos chamar de arrumado. Muito menos seu cabelo. Só se acalmou ao ver uma casa no meio da floresta. Seria aquela a tal casa? Tinha uma chaminé, de onde saía fumaça, era em um estilo bem...Camponês. E um pouco menor que casas normais.Andou até ela mancando um pouco e bem apreensiva, só se apressou ao sentir um cheiro.
-*func* *func*... COMIDA!!!!- perna machucada ou não, não importava.Ela correu até a casinha, abrindo a porta com um chute que quase a fez sair voando e destruir o que ficasse à sua frente.
Pode ter entrado por impulso, mas quando ultrapassou aquela porta, travou. Os olhos miravam os móveis menores do que os comuns que preenchia aquela sala, a cabeça quase batia no teto, a parede de pedra coberta por cabeças de animais caçados e a lareira emanava um calor aconchegante. Mas que casa era aquela??
-Mas que casa é essa??- olhava para os lados-Ah, tem alguém em casa?? Desculpe, eu acho que invadi hahaha. Alooou. Alguém?? Ninguém?? Então tá, eu vou comer e sair daqui bem rápido hahaha- dirigiu-se à onde presumia ser a cozinha. Um caldeirão espumava, colocou o dedo para experimentar o líquido, que parecia ser uma sopa. Bem, era o que deveria ser, acho...
-Nossa, como alguém consegue fazer isso?- fez uma careta em desgosto- É possível ser tão ruim assim?? Um desastre culinário... Vou jogar fora.
PLATEIA:” Como assim?? Ela invade uma casa pra comer a comida deles, reclama do gosto e depois joga fora????”
Jogou pela janela o conteúdo do caldeirão, e se voltou para a cozinha. Bufou uma vez e abriu a pequena despensa. Retirou quase tudo o que havia lá dentro, deixando apenas dois pacotes e a próxima vítima foi a geladeira, na qual deixou apenas o pote de manteiga. Rapidamente, cortou carne, verduras, ferveu água, com o estômago roncando. Deixou o caldeirão ali, fervendo.
-Uwaah- bocejou- já são quase seis da manhã. Foi um grande dia Talvez eu deva...dormir...um pouco. Daqui uma hora eu acordo e tiro essa panela do fogo.
Deitou-se no chão da sala, onde havia um tapete do que parecia ser pele de um animal e dormiu ali mesmo, no chão da sala de estar de uma casa de estranhos. Provavelmente estaria muito cansada. E a casa se aquietou de novo, os barulhos na cozinha cessaram e apenas o caldeirão que cozinha a comida emitia algum som. Mesmo a garota dromia sem fazer quase nenhum barulho. O galo lá fora cantou algumas vezes à medida que o Sol subia e anunciava mais um dia a se viver. Mas esse silêncio não durou muito tempo.
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