Nenhum de nós disse qualquer coisa naquela noite.

Barty fechou o livro silenciosamente e apagou a luz que usávamos, mas não voltou para a cama dele, e eu não tive forças para expulsá-lo. Eu não queria expulsá-lo, apesar do peso incômodo em minha cintura que se manteve mesmo quando me virei de costas para ele, tentando digerir o choque que a informação havia me causado.

Acho que eu preferia não saber o que estava acontecendo. A dor agora se tornava ainda mais palpável — mais real. Se não soubesse, poderia apenas um dia morrer por aquele amor sem saber que seria o que havia me matado. Mas, à medida que adentrava a madrugava, me acostumava com a ideia, os olhos, agora secos, ardiam enquanto encarava o vazio, sentindo a respiração de Bartemius finalmente se acalmar atrás de mim, sinal que havia caído no sono finalmente. Não duvidava que ele estivesse pensando até agora no que descobrimos.

Não era tão ruim assim, se parasse para pensar. Eu sempre admirei as figuras de heróis que haviam nos livros. Os cavaleiros de armadura brilhante — homens fortes, corajosos e imponentes, prontos para colocar o bem maior acima deles mesmos. Mas eu sabia que não podia ser um. Não havia nascido um herói: por mais que um dia quisesse, eu era um perfeito exemplo da Sonserina. E nós não éramos heróis.

Sim, Merlin havia sido um grande bruxo, poderoso e gentil, e era da Sonserina, mas a maioria não nos via com bons olhos. Éramos considerados aos olhos de todos os vilões da história, não os heróis.

Para um vilão, parecia bom suficiente morrer por amor. Soava quase como um herói trágico.

Em algum momento, adormeci com estes pensamentos, sendo vencido pela exaustão, e acordei cedo com Barty grunhindo (parecia mais um rosnado) para nossos colegas de quarto, que saíram correndo antes que fossem azarados por ele.

Agradeci mentalmente pelo gesto, afinal a última coisa que queria era que os outros vissem meus olhos inchados ou ter de aguentar alguém tirando sarro por termos dormido na mesma cama; embora soubesse que àquela altura virara uma fofoca no salão comunal, não tinha cabeça para ficar preocupado. Silenciosamente, começamos a nos arrumar para a primeira aula, e Barty foi o primeiro a quebrar a atmosfera.

— Nós deveríamos mesmo ir na enfermaria.

— Não.

Minha resposta foi categórica, porém ele insistiu.

— Ela pode saber algo! Ter mais informações! Você não pode ficar simplesmente cuspindo pétalas por aí.

O argumento era bom e respirei fundo, retrucando:

— Barty. Essa é uma doença obscura aparentemente de origem japonesa. Não tem nenhum conteúdo traduzido. Estou inclinado a achar que nem mesmo madame Pomfrey saberia o que fazer. E você também leu. Não tem solução.

Ele saltou a cama, parando em minha frente com uma expressão fechada, cruzando os braços.

— Claro que tem! Você viu. Tem uma… cirurgia.

Torci os lábios. Sim, era uma opção… mas os riscos eram altos.

Eu não queria me esquecer de Remus. Apesar de toda dor, era um sentimento que me era querido, ainda aquecia meu peito e fazia com que sentisse que pudesse ter algo de bom dentro de mim.

E falar com meus pais estava fora de cogitação.

Eles seriam capazes de arrancar aquelas flores à força do meu corpo. Ou nem mesmo ligar, afinal era fraqueza da minha parte.

Balancei a cabeça negativamente.

— Não tem como.

— Reg!

— Vamos nos atrasar pro café, Barty.

Encerrei o assunto, desviando de Barty que ainda estava no caminho, vestindo a capa no processo. Ele ainda tentou outras vezes me convencer, ao ponto que eu comecei a dizer não cada vez que ele chamava meu nome, levando-o a finalmente desistir no fim do dia. Vi Crouch bufar e me dar as costas, o que fez com que me sentisse mal, afinal sabia que ele queria me ajudar, porém estava decidido: não iria à enfermaria. Mesmo que meus órgãos terminassem consumidos pelas rosas.

E, sinceramente, apesar de me sentir mal pelo que fiz, minha maior preocupação é que chegava a hora de encarar Remus. Não sabia se conseguiria. No entanto, havia combinado com ele, era o dia que sempre nos encontrávamos, então forcei meus passos vacilantes na direção da biblioteca. Foi aí que os vi.

Sirius estava com o braço em torno dos ombros de Lupin, fazendo com que ele andasse meio encurvado, já que era o mais alto do quarteto. Meu estômago borbulhou e entendi que aquele sintoma não era da minha condição, mas de ciúmes. Porque sabia que nunca teria aquela proximidade com ele, e isso me irritava mais do que gostaria de admitir.

— Vamos, Remus. Precisa me emprestar seu dever de transfiguração ou a velha vai nos dar outra detenção…

— Eu disse que não iria emprestar de novo! Como esperam passar nos exames assim?

Mastiguei a parte interna da bochecha, sentindo a raiva crescente. Era sempre assim. O trio pedindo a tarefa de Remus para copiar, Remus negando, mas no fim cederia. Por que ele aceitava aquilo? Ele não era um capacho! Mas era como era tratado. Só não pior que Pettigrew. Por mais que fosse meu irmão, ele e Potter sempre se achavam os melhores e que poderiam mandar e controlar todos. Era irritante. Minha expressão só melhorou quando me dei conta de que Remus havia notado na minha presença.

— Regulus! — ele chamou e senti raiva de mim mesmo por meu coração acelerar só com aquilo. Soltando-se de Sirius, ele se empertigou e se aproximou. — Indo pra biblioteca? Estava indo te encontrar agora mesmo.

— Ah… Sim. Eu estava sim.

Me sentia desconfortável. Não sabia o que falar ou o que fazer e acabei baixando o olhar. Estava feliz por ele ter vindo até mim, deixando meu irmão para trás, só que ao mesmo tempo como supostamente eu deveria tratá-lo sabendo que o que sentia por ele poderia me matar a qualquer momento? Que não havia a menor chance dele retribuir? Mas, ainda assim, ele sorria tão cálido para mim… não queria me livrar daquele sentimento.

— O que foi, Reg? Você está bem?

Ótimo. Havia conseguido preocupá-lo mais uma vez. Pigarreei, levantando o olhar para Lupin, que me fitava com aquele olhar intenso e atento que tanto amava e odiava.

— Estou. Não se preocupe.

Tentei soar indiferente, mas não o convenceu. Ele levou uma das mãos até minha testa e imediatamente senti o rosto esquentar.

— Você está vermelho. Tem certeza? Tem tossindo também, talvez devêssemos cancelar o estudo hoje.

— Não, eu…

— Isso é normal, Remus, nem perca seu tempo com isso.

Franzi o cenho, porém antes que esboçasse uma reação ao comentário de Sirius, Remus se virou para ele com a expressão fechada.

— Fica quieto, Sirius. — esbravejou baixo e senti minha vaidade crescendo antes do pânico que me acometeu quando ele voltou a ter total atenção em mim. — Posso te levar na enfermaria. Pode estar pegando uma gripe. Já está passando da hora de ver algo pra essa tosse, Reggie…

Ele me tratava tão gentilmente que senti vontade de chorar. Pisquei para afastar as lágrimas que meus cílios dissiparam, tentando vir com uma desculpa, mas quando abri os olhos tudo que vi foi um Bartemius brotar do nada, se colocando entre mim e Remus, criando distância entre nós.

— Eu levo ele. — sua voz soava baixa, entredentes. Eu podia ver a expressão confusa e quase assustada de Remus, e Sirius, que não estava entendendo nada também.

— Certo… vocês são amigos. Faz sentido. — tentou se recuperar embora o sorriso ainda vacilasse quando tentou se formar. Olhou para mim por cima do ombro de Barty. — Trate de se cuidar, Reg.

Não tive chance de me despedir ou ouvir o que Sirius falou depois, pois Barty começou a me puxar pelo pulso. Ele me levava na direção da enfermaria, enquanto eu tentava refrear os passos, o que me levou a resmungar.

— Me solta, Barty!

— Nós vamos procurar uma cura pra isso agora.

Apertei os dentes, firmando os pés no chão e puxando o braço de volta, fazendo-o parar.

— Você leu no livro já, não tem como! Agora me solta, tá me machucando. — Apertei os lábios, encarando-o diretamente quando se virou para mim.

Barty me soltou, mas logo me vi encurralado entre a parede e seu corpo, as mãos dele apoiadas ao lado dos meus ombros criando uma armadilha para que eu não escapasse.

— É ele, não é?

A pergunta veio tão baixa quanto sombria, seus olhos fora da luz estavam naturalmente escurecidos. Mal podia ver a tonalidade das íris castanho escuro. Senti meu corpo gelar mediante aquele olhar. Não respondi. Não consegui responder. Mas ele grunhiu, interpretando meu silêncio, e se afastou.

— Achei que era a Talkalot… — resmungou.

Ele parecia magoado ou era impressão minha? Apertei os lábios, sem saber o que dizer. Estava com medo da reação dele. Nem conseguia me incomodar com o fato de ter sido seguido. Tinha medo que ele se sentisse enjoado com a informação. Hesitando, me aproximei.

— Barty…

— Por que ele? — disparou, irritado. — Você sabe o que ele faz! Ele é terrível, Regulus!

Ah, sim.

— Eu sei… mas ele não é como os outros três… — murmurei, tentando justificar, embora nem mesmo eu soubesse até que ponto acreditava naquelas palavras. Remus não era um santo. Fazia coisas horríveis, como já havia presenciado. Mas ele me tratava como Regulus e não somente um Black ou irmão de Sirius, o que por si só já era incrível devido à proximidade que eles tinham. — Comigo ele… me…

— Por Salazar, Regulus! Ele só está te usando! Não seja burro!

Franzi os lábios, chateado. Eu não era burro. Embora às vezes até mesmo minha mãe achasse. Mas a possibilidade que Barty havia levantado não era de todo um absurdo. Eu mesmo já havia me perguntado o que aconteceria depois que os exames dele terminassem. Voltaríamos a não nos falar?

A tristeza de imediato me invadiu. Talvez eu fosse mesmo burro… Meu peito parecia comprimido por uma mão de ferro e meus olhos foram salpicados por lágrimas quando abri a boca, porém não consegui formular uma frase sequer. A tosse veio violenta, nos conhecidos acessos que me acompanhavam de maneira mais e mais frequente. Barty se aproximou rapidamente, me amparando, e eu estendi um dos braços para mantê-lo longe.

— Não vou pra enfermaria… — consegui dizer em meio às tosses.

Barty bufou irritado, porém se aproximou mais uma vez e me ajudou a ficar de pé.

— Eu não concordo com isso. Não quero você morrendo por causa de um babaca.

O resmungo veio alto e claro. Sequer podia retrucar.

Notas finais
se alguém estar lendo, eu adoraria receber um review ♥