Graphite

1 Capítulo I - O Início


Aqui estou eu, finalmente indo para o Ensino Médio, estou anciosa, admito, mas não demonstro. Meu pai dirige com muita tranquilidade, não falou nada durante a viagem toda, nem tentou me animar, nem nada do tipo. Viro a cabeça para a janela e percebo que estamos entrando em minha nova escola, a Integral School of Washington,D.C. — O que realmente foi um sonho saber que fui aceita, meus pais pensaram em dar uma festa, mas prefiri que não fizessem, aliás, não teria amigos para chamar, além dos amigos de meu pai, aí foi definitivo, não teria festa nenhuma!

Sou aquela garota que fica em uma mesa solitária de refeitório lendo "Cidades de Papel" de John Green ou "Querido John" de Nicholas Sparks, — Que atração é essa que eu tenho por John's? — a garota que as pessoas tentam chegar perto, e eu afasto com uma má resposta, me dou melhor sozinha, é o que eu acho.

- Med, chegamos. — Meu pai me tira dos meus devaneios. O que é um alívio, ja estava começando a ficar preocupada da ausência de sua fala.

Saio do carro e vou direto para o porta-malas, não trouxe muito coisa, uma mala grande, uma bolsa com estampa de exército e uma mochila marrom claro. Olho para o campus, e vejo filhos e seus pais se abraçando e se despedindo. Ficar praticamente, um ano sem ver seus pais deve ser difícil, não sinto isso, perdi a intimidade com meus pais faz algum tempo, não nos falamos como antigamente. Meu pai estava atrás de mim e acho que também percebeu o que eu estava pensando.

- Med. — Ele me abraça. — Quero que saiba que estou muito orgulhoso de você e muito triste por ter que lhe deixar, mas posso confiar em você para não se meter em nenhuma encrenca? — Ele me olha com a sua típica cara de sarcasmo engraçado.

- Não prometo nada. — Falo com tédio.

- Foi o que eu pensei, — Acho que ele não se referia ao que eu disse e sim ao meu humor — Sabe onde será seu quarto? — Pergunta ele com ar de interessado.

- Não, mas eu me viro.

- Está bem, eu já vou indo. — Ele planta um beijo carinhoso em minha testa, entra, liga o carro e fala:

- Ah! Já ía me esquecendo, tenho um presente pra você por ter sido aceita na universidade.

- O que é? — Pergunto, mas escondendo meu intusiasmo.

- Comprei um carro para você! É um carro seguro, para uma garota de 16. — Quando ele fala isso, reviro os olhos. — Está na Loja de Aluguel do Carrick, mas é seu. — Não consegui me segurar de tanta alegria e lhe dei um abraço e sussurei em seu ouvido:

- Obrigada pai. — Ah quanto tempo não o chamava de pai, e nem o agradecia por nada. — De nada minha filha. — Me afasto e ele me dá um tchauzinho da janela, só dou um sorrizinho amarelo de adeus. Pra alguns pode ser aterrorizante ir estudar longe de casa e se distanciar de tudo, não tiro a razão deles, quer dizer, essas pessoas tem amigos, parentes e pais que se preocupam com eles. Balanço a minha cabeça com o intuito de esquecer isso e começo a andar pelo campus. É simplesmente incrível, tem um campo de futebol, de vôlei, duas piscinas enormes, e tem um lago lindo que separa as casas e suas ruas. Vou até a recepção do colégio para pegar as chaves do meu quarto. Entro, mas a recepcionista não está no balcão, me encosto nele e espero. Na minha frente há uma porta com uma janelinha de vidro onde vejo a cena:

- Fred, não irei mais pagar sua bolsa de estudos se você ficar se envolvendo em encrenca com o Josh! — Uma mulher baixinha com o cabelo curto e blusa bege fala.

- Não pague então! Não preciso sobreviver de migalhas! Posso muito bem me cuidar sozinho! — Um cara com cabelo preto e olhos pretos grita.

- Olhe para você, Fred. Seu pai gostaria de ver o que se tornou?

- Ele que se dane! Não ligo mais pra opinião dele e a senhora também não deveria ligar! — Ele sai, e bate a porta com força, entra e senta no banco do motorista, apoia os cotovelos no volante e passa as mãos pelo cabelo. Liga o carro — É um gipe prateado com step — e sai com maior ingatada. Quando me viro para a porta com o vidro, vejo a senhora tentando enchugar as lágrimas. Ela sai e ainda com os olhos vermelhos ela me atende.

- Me desculpe pela demora, posso ajudá-la?

- Sim, a chave do meu quarto.

- Claro, claro. Qual seu nome?

- Medisson Dawis Lynch.

- Aqui está, Medisson. Seu quarto é no andar P, número 23. Aqui está suas chaves, o mapa do Campus, a lista de livros que deve pegar na biblioteca e aqui também diz que tem um carro te esperando na Loja do Carrick, vou colocar no mapa o endereço, irá precisar levar em algum lugar suas malas e seus livros.

Aceno a cabeça com um sorrisinho tentando dizer obrigada. Ela retribui do mesmo jeito. Saio e vejo no mapa a "Aluguel de Carros do Carrick", é fora do Campus, vou andando carregando as malas.

Finalmente chego, coloco as coisas no chão e um cara de cabelo moicano com uma blusa sem manga preta me atende.

- Oi! Tem um carro aqui pra mim.

- Já é o segundo está manhã, qual seu nome?

- Medisson Dawis Lynch.

- Vem comigo. — O sigo, me segurando para não expludir de curiosidade de saber qual será meu carro.

- Aqui está. — Ele me entrega as chaves, é uma caminhonete azul marinho, pequena, mas agradável.

- É bom que saiba dirigir, é um carro bem complicado.

- Ta.

- Vê se não amassa até o fim dessa semana tá? Gosto dela.

- É "ela"? — Pergunto com um sorriso sarcástico no rosto.

- Sim, é a Jessie.

- Deu nome pro meu carro? — Eu digo achando graça.

- São as minhas gatas, pensei que não viria mais pegá-la, faz mais ou menos um mês que seu pai veio aqui para deixá-la. — Espera, não tinha recebido o resultado da universidade na terça?

- Josh. — Diz ele estendendo a mão pra mim. "Josh"? Onde foi que eu ouvi esse nome? Era dele que estavam falando naquela briga.

- Med. — Cruzo os braços afim de não pegar a mão dele. — Você tem carro? — pergunto.

- Trabalho em uma loja de carros, é claro que eu tenho um carro, é a Wanda, uma van.

- Estuda aqui? — Pergunto.

- Estudo sim. — Ele responde.

- Tem curso aqui?

- Sim, estudo eletromecânica, carros são a minha paixão. Só trabalho aqui de estagiário no meu tempo livre. E você, veio estudar o quê? — Não estou a fim de responder pra esse idiota, mas quem perguntou primeiro fui eu...

- Artes.

- Mas é aquela arte brega de pintar com o pincel?

- Não. — Falo com ar de tedioso. — É grafite.

- Aí sim! Falo minha língua! Bate aqui! — Mal ele levanta a mão e saí um homem de bigode e barba da loja e grita:

- Josh, eu não te pago pra ficar paquerando cliente! — Ele deve ser o Carrick.

- Ai meu Deus! — Ele fala sussurando ainda nem olhando para trás com a mão ainda parada no ar. — Eu ja vô indo, cuida bem da Jessie. — Diz ele batendo no capô do carro, sai correndo e entra pra loja. Pego todas as minhas coisas e coloco na caçamba da caminhonete, ligo o carro dou a ré e saio.

Depois de um longo tempo na biblioteca pegando livros olho pra janela e vejo que já escureceu. Pego minhas coisas, jogo tudo no carro e começo a dirigir entre as ruas. Chego no Condomínio dos apartamentos dos alunos, entro na ala P e acho o apartamento 23 e estaciono. Abro a porta, ligo as luzes e está tudo quieto e na garagem subterrâneo do apartamento só tem o meu carro. A minha colega de quarto ainda não chegou. Escolho meu quarto, coloco minhas malas em um canto. Tomo banho e me visto, deixo meu notebook ligando e vou fazer alguma coisa pro jantar. Me lembro que antes da minha viagem de carro com meu pai passei no comércio e comprei comida, decido preparar macarrão com queijo. Enquanto cozinho eu pego na geladeira um pote de doce de leite e uma colher, muito lentamente aprecio o sabor enquanto toca Titanium de David Guetta no meu IPod e leio "Se eu Ficar" entrando no meu mundo. Ouço fechar de portas e percebo que a garota chegou.

- Oi. — Ela fala, ela tem cabelos loiros, olhos azuis celeste e uma voz meio enjoada. Levanto a cabeça e dou um sorriso pequeno. — Eu não vou te incomodar, só vou colocar as minhas coisas lá em ci... Arghh! Que cheiro é esse?!

- É macarrão com queijo.

- Não acha que deveria ter abrido a janela ou a porta? — Diz ela com cara de nojo. Eu jogo a colher que estava na minha boca na pia e digo:

- Eu pensei que você disse que não iria me incomodar! Por que eu sou a única que está fazendo alguma coisa aqui, você acabou de chegar e até agora a única coisa que você fez foi ficar com essa sua cara de enjoada! — Ela olha pros pés, pega as coisas que soltou no chão e sobe cheia de bagagens. Eu, bufando de raiva, desligo o fogão e bato na pia com força. Já passou um tempo e ela não saiu do quarto, o macarrão vai esfriar.

- O jantar tá pronto! — Espero mas ela não vem. — Ei! — Grito mais alto mas ela não responde. Não acredito nisso! Pego duas tigelas com macarrão e começo a subir as escadas. Entro no quarto dela e a vejo deitada na cama. Ah! ninguém merece! Já pensou em uma coisa mais constrangedora cutucar com o pé uma menina pra ela acordar. Mais constrangedor que isso não fica! Falei pra mim mesma. Fiz com muita força dessa vez que ela caiu pro outro lado da cama.

- Ai meu pescoço! — falou ela esfregando as mãos no pescoço. Dei uma gargalhada que a muito tempo não dava, ela começou a rir junto comigo, foi como se eu tivesse me libertado. Quando me controlei um pouco percebi seus olhos azuis vermelhos e grandes.

- Por que estava chorando? — Perguntei dando uma tigela para ela com macarrão.

- Saudades. — Ela diz.

- Mais já? Não me diga que é do teu cachorrinho, por que se for eu desisto! — Ela dá um sorrizinho.

- Não, é do meu irmãozinho, Tommy.

- Olha, talvez eu não me saia muito bem com essa de animar uma pessoa, por que faz tempo que eu não faço isso, mas aqui tem as férias de verão, não vai demorar muito pra chegarem pra você ver ele de novo. — Eu bato no ombro dela. O que foi que deu em mim?! Eu realmente quero animar uma pessoa?!

- Isso não vai ajudar muito, ele morreu aos 4 anos.

- Sinto muito. — Ela se acanha.

- Tudo bem... Parece que você estava com um problema também quando eu cheguei. — Ela fala.

- O problema sou eu mesmo. Meu jeito de ser. Me desculpe. Eu fiz com você o que a pessoas fazem comigo.

- E o que é?

- Julgar as pessoas antes de conhecê-las.

- Eu te desculpo. Mas tem uma coisa que eu ainda não intendi, por que essa sua atitude? — Não posso contar pra ela, não conto pra ninguém, por que deveria contar para ela?

- Acontecimentos trágicos, tipo um falecimento de um irmão.

- E nem por isso eu viro as costas pro mundo.

- Acabou de me conhecer e já ta me dando lição de moral? — Ela ri.

- É verdade, desculpe.

- Não, você tem razão. Acho que esqueci como tratar certas pessoas.

- Bom... Nunca é tarde para aprender. — Balanço a cabeça.

- Ok, vamos parar com essa melação toda! Amanhã é aula!

- É mesmo. Ah! E meu nome é Kelly.

- Med.

- Boa noite, Med. — Dou um sorrisinho e fecho a porta.

Ainda não desfis minhas malas, só pego meu virol, meu edredom e meu travesseiro.

E se essa for minha oportunidade de voltar a ser quem eu era? Eu posso tentar, ninguém sabe nada sobre mim aqui. Vou encarar isso como uma chance de deixar tudo aquilo para trás. Mas isso não será fácil.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.