Grandes Mentirosos
1 Capítulo 1
Lucas estava cansado, teve um dia muito pesado e cansativo, mas do mesmo jeito foi ao treino de futebol. Era sua hora sagrada, ninguém podia o perturbar. Sem nenhuma distração e nenhuma dor de cabeça. O lado bom do futebol, além de fazer Lucas esquecer dos problemas, era que poderia ajudá-lo a entrar na Universidade Belch, onde sempre quis cursar engenharia. Estava ali, no primeiro ano do ensino médio no Colégio Preston, sua família passava por uma situação difícil e Lucas sabia que era o único que poderia dar um jeito nisso. Seu pai estava perdido em meio ao álcool desde que seu irmão pequeno morrera pelo câncer e sua mãe estava em uma profunda depressão. Lucas era quem estava sustentando a casa desde então, era da casa para escola e da escola para o trabalho, exceto às quartas, quando era sua folga, além dos finais de semana.
Sempre fora um cara durão e de muitos amigos, mas depois da morte de Billy, Lucas nunca mais foi o mesmo. Afastou-se de tudo e de todos, e hoje vaga sozinho pelos corredores, coberto de olhares estreitos nada agradáveis por onde quer que passe. Lucas odiava trabalhar na cafeteria Pamper, mas era o único emprego que tinha encontrado em muito tempo de procura.
O futebol termina. Depois de se trocar no vestiário, Lucas pega sua bike e vai ao trabalho. Passando pela frente do colégio, lembra quando toda aquela dor de cabeça começou, quando se mudaram, há 5 anos. Parece que todas as coisas começaram a dar errado após um ano de mudança. A morte de Billy, o vício de seu pai e a depressão de sua mãe, tudo. Lucas já quis desistir e fugir muitas vezes, pois é realmente um peso muito grande para um adolescente de apenas 15 anos carregar, mas sabe que vai passar fome caso desista do emprego. O lado bom é que seus avós mandam, uma vez por mês, uma boa quantia de dinheiro, o suficiente para comprar os remédios da mãe e as despesas da casa, mas o resto era com Lucas.
Enquanto ia lembrando-se da noite em que Billy morrera, um dos parafusos da roda dianteira da bicicleta se solta e a roda ameaça sair, mas Lucas para a tempo de tombar. Como era normal aquilo acontecer, tirou uma chave de fenda da bolsa e começou a procurar o parafuso que caiu. Ali estava, embaixo de um carro do outro lado da rua, foi muita sorte ter conseguido achá-lo. Lucas leva a bicicleta até a calçada. Um carro preto vem devagar e para exatamente na direção de Lucas, mas do outro lado da rua. Um rapaz sai do carro com um envelope em mãos, dá a volta e entra no beco escuro que há entre uma casa e outra. Um outro rapaz, loiro, alto e forte, sai do meio de uma das lixeiras para encontrar com o outro. Lucas ficou surpreso em não ter notado o cara ali antes.
O sujeito que está com o envelope na mão conversa com o outro cara, olhando muito para os lados, como se a qualquer momento alguém fosse aparecer. Pelo visto os dois não viram Lucas abaixado do outro lado da rua, consertando sua bicicleta atrás de um carro. Mas Lucas estava vendo tudo. Aquilo com certeza não era bom negócio, parecia venda de drogas, mas não era. O cara loiro, vestido de jeans e com uma jaqueta vermelha, abriu o pacote, como se quisesse conferir algo, e retirou um bloco em dinheiro. Pelo volume que ainda restava no pacote, Lucas deduziu que havia mais como aquele bloco. Lucas nunca tinha visto tanto dinheiro antes. Os dois apertam as mãos e cada um segue em uma direção diferente, ainda sem notar a presença de Lucas.
Ele pega a bicicleta e corre para o trabalho, já está atrasado. Enquanto pedala, fica pensando na cena que vira, os dois homens, aquele dinheiro, não era coisa boa, mas Lucas tenta tirar da cabeça até que chega na Pamper. Entra pelos fundos, pega um avental e se dirige ao balcão de atendimento, mas antes seu celular toca.
— Alô, mãe?
-Lucas, aqui é o seu pai – fala uma voz de bêbado do outro lado da linha
— Por que está me ligando agora?
— Sua mãe.. bem.. teve uma recaída e desmaiou, não se preocupe – ele arrota – ela ficará bem, mas os médicos disseram que as medicações não estão mais fazendo efeito, e as novas são bem mais caras. Só liguei para dizer que ela está no hospital mesmo. Tchau. – Lucas estava cético, pálido. Sua mãe passara mal? O dinheiro dos avós não daria mais? E não acreditava que, mesmo estando mergulhado em álcool, seu pai ainda se preocupava com sua mãe.
Tenta controlar as lágrimas em meio ao balcão, mas parece impossível, como pimenta nos olhos, elas caem e Lucas se vira para enxugá-las. Sem olhar para o rosto do cliente, apenas vendo uma jaqueta vermelha, ele o atende. Café com leite e baunilha é o que ele pede, Lucas levanta a cabeça e lá está ele, alto, forte, loiro.. o cara do beco. E instintivamente, olha para o bolso da jaqueta, onde ele havia guardado o pacote.. e lá está ele, parte dele está para fora. O bolso deveria ser muito grande para caber todo aquele monte de dinheiro.
— Garoto? – pergunta o homem
-s-sim? – A ideia de ter sido visto passa pela cabeça de Lucas e o medo toma conta, até que ele volta a si.
— O café. Está pronto? – diz o cara impaciente.
-Ah, claro. Só um instante.
Lucas prepara o café e o serve ao rapaz, que se senta inocentemente. Ele fica imaginando, o que faria com todo aquele dinheiro, ajudaria sua mãe, trataria seu pai e teria mais tempo para se dedicar aos estudos. Sem falar em coisas materiais que, como qualquer adolescente, ele queria.
A cafeteria está vazia, a não ser pelo rapaz loiro e duas moças que estão prestes a sair.
— Lucas, vou lá atrás recarregar o estoque – diz Lucy, a ajudante de Lucas.
— Está bem – diz Lucas, sem prestar a mínima atenção.
E as duas mulheres saem da cafeteria, deixando apenas Lucas e o homem da jaqueta. Ele se levanta, vai até o caixa, encarando Lucas, com as mãos no bolso da jaqueta.
— Aqui, garoto. Uma gorjeta. Vê se come alguma coisa, você está pálido – dá uma risada e sai.
Quando está prestes a sair, entra um grupo de estudantes que costuma freqüentar a cafeteria e um deles esbarra no homem, que deixa cair um dos blocos, o qual é chutado por um dos garotos para debaixo do balcão. O rapaz toca nos bolsos para ver se está tudo em ordem, olhando de forma estranha para os meninos. Sente o volume do resto que ficou no envelope e vai embora, sem desconfiar que um quinto do dinheiro se foi.
Lucas vê toda a cena, pensa em pegar o dinheiro e devolver, mas lembra da sua mãe e dos problemas por que está passando e fica estático. Até que um grupo de meninos o cerca, fazendo pedidos e mais pedidos. Lucas se abaixa, fingindo pegar um bloco para anotar os pedidos, mas pega o dinheiro e o esconde no avental.
Eram 19h, O turno de Lucas tinha terminado, hora de ir para casa. Não podia evitar, estava muito feliz, afinal, uma parte daquele dinheiro não faria falta para o cara. Pega a bicicleta e vai para casa. Sua mãe está deitada no sofá e seu pai vendo TV, com um copo de cerveja na mão.
— Ela está dormindo, melhorou – diz o pai, com uma voz abafada pelos gritos vindos da TV.
— Ainda bem. Vou subir.
Lucas vai ao quarto e se tranca no banheiro. Tira o dinheiro da bolsa e começa a contar. Wow. Era muito, pelo menos para um adolescente de 17 anos.. aquilo era muito. Resolve deitar e dormir, mas a única coisa em que consegue pensar é no modo como gastará o dinheiro, até que, depois de muito tempo, cai no sono.
Acorda no outro dia, levanta e toma café. Pega o ônibus e, ao invés de ir à escola, desse no shopping. Compra muitas coisas. Coisas que sempre teve vontade de ter, mas nunca pôde. Em especial uma jaqueta de couro preta com um símbolo de caveira na frente. Aquilo era muito bom, Lucas sabia que ainda restaria dinheiro para os medicamentos da mãe, mas também precisava de algumas coisas.
Depois de feitas as comprar, pega um ônibus e resolve ir à escola para os dois últimos tempos, hoje tem futebol de novo. Ele está usando a jaqueta, mas a tira para colocá-la no armário e substituir sua roupa comum por um uniforme de futebol.
Hoje, o futebol está melhor, Lucas está mais feliz, tudo parece bom. É quarta-feira, não tem trabalho, ele aproveita e fica até mais tarde no futebol.
Depois o futebol termina e Lucas vai para casa. Com as mãos no bolso da nova jaqueta, vai andando, aproveita aquele lindo entardecer para caminhar e pensar em como teve sorte por “encontrar” o dinheiro. Dois carros de polícia, com as sirenes a todo vapor, passam rapidamente pelo lado e, sem dar bola, ele segue em frente. Sente algo em suas mãos, no bolso, e estranha por não ter sentido antes.
Lucas tira do bolso um pedaço de papel cuidadosamente dobrado. Ele o abre e lê:
“Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, certo? Eu sei o que você fez.
-A ”
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