Graffiti Your Heart

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Yoo! Esta história surgiu a partir de um desafio que vi num site americano. Eu a utilizei para testar algumas técnicas de escrita que estou estudando. Talvez não seja a minha melhor história, mas eu estou bastante orgulhosa desse conto. Espero que vocês também gostem! Qualquer comentário é super bem-vindo! Sou especialmente fã de críticas construtivas! ;)

Xoxo

A julgar pela sensação que percorria meus membros, eu devia estar tremendo, mas não havia tempo para parar e verificar. Meus pés descalços percebiam a aspereza do asfalto velho e judiado, mas eu não registrava a dor. Não ainda. Ela viria, com certeza, mas não ainda. Naquele momento, só uma coisa importava, e era me afastar o mais rápido possível do local do crime.

Eu sabia, é claro, que não havia ninguém atrás de mim. Eles não tinham por que me seguir, já tinham conseguido o que queriam: o meu relógio, o meu celular, os meus tênis, a minha camisa e de brinde, a minha dignidade. Pelo menos mijar nas calças fez com que perdessem o interesse nelas.

Quando meus pulmões me deram um ultimato, eu finalmente parei de correr. Eu não queria, definitivamente não. Não ali, no meio daquela vizinhança inóspita, que parecia ter sido abandonada até pelos vagabundos. Mas eu não podia continuar correndo sem ar nos pulmões, então me agarrei à parede mais próxima e deixei que a tosse e os soluços tomassem conta, não necessariamente nessa ordem, aliás, não de maneira ordenada. Seria ótimo se eu pudesse tossir primeiro e deixar para chorar depois ou vice-versa, mas meu corpo parecia determinado a abraçar o caos convulsivo do ataque de pânico.

Em algum momento, enquanto lutava para dominar a mim mesmo, ou ao que tinha restado de mim, eu me ajoelhei de encontro à parede, segurando nela com as mãos em garra. Como se cravar as unhas nela pudesse de alguma forma diminuir a humilhação de estar ali, daquele jeito, naquele lugar.

Aos poucos, não faço ideia de quanto tempo demorou, mas aos poucos os choros cessaram, restando apenas o tremor. Então eu finalmente me levantei e olhei em volta. Ao que parecia, não havia uma alma viva por perto. Isso era bom. Ninguém ia me ver naquela situação. Isso era ruim. Ninguém ia me ajudar naquela situação.

Ao olhar para a parede à qual estivera me agarrando, franzi as sobrancelhas. Parecia haver cores demais. Ali, tudo era cinza. Como o resto da cidade inteira. Isto aqui é São Paulo. Até nossa bandeira, se misturada cuidadosamente, é cinza. Mas aquela parede exibia tons vibrantes de vermelho, rosa e azul. O branco e o preto também estavam ali, mas o colorido se destacava no meio de tudo.

Grafite? Alguma coisa havia sobrevivido ao massacre de Doria? Passei a mão sobre a parede áspera. Havia alguma coisa de mofo misturada à tinta. Pequenos micro-organismos enegrecidos que se infiltravam em fendas microscópicas em meio à arte, resistindo à química apesar de tudo, uma pequena resistência em meio à resistência. Aquela parede já havia sido pintada havia algum tempo.

Por algum motivo, aquilo me interessou. Em geral, um cara na minha situação — roubado, perdido, mijado — não deveria se importar com a experiência estética. Mas acho que existe algo de reconfortante em se saber que não se tem mais nada a perder. Então, eu me afastei lentamente da parede, esperando que o caleidoscópio de cores berrantes revelasse alguma forma.

Eu não estava pronto para aquilo.

A gente pensa “eu não tenho mais nada a perder, estou pronto pra tudo”, mas eu não estava. Ninguém está. Nunca.

Na parede, minha namorada beijava outra garota. O que está acontecendo? Não havia dúvidas: era ela. Eu reconheceria aquele cabelo cor de algodão-doce em qualquer lugar, mesmo num desenho. E para não me deixar brechas para questionamentos, ele ainda estava ali: o grande, inconfundível pingente azul que ela não tirava do pescoço nem para tomar banho.

Depois do torpor do choque ter deixado meu corpo, uma sensação estranha dominou minhas veias, quente e formigante. Excitado? Não era assim que eu devia me sentir, era? Mas a adrenalina misturada aos hormônios corria dentro de mim, um combustível potente, ao qual eu não podia resistir. De algum lugar no canto da minha mente, eu me lembrei de sentir vergonha de mim mesmo. Mas não podia impedir a onda de fogo líquido que descia por minha virilha.

Tentei me concentrar. A garota que a beijava tinha cabelos azuis, azul-claros, como um céu desbotado. Ela estava de olhos fechados, assim como a minha garota, e alguma coisa na forma como seus dedos se entrelaçavam aos cabelos cor-de-rosa me deixou com ciúmes (e, estranhamente, ainda mais excitado). Era como se ela estivesse tomando posse de Stela, como se com aquele beijo, ela dissesse “esta garota é minha, e não há força no mundo que a tire de mim”. Eu esperava transmitir a mesma mensagem quando a beijava, mas duvidava. Aquele desenho era um grito. Os traços continham algo de fúria, de uma possessividade violenta da qual eu nunca poderia ser acusado. Alguma coisa na forma como a tinta escorria em alguns pontos me fazia pensar no sangue derramado nos crimes passionais.

Eu não entendo nada de arte. Nunca fui uma dessas pessoas capazes de olhar para um borrão numa tela e enxergar algum tipo de crítica metafísica à sociedade pós-moderna. Mas aquele grafite te capturava. Ele te jogava contra a parede e esfregava aquele beijo furioso na sua cara, você querendo ou não.

Foi essa cara que Stela fez quando o viu: como se sua cara tivesse sido esfregada contra aquela parede. Primeiro, seu rosto se tingiu de branco, depois, lentamente, de cinza, e eu imaginei aquela mesma metamorfose ocorrendo na parede, embora numa velocidade muito menor, muito menos perceptível. Finalmente, seu rosto atingiu o tom furioso de vermelho dos corações quebrantados que circundavam seu espelho artístico quando ela olhou para mim, subitamente recordando a minha presença.

(Digo “quebrantados” não porque estivessem essencialmente partidos, mas porque o traço deles era muito mais irregular, muito menos preciso que o do resto do desenho. Quase todos estavam tortos, alguns nem sequer se fechavam. Alguns nem mesmo pareciam corações. Eu podia imaginar perfeitamente o artista fechando os olhos e golpeando o desenho com aqueles traços apócrifos, pintando furiosamente, como se usasse o próprio sangue como tinta.)

“Não é o que você está pensando”. É isso o que eu espero que Stela diga. É isso o que ela diz no roteiro que elaborei em minha mente antes de trazê-la até aqui. Estou pronto para responder a isso.

— O nome dela era Manuela — Ela diz e se desmancha, literalmente, em lágrimas. Ela põe as mãos no rosto e escorre para o chão, como se subitamente passasse ao estado líquido, e fica no chão, uma poça humana.

Eu não sou assim, juro que não. Não sou dado a metáforas. Eu faço Engenharia, por Deus! Mas existem coisas que apenas metáforas podem descrever com precisão, e a liquefação humana é uma delas.

Recuperando-me da mudança súbita no script, sinto vontade de espirrar. Ao menos, é a isso que atribuo a leve coceira que percorre minha garganta, chega às minhas narinas e faz meus olhos arderem e se encherem d’água. Talvez eu seja alérgico a Stela em sua forma liquefeita.

Tento não pensar nisso e ignoro os riscos potenciais enquanto me ajoelho e uso meus braços como um frasco, recolhendo com cuidado a parte da poça-Stela que ainda não se infiltrou no solo e desapareceu.

Aos poucos, ela vai voltando ao estado sólido. Talvez seja feita de uma dessas substâncias estranhas, às avessas, que se solidificam com o calor e derretem com o frio. São assim todos os humanos? Serei também eu feito dessa mesma matéria? Estarei me tornando mais sólido, aqui e agora, neste momento?

Quero perguntar a Stela em que condições de temperatura e pressão ela pensa que vamos nos tornar gasosos, mas não me atrevo. Acho que não quero saber a
resposta.

— Vamos sair daqui, por favor — A estrutura sintática da frase é um pedido, mas eu sei que no fundo, é uma ordem. Stela é uma dessas pessoas que não pedem, mandam. Não que ela faça de propósito é só que o mundo não se atreveria, não teria coragem de não dar a ela o que ela quer.

Então, eu a ajudo a se levantar (eu não chegaria a chamar seu estado físico de sólido, é mais algo como o plasma, esse quarto estado esquecido da matéria) e a sigo quando ela se distancia da parede grafitada, não ousando ou não querendo (raramente se sabe a diferença) olhar para trás.

Vagamos indefinidamente por alguns minutos. Eu deixo que ela vá na frente, embora saiba que ela não sabe para onde está indo. Eu também não sei para onde estamos indo. Estou vagamente preocupado que alguém possa saltar subitamente de um desses becos, mas estou mais intrigado para descobrir aonde as pessoas vão quando não sabem para onde ir.

No caso de Stela, seus passos a levam até a frente de uma velha pizzaria que parece não ver pizza desde os tempos de Marco Polo. A fachada está mofada, a tinta branca impregnada de preto. As letras grandes que anunciam o nome do lugar estão enferrujadas, parecendo prestes a se desprenderem e caírem. Abaixo delas, há um desenho de um rato de chapéu de cozinheiro equilibrando uma caixa de pizza fumegante em uma mão, e eu acho a escolha do animal irônica. Ou talvez seja apenas sincera. Tarde demais, lembro que Marco Polo nos trouxe o macarrão, não a pizza. Agora a hipérbole já está feita.

Na calçada, há uma mesa abandonada, coberta de ferrugem. Por qualquer motivo, ela foi rejeitada até pelos viciados, que não viram valor de troca nela. Daria menos de um cisco de crack, não vale a pena. Stela vai até lá e se senta num dos tronos de tétano disponíveis. Eu me sento no outro, ao lado dela.

Ela me lança um olhar diagonal. Eu retribuo também diagonalmente.

— Você não vai perguntar? — ela pergunta.

— Você não vai me contar?

— O nome dela era Manuela.

— Manuela.

— Manuela.

Eu espero. Sei que ela vai falar quando estiver pronta. Ela sempre fala, e é isso que amo nela. Entre outras coisas.

— Os desenhos dela foram todos apagados. Esse deve ser o último.

— Tudo cinza, agora.

— Nunca senti tanta raiva.

Raiva. De repente me ocorre que eu talvez devesse ter sentido raiva ao descobrir aquela traição gráfica estampada naquele muro. A ideia me parece estranha. Tento me imaginar chegando à casa de Stela, “bom dia, Dona Ana”, e me virando para ela: “Que bonito!”

— Ela morreu. Dez anos atrás. — O som da liquefação me distrai de meus devaneios e a risada morre em meu peito antes mesmo de nascer. Eu não tenho tempo para lamentar esse aborto espontâneo, porque Stela está olhando para mim e diz: — É tudo culpa minha.

Negação. Não foi culpa sua. É o que eu penso em dizer. Mas não digo. Não digo, porque de repente a dúvida me invade na forma de um calafrio e aterrissa no fundo do meu estômago como uma rocha sólida de culpa. Olhe para esses cabelos de algodão-doce! Stela não faria mal nem a um... Ela não faria mal nem a mim, que a estou acusando secretamente de assassina.

Uma parte de mim se lembra de que foi ela, e não eu, quem disse que a culpa era dela. Mas a outra parte está ocupada, sustentando a culpa num esforço atlético. A culpa pesa um mundo.

— Ela tinha dezesseis anos. — Fico fascinado em observar o sorriso lentamente brotando no canto de seus lábios, contrastando com a cachoeira em seus olhos. — Me ensinou a grafitar. Nós dominávamos a cidade.

De repente, me dou conta de que não sei nada sobre o passado de Stela. A descoberta acrescenta mais um quilo à minha culpa, ao mesmo tempo em que me assusta um pouco. Estamos juntos há quatro anos.

Tento imaginar Stela fazendo isso. Arte de rua. Vandalismo, diria o meu pai, e eu secretamente concordaria, o instinto de engenheiro falando mais alto que todo o politicamente correto das reportagens que assisti no auge da revolta contra o novo prefeito. A Stela de cabelo de algodão-doce não faria isso. Stela tem pavor da rua, me faz buscá-la na porta do bloco dela na faculdade. Stela é uma nuvem, e aqui, estamos muito abaixo, no esgoto, onde ratos fazem pizza.

— Foi ela quem pintou o meu cabelo pela primeira vez. — Ela ri, o som gorgolejante mostrando que por dentro, ainda está líquida, embora tenha parado de transbordar. — Minha mãe deu um chilique.

A imagem de Dona Ana tendo um chilique é como a de uma cor inteiramente nova. Meu cérebro dói, mas eu não consigo concebê-la. Desisto.

— Quando ela descobriu, mandou eu me afastar dela. Disse que eu não era assim. Que ela era má influência.

Eu sei, você sabe, todos sabemos que ela não está mais falando da cor do cabelo. A cor do cabelo pouco importa. Ou talvez muito importe, porque se não fosse por isso, talvez não estivéssemos aqui. Porque foi a cor do cabelo, tão semelhante à do coração, que me atraiu até ela pela primeira vez. Mas neste momento, não faz diferença, nenhuma. Nenhuma mesmo.

Stela olha pra mim. Seus olhos cintilam como candelabros, uma luz bruxuleante, como se o vento que agita seus cabelos também sacudisse seu interior.

— Eu nunca menti sobre te amar. Por favor, não desista de mim.

Pisco duas vezes, confuso. Em nenhum momento, aquela ideia passou pela minha cabeça.

— Não vou.

Stela me surpreende atirando a mesa para o lado e se jogando sobre mim. A mesa faz um estardalhaço ao se desfazer contra a parede e eu temo que o rato do desenho vá fugir correndo assustado. Enquanto envolvo o furacão Stela em meus braços, um cachorro começa a latir ao longe. Depois outro. Depois outro.

— Eu fiz o que a minha mãe mandou, e ela se matou. — Um pequeno abalo sísmico. É tudo o que a revelação provoca. Um terremoto distante, mal percebido. O meu mundo permanece igual. O mundo de Stela todo estremeceu. — É tudo culpa minha!

Contenho a custo a curiosidade pegajosa que me invade e parece vazar pelos meus poros. Eu sei que será difícil me livrar dela. Sei que demorarei muito tempo no banho mais tarde tentando removê-la. Cogitando. Imaginando.

— Ela tinha só dezoito anos. Tinha toda uma vida pela frente.

Ela diria o mesmo se a garota tivesse cinquenta ou mesmo sessenta. As pessoas dizem isso. “Tão jovem, coitado”.

— Eu sinto muito. — Não sinto. Não muito. É o tipo de coisa que se diz, só por dizer. E todos fingimos que são palavras profundas, carregadas de significado.

— Eu devia ter ido junto com ela, mas não consegui. Eu não queria. Quer dizer, queria. Mas não tanto assim.

Stela diz esse tipo de coisa. Ela é esse tipo de pessoa. Ela pode ser absolutamente sincera, porque sabe que ninguém vai ficar bravo com ela. Ninguém nunca fica. Nem eu, nem ninguém. Ninguém tem coragem. Então, Stela diz suas verdades impune e graciosamente.

Mas o que se responde quando alguém diz a verdade? Isso é tão inusitado nos dias de hoje que não sabemos como reagir. É por isso que crianças pequenas frequentemente deixam mudos adultos “sábios e experientes”. E é por isso que Stela está acostumada ao meu silêncio.

— O que eu faço? — Esfrega o rosto contra a minha camiseta, um gatinho em busca de conforto. — Ela nunca vai me perdoar.

Acho engraçada essa necessidade de perdão, mas depois percebo o duplo sentido da frase. “Ela nunca será capaz de me perdoar, porque sou imperdoável”. “Ela nunca vai me perdoar, porque morreu e não pode mais distribuir perdões por aí”. Um arrepio percorre minha espinha, trazendo consigo a revelação: a verdade é que não é a garota que não irá perdoá-la. É Stela que não consegue se perdoar.

— Você precisa grafitar. — De alguma forma, sei que essa é a resposta. Não faz o menor sentido. Quanto mais eu penso a respeito, menos sentido faz. Mas de alguma forma, sei que o perdão de Stela tem que vir naquela forma: enlatado e em cores.

E é assim que me encontro neste beco entre uma padaria e um açougue, com adrenalina correndo da cabeça aos pés. Na rua, o trânsito está parado. Engarrafado, como sempre. Aquele cara já está nos olhando há um bom tempo. Poderia ter chamado a polícia. Será que ele votou em Doria? O cara ganhou as eleições. Uma porrada de gente deve ter votado nele. Talvez não aquele cara do carro, mas aquele outro, de boné, carregando o caderno debaixo do braço.

Estranhamente, não me importo.

Porque diante de mim, está Manuela. A garota de cabelos azuis agora me olha com olhos doces e enigmáticos. Sei que ela quer me dizer alguma coisa, me desafia a decifrar sua mensagem, mas minha mente não consegue entender. Ela me deixa louco. E Stela, ao lado dela, é exatamente assim. Tem o mesmo olhar — “decifra-me ou devoro-te”, e eu sei que estou condenado.

O grafite de Stela é como seu cabelo. Doce e em tons pastéis. Profundamente feminino e fascinante. E parece completamente deslocado ali, naquele lugar que cheira a pão dormido e carne podre.

Ela dá os últimos retoques no desenho e se vira para mim. A blusa branca talvez não tenha sido sua melhor escolha. Ela suspira.

— O que você acha?

— Ele se parece com o seu coração. — Digo. E estranhamente, isso basta.

Notas finais
Se você falar inglês e quiser saber mais sobre grafite feminino, neste blog tem uma entrevista com a artista Stela, que fez os grafites que ilustram esta história. Também tem mais fotos do trabalho dela. Vale muito a pena!: https://jessicapabon.com/2013/03/21/interview-with-stela/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!