Gotten
9 8. Psicologia Materna
Notas iniciais
Então, silenciosamente, caminhe comigo
Como qualquer outro dia
Sem despedidas tristes, sem lágrimas, sem mentiras
Vamos seguir os nossos caminhos separados
~~°~~
Por alguma razão que desconheço, Rick passou a me evitar depois de nossa “festa do pijama” desastrosa e, em partes, eu até achei o afastamento uma coisa boa, pois assim eu poderia pensar melhor no que ele tinha dito para mim – bem, para o meu eu adormecido, mas dava no mesmo, não é? Lanie também não me procurou, o que achei estranho, mas não comentei com ninguém. E, com ninguém, digo meus pais.
Certa noite, depois do jantar, mamãe deixou papai na sala sozinho para vir conversar comigo. A esse ponto, meu quarto já estava organizado e eu não precisava mais dormir no chão. Estava agarrada ao meu exemplar de “Deslembrança” quando ela entrou no quarto; sequer olhei para cima de tão envolta que estava na leitura.
Mas mamãe não me deixou continuar lendo, pois, de alguma forma, ela já sabia que alguma coisa estava errada, e o que eu podia fazer para desmenti-la? Afinal, não é dito que as mães sabem de tudo? Eu não queria contar, mas ela parecia tão extasiada em tentar resolver os meus problemas que acabei me abrindo para ela.
Contei sobre como Rick se declarou para mim enquanto achou que eu estava dormindo – e recebi alguns sorrisinhos indiscretos dela, os quais não me agradaram nem um pouquinho – e como, de repente, passou a me evitar como se eu fosse tóxica. E papai resolveu entrar no quarto justamente no momento em que mamãe começou o sermão sobre o sexo com proteção. Então, de repente, tudo o que eu queria era um buraco no chão para me esconder. Pude ver que papai também não estava gostando nem um pouquinho do rumo daquela conversa.
– Nós não fizemos sexo! – gritei, impedindo-a de continuar me atazanando com perguntas indiscretas – Mãe, quando eu disse que “dormimos juntos”…
– O quê? – papai me interrompeu, subitamente interessado na nossa conversa.
–… eu quis dizer no sentido mais inocente da palavra – prossegui, ignorando os grunhidos desconfortáveis de papai.
– E então ele passou a ignorar você? – mamãe questionou.
– Ele o quê?
– Jim! – mamãe exclamou – Estou tentando ser uma mãe prestativa para a minha filha, e nós duas precisamos ter esse tipo de conversa. Precisamos ser conectadas, eu e ela.
– Tudo bem – ele deu de ombros, ajeitando-se no lugar.
– Jim – mamãe o chamou, rolando os olhos até a porta, mas mesmo assim, ele pareceu não entender, ou só se fez de estúpido mesmo – Nós duas precisamos ter essa conversa, mas sozinhas.
– Oh! – ele pareceu surpreso – Oh!
Eu ri quando vi as bochechas dele ficando cada vez mais rosadas, como se, em algum momento, tivéssemos dito algo impróprio ou qualquer coisa do tipo, mas pude notar o quão envergonhado ele estava por estar tão alheio à minha vida de jovem adulta. Mamãe o beijou com rapidez, logo voltando a ser a psicóloga que eu tanto precisava no momento; seus olhos esverdeados pediam por mais, e então eu entendi o que papai tanto dizia sobre como “os olhos são a janela da alma”. Era possível ver o elevado grau de excitação que corria pelas veias dela enquanto perguntava por mais alguma coisa.
Disse como Rick era conhecido pela galinhagem e como nós dois nunca íamos dar certo e blá blá blá; ela não parecia interessada nisso, mas em como eu me sentia em relação a ele. E era essa a questão: eu não sabia como me sentia em relação a ele porque tinha passado tempo demais o vendo só como um bom amigo – um amigo, só isso.
Mas eu também não sei se quero vê-lo só como um bom amigo, não mais…
△
Estava na frente do espelho, penteando os cabelos com a escova de madeira; a calça jeans parecia muito justa e eu contive o impulso de ir até o meu armário para escolher outra coisa. Na verdade, sequer precisei fazer isso – minha mãe, assim que entrou no quarto para me dar mais alguns dos seus chamados “conselhos maternos”, começou a me dar um sermão sobre como eu devia usufruir melhor da minha feminilidade e que eu precisava usar coisas mais soltas. Até porque eu estaria saindo para, nas palavras dela, “arranjar alguém”.
– Johanna Beckett! – eu a repreendi enquanto ela jogava um vestido vermelho para mim – Eu não estou saindo para arranjar ninguém! Eu só estou saindo pra esquecer o que o Rick disse, e você vem cheia de coisa querendo que eu arranje outro cara? Um que, talvez, seja ainda pior?
– Eu só falei que você poderia arranjar alguém pra fazer com que você esqueça o dano que esse tal de Rick – é ele o mecânico, à propósito? – já lhe causou, querida.
E eu ri enquanto tirava as calças, jogando-as num bolo de roupas no chão do meu banheiro – e ainda não me acostumei com o pensamento de um banheiro só meu. O vestido caiu bem no meu corpo, mas estava bem acima dos meus joelhos – coisa que eu não gostava nem um pouquinho, mas pelo enorme sorriso no rosto de mamãe, resolvi usá-lo mesmo assim.
Logo Josh estaria lá embaixo e eu não queria parecer nervosa – o que eu estava, de fato – então, sentei-me ao lado de mamãe na cama e deitei a cabeça em seu ombro, respirando fundo enquanto sentia o perfume de baunilha empesteando as minhas narinas. Cheirava como lar e eu não sei o que faria se não fosse por ela… nos melhores e piores momentos, era ela que estava lá, e eu não queria saber de mais nada quando conversávamos.
O quesito “mãe” estava bem longe quando começávamos a conversar – de um momento para o outro, ela se transformava na “melhor amiga”, e eu não iria querer nenhuma outra pessoa ocupando esse lugar.
– Qual é o nome dele? – ela me cutucou na barriga, fazendo-me ajeitar a postura; olhei para ela e mordi os lábios ao ver como ela estava interessada na minha vida amorosa agora – Ora, o que foi? Sou uma mãe preocupada agora, ouviu? Virei mãe em tempo integral agora que seu pai quer que eu fique com você, e isso não é muito do meu feitio!
– Eu não quero que fique sem trabalhar – fiz bico – Como poderemos compartilhar histórias engraçadas sobre os acusados?
– Eu sei, querida – ela beijou a minha bochecha, e limpou uma lágrima que descia pela sua bochecha – Nós duas vamos conseguir; eu vou começar a trabalhar de novo e você vai começar uma nova vida amorosa aqui, tudo bem? Nós vamos fazer desta cidadezinha pacata a nossa nova vida, tudo bem?
– Tudo bem – eu sorri, abraçando-a com força; tudo o que eu queria era passar o dia em seus braços, recebendo os seus beijos e assistindo um filme qualquer.
– Então… qual é o nome dele? – ela perguntou num sussurro baixinho e eu comecei a rir.
– Josh – minhas bochechas queimaram – Ele é bem legal, apesar de não conhecê-lo muito bem. Sei que começou a faculdade de medicina há pouco tempo e… bem, ele quer fazer cardiologia.
– Isso é ótimo, Katie – ela riu baixinho – E você? Já está pensando no que vai fazer?
– Não – cruzei os braços sobre o peito – É muito difícil escolher, sabia? Como você escolheu?
– Ah – ela suspirou – Eu só segui o que o meu coração pediu; de algum jeito, eu sabia que uma vida maravilhosa me esperava caso eu escolhesse seguir o curso de Direito e eu… bem, eu fiz. E aqui estamos nós!
– Aqui estamos nós – murmurei contra os seus cabelos.
– Voltando ao assunto principal… – ela riu – Ele é bonito?
– Mãe! – eu ri.
Mas eu nunca tinha realmente parado para pensar se Josh era bonito; eu sabia que era uma pessoa legal, sensível e bem razoável, apesar dos problemas de drogas e bebidas. De repente, vi-me com uma imagem dele na cabeça – os ombros fortes, a pele morena e os cabelos escuros caindo sobre o rosto, os olhos escuros e os braços musculosos que tinham me envolvido num abraço não tanto tempo atrás. Acho que eu poderia dizer que ele era bonito, sim.
Livrando-me de responder à pergunta sufocante, a campainha soou pela casa e mamãe correu para baixo para atendê-la; eu ri e voltei ao banheiro, ajeitando os meus cabelos sobre os ombros; olhei para o meu reflexo no espelho, mas não vi a mim mesma ali. A menina do espelho me encarava de volta com as feições entristecidas, e seus olhos pareciam arregalados de pavor; por quê?
Balançando a cabeça, larguei a escova sobre a pia de mármore e desci as escadas, respirando fundo para conseguir acalmar os batimentos do meu coração. Para qualquer um, aquele era apenas mais um encontro adolescente, mas não era bem assim – e nunca seria. Eu me sentia mal em estar usando Josh para meus fins próprios, mas afastei esses pensamentos e sorri para Josh; e ele estava bonito.
Os cabelos negros estavam uma bagunça total, mas parecia combinar com ele. Usava roupas que não imaginei vê-lo usando diariamente: calças sociais e uma blusa de botão faziam parte das vestimentas formais que, definitivamente, pareciam combinar muito com ele. Os sapatos engraxados brilhavam muito – talvez até mais do que era pretendido, mas isso não me incomodou nem um pouco.
Sorri para ele e deixei que me abraçasse apertado; envolvi seu pescoço com as mãos e ouvi um pequeno elogio sussurrado ao pé do ouvido. Afastei-me com rapidez, sentindo as bochechas queimando e, antes de sair, soprei um beijinho para mamãe, que fazia um sinal afirmativo com o polegar. Contive a risada e deixei que Josh segurasse minha mão, entrelaçando os nossos dedos. Eu não sabia para onde estávamos indo, mas, por alguma razão, não me incomodei nem um pouco em não saber o destinatário.
△
Em algum momento no meio do caminho, reconheci as árvores pontudas e os arbustos sem graça; de repente, eu sabia exatamente para onde estávamos indo. Cogitei pará-lo e dar meia volta para irmos a um lugar diferente, mas que diferença poderia fazer?…, afinal, aquele pátio não era exclusivo, e eu tinha certeza que Rick já teria se esquecido da nossa conversa – obviamente, não tínhamos nada um com o outro, e aliás, Josh também era o meu amigo. Por que eu não poderia ir até lá com ele?
Respirei fundo conforme íamos diminuindo a velocidade, e senti o perfume das árvores inundando os meus sentidos quando Josh tocou o meu rosto com as costas das mãos; àquele momento, pouco me importei com o que ele iria fazer. Descobri que, numa curta caminhada – ou talvez não tivesse sido tão curta assim –, ele iria fazer medicina quando conseguisse convencer seus pais de que era melhor, que ele conseguiria mais dinheiro para ajudar nas despesas e que tinha um irmão mais velho que vivia em Los Angeles.
Em comparação à minha história, a vida dele era lotada de altos e baixos que eu nunca esperaria se o conhecesse superficialmente – o que eu, de fato, fazia.
– Obrigado – ele sorriu para mim, ajeitando os meus cabelos.
– Pelo o quê?
– Por ter aceitado sair comigo e tudo mais. – ele ajeitou a postura e aprumou-se, olhando-me de cima – Sabe, eu achei que tinha alguma coisa acontecendo entre você e o Rick, mas… bem, eu acho que ele é bastante possessivo com quem ele gosta.
Não respondi porque não sabia o que dizer.
Em um momento nós estávamos conversando como duas pessoas normais, e no outro todos os assuntos do mundo pareciam ter sido extintos; baixei os olhos e tentei não corar ao sentir seu olhar penetrante sobre mim. Por alguma razão, o assunto “Rick” era assunto proibido, e Josh pareceu perceber isso no instante em que eu parei de respirar com regularidade; arfadas foram necessárias para que eu recuperasse o fôlego.
– Desculpe – ele riu, ajeitando as mechas escuras atrás das orelhas – Eu só…
– Relaxa – eu ri também, aproximando-me dele – É como se ele sempre estivesse com todo mundo, mesmo sem estar. É confuso e eu não sei se gosto disso – ele riu baixinho, e eu o acompanhei – Eu quero poder sair com quem eu quiser, e esse alguém é você.
– Fico contente em ouvir isso – ele murmura, aproximando o rosto do meu; como ele é bem mais alto, curvou-se para conseguir a proximidade ideal – Eu estou com uma puta vontade de beijar você agora. Isso seria errado?
– Não sei – mordi o lábio inferior, mais por nervoso do que por provocação; de verdade, eu estava confusa – Seria?
– Seria – ouvi a voz irritada vinda de trás de mim e pulei ao sentir sua mão em meu ombro; olhei para ele e vi o maxilar trincado, os punhos cerrados e os olhos semicerrados.
Josh engoliu em seco, e pelo rosto pálido, pude perceber o quão amedrontado ele estava naquele momento; não era por menos, eu também estava, e não era eu a ameaçada aqui. Dei um passo à frente para tentar impedir maiores danos, mas antes que eu conseguisse sequer me situar, ouvi o conhecido som de pele contra pele e pulei mais uma vez – ótimo, que grande guerreira eu sou, não é?
Gritei o nome dos dois, mas isso não pareceu impedi-los, pois a pancadaria continuou como se eu nem estivesse ali; gritei mais uma vez e, finalmente, bati em um deles – qual foi? Não faço ideia; mal conseguia enxergá-los direito por causa dos movimentos bruscos e mal pensados. O nariz de Josh sangrava como um chafariz, e eu tinha medo que tivesse quebrado; empurrei o corpo de Rick para o lado enquanto me ajoelhava ao lado de Josh, tocando a imensidão avermelhada com dois dedos.
– Não, Kate – ele me impediu de tentar ajudá-lo – Está tudo bem; não dói tanto assim.
Mas eu sabia que ele estava mentindo.
– Cale a boca e me deixe ver – pedi, empurrando seu braço para o lado – Nossa, parece feio. Eu sinto muito, Josh… se houvesse qualquer coisa que eu pudesse fazer para aliviar isso aí, eu faria, mas…
– Ei – ele me calou, acariciando as minhas maçãs do rosto – Está tudo bem, pequena. Eu vou ficar legal; só preciso de uma ajudinha para levantar… sinto muito que não podemos terminar o nosso encontro hoje.
– Podemos adiar – eu pisquei e ele sorriu com dificuldade, fazendo careta depois; devia estar doendo como o inferno – Não faça nenhum movimento com o rosto; sequer fale! Vá direto para casa para cuidar disso aí, ouviu?
Ele balançou a cabeça em concordância e eu sorri, ficando na ponta dos pés para beijar suas bochechas sangrentas. O gosto metálico invadiu a minha boca, mas por alguma razão, não me importei muito com isso; ele olhou para trás de mim com os olhos semicerrados como se, em silêncio estivesse marcando uma revanche. Empurrei-o de leve e ele sorriu para mim, tocando o meu rosto com as costas das mãos, acariciando a minha pele e, então, finalmente, começou a se afastar.
Quando decidi que já estava longe o suficiente, eu me virei para Rick, que limpava as mãos nos jeans sujos e surrados. Cruzei os braços sobre o peito e sacudi a cabeça, afastando-me dele o máximo que pude; em apenas alguns minutos de caminhada, senti que havia alguém atrás de mim, e eu sabia quem era, só não queria olhar.
– Flor, nós podemos pelo menos conversar um pouco? – ele pediu; fingi que não ouvi e continuei andando.
Todas aquelas esquinas pareciam iguais, e tudo o que eu mais queria era poder ir para casa, me enfiar debaixo dos cobertores e desabafar com a minha mãe, porque sabia que ela estaria disposta a me ajudar no que quer que fosse, principalmente se fosse no quesito ‘meninos’. Aí então ela iria explodir de felicidade, então resolvi tomar o caminho mais curto para casa; pude notar que ele ainda me seguia, mas não mais tentava conversar comigo.
E isso era bom, não era?
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