Gotas de Silêncio

1 Capítulo Único


Abri os olhos, minha cabeça estava doendo muito, e eu não conseguia me mover. Aos poucos fui tomando consciência sobre onde eu estava. Em minha frente via o teto, e não conseguia mover minha cabeça para os lados. Meu corpo todo estava formigado, e minha bochecha estava coçando. Porém não conseguia mover um músculo. Tudo o que eu tinha era um teto branco.

— Parece que finalmente acordou então? _ uma voz doce e suave, imaginei ser uma jovem moça. Eu não podia responder, algo estava tapando meu rosto inteiro. Com minha cabeça quase me matando eu não conseguia lembrar como cheguei ali, o que era provavelmente um hospital.

— Consegue me dizer qual o seu nome? _ eu ri em pensamento, sequer podia dizer oi, nem ao menos podia me virar para ver com quem eu conversava. De qualquer forma, por estranho que parecesse, eu não recordei como me chamava, e ainda assim a moça prosseguiu.

— Eu vim lhe fazer companhia enquanto você melhora.

Fiquei grato por ter algo diferente do teto ali, um som. Passados alguns minutos com o silêncio dela, fiquei sem saber se ela estava ou não ali. Não conseguia mover um membro sequer para chamar a atenção. Tudo o que eu podia fazer era piscar os olhos e pensar. O som de passos ali perto alimentavam minha hipótese de estar em um hospital.

Eu tentava incessantemente me recordar meu nome, não sei sequer se sou um homem ou uma mulher, ou quantos anos tenho. Só sei que vivo pois imagino que alguém falou comigo. Estou delirando?

— Eu imagino que você não saiba que horas são, e ficar o tempo todo olhando pra cima deve estar te chateando, posso me aproximar para te olhar melhor?

Talvez eu realmente estivesse delirando, aquela voz falava comigo mesmo que eu não pudesse responder. Talvez ela sabe quem sou? Ao menos deve saber onde estamos. Dúvidas são as únicas coisas em que consigo pensar. Levei um susto que expressei somente em minha mente, um rosto feminino de uma jovem, muito bela por sinal, apareceu, me olhou no fundo dos olhos e sorriu.

— Vejo que está acordado mesmo, não são só os sinais vitais que mudaram. Isso é mesmo muito bom.

O rosto saiu da minha frente e minha cabeça começou a doer ainda mais. Quem era aquela moça afinal? Eu mal conseguia ouvir o que ela dizia, a dor estava me deixando tonto, escutei o som de uma cadeira se mover e passos apressados de algumas pessoas, o som aumentava a cada segundo.

**

Abri os olhos, minha cabeça doía muito, aos poucos me recordei do que aconteceu antes que eu apagasse. Realmente eu estava no hospital. Deve ter acontecido algo grave comigo. O rosto daquela mulher logo veio em minha mente, sua voz doce não me deixou solitário, mas o teto era o mesmo.

— Eu não se pode me ouvir, mas todos estão muito preocupados com você. Eu vou sai agora, é a vez da Karen ficar contigo.

Tudo o que eu precisava eram mais pessoas falando comigo sem eu saber o que está acontecendo. Pelo menos sei que esse cara que falou comigo, e essas outras pessoas a quem ele se referiu, estavam preocupados comigo.

Espero que Karen seja aquela linda moça que conheci da outra vez.

— Olha eu aqui mais uma vez, espero que o teto não tenha te tratado mal. _ a voz riu suavemente. Era a mesma voz da outra vez.

— Os sinais vitais estão diferentes, Fernando e um lerdo mesmo, nem deve ter notado a diferença, será que você está acordado?

O rosto dela apareceu novamente em minha frente, eu me assustei enormemente, o rosto era o dela, e me pareceu ainda mais familiar, como se eu a conhecesse a muito tempo. Ainda assim não conseguia lembrar de nada. Não foi isso que realmente me impressionou.

Ela parecia ter envelhecido uns vinte anos, seus cabelos acusavam alguns fios grisalhos, algumas rugas lutavam com a maquiagem para se mostrarem em seu doce rosto sorridente.

Doce rosto sorridente...

Essa observação ecoou no fundo de minha mente, eu sentia como se eu gostasse muito daquela mulher. Eu poderia dizer que a amava se eu pudesse me mover. Mas ainda assim não tinha certeza de quem eu era, ou de como eu me chamava. Eu ouvi alguns passos, parecia que alguém parava ao meu lado.

— Olá Roberto, parece que você pode me ouvir. Muito prazer, meu nome é Stuart. _ senti meu coração partir em dois, era a voz de um homem, uma voz agradável, a situação fez com que eu me sentisse destruído por dentro. Aquele era meu nome, não sei como mas tive certeza que era eu quando ouvi.

Talvez eu seja o Roberto.

— Bem querido... faz tanto tempo que está aqui que bem eu... eu e a Jasmin... encontramos essa excelente companhi.... _ ela não conseguiu terminar a frase, começou a soluçar e chorar, e eu não conseguia me lembrar de nada que aconteceu. PORQUE MERDA ISSO ESTÁ ACONTECENDO COMIGO? Comecei a ficar enfurecido, a dor de cabeça sequer fazia diferença e a adrenalina tomou conta de todo o meu corpo. A única coisa que eu desejava naquele momento é que a moça... bem, a senhora da voz suave ficasse melhor.

Ouvi um caminhar com sapatos sociais ali perto, era o homem se aproximando, o som das roupas me fez imaginar que ele abraçou ela. Não consigo descrever quão grande foi o ciúme que senti naquele momento. Ele falava frases confortantes como “não foi sua culpa, ninguém queria que chegasse nessa situação, ninguém iria tão longe quanto você por ele, tenho certeza que se ele pudesse tiraria toda essa dor de seu peito”, e falou tantas outras coisas, ela realmente chorou por muito tempo.

Senti vontade de matar o culpado por tudo aquilo.

A situação mudou completamente de clima quando ouvi a voz de outra mulher, ou talvez uma garota, na porta. A voz era realmente semelhante a de Karen. Ela se aproximou, eu pude ver o rosto dela. Parecia aquela jovem da voz suave que falou comigo na primeira vez em que acordei. Ela se aproximou muito do meu rosto, me deu um beijo entre os olhos e disse.

— Eu te amo pai, mas você deve entender que eu e a mãe tivemos que seguir em frente. Eu sinto muito por tudo.

Se pudesse estaria chorando naquele momento. Mas até mesmo isso havia sido me negado. Minha mulher, minha filha... eu começava a me recordar delas aos poucos... na verdade somente da minha esposa, grávida. A dor aumentou, não a da cabeça, mas a do coração, nada podia amenizar a minha dor. Chorei em pensamento com tanta força que perdi a noção dos sentidos. Os grunhidos a minha volta não faziam mais nenhum sentido.

**

Eu sonhei que estava no carro com minha esposa. Ainda grávida ela insistia em dirigir para mim. Nesse sonho eu não tinha as pernas, mas o carro tinha todas as adaptações necessárias para que eu pudesse dirigir.

Como eu amava aquela voz suave...

Ela começou a aparentar estar com algum incomodo na barriga, logo eu me preocupei com a criança. Pedi pra ela parar, mas ela não quis, quando se virou para olhar para mim.

BIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.

O zunido se estendeu, veio a pancada. Um caminhão invadiu a contramão e bateu de frente conosco. Não sei quanto tempo passou mas escutei o som de uma ambulância.

“A CRIANÇA, SALVEM A CRIANÇA.” Eu gritei tantas vezes, com tanta força, que mal pude contar.

As vozes ao meu redor... me lembro com tanta clareza, o sonho foi aterrorizantemente real....

Tem uma mulher grávida no carro!

Só temos uma maca, levem o homem paraplégico, a mulher não está tão ferida.

Mas ela está gravida, e o homem não está se acalmando, ele vai morrer!

SALVEM A CRIANÇA, SALVEM A CRIANÇA, SALVEM A CRIANÇA!...

Acordei assustado, eu me sentia muito fraco. Aos poucos me lembrei de onde estava, e das outras duas vezes que acordei. Dessa vez minha cabeça não estava virada para o teto, mas para o lado. Eu via uma família, um homem, Karen e Jasmin. Eu não fazia parte daquela família. Se eu pudesse ter dito algo eu teria dito:

Que bom que vocês conseguiram viver bem sem mim.

A família chorava muito, quando me dei por conta vi os aparelhos ao lado da cama, estavam todos desligados. Eu me sentia muito cansado, cansado de tudo sem saber exatamente o que tudo era. Eu só queria dormir, sem precisar rever aquele pesadelo.

Queria muito dormir.

Dormir para sempre.

Notas finais
Não me responsabilizo pela presença de ciscos em vossos olhos. DROGA, entrou um aqui #sadface.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!