Got My Heart In Your Hands
165 O passado acaba aqui, vamos fazer nossa história
Notas iniciais
Pierre e David tiveram que voltar para o hotel, afinal, estavam sem dinheiro nenhum com eles. Quando chegaram Melanie e Lennon já estavam dormindo e Samanta cochilava em uma cadeira ao lado da cama de Melanie.
– Vou dizer pra ela que já pode ir embora. — David sorriu vendo a cena.
– Tá bem. — Pierre sorriu também.
– Sammy...? — David encostou a mão no ombro de Samanta.
– David, hum... Já voltaram? — Ela disse acordando.
– Sim, você quer ir pra casa?
– Sim, estou um pouco cansada, mas se quiser posso ficar mais um pouco.
– Não, pode ir, obrigado. Aqui está seu pagamento.
– Obrigada David... Então até a próxima.
Ela saiu, e David foi até a sacada onde Pierre estava.
– Tá com fome?
– Um pouco.
– Espera aí então.
– O que você vai fazer?
– Fica no quarto, tenho uma surpresa pra você. — Ele disse afastando-se de David.
– Surpresa?
– É, mas espera.
– Tá bem.
Pierre saiu do quarto e David foi tomar um banho, ele estava curioso para saber a surpresa de Bouvier.
“Enquanto eu me esquecia de outros casos, você roubava o meu riso mais contido. Enquanto eu dormia um sono como qualquer outro sem vestígio de amores, você entrava neles e me abanava lá de longe querendo alguma coisa sem dizer nada. Enquanto eu ia, vivia, repelia a paixão e embrutecia ao amor, você me parava no trânsito, na calçada, na porta de casa, no andar de cima, na janela do vizinho, em todas as fotografias… Você me parava pelo mundo e me ganhava na dúvida, no “será”, no “talvez” e no “quem sabe”. Até o “sim” você me arrancou. Eu, logo eu, que sempre disse “não”. Porque você me olhava, e eu sorria, e o acaso nunca é tão ao acaso. Você cravou o meu “eu te amo”, único.”
“Eu faço tudo errado. Sou desse tipo de gente que quer, mas não tem coragem. Que vive, mas morre pelos cantos. Que imagina o que não existe e faz existir o que imagina. Sempre perco chances por medo de perder mais um pouco. E quando já vi, perdi tudo. Mas nesse tudo ou nada, eu sempre serei o mais ou menos. Nas minhas veias correm sonhos, nos meus sonhos eu sou quem quero ser. E o que quero ainda não é o que sou. Bordo em meu coração as pessoas que amo, mas pra eles eu sou apenas um retalho desgastado. Vejo flores onde há pedras e isso me faz cair. Quando caio, permaneço no chão. Não só por questão de preguiça, é que falta alguém que consiga carregar esse peso de amor exagerado que levo nas costas. Na alma, na poesia. Eu vejo cinza onde só há preto e branco, enxergo cores onde a borracha já apagou tudo. Vivo o passado e o futuro, mesmo o presente sendo agora. O agora é o meu depois, o depois é o meu agora. Os meus olhos cansados vêem além das suas pupilas, mesmo que a sua não seja um horizonte bonito de se observar. E como observo! Escuto, mas tento não falar. Ouço a música, mas dançar mesmo eu não sei. Tropeço nas palavras e nos meus próprios pés. Meus passos não possuem ritmo, muito menos a minha vida. Deixo ela seguir sem saber onde chegar, apesar da meia-volta ser sempre certa. Eu faço tudo errado, viro reticências onde deveria ser ponto final e esqueço as vírgulas pelos cantos. Abre aspas e escuta o que vou falar, porém não espere que saia alguma voz. Eu digo mesmo é pelo papel, com rascunhos no lugar das cordas vocais. Sou o inverso do mundo, o mundo me inverteu. E entre tantas outras coisas, eu desejo ser mais do que isso. Tenho um futuro, mesmo que torto, pela frente. Sei que carrego demais nas expectativas e que espero mais do que faço. Quase nunca faço o que quero, apesar de sempre querer fazer. Mas sabe o que desejo mesmo? Pois é, nem eu sei. Sou aquele passarinho, que logo bem cedo, vem cantar na nossa janela. Parece bonito assim de longe, mas no fundo ninguém sabe o que ele realmente quer dizer. “E o que poderia salva-lo, fica ali perdido entre aspas colocadas no lugar errado.”
...
David’s POV: ON
Depois do banho, vesti minhas roupas no banheiro mesmo, afinal, ele era enorme, eu não precisava de todo esse luxo, mas Pierre insistia nisso, então eu aceitei, quem sabe assim ele se sentisse melhor.
Coloquei a mão sobre a maçaneta e ouvi um barulho de alguém arrastando uma cadeira, devia ser Pierre. Abri a porta e logo vi uma linda mesa de jantar a luz de velas no meio do quarto, eu não conseguia acreditar, como ele conseguia ser tão perfeito?
– Finalmente!
– Pierre, você... — Nesse momento senti meus olhos se encherem de lágrimas.
O quarto estava iluminado apenas pelas velas e pela luz da lua que entrava no quarto pela porta da sacada que estava aberta, tinham algumas pétalas de rosas espalhadas pelo chão, e um aroma agradável no ar, como ele conseguiu fazer tudo isso enquanto eu tomava banho?
– David? — Ele me cutucou fazendo me sair de transe.
– Oi? — Eu disse sacudindo a cabeça.
– Você tá bem?
– Sim.
– Vamos comer?
– Claro!
Nos sentamos e começamos a comer... Lagosta, e é claro, vinho do Porto. Estava tudo muito bom, terminei de comer e fiquei observando Pierre se lambuzando com a comida. Ri baixo, mas ele escutou.
– Que foi? — Ele disse parando de comer.
– Nada. — Segurei o riso.
– Fala. — Ele me encarou com aquela carinha de bebê.
– Você é engraçado comendo. — Eu ri baixinho.
– Sou?
– É.
– E você parece uma diva.
– Eu o que?
– Nada.
– Repita.
– Cuz I’m famous for nothing!
– Bouvier!
– Oi?
– O que você disse.
– Nada, deixa pra lá, a novela vai começar.
– Novela? Desde quando você assiste novela?
– Desde... Deixa pra lá.
– Ah, você vai me contar!
Quando eu estava prestes a levantar e correr atrás de Pierre, avistei algo vindo por baixo da porta. Era um envelope branco. Levantei e o recolhi do chão, no envelope estava escrito:
Para David.
Lembre de toda tristeza e frustração...
De: Seu pai.
O que? Meu pai? Mas desde que ele soube que eu sou gay ele nunca mais queria me ver, disse que eu não sou filho dele, o que diabos é isso?
Abri o envelope e comecei a ler a carta:
“Estou tentando te esquecer, mas me peguei pensando em você. É inevitável, pois quando eu penso em ti, eu me lembro das coisas boas que tivemos. Afinal, todo namoro tem seus altos e baixos. Lembra-se de quando costumávamos ser felizes? Infelizmente você jogou toda essa felicidade para o ar, deixando o vento soprar. Será que todo esse tempo em que estávamos juntos não significou nada para você? Tudo o que eu fiz não tem importância alguma? Você prefere ficar com um homem que nem te conhece, do que com uma pessoa que se entregou de corpo e alma a você, que te ama, que se sente bem ao seu lado, e que nunca, jamais iria te desapontar? Eu acreditava que não, mas você o fez. Só queria saber o motivo por ter feito isso comigo. Alguém que te ama, e confiou no seu amor. Engraçado, por que a vida é assim? Quando parece que encontramos a felicidade, vem um furacão e arrasta para longe tudo o que construímos com tanto esforço passando por cima de tudo... De repente tudo isso se torna pequeno, uma coisa banal... O amor? De um dia para o outro se torna brasa sem chances de se acender novamente. Um não liga para o que o outro está sentindo, não dá o braço a torcer. Eu te perdi, eu sei que te perdi. Está sendo doloroso para mim, minha alma está ferida, vivo numa avenida dos sonhos quebrados. Isso te lembra algo? É a sua música favorita do Green Day. E como eu sei disso? Porque eu te conheço e sei de cada passo que você dá, mas se você prefere alguém como o professor para lhe fazer feliz, eu só espero que realize. Não vou ficar me lamentando por isso, apesar de estar sofrendo muito. E por mais que negue, eu vi o que fez. Você pode dizer que está sozinho em casa, mas eu sinto que seu amor não passa de uma mentira. E eu, nada inteligente, acreditei nesse amor que você dizia ser verdadeiro. Nada faz sentido. Era isso que queria? Partir meu coração? Pois bem, está fazendo isso direitinho. E tem mais... Eu sei que a sua cor favorita é o vermelho, então eu estou escrevendo esta carta com caneta vermelha. Mas isso não é tinta de caneta qualquer, e sim o meu sangue. Agora reflita no que fez. Por sua causa, eu estou me cortando, fazendo greve de fome outra vez e chorando sem parar. Resultado: estou morrendo lentamente. Porém, pode ficar despreocupado, fica com o seu novo amor que eu vou viver a minha vida. Adeus. Pierre. ”
Terminei de ler a carta em prantos, era aquela que Pierre tinha escrito pra mim, há tanto tempo, eu não acredito que meu pai teve coragem de me mandar isso, eu não acredito, o que ele está querendo de mim? Dinheiro?
Eu não conseguia parar de chorar e Pierre veio até mim, entreguei a carta pra ele, assim que terminou de ler me abraçou:
– Calma, isso é só uma brincadeira de mau gosto.
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