Got My Heart In Your Hands

169 Mas no fim é certo


David’s POV: On

Os meses estão se passando e eu continuo assim: mal, com medo a cada vez que eu saio na rua sozinho, ou até mesmo quando fico em casa. Os shows estão meio parados, ninguém está no clima disso, pelo menos não agora. Penso todos os dias no meu pai... Por que ele fez aquilo? Por que quer me deixar pra baixo? Eu tento encontrar mil motivos, mas não vejo nenhum. Se eu não amasse tanto o Pierre, se eu não precisasse tanto dele, do amor dele, acho que eu já não teria mais nenhuma coragem pra continuar vivendo.

O frio de Montreal nos castiga. Pierre tem ficado muito doente esses tempos. Eu não entendo, ele é tão forte, mas sua saúde está bem mais fraca. Eu também já não sou mais o mesmo, acho que estamos envelhecendo. Esses dias, enquanto eu fazia cafuné nos cabelos de Pierre, pude perceber que alguns fios grisalhos apareceram, eu disse pra ele e começamos a rir feito idiotas.

Bem, são quase duas da manhã e eu não consigo dormir. Pierre está aqui do meu lado dormindo feito pedra, como de costume. Às vezes ele começa a babar e eu tenho que levantar a cabeça dele pra baba não escorrer no travesseiro. Delilah deita em cima da barriga dele, até que se vire e faça-a sair de cima. Melanie e Lennon acordam a noite, e eu preparo um chocolate quente pra elas voltarem a dormir. É sempre assim, na verdade... Desde aquele dia, eu não consigo ter uma boa noite de sono, mas se eu estiver com eles: Pierre, Lennon, Melanie, Delilah e meus amigos, eu sei que tudo vai ficar bem.

“Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavanderia.Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha — é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”

Já que eu na conseguia dormir, me levantei cuidadosamente para não acordar Pierre e caminhei até a sala de nossa casa. Liguei a TV, quase no mudo para não fazer barulho e fiquei assistindo ao noticiário. Eram assassinatos, roubos, casos de traição que não terminaram bem, drogas, entre outras coisas. Fico me perguntando a que nível as pessoas chegam... Tirar uma vida por causa de nada, às vezes de um dólar, isso é tão ridículo, me sinto tão mal ao saber dessas coisas e simplesmente não poder fazer nada. Se as pessoas vissem os erros que cometem, talvez o mundo não estivesse tão ruim assim.

“Eles estão por todos os cantos pedindo um trocado, vendendo uma bala, perdendo a saúde, ganhando uma dor. Eles são diariamente ignorados por vidros fechados e olhares antipáticos — Não quero sua bala, não tenho um trocado, não quero te ajudar. Humanos totalmente submersos dentro de seus carros, em cima dos seus saltos, não tendo tempo pra olhar pelos lugares que passam todos os dias. Humanos afogados em egoísmo podem morrer sufocados, mas não abrem os vidros, os olhos, e muito menos a alma. Se contentam com a ganância de nunca ter nada, mas sempre acham pra um cigarro, ou uma cerveja, mas não pra matar uma fome — Um real eu não tenho, tenho cinquenta, mas tenho pra mim. Se não te sobra nem uma pila, é porque não me sobra nem uma dó. Tenho boletos, contas, roupas pra comprar, mas não tenho pra matar sua fome. Não posso te ajudar, preciso comprar leite ninho e um Iphone novo pra minha filha porque o dela quebrou. Mas não tenho pro seu café, agora suma daqui porque toda vez que te vejo quando passo por esse lugar eu sinto vergonha desse nosso país, pois sou exatamente igual a ele, protegido por um telhado, apático, cego, afogado. O farol é só uma passagem, e eu não preciso pagar um pedágio. Então minha resposta é não, porque pra você eu não tenho dinheiro, muito menos coração.”

Fui até a cozinha e peguei uma xícara de chocolate quente. Voltei à sala, peguei um livro qualquer e comecei a ler, com a TV ligada. Eu estava preso no meu livro, mas de repente ouvi a notícia de que meu pai havia sido encontrado morto em um beco próximo aqui de casa, entrei em pânico. Ele não poderia ter morrido, não! Eu sei de todas aquelas coisas ruins que ele fez, mas ainda era meu pai.

Pierre me escutou chorando e me abraçou.

– David? O que foi?

– Meu pai... — Eu tentava dizer entre meus soluços. – Morreu.

– O que?

– Acabou de passar na TV.

– Calma, está tudo bem. — Ele disse dando um beijo na minha testa.

Ficamos ali abraçados, até eu cair de sono no chão da sala. Dormi sobre o tapete felpudo abraçado com Pierre.

...

♫It's something unpredictable
But in the end is right
I hope you had the time of your life♫

Droga, meu celular! No mínimo é mais algum cara da gravadora querendo saber se a gente escreveu alguma coisa. Levantei e o peguei do sofá, olhei o número: desconhecido. Atendi mesmo assim:

– Alô. — Eu disse tentando parecer o melhor possível.

– David?

Aquela voz era de... Papai?

– Pai?

– David, me escuta... Não fui eu que fiz todas aquelas coisas, foi meu irmão gêmeo, eu sei, eu nunca te contei porque eu não queria que ele conhecesse a nossa família, pois ele é cruel, ele é doentio. Ele fez todas aquelas coisas porque achou que se passando por mim iria arrancar o seu dinheiro, e agora...

– Ele morreu... — Eu disse com lágrimas nos olhos, ficando feliz ao saber que meu pai não havia feito aquelas coisas.

– Ele me sequestrou, me ameaçou, eu não pude fazer nada. — Eu senti tristeza na voz rouca dele.

– Pai?

– Sim.

– O senhor está bem?

– Estou, mas e você?

– Eu estou... — Ouvi Lennon chorar. – Desculpe, vou ter que desligar.

– É sua filha?

– Sim.

– Cuide dela.

– Está bem.

Eu desliguei o celular e fui ver Lennon. Agora eu me sentia mais leve, tudo estava resolvido, até que enfim, paz, pelo menos por enquanto.

Over My Head — The Fray

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Notas finais
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