Got My Heart In Your Hands

85 À beira do abismo


Notas iniciais
Este capítulo contém algumas cenas baseadas na música do Simple Plan, Welcome To My Life. Espero que gostem e boa leitura.

Here Without You — 3 Doors Down

Narração: Joel

Dois dias se passaram, e nós já estávamos na Austrália. Acordei com a luz do sol refletindo em minha janela. Escutei o canto dos pássaros, e também os gritos de minha mãe. Fui dormir 04:30 da manhã devido a insônia e a ressaca. Só me lembro de ter ido a um bar com meus amigos, e depois disso, adormeci. Estou com uma dor de cabeça terrível, que pode ter sido causada pelo álcool.

─ Acorda Joel! Vai arrumar esse quarto que está uma bagunça! — Disse minha mãe aos berros.

─ Que horas são? — Perguntei ainda adormecido, com a mão na cabeça por ainda estar sentindo dores muito fortes.

─ Quinze pra uma. — Minha mãe me olhou com cara de espanto. Como pude dormir tanto?

─ Está brincando, não está? — Duvidei.

─ Não estou. Olhe para o relógio. — Falou minha mãe mostrando-me o rádio relógio. 12:46. Ela não havia mentido, eu realmente dormi muito.

─ Meu Deus, como essas horas passam rápido. — Levantei-me da cama para então começar as arrumações.

─ Arrume este quarto, não quero ver nenhuma bagunça e nenhuma sujeira.

Movimentei minha cabeça positivamente, como forma de resposta, e passei a arrumar o meu quarto. Havia roupas espalhadas por todo o canto, e minhas gavetas estavam fora de seus devidos lugares. Ou seja, espalhadas pelo chão. O cesto de roupas sujas estava cheio, e é nessas horas que me pergunto: o que fiz ontem à noite?

De repente, escutei o celular tocar.

♫ If only you saw what I can see you'll understand why I want you so desperately. Right now I'm looking at you and I can't believe... You don't know, oh oh. You don't know you're beautiful, oh oh. But that's what makes you beautiful ♫

─ One Direction? Meu toque não é One Direction. — Disse em um tom surpreso. Não me lembrava de ter colocado One Direction no meu celular. Mas não dei a mínima, e fui atender a ligação. Estava escrito “produção”. Também achei isso estranho, já que no meu celular eu não havia registrado o número de meus produtores.

─ Alô? — Atendi.

─ Oi, Pierre. Aqui é o seu produtor e...

─ Pierre? Aqui quem fala é o Joel. — Interrompi.

─ Desculpe-me. Poderia passar o telefone para o Pierre Charles Bouvier?

─ Só um minuto.

Estava tudo muito estranho. Toque do One Direction, produção ligando... E em busca do Pierre, o que me deixou mais confuso. Olhei rapidamente para o celular, e vi o papel de parede: uma foto de Pierre e David. Agora tudo faz sentido, eu estava com o celular do Pierre nas mãos. Mas que droga, o que aconteceu ontem à noite? Acabei trocando até de celular.

─ Bom, o Pierre deixou o celular comigo por engano, e no momento ele não está aqui. Mas devolverei o celular para ele, e peço para ele te ligar.

─ Não, acho que eu posso dar o recado para você mesmo. Apenas diga a ele que o Simple Plan precisa gravar o videoclipe de Summer Paradise hoje, e que as imagens do show já estão prontas.

Lembrei-me do que aconteceu. Viajamos para a Austrália para mais um show do Simple Plan, e com o dinheiro arrecadado, fomos ao bar comemorar o sucesso. Desci um elevador e fui até o quarto de Pierre. Bati na porta e quem me atendeu foi David, com o cabelo bagunçado e lápis borrado, enquanto Bouvier estava tomando banho. Ele apenas abriu a porta e colocou a cabeça para fora.

─ Oi. Posso entrar? — Notei que David não queria abrir a porta direito.

─ Estou trocando de roupa. — Ele respondeu um pouco encabulado.

─ Eu sou homem, também tenho o que você tem. — Não dei importância ao que David havia dito e fui entrando, sentando na beirada da cama. Pelo jeito, eu era o único desorganizado, pois o quarto deles estava tudo na mais perfeita ordem.

─ Joel? O que está fazendo aqui? — Disse Pierre saindo do banheiro com a toalha presa na cintura.

─ Preciso lhe devolver seu celular. — Entreguei o celular nas mãos de Pierre.

─ Ah, muito obrigado. Não vivo sem ele. — Respondeu Pierre beijando o celular.

─ Pierre, você também está com o celular de Joel. Pega ali. — David apontara para uma bolsa.

─ Mas o que houve, hein? Acabamos trocando de celular? — Questionei confuso.

─ Sim. — Respondeu Pierre entregando-me o celular.

─ Vocês precisam gravar o clipe hoje. A produção está os esperando.

─ Que horário?

Percebi a cara de espanto de David quando me fez a pergunta.

─ Agora.

─ Precisamos correr.

Enquanto eles se arrumavam, fui chamar o resto dos meninos. Eles também se arrumaram rapidamente e foram até o zoológico. Algumas imagens do videoclipe iriam ser gravadas lá. As pessoas que não eram da banda, inclusive eu, ficamos observando as imagens. Brincamos com os cangurus e com os coalas. Eram animais dóceis, porém ameaçados em extinção. Que pena!

O processo das gravações estava indo muito bem. Todos estavam concentrados, porém felizes por poderem brincar com os cangurus e outros animais do zoológico. Foram à praia, e Pierre cantou sobre as pedras. Foi tudo muito bacana e divertido, sem exceções das danças que Pierre fazia, no qual eu achava muito engraçado. E teve também a participação do K’naan no áudio da música. É, ficou um ritmo diversificado. Olhei para os lados e uma menina alta, cabelos negros, olhos verdes e magra estava se aproximando.

─ Ai meu Deus! Não me diga que você é o Pierre.

─ Sou. — Respondeu Pierre.

─ Você é lindo. Eu sou muito fã do Simple Plan.

Idiota eu seria se dissesse que ela era fã de verdade. Nem estava se importando com os outros integrantes, apenas com o Pierre, como se ele fosse o único na banda. Fiquei só observando o quão estúpida ela estava sendo.

─ É? E qual a sua música preferida deles? — Precisei me intrometer na conversa, não estava mais aturando a imbecilidade da menina.

Ela pensou por alguns instantes, como se estivesse lembrando-se da música.

─ Ah, aquela que eles estão no telhado.

─ O quê? — Disse Avril lá no fundo, em um tom de indignação. ─ Poser! — Completou.

Laurence a cutucou, tentando fazê-la ficar quieta.

─ Uma que eles estão no telhado, e no fim começa a chover. — Ela insistiu.

─ Perfect? — Perguntei mais indignado ainda, mas também quis provocá-la. Com certeza ela não era fã de Simple Plan.

─ Isso, essa mesma. O Jeff tem um cabelo perfeito.

Comecei a rir de forma descontrolada, e todos riram também, achando que ela estava fazendo uma piada.

─ O que foi, gente?

─ Você está falando sério? — Continuei perguntando.

─ Estou. O cabelo do Jeff é lindo. — Disse a fã se aproximando do David, e falando do cabelo dele.

─ Meu nome é David.

─ Não é Jeff?

─ Não, Jeff é ele. O sem cabelo. — Ele a respondeu apontando para o Jeff.

─ Eu não estou acreditando nisso. — Hayley não se controlou e riu, juntamente com todos.

─ Ai gente, foi só um erro básico. Pierre, poderíamos ficar a sós um pouco? — Pelo menos o nome do Pierre ela havia acertado em cheio.

David passou a fitá-la, em uma expressão séria.

─ É... Ahn... Está bem. — Pierre a respondeu encabulado, e saiu com ela para um lugar mais reservado.

─ Acho que não me apresentei ainda. Sou Sarah.

─ Prazer, Sarah.

─ Prazer é o que você vai sentir agora.

─ Do que está falando?

Sem nem pensar duas vezes, Sarah foi tirando a roupa de Pierre, mesmo ele tentando impedir. Em poucos segundos, os dois já estavam nus.

─ Por favor, eu quero minhas roupas. — Disse Pierre estendendo os braços em direção à Sarah.

─ Não, e quer saber? — Ela jogou as roupas de Pierre no mar. ─ Agora você fica literalmente sem roupa. — Completou mordendo o lábio inferior.

─ Sarah, eu não posso fazer isso... Eu... Não gosto de mulheres.

─ Você é gay?

─ Sou. — Respondeu Pierre suspirando pesadamente. ─ E estou noivo do David.

─ Não importa. Eu tenho certeza que comigo você vai virar totalmente homem. — Ela o deitou na areia da praia, ficando sobre o corpo dele, e movimentou o quadril lentamente, como forma de provocação.

─ Pelo amor de Deus, alguém me tira daqui! — Pierre gritou, mas ninguém conseguia ouvi-lo, pois estavam em uma praia deserta.

De repente, o celular de Pierre tocou. Era David. Quando ele foi atender, Sarah tirou o celular da mão de Pierre e o atirou longe, fazendo o mesmo cair ao mar.

─ Sua louca! — Pierre gritou mais uma vez.

(...)

─ Droga, ele não me atende. — Disse David inconformado.

─ Pode ser que esteja sem sinal, ou a bateria acabou. — Falei tentando acalmá-lo.

─ Eu não estou confiando nessa garota.

─ David, vá atrás dessa garota. Eu também não fui com a cara dela. — Disse Avril, e David movimentou a cabeça de forma positiva. Foi atrás de Pierre, procurando pela praia.

─ Pierre!

─ É o David gritando o meu nome. Por favor, me solta. — Pierre implorou.

Sarah ignorou o pedido de Pierre, e acelerou os movimentos de seu quadril logo que escutou David já próximo. Uniu seus lábios com o de Pierre e o beijou intensamente. Pierre tentou impedir, mas não conseguiu controlar o desejo, e a beijou da mesma forma. David, que já havia se aproximado, prestou atenção em tudo e saiu correndo, voltando a nós.

─ O que aconteceu? — Notei que David estava chorando, mas ele me ignorou e continuou correndo. Fomos atrás dele, mas ele se trancou no quarto e ligou o rádio, colocando no volume máximo, para ninguém ouvi-lo gritando.

Pierre, que já havia saído da praia, tentou bater na porta, mas a música estava tão alta que nada fazia David escutar. Ele estava gritando e chorando alto, porém a música alta estava disfarçando o eco que sua voz formava.

“Eu estou desmoronando, me sentindo deslocado, como se eu não me encaixasse e ninguém me entendesse. Hoje estou querendo fugir, e me tranquei em meu quarto com o rádio ligado muito alto, para que ninguém conseguisse me ouvir gritando. Não, Pierre não sabe como é isso. Quando nada parece certo... Ele não sabe como é ser como eu.

Sentir-me machucado, perdido, deixado no escuro... Ser chutado quando estou caído, sentir-se maltratado e estar à beira de entrar em um colapso, sem ninguém para me salvar. Pierre não sabe como é, então bem-vindo à minha vida.

Eu queria ser outra pessoa, estou cansado de ser excluído. Estou desesperado para encontrar algo mais antes que minha vida acabe. Estou preso num mundo que eu odeio, estou cansado de todos a minha volta com grandes falsos sorrisos e mentiras estúpidas, enquanto lá dentro eu estou sangrando.

Pierre realmente não sabe ser como eu, afinal, ninguém nunca mentiu na cara dele. Ninguém nunca o apunhalou pelas costas. Ele deve pensar que sou feliz, e que estou feliz agora. Mas eu sei que não vou ficar bem. Todos sempre deram para Pierre o que ele queria, nunca precisou trabalhar, isso sempre esteve lá. Então, mais uma vez, ele não sabe como é.” — Dizia David trancado em seu quarto.

Como o rádio estava ligado, Pierre apanhou um papel e uma caneta, e começou a escrever uma carta.

Meu amor... Eu não sei se você lerá esta carta, ou muito menos conseguirá olhar na minha cara depois de tudo o que aconteceu. Mas acredite, eu nunca te magoaria dessa forma. Lembra daquela frase de que não escolhemos por quem nos apaixonamos? Eu concordo, mas comigo foi diferente, eu escolhi você para ser meu. Você deve ter atirado a aliança para fora da janela, como se nosso amor não valesse mais nada. Não queria que isso acontecesse, mas vamos deixar as mágoas e os ressentimentos de lado, pois se continuarmos nessa teimosa intolerância mútua, talvez possamos estar jogando fora um amor verdadeiro.

Se não formos um pouco mais tolerantes, se não assumirmos alguns erros de parte a parte, talvez sejamos capazes de destruir algo de bom, belo e humano que levou tempo para ser construído. Estou deixando o orgulho de lado para lhe pedir desculpas se te magoei em gestos, em palavras ou mesmo em omissões. O afastamento não é, absolutamente, a solução para os nossos problemas. Se não formos um pouco mais "inteligentes", talvez não tenhamos tempo para reparar o erro que estamos cometendo agora. Se você acreditava precisar ouvir desculpas de minha parte, estou fazendo isso agora, em nome de tudo do bom que ainda nos une. Aceite, por favor. Perdoe-me depressa e vamos colocar esta nossa linda relação em pratos limpos novamente.

Eu sei que errei, não devia ter aceitado a proposta de Sarah de ter ido até à praia, eu fui mesmo um idiota, agi mal. Mas não aconteceu nada, eu me lembrei de você, e saberia o quão magoado ficaria — mais magoado do que já está — se tivéssemos feito amor na praia. Mas por sua causa, não o fiz. Não o fiz porque pensei em você, e tudo que tivemos que enfrentar para ficarmos juntos. Espero que você me perdoe e que leia esta cartinha até o fim, pois tudo o que eu quero é lhe pedir desculpas, tudo o que eu quero é dizer que cometi um grande equívoco. Sei que pisei na bola com você, não levei muito a sério o seu sentimento. Realmente tudo foi produto de minha insensatez e eu estou arrependido. Volto a pedir perdão pelo que te fiz sofrer. Sei que você está chateado e entendo perfeitamente as suas razões. Não é bacana o que aconteceu. Já tentei até me colocar em seu lugar e compreendo a circunstância triste e constrangedora em que lhe coloquei. Confio neste seu generoso coração, confio na pureza da sua alma e espero, sinceramente, que você me dê mais uma oportunidade, para que eu lhe faça se sentir feliz e muito amado. Tenho uma grande esperança de que você me desculpe. Só queria uma resposta para toda essa angústia que se prende em meu peito, e me carrega ao caminho das trevas, fazendo-me chorar a cada segundo. Já chorei tanto que nem sei se tenho mais lágrimas. Se eu pudesse voltar ao passado e reescrever nossa história, tudo seria diferente. Mas foi o medo. Eu tive medo de perder nessa guerra, de perder você. Agora eu sei que cometi um erro, talvez o maior erro de toda a minha vida. Escrevo essa carta para dizer a você que estou tão arrependido que sinto meu coração doer.

Acredito no nosso amor e sei que você também acredita. Peço que você me perdoe, em nome de todos os maravilhosos momentos que vivemos juntos. Perdoe meu egoísmo, minha ignorância e meu desespero, e volte para mim. A vida sem você ao meu lado não tem graça, não tem cor, não tem música. Volte pra mim porque agora, não importa mais contra quem ou o que, eu preciso lutar, eu vou lutar pela nossa relação até o fim.
Venha ser feliz comigo. Ainda temos muita coisa pela frente para viver. Aguardo resposta. — Com amor, Pierre.

Enquanto isso, Sarah conseguiu encontrar todos os fãs que estavam presentes no show, e chamou a atenção deles dizendo que Pierre e David eram gays. Todos riram, e a ignoraram, pois os fãs já sabiam de toda a história. Mas David não conseguia controlar os seus ciúmes, e pensava em se matar. O que fazer com uma pessoa que acaba de perder praticamente uma vida?

World Behind My Wall — Tokio Hotel

Notas finais
Gostaram? Então deixem reviews. Amanhã tem mais um capítulo, beijinhos.