Goodbye My Friend
1 Farewell...
Notas iniciais
A neve já começava a derreter-se e Jack sabia que o inverno havia acabado. Passaria no máximo mais um dia naquela cidade antes de tomar uma corrente de ar e migrar para outra região.
Isso o desanimava. Para ele, o tempo mal havia dado os primeiros passos e já teria que se retirar. Negar tristeza era o mesmo que mentir para si, porém o que Jack poderia fazer a respeito? Sua vida era o frio e as tempestades congeladas, por isso, não podia simplesmente abandonar seu serviço para ficar em outros territórios. Além de proibido, os outros espíritos ficariam revoltados consigo.
Caminhando pelas ruas movimentadas, agradeceu que nenhuma criança o havia notado. Afinal, ser pego entre uma multidão que não o via seria crítico para a alma infantil de qualquer criança. Quando notou que andava entre os humanos mais velhos, tratou logo de sair dali, sobrevoando o local. O que teria acontecido para que ficasse entre eles? Definitivamente estava com a cabeça deslocada por tantos sentimentos e pensamentos vãos.
Foi naquele momento que desejou encontrá-la novamente.
Rapidamente, alcançou uma boa altitude e guiou-se para a moradia da jovem estranha que conhecera em meio de sua estação. O motivo para vê-la se deve pela vontade de desabafar todas as suas preocupações. Era engraçado o modo como conseguia expressar-se diante daquela humana e não conseguia fazer o mesmo com os outros Guardiões.
De onde tirava tanto ânimo para reencontrá-la era um verdadeiro mistério, assim como sua esperança de que ela o veria novamente. Jack precisava de mais um conselho.
Pousando em frente a casa, Jack procurou ver se a garota se encontrava por perto. Não havendo uma alma se quer, fora espiar pela janela, na esperança que a veria em algum dos cômodos. Para seu espanto, Jack se deparava com uma família a rir e se divertir. Confuso, afastou-se para encarara moradia de forma crítica, confirmando ser a mesma em que se despedira de Aeris.
– O que está havendo aqui? — perguntou-se a encarar a casa com grande desconfiança.
– Quem diria? — a voz um pouco nostálgica para Jack o fez virar-se e dar de cara com Aeris. — Quando acreditei que nunca mais nos veríamos, o "senhor inverno" aparece?
– O que aconteceu? Não havia aquela família quando vim pela primeira vez.
– Eles estavam viajando... Ela é a real dona da casa e gentilmente me acolheram até agora. — rindo da expressão curiosa de Jack, a garota continuou e ajeitou a sacola de compras em mãos. — Esqueceu que não sou cidadã norte-americana?
Demorou pouco tempo até que Jack lembrara-se de seu primeiro encontro com a jovem.
– Vejo que você tem repulsa por roupas pesadas... — referindo-se aos pés descalços e as roupas finas de Jack, a jovem avançou para a casa e este a seguiu instintivamente.
– Já disse que isso não é necessário.
–Eu sei, "filho de foca". Só fico pensando se não sente frio desse modo.
– De forma alguma. — Jack sorriu maliciosamente, o que fez a jovem rir novamente.
– Certo... Quer entrar? — Jack notou a proximidade perigosa da casa e se afastou de novo, porém não muito.
– Prefiro ficar aqui fora e te esperar...
– Esperar? — Aeris não tirou os olhos da face de Jack e logo suspirou derrotada. — Ok...
Sumindo pela porta, Jack voltou a respirar normalmente. Por um triz, conseguira evitar de ser visto pelo garoto da casa junto aos pais. Ficou tão concentrado em sua "conselheira" que deixou-se levar por um caminho muito perigoso. Para Jack, talvez a presença da jovem fosse um perigo constante à luz do dia.
Aeris demorava muito na opinião de Jack. Havia imaginado que ela apenas guardaria as compras de supermercado e logo voltaria, porém não foi esse o ponto. Havia se passado mais de dez minutos desde que ela entrara na residência e nenhum sinal dela. Sua paciência estava prestes a acabar quando, finalmente, as portas se abriram, revelando a família junto de Aeris, que carregava uma grande mala e parecia bem pesada.
– Não quer que a acompanhemos até o aeroporto? — o homem da casa perguntou mostrando uma preocupação de pai para com a jovem.
– Eu agradeço, mas é perto e gostaria de caminhar um pouco mais antes de ir embora. E as outras malas já foram levadas. Só me resta esta.
– Sentiremos muito sua falta. — a mulher deu um caloroso abraço na garota. — Entre em contado conosco sempre que puder para matarmos a saudade.
– Sim, senhora. — sorrindo docemente, a garota ajeitou a mala no ombro.
– Quando quiser um lugar, já sabe onde estamos. — o homem afagou os cabelos negros de Aeris, bagunçando-os gentilmente.
– Muito obrigada.
– Você vai voltar? — a sonoridade manhosa da frase do pequeno jovenzinho chamou a atenção de todos.
– Um dia, talvez... — a jovem beijou o topo da cabeça da criança. — Cuide-se, sim Henry? — Aeris passou a descer as escadas e encarou a face assustada de Jack, porém não apenas esta o encarou.
– Mamãe! Jack Frost! — o garotinho gritou alegre ao ver o espírito do inverno, com toda sua inocência.
– Onde, querido? -a mulher procurava ao redor, mas sem poder encontrá-lo, como esperado por Jack. Jack engoliu a seco enquanto era devorado pelo olhar enigmático que a garota lhe envolvia.
Na pior das hipóteses, ela sairia correndo de puro pavor, mas para a surpresa de Jack, ela simplesmente ignorou o fato dele ser invisível aos olhos dos mais velhos.
– É normal crianças terem um amiguinho imaginário. — a garota comentou com um belo sorriso.
– Tem razão... — a mulher concordou.
Aeris sorriu e se afastou passando ao lado de Jack e este apenas a acompanhou. Simpaticamente, Jack sorriu para Henry, dando um pequeno aceno e ficou feliz ao vê-lo retribuindo o gesto. E por um bom tempo, eles caminharam sem dizer uma só palavra.
Jack estava incomodado com sua situação presente, porém tinha medo de iniciar a conversa. Caminhando ao lado de um parque deserto, a jovem parou para encarar os brinquedos das crianças e um carinhoso sorriso foi dado para o nada. Rapidamente, a garota tomou a mão de Jack, trazendo-o para o parque junto a ela. Cuidadosamente, deixou sua mala em cima de um banco ali perto, indo na direção de um balanço logo em seguida.
– Está quieto hoje. — a jovem comentou se balançando um pouco no brinquedo.
– Você sabia? — Jack perguntou perto da estrutura, mas sem ver diretamente o rosto da jovem.
– Suspeitei de início. — a garota sorriu fracamente. — Eu meio que vejo mais além do que as outras pessoas e estou acostumada com estes acontecimentos repentinos. Ver você sem roupas apropriadas naquela noite me preocupou, confesso, porém logo notei que você não era humano.
– Se assim, por que me deu roupas?
– Você pareceu tão assustado pelo fato de que eu conseguia vê-lo que preferi fingir acreditar que você era humano.
– Hum...
– Agora, o que o espírito do inverno, Jack Frost, quer de mim?
– Conselhos... — respondeu baixo.
– Ora, como conselhos amorosos? — bruscamente a jovem parou o que fazia e encarou Jack de forma travessa.
– Não é nada disso! — Jack respondeu.
– Bem... — Aeris apontou para o balanço vazio ao seu lado, convidando-o para se sentar. — Por que não começa com o que te perturba e vejo o que posso fazer?
Jack demorou a acatar o gesto e quando o fez, contou sua história, temores e dúvidas. Aeris não disse uma só palavra enquanto servia de ouvinte. Sem um motivo real para as atitudes de Jack, ambos apenas entendiam a necessidade do espírito em aliviar a carga que carregava com muito pesar. Minutos em silêncio foram precisos após o discurso de Jack.
– Jack, sinceramente não sei dizer se sua vida é fantástica ou extremamente solitária. — rindo com ânimo, a garota encarou o chão, pensativa. — O decorrer do tempo é indefinido. Para uma borboleta, o tempo é escasso, já para uma tartaruga, o tempo é uma delonga. É isso que somos: Eu, a borboleta; e você, a tartaruga.
– É solitário ser uma tartaruga, então?
– Não ao conviver com outras tartarugas. Nada impede de uma borboleta se tornar amiga de uma tartaruga, pois laços criados são tão eternos como as tartarugas. Mas devemos aceitar nosso próprio tempo.
– Por que estamos falando de tartarugas?
– Você é um espírito amado pelas crianças então imaginei que um exemplo infantil o agradaria. — o sorriso maldoso da jovem explicou o verdadeiro motivo daquelas comparações.
– Pareço uma criança pra você?
– Eu não disse nada. — o rosto da garota riu feliz e carinhosamente bagunçou sem dó os cabelos albinos de Jack. — Resumindo: Jack. Você não pode esperar algo mais do tempo humano. Pode ser difícil abandonar os amigos temporários e vê-los partir quando é for a hora, porém faz com que esse momentos felizes sejam únicos e eternos, tanto para as crianças quanto a você mesmo. É triste perder amigos, mas é feliz fazer novos. E mesmo assim, se não estiver satisfeito, honre a amizade de quem partiu com lembranças eternas. Lembre por vocês dois. — a jovem se levantou e pegou um pouco de neve, fazendo uma rápida bola de neve e acertando a cara de Jack. — Isso é um bom modo de marcar uma amizade.
– É mesmo? — o rapaz não limitou-se em rebater, mas a jovem desviou de seu ataque. — Deixe-me retribuir seu compromisso de amizade.
– Não mesmo... — a jovem olhou para seu relógio de pulso e pouco tempo depois de manter um sorriso triste, uma bola de neve acertou sua cabeça, o que já era de se imaginar.
– Te peguei! — Jack exclamou vitorioso, contudo não se mostrou assim por muito tempo, pois ao ver a tristeza incluída nos olhos heterocromáticos da garota, sua alegria se dissipou. — Aeris?
– Queria poder ficar mais e brincar, Jack. — esta suspirou e ajeitou-se. — Mas, infelizmente, meu voo é daqui a pouco.
– Você vai embora?
– Assim como você. — ela sorriu. — Porém acredito que nunca nos veremos de novo.
– Por quê? — Jack protestou. — Posso ir onde mora no inverno.
– Onde moro não neva.
– Não?
– Não... Moro num país tropical...
– Bom... — Jack coçou a cabeça timidamente. — Não tem problema em visitar países tropicais de vez em quando. — Jack sorriu gentilmente. Aeris nada disse e retirou do bolso do casaco um pequeno bloco de anotações e uma caneta, rabiscando algo em uma das folhas.
– Então... — a jovem destacou a folha de papel e entregou a Jack. — Aqui está meu endereço.
– Agora posso conversar com você sempre que eu precisar.
– Eu sou algum tipo de ouvinte de desabafo grátis? — Aeris riu da própria sátira e pegou suas coisas. Jack se voluntariou em ajudá-la, mas ela recusara. — Como seria a reação das pessoas ao verem uma mala flutuante?
– Seria interessante, admito... — Jack pareceu gostar da imagem. — Não quer mesmo ajuda? Essa mala é bem pesada.
– Não precisa, agradeço. — Jack não mais insistiu e já flutuando para ir embora, encarou a jovem com um carinhoso sorriso.
– Muito obrigado.
– Conte comigo quando precisas, senhor Jack Frost. — formalmente irritante, a jovem ajeitou a mala nos ombros. — Espero vê-lo em breve, mas...
– Até lá, isso é um adeus.
Jack, completando Aeris, encarou um delicado sorriso da jovem e a viu partir. Tomando caminhos diferentes, ambos estranhamente se sentiam mais aliviados e um desejo cresceu dentro deles:
"Espero nos encontrarmos de novo"
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