Good Riddance
45 Tudo que eu quero
Notas iniciais
O último mês de aula passou como previsto. Extremamente confuso e cheio de complicações devido à greve. Mas acabara, felizmente não deixando nenhuma matéria pendente, e todos puderam começar a aproveitar as merecidas férias, que seguiram por um tempo indefinido.
E aproveitando que em Porto Alegre, em pleno inverno, depois de uma semana de um frio de rachar, a próxima geralmente era quente, e quente a ponto de alguém desejar tomar um banho de piscina, André decidiu comemorar seu aniversário de tal maneira. Mudanças climáticas malucas não podiam ser desperdiçadas. Quatro estações numa só. É uma das atrações do Rio Grande do Sul.
Churrasco, álcool, amigos e piscina. O que mais alguém poderia querer num aniversário?
Heitor e Cíntia haviam decidido imitar Adriano e Flávia e foram viajar em uma segunda lua de mel que duraria dez dias, o tempo de férias que ambos poderiam tirar. Heitor esperava que Lázaro recolhesse informações em sua ausência, talvez o filho ficasse mais descuidado sem a presença dos pais. E André, sem ter ideia de nada, acabou convidando o primo para o encontro de amigos.
O loiro ficara sabendo que Lázaro saíra de casa e estava morando sozinho num pequeno apartamento próximo da faculdade. A impressão que tinha era que o primo parecia muito sozinho nos últimos tempos, acabara se penalizando. Agora enquanto arrumava algumas coisas pelo salão, pensava nas vezes em que fora injusto e cruel com o garoto. Seria bom se redimir, apesar de ele ter muitas vezes merecido tal tratamento.
Fabrício chegara mais cedo, afinal, era ele quem seria o responsável pelo churrasco. Inclusive haviam ido juntos ao supermercado no dia anterior para comprar as carnes, os salsichões, um pouco de coração, e já haviam comprado o pão pela manhã. Fabrício ensinara o loiro a escolher a carne – André não tinha ideia de como ver se um pedaço de carne era bom ou não. Antes achava que a carne tinha de ser bem magra, mas o moreno explicou que uma capa de gordura ‘protegendo a carne’ era ótimo para o churrasco, e mais uns detalhes que ele não prestara atenção, pois achava mais do que justo que o moreno continuasse sempre encarregado dos futuros churrascos.
“Isso daqui vai dar uma trabalheira.” Fabrício comentou enquanto pegava as gamelas e limpava os espetos. “Eu vou querer uma compensação depois.” Sorriu malicioso para o loiro, que cruzou os braços mirando-o com uma sobrancelha arqueada e um ar irônico.
“Vai ter de fazer mais do que colocar umas carnezinhas na churrasqueira pra ter a compensação que esse teu olhar pervertido ‘tá querendo e-” André foi logo dizendo, mas então foi subitamente puxado pelo moreno, seu corpo batendo no corpo maior.
Fabrício sorriu e o envolveu pela cintura.
“Por que esperar até depois, não é? Vou pegar parte da minha compensação agora, e de quebra te dar um ótimo presente de aniversário.” Decidiu por si próprio, mesmo que já houvesse dado a ele no dia anterior um tênis para vôlei profissional – pois o André estava querendo voltar a praticar com regularidade –, e beijou o loiro. Naqueles mais de dois meses, André sentia que suas barreiras haviam virado pó e ido passear pelo Saara. Estava cada vez mais difícil negar um beijo, ou toque, uma ousadia. Mesmo quando o moreno merecia, como agora, por totalmente ignorar o que estava dizendo.
Foi prensado contra o balcão onde ele preparava as carnes, e suas costas inclinaram para trás, as pernas ficaram meio bambas, por mais clichê que isso possa parecer. André sentiu um fogo se alastrar, subindo pelas pernas, e culpou a abstinência. Aquele último mês havia sido uma confusão completa com a faculdade, e mal haviam tido tempo de apreciarem momentos a sós. Talvez precisassem de mais alguma viagem juntos, apenas os dois.
“Às vezes eu tenho a leve, mas assim – bem leve – impressão de que tu tem ficado ainda mais abusado com o passar dos dias.” André comentou, debochado. “Deve ser por isso que estou te colocando pra trabalhar hoje.”
“Eu sofro nas tuas mãos.” O moreno lamentou, porém logo sorriu. “Mas hoje é teu dia, então sou praticamente teu escravo.” E ainda lhe roubou um beijo rápido. “Quem tu convidou pra hoje mesmo?” Perguntou, soltando o loiro e voltando a preparar a carne, tirando com a faca as partes desnecessárias, como os sebos, e então as salgando.
“Eles devem estar chegando... Convidei a Gabi e a Daniela, mesmo não gostando dela, fazer o que; ela e o Milo vieram aqui pra Porto Alegre...” Jamais se esqueceria da índia dando em cima de seu namorado. Mesmo que na época não tivessem se acertado ainda. “A Fran e o Rafa, o Leo e a Marília com quem ele anda de rolo e é amiga do Davi e do Guilherme, o Davi e Guilherme claro, o Beto e o Milo, a Tati e o Bruno, que é um carinha com quem ela tem caso desde os quinze anos; a Natália, o Lucas e o Lázaro. Acho que é isso.” Deu de ombros.
“Que popular meu namorado é.” Fafá brincou, espetando uma carne. André não entendia por que achava o moreno tão sexy quando preparava um churrasco. “E a Dani é legal, não tem mais porque sentir ciúmes dela.”
“Não sinto ciúmes!” André se eriçou como um gato. E falando em gato, Sascha e Cherry estavam pela casa brincando. Por mais incrível que fosse, Cherry parecia menos mal-humorada e até perseguia pela casa o filhote, já maior ainda do que antes, não deixando a brincadeira morrer. André aproveitara a oportunidade para ficar com Sascha em casa por uns dias.
Fabrício riu.
“Não, claro que não.” Concordou, no tom de quem não acredita numa sílaba do que ouvia. “Ela e a Gabi tão nesse rolo... Acho que pode até rolar namoro.”
“Namoros à distância são complicados. Só se a Daniela se mudasse pra cá.” André optou por não falar que preferia que isso não acontecesse. “Acho que vou tentar preparar o recheio do pão... Vou fazer do jeito fácil, colocar a maionese, o alho descascado e os cubos de caldo no liquidificador.” Resolveu, prático. Não teria paciência pra preparar algo mais elaborado, mesmo que fácil. Cozinhar não era sua praia.
“Pode ser. O fogo já ‘tá bom.” Fafá disse ao espiar a churrasqueira rapidamente. “Sabe, ‘tava aqui lembrando que até agora não contamos diretamente pro Rafael que estamos namorando. Ele é único que não sabe ainda, né?”
“É... Pior, nem me toquei disso. Mas ele não é burro, só é reservado. Óbvio que ele já percebeu apesar de continuarmos apenas como amigos na faculdade. Senão ou ele é muito lesado, ou nós estamos sabendo disfarçar bem em público.” André comentou alegremente, sarcástico. “Saímos pouco nas últimas semanas por causa dessas provas, né.”
“Mas no fim foi de boa, até podíamos ter saído.” Fafá garantiu, malandro. “Quando fomos àqueles barzinhos com música ao vivo, senti falta de tocar também. ‘Tava falando com uns colegas e eles andam pensando em formar uma banda, me chamaram.”
“Sério? Nem sabia que tu tinha uma banda antes.” André ligou o liquidificador e então se virou para o moreno. “O que mais tu me escondeu do teu passado sem mim? Quero detalhes.”
“Ciúmes?” Sugeriu, mas apenas conseguiu que o outro lhe oferecesse uma careta. “Eu tive uma bandinha com uns amigos, durou três anos, aí vim pra Porto Alegre. Chegamos a tocar nas cidadezinhas próximas, e éramos meio que a banda oficial de lá. Bah, ‘tô com saudades daqueles loucos, agora semana que vem vou voltar, ver meus pais e os amigos... Quer vir também?”
“Terei de ver tua ex também, ou ela arrumou o que fazer da vida?” André torceu os lábios, e particularmente não lhe trazia animação no coração ir visitar os sogros. Fabrício ainda não havia contado sobre os dois, apesar de falar que tinha planos de fazê-lo em breve. Talvez até nessa visita, engoliu a pouca saliva da boca.
“Como é ciumento!” Fafá riu e, se não estivesse com as mãos sujas, teria ido agarrar o loiro de novo. “Bem, eu soube que ela foi pra Santa Maria fazer faculdade lá. Não sei se ela estará lá nas férias.” Deu de ombros. O que sabia da ex, eram os pais que lhes contavam sem que pedisse.
“Vai... contar pros teus pais?” André perguntou, sentindo um arrepio com a ideia.
“Sim, eu não gosto de esconder nada deles. Eles aceitam plenamente o tio Diogo, sei que será uma surpresa, mas eles vão aceitar, conheço os pais que tenho.” Fabrício garantiu, apesar de, claro, sentir um pouco de receio com a reação inicial. “Eu gostaria que tu fosse, eles ainda lembram de ti.”
“Não sei se quero estar por perto quando tu admitir que está namorando outro cara, ainda que esse cara seja inteligente, bonitão e rico, basicamente o genro que tua mãe pediu a Deus. Provavelmente pra tua irmã, mas isso é detalhe.” Desconsiderou dando de ombros, enquanto o outro ria.
“Tu esqueceu de humilde.” Sorriu de lado, e o outro suspirou, estafado.
“Se eu fosse enumerar todas as minhas qualidades, passaríamos o resto da tarde aqui. Não, mas agora sério, acho melhor eu ir numa próxima.” Falou e então desligou o liquidificador. Levou a pasta de alho até o balcão e, após lavar novamente as mãos, pegou os pães e começou a besuntá-los. “Não?”
“Não sei, tu que sabe. Mas vou sentir saudades...” Admitiu num tom mais baixo. André franziu a testa surpreso, achando o jeito do outro fofo. Aproximou-se e o abraçou pelo pescoço, conquistando-lhe a atenção.
“Me bateu aquela vontade idiota de te chamar por algum apelido besta desses que os namorados chamam, sabe? Mas estou me sentindo muito ridículo só por ter essa vontade.” André admitiu, sorrindo torto, divertido e irônico. Fafá roçou o nariz ao do loiro. “Mas eu posso te dar um apelido que combine contigo, tipo praga, ou coisa assim.”
“Que romântico. Olha que eu posso te chamar de Tchutchuco, e na frente de todo mundo ainda.”
“E essas seriam suas últimas palavras.” André comentou brilhantemente, afastando-se. “E sobre essa banda, fala com o Leo hoje, ele toca guitarra e anda louco atrás de gente pra formar uma banda com ele.”
“Sério? Bah, que ótimo, porque o Dudu e o Lauro falaram que um guitarrista seria bom. Eu vou ficar no vocal e violão mesmo.” Comentou, indo levar um espeto de salsichão à churrasqueira.
“Leonardo vai querer te beijar quando tu falar isso com ele.” André olhou pro moreno, sério. “Não deixe.”
Fafá revirou os olhos. Aquele ciúme era perigoso, mas gostava.
“Mas onde anda esse povo, hein? Daqui a pouco começam a sair os aperitivos!” Fafá exclamou e, não bateu cinco segundos, a campainha soou. Sascha apareceu correndo no salão, suas patas escorregando desesperadamente no chão liso, latia e a língua babada sacudia para todos os lados.
André foi atender e juntos chegaram Daniela, Gabi, Milo, Beto, Fran e Rafael.
“O Fafá já ‘tava perguntando por vocês, bando de atrasados.” O loiro falou aceitando os cumprimentos e felicitações. Não gostava muito disso de ficar recebendo ‘feliz aniversário pra cá, feliz aniversário pra lá’, mas gostava de ser o centro das atenções. Receber presentes também era legal.
“Ai, que casa enorme. No dia que eu morar numa dessas, meu corpo vai valer mais que ouro.” Milo entrou analisando, impressionado. “Isso se eu não tiver de vender o corpo pra isso.”
“Nem pense nisso.” Beto o cortou.
“’Tô com fome. O rango ‘tá pronto? Cheguei atrasada pra já ter comida na mesa.” Gabriella brincou. Ou talvez não fosse uma completa brincadeira. André ainda se lembrava da quantidade de carne e pão que ela havia comido no churrasco de aniversário do Diogo, e a lembrança era um tanto assustadora.
“Gabi!” Dani a beliscou na cintura, e Gabi soltou um gritinho.
“Não aperta minhas gordurinhas, sei que tu curte elas.” Gabi a lembrou, maliciosa.
“Ai, eu acho que o Sascha tá quase se mijando, André.” Fran apontou para o cachorro que andava choramingando de emoção pelo chão, praticamente se arrastando. André suspirou, que cachorro idiota. Como começara a amá-lo mesmo?
“Sascha, vai pra dentro. E vamos entrando, pessoal, só descer ali pro salão.” André deu as coordenadas, e o pessoal desceu para o espaço com sofá, televisão, mesa, churrasqueira e balcão. Alguns assobiaram, impressionados. Era um espaço muito legal.
“E aí, galera!” Fafá cumprimentou. Já havia colocado alguns pães pra assar. Considerando o número de pessoas, havia muitos pães, e o André se viu obrigado a ir preparar mais alguns.
“Bah, mas esse loiro é casca hein? Já te colocou pra trabalhar, é isso?” Beto perguntou se aproximando do balcão.
“Eu sofro nas mãos dele.” Fafá repetiu, resignado.
“Ai, Dré, que malvado!” Gabi exclamou se sentando ao balcão, do lado mais alto e sem pia, contrário ao do moreno. Dani, Fran e Rafael se sentaram também, enquanto Milo ia xeretar o pátio com a piscina.
“Ah é né? Quando eu falo de churrasco ele fica todo animadinho, se oferece pra ir comprar as coisas comigo, chega aqui e já vai metendo a mão em tudo, e aí eu que sou o carrasco? Estamos falando do Fabrício aqui.” André pontuou, já que eles pareciam ter-se esquecido. Largou os presentes no sofá. “E eu estou ajudando com os pães.”
“Quer ajuda?” Fran se ofereceu, e foi lavar as mãos para começar a ajudar.
“Esqueci de comentar, mas sou vegetariano. O bom é que tem bastante pão.” Milo retornou para o salão, com uma mão na cintura. “Não vão fazer maionese?”
“Eu até deixei as batatas prontas, mas aí fiquei com preguiça de fazer, acho que ia ficar uma merda já que eu nunca fiz.” André admitiu. Adorava maionese, mas conhecia o limite de suas capacidades.
“Mas que inútil, André!” Gabi implicou novamente.
“Gabi, hoje tu tá implicando com tudo.” Dani apontou, sorrindo do jeito impaciente da morena.
“Fico assim quando ‘tô com fome.”
André deu de ombros e, com um ar de falsa humildade, comentou:
“Acho que sou mais o tipo intelectual do que aquele que faz trabalhos manuais, entende?” Suspirou ao pegar mais um pão. “Isso eu deixo pro Fabrício. Eu penso, ele trabalha.”
“Imagina no sexo, o Fafá age e o André lá, filosofando.” Gabi não perdeu a chance, e o pessoal riu.
“Vai se foder.” André a xingou.
“Certo, ô Sr. Intelectual, então me mostra onde estão as batatas, os ovos, salsa, milho e ervilha e o azeite, que eu preparo, porque viver só de pão não é pra mim.” Milo lavou as mãos também e, logo, estava colocando a mão na massa, descascando e picando as batatas com uma habilidade impressionante, picando rapidamente os ovos duros assim que prontos, e então começando a preparar a maionese num batedor.
“Olha Beto, diferente de mim, quando tu e o Milo casarem, terá alguém em casa pra cozinhar.” Fafá brincou, já que todos ficaram impressionados com a habilidade manual do de cabelos encaracolados, menos a Daniela, já que dividiam apartamento e ambos se ajudavam mutuamente na cozinha.
“Casar?!” Milo tomou um susto, quase se cortando ao picar o último ovo sobre a tigela com quase tudo pronto. Tinha de admitir que a paixão entre ele e Beto viera rápida, tórrida, morria de saudades quando estavam longe, mas sequer eram namorados, e a ideia de namorar o assustava.
“Claro! Não te contei, amor? Estou pensando em propor agora durante as férias!” Beto abraçou o loiro, rindo e beijando-o na nuca, enquanto este arregalava os olhos, até dar-lhe uma cotovelada ao, frente a todas as risadas, entender que era uma brincadeira.
“Nunca mais brinque com meu coração dessa forma, seu puto.” Reclamou balançando a faca, o que fez Beto se afastar com as mãos erguidas. Era o mais seguro, por via das dúvidas.
“Sério, sou o único hétero aqui?” Rafael falou, e todos o olharam, afinal, ouvir-lhe a voz era algo até mesmo considerado raro. Fabrício e André se entreolharam.
“Aqui ou se gosta de cu, ou se cola velcro. Escolha.” Milo brincou, e foi repreendido por Fran e Gabi. Olhou-as sem entender nada. “O que foi, disse alguma mentira?” Fran sussurrou algo pro garoto, que soltou um ooh! de compreensão e depois um ‘ops!’ culpado, junto com um risinho.
Rafael notou o desconforto e a dúvida.
“Vocês estão falando sério?” Ele perguntou, admirado. “Acharam mesmo que depois de dois meses eu seria cego a ponto de não perceber que o Fabrício e o André estão ou ficando, ou namorando? Vocês me tomam pelo quê? Por um alemão?!” Usou a palavra como se fosse algo terrível, e a tensão imediatamente se dissipou, alguns riram.
“Como assim? E não falou nada?!” Gabi perguntou, igualmente impressionada.
Rafael encolheu rapidamente os ombros.
“É a vida particular deles, o que há pra falar? Nem achei que estavam escondendo de mim. Pra mim não foi nada demais.” Falou com naturalidade. “Aliás, por que esconderam de mim então?”
“Foi mal, cara.” Fabrício falou, limpando as mãos num pano. “Na real nem foi planejado, apenas não encontramos uma oportunidade mesmo.” Foi checar os pães na churrasqueira, logo já teriam alguns. “Mas a verdade é que estamos namorando, gurizada medonha.” Fran e Gabi já sabiam, mas para o resto era novidade, mesmo que fossem fechar dois meses de namoro dali sete dias.
“A verdade é que tu é um interiorano xucro e bruto, que viveu quase tua vida inteira na roça, e não sabíamos tua opinião sobre o assunto.” André corrigiu o moreno, e em parte era verdade, mas um pouco era exagero também. Não fora programado e, considerando que Rafael não falara nada contra o rolo entre a Gabi e a Dani, provavelmente não tinha mesmo preconceitos, como se confirmava agora.
“Eu xucro e bruto?! Fran, tu escutou isso?” Dirigiu-se à garota. “Tu concorda?”
“Xucro e bruto tem suas vantagens.” Milo cantarolou e empurrou a Fran, que preparava os pães ao seu lado, com uma jogada de quadril.
Fran corou.
“Discordo. Meu namorado é querido e carinhoso.” Fran garantiu pomposa.
“NAMORADO?!” Gabriella exclamou de boca cheia. Havia roubado um pão ainda cru. “PORRA, QUANDO ISSO ACONTECEU?!” Aquilo era novidade, todos sabiam apenas que eles estavam ficando, não que o pedido de namoro tinha acontecido.
“Que surpresa toda é essa? Até parece que ‘tá com ciúmes...” Daniela comentou contrafeita. Era possessiva, com amigos e ficantes, talvez porque tivesse medo de perdê-los e acabar novamente sem nenhum. Gabi a olhou apalermada, por um momento sem entender o ciúmes.
“Eles estão namorando e eu, a melhor amiga, estava sem saber de nada. Fiquei sabendo ao MESMO tempo que a ralé. Sacou o drama?” Tentou explicar à índia. “Isso vai contra as regras!”
“Ralé?!” André exclamou ofendido, e o Milo assentiu, concordando com aquela indignação.
“Gabi... Eu pedi hoje mais cedo. Nós passamos a manhã no Jardim Botânico hoje e aí eu pedi.” Rafael tentou explicar, enquanto a Fran balançava freneticamente a cabeça, sabendo que entrara em apuros.
“ELA PODIA TER LIGADO! MANDADO MENSAGEM!” Gabi continuava enraivecida. “E CADÊ ESSA COMIDA?”
Fabrício correu para tirar uns pãezinhos.
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Quando já saía uns salsichões, a campainha soou novamente, interrompendo por alguns segundos a música que haviam colocado para tocar – seleções da Gabriella. André, que já havia largado aqueles pães de mão, foi atender. O resto da tropa chegou junto também: Leo e Marília, Nati, Tati, Lucas, Davi e Gui. Chegaram se cumprimentando animadamente, comentando do cheirinho bom de churrasco que já enchia a casa, enchendo o loiro de abraços, o chamando de velho, perguntando dos doces, falando aquelas gracinhas de ‘só vim pra comer, presente pra quê?’ e coisas do gênero. Mas entregaram os presentes ainda assim.
“Ué, e o Bruno?” André perguntou à Tatiana.
“Brigamos.” Tatiana afirmou seca, ao ouvir aquele nome.
“De novo?” André rolou os olhos, enquanto a negra assentia e entrava, não lhe dando detalhes. “Não sei por que esses dois insistem em tentar se acabam brigando toda vez.” Comentou com a Nati.
“Acho que é justamente disso que eles gostam.” Suspirou com o mesmo tédio do loiro. Depois de quase cinco anos, cansava escutar os dramas da amiga sobre aquilo.
“Então tu é o famoso André! Posso saber por que não te conheci antes?!” Marília perguntou dando uma boa analisada no loiro. “Mais um gay bonito no mundo, o que está acontecendo?! Leonardo, é bom que não me invente de sair dando a bunda por aí.” Falou num tom preocupado, mas debochado. Apenas brincava.
“Pode deixar, sou um dos poucos héteros convictos dessa bodega.” Leonardo garantiu.
André torceu os lábios para isso, como se debochasse.
“Por favor, não esqueçam de mim. Posso não pegar mulher, mas ainda aprecio.” Lucas deu o ar da graça. “Mas agora deixa eu ir atrás dessa comida. Eu trouxe a sobremesa!” Ergueu a torta que havia preparado. Não perdera a oportunidade quando perguntou ao loiro e ele lhe disse que não ia comprar nenhuma torta. “Ela precisa ir na geladeira.”
“Eu amo esse bolo de chocolate do Lucas.” Tati suspirou.
“’Tá, vamos entrando.” André enxotou todos para dentro. Sascha de novo veio fazer festa, mas agora parecia mais calmo. Também, depois de sapatear de um lado para o outro no meio de tanta gente, ainda por cima conseguindo pedaços de pão e salsichão graças a seu rostinho fofo e esfomeado, era o mínimo!
Quando os dois grupos se reuniram, a bagunça aumentou. Todos se cumprimentaram e, quem não se conhecia, se apresentou. Guilherme se ofereceu para preparar umas caipirinhas, havia trazido bebida. Todos comemoraram, estavam tão entretidos na comida que nem haviam se lembrado do abençoado álcool. André distribuiu umas cervejas para quem queria.
“É uma das vantagens de ter um namorado que já trabalhou em barzinho. Ele sabe fazer tudo quanto é drinque.” Davi comentou para o Milo, quando este elogiou a caipirinha. Os dois de repente pareciam melhores amigos, engatados numa conversa animada.
“Ai, que inveja! O Beto faz um caipira horrível.” Lamentou.
“Hei, não fique por aí me difamando! Eu sou melhor bebendo, só isso.” Beto deu de ombros e, passando um braço pelo pescoço do Milo, entregou-lhe na boca um pedaço de pão recheado com a maionese que ele havia feito. Milo aceitou. “É melhor ir comendo ou vai acabar bêbado antes de todo mundo.”
“Ué, e quem disse que todo mundo vai ficar bêbado?” Davi perguntou, curioso.
Beto sorriu maldoso.
“Temos o dia inteiro.”
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Em dado momento Gabriella anunciou que iria cair na piscina. A maioria gostou da ideia, e pouco depois ela, Dani, Davi, Milo e Tati caíam na água fresca, deliciando-se.
“É bizarro estar numa piscina em pleno inverno.” Dani comentou ao emergir e, mal se firmara sobre os pés, Gabi a abraçou e circulou-lhe a cintura com as pernas. Dentro da água, era extremamente leve.
“Tu fica ainda mais bonita molhada.” Gabi admitiu dando um beijo na bochecha da índia e, ignorando o comentário do Milo sobre irem ficarem molhadinhas em outro lugar, aproximou os lábios do ouvido dela. “Agora quando tu viu o Fabrício, tu sentiu alguma coisa?”
“Gabi! Já te disse que o Fafá é uma paixão superada...!” Afirmou e acariciou as costas da morena sob a água. “No Intermed eu caí na real, já te falei mil vezes. Teu beijo me acordou pra verdade.”
“Isso não me impede de ficar insegura!” Exclamou baixinho, com um bico, mas a Dani suspirou. De novo esse papo?
“Não quero que se sinta assim. Sou apenas tua.” Disse pacientemente. Deu um beijinho suave nos lábios carnudos da morena. “Tenho algo pra te contar.”
“O quê?” Gabi perguntou enquanto a Dani caminhava, levando-a junto, para o canto mais afastado da piscina.
Dani começou a sorrir antes de contar a novidade.
“Eu consegui mobilidade acadêmica. Foi fácil porque as vagas de índio da UFRGS não foram ocupadas esse semestre e, mesmo que eu não tenha entrado por cotas na UFSM, consegui aqui. A partir do semestre que vem, estarei na UFRGS.” Sorriu alegremente, e a Gabi a encarou embasbacada. Demorou alguns segundos antes que a morena realmente digerisse a notícia e soltasse um gritinho de contentamento.
“Não acredito! Ai, que bom, Dani!” A abraçou apertado e começou a distribuir beijos pelo rosto da índia, que também sorria.
“Sua vadia! Tu contou antes! Nós tínhamos combinado de contar juntos, pro Beto e pra Gabi!” Milo exclamou ao, mesmo de longe sem escutar o papo, entender o motivo de toda aquela alegria. Beto descia o lance de escadas pro pátio bem naquele momento, trazendo uns pães, salsichões e pedacinhos de carne num prato com farinha.
“Me contar o quê?” Ele quis saber, sentando-se na borda da piscina, atraindo a Tati e o Davi, que farejaram a comida feito tubarões.
“Que eu consegui mobilidade também, pra UFRGS, já que fui o primeiro colocado na UFSM e outros fatores...” Comentou por cima, como se não fosse nada. Quase perdeu a expressão de absoluta surpresa e então satisfação do ficante. Não demorou cinco segundos após ouvir o barulho de alguém pulando na água. Foi erguido e prensado contra a parede da piscina.
E sumariamente beijado.
Beto ainda estava de camiseta.
“Eu não acredito, então tu vai se mudar aqui pra Porto Alegre?” Beto perguntou ao afastar os lábios do seu anjo. Por causa da festa à fantasia em que haviam ficado pela primeira vez, sempre chamava o loirinho de cabelos encaracolados de anjo, assim como a Daniela.
“Não, vou vir todo dia de Santa Maria até Porto Alegre, e depois voltar.” Revirou os olhos, e riu ao receber um beliscão. “Claro que sim! Eu e a Dani vamos procurar algum apartamento pra dividirmos aqui.”
“Vou poder te ver todo dia.” Abriu um sorriso largo, galante.
“Todo dia não, por favor, não quero enjoar da tua cara, e nem que tu enjoe da minha.” Milo dispensou, abanando a mão afastando o calor do rosto. A verdade era que estava quase corando com aquela felicidade toda do outro.
Beto roçou o nariz por seu pescoço.
“Impossível enjoar da tua cara.” Assegurou, abraçando-o apertado. “Quero poder comemorar isso contigo hoje, só nós dois.” Sussurrou contra a orelha do menor, e o Milo se arrepiou sorrindo malicioso.
“Era exatamente o que eu estava pensando.” Murmurou de volta, roçando os dedos na nuca do mais velho antes que voltassem a se beijar.
“Socorro, a putaria ‘tá rolando solta nessa piscina e eu ‘tô solteira!” Tati gritou, vendo os dois casais cheios de mimos e beijos. “Vou comer, que eu ganho mais. Estou vendo, vou acabar gorda e solteirona.”
“Deixa de ser boba. Aquele Bruno é muito babaca, não sei por que tu continua com ele. Tanta coisa melhor.” Davi apoiou-se também à borda da piscina, ao lado do prato, ambos mordiscando os aperitivos.
“Tu fala porque já achou teu príncipe encantado. Eu não... fui me envolver com aquele sapo que não vira príncipe nunca.” Suspirou chateada, metendo um pedaço de carne na boca. “E o pior é que não adianta ter rolos com outros guris, continuo gostando.”
“Então tu deveria, sei lá, ser menos intransigente também e admitir que é louca por ele. Convenhamos que ele ficou dois anos correndo atrás de ti e, por mais que vocês ficassem, tu sempre dava uns foras nele.” Davi a lembrou daquela época.
“Ai, sinto saudades disso.” Tati admitiu sonhadora, e o Davi rolou os olhos. Aqueles dois eram o casal mais complicado que já conhecera, mas a Tatiana era ‘arretada’ demais, pra não dizer barraqueira que não levava desaforo pra casa, e era difícil lidar. Davi adorava esse jeito forte e autêntico da amiga.
“Nunca te contei, Tati, mas quando tínhamos nossos oito ou nove anos, eu achava que era apaixonado por ti.” Davi contou, rindo ao lembrar-se. Coisa de criança, mas desde cedo tinha um carinho especial pela amiga.
“Ai, Davi!!! Que fofo!!!” Tati se lançou nos braços do pequeno. Uma sorte que ela não era muito mais alta, mesmo que estivessem na piscina. “Só tu me ama, vou grudar em ti e não soltar mais, vou te roubar do Gui.” Mordeu a bochecha dele. “Esse teu piercing no umbigo e na bacia me seduz.”
Davi riu, apertando os olhos.
“Nem fala isso, tu vai se incomodar.” Davi a alertou. “Mas se for mesmo me roubar, eu vou querer casa, comida, roupa lavada, internet e TV por assinatura.”
“Eu te dou meu amor e isso será mais que suficiente. Também te compro um pênis de borracha pra te fazer feliz.” Tati falou safada, e foi atirada pra trás pelo Davi, que começou a jogar-lhe água.
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Fabrício e Leonardo discutiam animadamente, próximos da churrasqueira, sobre música e a banda que poderiam formar. Leo adorava tudo que escutava, seria ótimo voltar a tocar.
“Bah, cara, isso é perfeito. Eu tinha uma banda antes, mas a vocalista viajou pra Austrália, e o baixista largou depois de entrar na faculdade.” Leo comentou. “Ando atrás de alguma parada há tempos!”
“A gente ‘tava há semanas atrás de alguém, aí o André me falou de ti. Se soubesse, já tinha chamado antes.” Fafá deu um tapa parceria nas costas do Leonardo. “Mas e teus horários tão tranquilos?”
“Mais tranquilos que os de um aluno de medicina, posso garantir. Sou um mero estudante de veterinária.” Riu e jogou mais um pedaço de carne pro Sascha, que xeretava aos pés dos dois. “Mas qual estilo que vai ser? Eu sou bem eclético pra dar a real. Toco de tudo com prazer.”
“Acho que nesse início vai ser bem eclético mesmo, rock brasileiro, tudo quanto é tipo de rock estrangeiro, alternativo, talvez New Wave, se duvidar até um pouco de industrial, que um dos caras adora, mas aí ele que vai cantar porque essas paradas não são minha praia.” Fafá comentou tirando mais carne e cortando pra distribuir pelo pessoal. A maioria caíra na piscina, somente eles continuavam fora, e o André fora abrir pro Lázaro que chegara mais tarde.
“’Tá louco, curto tudo. Quando é o próximo ensaio?” Perguntou, apoiando-se ao balcão.
“Agora nas férias as coisas complicam, pessoal viaja, até eu vou ir passar uns dias com a família, mas cara, entro em contato contigo assim que marcarmos.” Fafá assegurou, jogando um pedacinho de carne bem passada para dentro da boca.
“Como eu já tive banda, tenho uns contatos bons aqui por Porto Alegre.”
“Isso é perfeito, porque de nós três, só um tem contatos e não são dos melhores.” Riu o moreno. Mas nem se importava, desde que conseguissem tocar vez ou outra já seria ótimo, relaxar fazendo algo que adorava.
“Então relaxem que acabaram de contratar o cara mais bem relacionado dessa cidade.” Gabou-se o Leonardo, exagerado.
André acompanhava o Lázaro para dentro.
“Não sei se deveria ter vindo. Conheço teus amigos mais antigos, mas não muito. Não faço parte do teu grupo de amizades.” Lázaro dizia, numa humildade que soava estranha aos ouvidos do loiro. Em outra ocasião, uns meses atrás, desconfiaria daquele jeito manso do primo.
“Relaxa, bebe umas que já vai te enturmar fácil. O pessoal já bebeu tanta caipira e mojitos que socializariam alegremente até com uma morsa.” Tentou tranquilizá-lo. “Agora só tem carne, tu perdeu os aperitivos. Por que chegou tão tarde?”
“Minha mãe apareceu lá no meu apartamento, e brigamos.” Rolou os olhos, irritadiço com aquilo. “Não suporto mais isso tudo.”
“Coitada da tua mãe.” André comentou, abrindo um sorrisinho torto. Lázaro o olhou chocado. “Sabe, eu sei como é chato te aguentar numa discussão.”
“Vai pro inferno.” Lázaro mandou, e então chegaram ao balcão.
Leo ficou surpreso ao ver o primo do loiro, final, sabia que os dois não se aguentavam. Mesmo assim o cumprimentou e ofereceu da bebida que dividia com o Fabrício. Já este o cumprimentou entusiasticamente, como era de seu costume, e o Lázaro piscou aturdido, perguntando-se por um momento se já se conheciam pro moreno parecer tão feliz em vê-lo.
“Então, fiquei sabendo do que aconteceu. Sacanagem isso, espero que tudo se acerte.” Fafá disse, complacente.
Lázaro coçou a orelha.
“Sim, também espero...” Comentou e acabou aceitando a comida que lhe ofereceram. Serviu-se do que restara da maionese e pegou um pedaço de carne, sentando-se ao balcão para comer. Estava morto de fome.
“Fabrício, vê se depois vai pra piscina também, não precisa ficar aí namorando essas carnes o tempo todo.” André falou para o moreno, que apenas lhe piscou maroto.
“Já vou, meu lindo.” Falou abobado, deixando o loiro vermelho com o apelido despretensioso. “Já te falei sobre os homens lindos?” perguntou ao Leonardo, que riu e negou.
“Fabrício, fica quieto.” André alertou.
Piadinha infame.
XxxX
Enquanto alguns brincavam de jogar bola na piscina – e o André já havia comprado uma nova de presente ao Fabrício, por aquela que havia deixado cair no vizinho e o cachorro mordera –, outros conversavam e bebiam, Tati e Nati se bronzeavam aproveitando que o sol já não era mais tão forte.
“’Tá brincando que vocês nunca escutaram?” Milo perguntou, estarrecido. “’Tô vendo que não conhecem o Beto como eu.”
“Nem quero conhecer assim, como tu conhece.” André assegurou, deixando o duplo sentido no ar e ganhando um punhado de água na cara do Milo, enquanto os outros riam. “Porra, entrou pela minha boca.”
“Ninguém mandou ser boca aberta.” Milo rebateu. “Como eu estava dizendo, o Beto é o rei do sofisma. Ele já me contou cada história de como enganou uns professores só falando bobagens que não diziam coisa nenhuma...”
“É a arte de falar, falar, falar, e não dizer absolutamente nada.” Beto explicou, erguendo um pouco seu copo de cerveja. “Cara, já me salvei de inúmeras enrascadas por causa disso.”
“Mas como, gurizada? Me ensina isso que vou começar a usar também.” Fabrício pediu, encostado à borda da piscina, um de seus braços circulando a cintura do André, que bebia cerveja direto da latinha. Pura preguiça de buscar um copo.
“Ai, já ouvi dessas também. Preparem-se.” Daniela avisou, dessa vez ela estava dependurada nas costas da Gabriella, abraçando-a pelo pescoço.
“Quero ouvir. Agora ‘tô alimentada e meu cérebro voltou a funcionar.” Gabi incentivou, e teve de se desviar de uma bola que Lucas jogara, com intento de brincar com Leo, Marília e Davi.
Guilherme fora preparar mais uns drinques.
Beto pigarreou, preparando-se de olhos fechados por alguns minutos, como se vasculhasse dentro de seu cérebro por suas próximas palavras. Depois respirou fundo e começou com um ar declamatório:
“Vou começar pelo básico. Básico este que rege seus alicerces a fim de salientar, aqui e agora, como a compreensão da linguagem alheia muitas vezes pode ser precipitada e tender à verdadeira inabilidade no processo cognitivo de tradução dos sinais implícitos de um diálogo. De fato, o que eu tento expressar é sim, inegavelmente, contrário à minha posição inefável de tender aos círculos do raciocínio. Talvez inspirado na frase de nosso exímio professor Faulk de Métodos e Abordagens em Saúde Comunitária do primeiro semestre, e que alguns de vocês reencontrarão no terceiro e sexto semestre, não tento, mas sou, naturalmente, quase que intrínseco ao meu código genético, um profissional em coisas vagas. Atingir o objetivo de forma reta e quadrada faz da vida uma grande metrópole, cujas ruas se perdem em meio aos carros e cujas curvas são todas esquinas retas e não realmente curvas. Entendam que, por trás de todas as construções verbais e frasais amplamente prolixas e bem dotadas de um lirismo errôneo e nada barroco, ainda que contraditório, reside um humor que há muito não expresso nesse grupo, mas que nunca deixou de existir em mim e o qual nunca deixei de proteger dentro de todas as curvas e sulcos e hematomas subdurais que meu cérebro conserva.”
Falava tudo como se declamasse um poema.
Gabi e Fafá arregalaram os olhos para aquele show de não dizer absolutamente nada e ainda assim parecer tão inteligente, e todos gargalharam com a última frase, que fazia leve menção à anatomia do primeiro semestre.
Beto continuou.
“Sinto, no entanto, que essa discussão jamais chegará ao fim, uma vez que acompanhamos uma linha de raciocínio que não diverge completamente — muito pelo contrário: muitas vezes temos opiniões um tanto similares e coadjuvantes no processo de iluminação dos caminhos tortuosos da arte articulada. Não que esse seja, a princípio, um dever nosso, mas é algo que, ao cogitar a influência do eu, tende à personificação do texto de cada um conforme o estilo que segue seu ego, alter ego, superego e todos os outros egos que temos permeando nossa mente e se debatendo, como um feto sofrendo de asfixia, enrolado em seu cordão umbilical e lutando desesperadamente para romper o útero da mãe, a tapas e chutes, para finalmente respirar o oxigênio pelo qual tanto quis chorar, mas nunca pôde. E como um feto, essa ideia tende a se desenvolver, psicodinâmica e psicanaliticamente segundo os limites e adequações de cada um, para então infectar, da forma mais positiva possível, um número máximo e exponencial de pessoas que sofrem dessa retração, e retêm suas palavras na garganta frente ao grupo tanto quanto retêm gases no intestino em eventos sociais.”
O pessoal se engasgou de tanto rir com o fechamento do discurso absolutamente inútil, mas ainda assim incrível.
“Guri, tu é um gênio, me ensina.” Gabi implorou. “Quero enrolar os professores com isso também!”
“Isso foi genial, sério. Esse cara não existe!” Fafá concordou, balançando a cabeça em reconhecimento e dando tapinhas no ombro do Beto, que ria. “Me lembrem de nunca entrar numa discussão com ele!”
“Tu nunca entra numa discussão com ninguém, Fafá.” André apontou sabidamente.
“A única coisa que eu captei disso aí é que todo mundo segura um peido num evento social. Tipo hoje, quantos será que já não seguraram?” Milo perguntou, retórico.
“Foi mal, eu não seguro.” Fafá admitiu, zombeteiro.
“Ai, que nojo, Fabrício! Viu, Dré? Tu te associou com um peidorrero.” Gabi foi logo avisando ao loiro. “Te livra enquanto é tempo!”
André tinha uma careta no rosto.
“Ele me ama mesmo assim.” Fafá abraçou o André apertado, prensando-o contra seu corpo e, mesmo sob protestos, roubou um beijo rápido dele.
Lázaro, que os observava de longe, teve a confirmação que queria. Já havia notado o jeitinho próximo dos dois, mas um beijo era inegável. Usou o celular para tirar uma foto do moreno beijando seu primo, mas, na hora de enviá-lo ao número do tio, parou, hesitando. André vem sendo legal comigo, pensou com culpa. E ele sofrerá se o Heitor descobrir.
Suspirou.
Mas se não enviasse, não continuaria ganhando apoio financeiro do tio idiota.
Observou com certa tristeza o pessoal decidir brincar de subir na garupa um dos outros e tentarem se derrubar na água. Por mais que Davi fosse o menor, estava na garupa do Guilherme, logo acabava derrubando todo mundo, afinal, Guilherme era como uma tora pregada no fundo da piscina, não perdia o equilíbrio nunca.
O celular vibrou para confirmar o envio da mensagem.
XxxX
No final da tarde, Fabrício – usando os óculos-escuros branco que André lhe dera de presente de dia dos namorados – sentou-se na borda da piscina, tomou um gole do mojito que havia feito e acariciou a cabeça do Sascha, que viera farejá-lo com um latido. Depois pegou o violão e começou a tocar, iniciando a música com alguns assobios.
Sabe quando a gente beija devagar
E por alguns segundos sente o mundo parar?
Pois é, assim que eu me sinto
Quando beijo você.
Sabe quando a gente não consegue dormir
Pensando em alguém que nos faz muito feliz
Pois é, assim que eu fico
Quando penso em você.
A música era toda leve, ritmo que lembrava um dia gostoso na praia, e um ar apaixonado. A letra não enganava ninguém, muito menos a maneira que, enquanto cantava, o moreno olhava pro seu loiro, movimentando o corpo de forma despojada, de um lado pro outro, acompanhando o ritmo que tirava do violão. André recebia empurrões da Tati e Davi, implicando com ele principalmente por demonstrar-se vermelho perante aquela cantoria. Claro, estava culpando o sol por isso.
Os casais se aninharam.
Dani se aninhou à Gabi, Rafael abraçou a Fran, Marília subiu na garupa do Leonardo, Davi se escorou no peito do Guilherme e Beto abraçou Milo por trás.
Sabe quando a gente torce pro dia passar
E chega o fim de semana
Olhando no relógio de minuto em minuto
Pra ver se eu acelero as horas
Tudo que eu quero é viver em paz
E te beijar quando der na telha
No agito da balada
Na calma da fazenda
No banquinho da praça
Deitado na areia
Tudo que eu quero é você por perto
Não importa o lugar
A gente faz, faz, faz....
“O que vocês fazem, hein, André?” Leonardo perguntou implicante, arrancando risadas dos outros e um olhar lúgubre do loiro, que lhe mostrou o dedo do meio.
Sabe quando a gente beija devagar
E por alguns segundos sente o mundo parar?
Pois é, assim que eu me sinto
Quando beijo você.
Marília deu um beijo no Leonardo para calar-lhe a boca.
“E aí? Sentiu o mundo parar?” A loira perguntou, empoleirada nas costas dele, a cabeça inclinada por cima do ombro dele para olhá-lo.
“Ô! O mundo parou, mas minha cabeça ‘tá girando até agora.”
“Qual delas?” Marília quis saber, arrancando uma gargalhada do garoto que era sua amizade colorida há meses agora, esse garoto de pele bronzeada, sorriso lindo e jeitinho safado. Voltou a beijá-lo enquanto ele ria.
Sabe quando a gente não consegue dormir
Pensando em alguém que nos faz muito feliz
Pois é, assim que eu fico
Quando penso em você.
“Eu acho que mereceremos ser padrinhos do casamento daqueles dois.” Davi comentou ao observar o momento ‘pombinhos’ do Leonardo e Marília. “Afinal, se nós não tivéssemos começado a namorar, eles nunca teriam se conhecido.” Decidiu, olhando para cima para poder ver o rosto do namorado. Suas mãos acariciavam os antebraços que circulavam sua cintura magra.
“Aqueles dois casando? Só quando o apocalipse zumbi chegar, e os zumbis comerem todas as outras pessoas e sobrarem só os dois.” Guilherme garantiu, apesar de até achar que poderia rolar um namoro. Mas ambos eram muito libertinos para dar certo.
“Ah, mas eu gosto de acreditar que vai dar certo. Eles combinam tanto!” Davi suspirou, aconchegando-se ao maior. “Nós estamos quase casados, né? Morando juntos e tudo... Tu está gostando?”
Sabe quando a gente torce pro dia passar
E chega o fim de semana
Olhando no relógio de minuto em minuto
Pra ver se eu acelero as horas
“E o que há para não gostar?” Guilherme perguntou apertando-o nos braços e erguendo-o um pouco, para beijá-lo na curva do pescoço. “Assim eu sei sempre onde tu ‘tá, o que ‘tá fazendo, qualquer um que te visitar eu vou saber, e-“
“Gui! Larga de ser tão ciumento, pelo amor de Deus! Antes era o Leo, aí agora é qualquer um. Se todo mundo que tu achasse que dá em cima de mim, estivesse mesmo me dando mole, eu teria homem até a próxima reencarnação.” Reclamou emburrando, mas como, apesar de ciumento, Guilherme não criava briga nem exagerava – a pontos irritantes – desde a briga séria que haviam tido no terceiro mês juntos, acabava gostando do ciúmes do namorado. Claro, às vezes ainda brigavam, mas eram briguinhas bobas e rápidas que terminavam em beijos.
“Tu que é inocente demais, não percebe.” Guilherme objetou, sério.
“Inocente? Gui, se as pessoas daqui soubessem da metade do que já fizemos entre quatro paredes, eu seria marcado como o mais pervertido desse grupo.” O lembrou e, bem, Guilherme não conseguia discordar totalmente daquilo.
Apenas deu um beijo na bochecha do pequeno, sorrindo malicioso.
“Eu te ensinei bem.”
“Safado...” Murmurou, arrepiado.
Tudo que eu quero é viver em paz
E te beijar quando der na telha
No agito da balada
Na calma da fazenda
No banquinho da praça
Deitado na areia
Tudo que eu quero é você por perto
Não importa o lugar
A gente faz, faz, faz....
“Por que, Fran? Não quer ir?” Rafael perguntou frente à negação da namorada.
“Rafa, hoje eu quero ir pra tua casa e ficar lá juntinho contigo, pode ser? Já passamos o dia aqui, agora quero um pouco de sossego, não ir num barzinho ou festa, que eu sei que tu não quer ir e só ‘tá convidando pra me agradar, ok? Mas tu não precisa fingir pra me agradar, eu te conheço.”Fran replicou, batendo com o indicador na ponta do nariz do garoto.
Rafael ficou impressionado. Ela realmente lhe conhecia muito bem, e nunca havia reparado. Sentia-se tão idiota por não ter se tocado antes, era mesmo lento. Assim que ficaram os primeiros dias, já não queria desgrudar da de cabelos cacheados. Ela era complicadinha, mandona e esperta demais, mas também doce e carinhosa. Se apaixonar e então pedi-la em namoro fora apenas natural.
“Tu conhece sim, chego a ficar assustado.” Admitiu, e ela o encarou com deboche.
“Isso é porque é a primeira vez que tu namora com alguém que gosta realmente de ti.” Fran explicou e o abraçou, rindo e soltando um gritinho quando ele a ergueu e mordeu-lhe o pescoço, a barba causando cócegas.
Olhando no olho a gente de mão dada
Mais de um minuto que a gente não fala nada
A pele se arrepia
O coração dispara...
“Ai Lucas, ai Nati, só nós três solteiros aqui. E o Lázaro, até onde sabemos.” Tati disse, sofredora. Tati era o tipo que parecia que só seria feliz quando casada e com filhos. Natália às vezes se cansava com isso, pois gostava de ser independente e não achava que felicidade feminina estava ligada a casamento e filhos. “Aliás, Nati, tua tatuagem é linda demais, essa nova.”
“Obrigada, Tati.” Sorriu, mesmo assim adorava aquela louca casamenteira.
“Eu gostei muito também.” Lucas comentou e por alguma razão colocou a mão na cabeça da Natália e a afundou dentro da água. Amigos, sempre inconvenientes.
Tudo que eu quero é viver em paz
E te beijar quando der na telha
No agito da balada
Na calma da fazenda
No banquinho da praça
Deitado na areia
Tudo que eu quero é você por perto
Não importa o lugar
A gente faz, faz, faz....
Natália emergiu assim que a música terminava, e ouviu os coros de ‘beija, beija, beija!’, que André recebia. O loiro ficou tão constrangido com aquela comoção toda (e com os comentários maliciosos de alguns – Lucas e Leo), que tentou sair da piscina e correr para o salão, mas o Fabrício se levantou rápido, largando o violão, e correu também, interceptando-o antes que ele alcançasse os degraus. O abraçou por trás e, sob a salva de palmas e assobios dos amigos sacanas, beijou o loiro até que ele estivesse bem mansinho e corado em seus braços.
“Esse Fafá, hein!? Domou mesmo a fera! Não é pra qualquer um!” Leonardo exclamou, implicante, e bateu mais palmas.
Quando André retornou à piscina, afogou o amigo por uns bons e torturantes minutos.
XxxX
Já era bem tarde quando a última leva de pessoas deixou a casa que, por acaso, estava um nojo, pelo menos no salão. O chão sujo, melado, louça usada na pia, enfim, zoeira de final de ‘festa’. Eles haviam mesmo dançado por ali, curtindo o som. André deu graças a deus que no dia seguinte a empregada apareceria. Voltou pro salão e viu o Fabrício no pátio, recolhendo as boias, as bolas, as cadeiras para guardar no depósito pequeno que ficava justamente sob o salão, a entrada próxima do lance das escadas.
Lázaro estava sentado ao balcão bebendo um refrigerante. André quase havia se esquecido dele.
“E aí? Conseguiu curtir? Ao menos sair um pouco...” Falou ao se aproximar dele, que parecia chateado.
“Foi bom, bati um papo legal com os solteiros da festa, como eu.” Riu meio fraco. Estava quase chorando. “Então tu ‘tá entre os comprometidos...”
“É...” André falou sem jeito, apoiando os braços sobre o balcão alto, o queixo entre eles. “Por isso que eu disse que... mudei.”
“Tenho um amigo que diz que todo homofóbico é enrustido.” Ergueu o copo de refrigerante, num brinde solitário.
“Não sei todo, mas uma quantidade razoável deve ser.” Deu de ombros. “Olha,” Se endireitou e contornou o balcão, parando em frente ao primo. “Isso vai totalmente contra minha natureza e minha vontade já estabelecida de te socar sempre que te vejo, mas, se precisar de alguma ajuda, pode contar comigo, okay? Estamos juntos na mesma situação...” Olhou para o menor. “E estou feliz que conseguiu sair de casa. Apartamento de um amigo tu disse, né?”
Para completo choque do loiro, Lázaro começou a chorar. Não, chorar era eufemismo, o mais correto seria ‘abriu a torneira do céu e iniciou um dilúvio’. Os olhos azul-claros do André estavam arregalados, e ficaram ainda mais arregalados quando o primo o abraçou forte, escondendo o rosto em seu peito já coberto por roupas secas, pois havia esfriado com a chegada da noite.
“P-Por que tu ‘tá chorando?” O loiro perguntou, totalmente sem tato e sem devolver o abraço. Sentia-se como uma estátua sendo abraçada por uma criança manhosa.
“Me desculpa. Me desculpa.” Lázaro balbuciou, e o choro aumentou.
“Desculpar pelo quê?!” André ficava a cada minuto mais confuso. Que primo louco fora arranjar! “Lázaro?”
“P-Por estar chorando.” Disse, sem largar o primo.
Sentia-se tão sozinho; tinha seus amigos, mas a verdade é que achava que nenhuma de suas amizades era tão verdadeira quanto as que o loiro tinha. Sempre comprara suas companhias com dinheiro. Aquele loiro marrento, homofóbico e irritadiço tinha amigos como os que nunca teria. Nunca fora bom para fazer amizades, devia ser mesmo chato, como o primo afirmava. De seus supostos ‘amigos’, que não passavam de um bando de interesseiros, nenhum demonstrou querer ajudá-lo quando as coisas se complicaram. E ainda tinha de escutar uma oferta de ajuda de alguém com quem havia ferrado.
Sentia-se tão baixo, vil.
“Desculpa...” Pediu novamente, baixinho, e o choro recomeçou quando, sem jeito, André deu-lhe tapinhas nas costas, tentando acalmá-lo.
“’Tá, ‘tá, não precisa ficar aí todo sentimental.” Disse meio seco, a voz arrastada e uma vontade de sair correndo.
Lázaro o soltou e assentiu, envergonhado.
“Eu acho que vou embora.” Ele falou, baixo. “Pode abrir pra mim?” Notou a hesitação do loiro, que não queria ter passado a impressão que era para ele se mandar. “Por favor, eu preciso... Ficar sozinho um tempo.” Ou talvez fosse atrás do maldito sex buddy pra eliminar um pouco do estresse.
“Ok.” André acabou concordando e foi abrir para o primo. Sentiu-se mal ao vê-lo sair tão cabisbaixo, descendo a rua para chegar ao ponto de táxi.
Poderia ser ele naquela situação... Seu temor de que os pais descobrissem apenas aumentou, mas guardou o medo soltando um suspiro cansado. Era melhor não ficar temendo aquilo antes do tempo.
Quando retornou ao salão, Fabrício havia terminado de recolher tudo, e o esperava escorado ao balcão – cotovelos apoiados sobre o granito polido, um sorriso bonito no rosto e o corpo com o bronzeado realçado após um dia de sol.
“Enfim sós.” André falou, e foi abraçá-lo para um beijo.
XxxX
Heitor perdeu a noção do tempo enquanto olhava para a foto recebida. Cíntia já dormia tranquilamente na cama, exausta após o dia repleto de passeios. Havia decidido deixar o celular no hotel, por insistência da mulher, e só agora visualizá-la a mensagem, sentado na ponta da cama, com uma mão sobre a testa, seu corpo sem reação. As palavras que compartilhara com a esposa mais cedo, enquanto passeavam pela praia, lhe vieram à mente:
“Sei que em muitos momentos não fui um bom pai. Chegava estressado do trabalho, e acabava descontando em ti, e no André. Sou intransigente, exigente e sério, muitas vezes não sei demonstrar carinho. Mas meu amor, quero que saiba que não existe no mundo nada que eu ame mais do que você e nosso filho...”
“Você não imagina... O que alegra meu coração ouvir isso de você. Mesmo que eu já saiba disso, desde o dia em que nosso filho nasceu.” Cíntia respondera, com um sorriso doce que sempre o fazia lembrar de seus primeiros dias juntos, quando mais jovens e inconsequentes.
Sua cabeça pendeu para baixo...
E algumas lágrimas molharam o visor do celular.
Não poderia permitir-se perder o filho, assim como perdera o irmão, há tantos anos...
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