Good Riddance

10 Tarde na piscina


Notas iniciais
Música do capítulo: http://letras.mus.br/legiao-urbana/46972/

“Ah, mas que graça!” Gabi exclamou, apontando para um filhotinho de cachorro. André fungou e ajeitou melhor a gola da camiseta, para esconder a terrível marca que continuava em seu pescoço pelo terceiro dia seguido. Ou sua pele era muito estupidamente sensível, ou Fabrício era alguma espécie nova de vampiro transmutado – uma teoria até bastante razoável, já que vampiros segundo a autora de Harry Potter eram criaturas bastante imbecis.

“Não gosto de bichos. São como crianças, mas são pulguentos.” André fungou novamente. Não sabia como, mas havia conseguido ficar resfriado em pleno verão. Era um feito que apenas uma pessoa dona da senhora rinite alérgica poderia fazer. Ou não. Ele talvez fosse um filho da puta azarado.

“Como assim não gosta de bichos!?!” Fabrício apareceu entre os dois, com uma expressão do mais puro choque, e André reclamou algo como ‘por que acha que não gosto de ti?’, mas não alto o suficiente para que o moreno escutasse. Fabrício se aproximou da gaiola onde estava o cachorrinho, uma entre várias daquela exposição de filhotes, e o acariciou, mesmo que não fosse permitido tocar nos bichinhos. “Ele não quis dizer isso, bolinha. Tu é um bom cachorrinho, ele que é um loiro malvado e mal-humorado, que só sabe morder e dar patadas nos outros.”

“Ótimo. Com licença, irei dar patadas em outro lugar.” André revirou os olhos e se afastou, emburrado. Estava emburrado com Fabrício desde aquela noite. Acordar no dia seguinte dormindo sobre o peito do moreno não fora nada agradável, ainda mais depois de um sonho em que Fabrício devorava sua boca, e não seu pescoço. O constrangimento e raiva foram inevitáveis, e André chegou a culpar o ex-melhor amigo, Davi, por colocar ideias homossexuais em sua cabeça. A verdade é que não estava conseguindo olhar para Fabrício sem se sentir irritado e corado, e aquilo não era nada legal. Mas menos legal ainda era não conseguir se afastar dele de vez.

“O humor dele anda péssimo.” Gabi comentou. “Sabe o que aconteceu?”

“Ele comentou algo sobre ter brigado com o amigo dele... Porque o amigo é gay.” Fabrício ainda acariciava o bichinho, mas logo começaram a caminhar pelo lugar, em busca do loiro. Era um pavilhão repleto de animais. Eles haviam saído das aulas e ido de carro com Rafael para a exposição, André fora na própria moto. Ninguém sabia ao certo como André fora convencido a ir, mas até Rafael viera e eles descobriram que o alemão era doido por cachorros, pois brincava com todos e já dizia que ia comprar alguns – e ver Rafael tão espontâneo era difícil; era como se ele estivesse bêbado de cachorrinhos, se é que isso fizesse algum sentido.

Ele também havia sumido entre as pessoas.

“Ah, quanta bobagem. Esse tipo de preconceito me dá muita raiva.” Gabi admitiu, chateada.

“Não julga. Ele cresceu com esses valores. Cabe a nós mudá-los.” Fabrício passou o braço pelos ombros da guria e piscou, cúmplice. “Aliás, é aniversário do meu tio nesse próximo sábado. Vamos?”

“Claro!” Gabi concordou. “Seu tio é demais. Eu adoro ele.”

“E quem não adora? Estou pensando em arrastar o André, assim ele conhece meu tio e vê que não tem nada a ver desprezar alguém só pela sexualidade. Até a mais homofóbica das pessoas adora o Diogo.” Sorriu brilhantemente, como se estivesse numa propaganda de pasta dental, mas largou Gabi de imediato ao visualizar o loiro parado observando um cachorrinho em especial.

André olhava com uma sobrancelha franzida um filhote de labrador que se agitara ao vê-lo, latindo e tentando pular a grade, mesmo que com isso se esborrachasse no chão, devido à altura. Como não conseguira, o bichinho ficara arfando de língua para fora, olhando para André antes de se jogar no chão de barriga pra cima, contorcendo-se e ganindo baixo por carinho. André perguntava-se o que ele queria. Talvez esteja com dor de barriga. Em relação a crianças e filhotes, André poderia ser considerado um Neanderthal.

“Por que não dá carinho nele?” Fabrício perguntou em seu ouvido, fazendo o loiro dar um salto poderoso para o lado. O moreno riu e André massageou a orelha, como se alguém na verdade a houvesse beliscado. Pensar em várias maneiras de afogar, bater, torturar e matar Fabrício pareceu-lhe bastante interessante no momento. “Tu ‘tá com febre? Está meio vermelho.” O moreno perguntou, metendo a mão na gaiola aberta superiormente, para acariciar o labrador de pelo amarelado. O bicho só faltou se mijar de tanta alegria, tal foi o estardalhaço por receber carinho. Na verdade, não faltou. André percebeu que o filhote acabou molhando todo o jornal.

Torceu os lábios para o bichinho, que começou a tentar morder de brincadeira a mão de Fabrício, sem se importar de estar sapateando sobre o próprio xixi.

“Isso é nojento.” André disse, como o típico garoto riquinho e fresco. Fabrício fez uma careta que deixava este fato bem claro. “E não estou com febre, acho...”

“É só um filhote, e ele só quer brincar. Brinca com ele um pouco também, ô frescurento.” Fabrício se aproximou do loiro, prevendo a negação que veio com uma nova fungadela indiferente.

“Eu não. Os pelos desse bicho só vão piorar a minha rinite e-“ Fabrício não deixou o loiro terminar. Agarrou a mão dele e a puxou até a gaiola, forçando-a contra o bichinho peludo, que mais se parecia com uma bola de pelos com olhos. André sentiu a mão suar pelo contato forçoso, mas quando tocou o lombo do cãozinho, e ele se derreteu inteiro, adorando a carícia, acabou arregalando os olhos. Estava gostando de acariciar aquele animal fedidinho. “Droga.” Reclamou.

“Eu sei.” Fabrício assentiu.

“Ele é fofo.” André admitiu, resignado, e o cãozinho latiu, como se houvesse entendido.

“Vamos levá-lo!” Fabrício se empolgou.

Um tempo depois, os quatro amigos saíam juntos dali. Rafael havia comprado um filhote de pastor alemão, e André sentia como se alguém – e por alguém, entenda-se Fabrício – houvesse feito-lhe uma lavagem cerebral, pois segurava nos braços a bolinha fofa que, ao menos, havia recebido um banho rápido antes de ser vendido.

“Vou chamá-lo de Rex.” Disse Rafael, acariciando a bola de pelos negros que havia comprado. Por que filhotes eram tão peludos? André já imaginava o surto de Cíntia ao ter uma maquininha de soltar pelos em casa. Ela também tinha rinite alérgica. Nada legal. Mesmo. O filhote mal saíra do pavilhão, e já estava em risco de morte.

“Oh, clichê!” Gabi referia-se ao nome escolhido por Rafael.

“Eu sempre quis um cachorro chamado Rex, ok? Não me culpe se não tive nenhum para dar esse nome quando mais novo. Minhas irmãs apelidavam todos os cachorros antes que eu tivesse tempo, e eu tive de conviver com nomes como Bebê, Babalu, Lulu, Bambi e Pitoco.” Rafael impressionou a todos por falar uma frase tão comprida. Ainda devia estar embriagado de cachorrinhos.

“Eu gosto de Rex.” Fabrício intercedeu. Havia comprado um pacote de doritos no barzinho do pavilhão e, depois de enfiar um bocado na boca, ofereceu um ao labrador de André, que prontamente aceitou. Fabrício riu. “Ele gosta de doritos.”

“Não fica dando essas porcarias para ele!” André reclamou, afastando o bicho de Fabrício como se este fosse alguma espécie de matador de filhotinhos. “Ele pode ser alérgico, ou passar mal, ou ainda vomitar. Não quero ele doente.”

“Ele já ‘tá preocupado com o bebê dele. Tão pai.” Gabi suspirou.

“Aposto que também não vai dar chocolate e refrigerante pra ele.” Fabrício ponderou. “E dizia que não gostava de animais de estimação!”

O cão latiu, achando aquilo um absurdo, mas André revirou os olhos. Quem dava refrigerante pra cachorro, de qualquer maneira?

“Como vai chamá-lo?” Fabrício perguntou. “Bola de pelos?”

O cão latiu de novo, negando. Não parecia contente com a ideia.

“Rufus?” Fabrício perguntou ao cão, que latiu em negação outra vez. “Átila? Bruce? Kim? Odin? Quincas Berro-D’água?” O cão latia em todas, e Fabrício parecia acreditar que estava mesmo conversando com o cachorro sobre qual nome poderiam dar a ele. O moreno parou e coçou os cabelos. “Ele não gostou de nenhuma das minhas sugestões.”

“Vou chamá-lo de Sascha.” André decidiu, e claro que não iria contar que este havia sido o nome de um de seus ursinhos de pelúcia quando era bem novo. O cão latiu, dessa vez parecendo assentir – ao menos na percepção de Fabrício.

“Hei! Ele gostou!” Disse o moreno e se inclinou para Sascha, afagando-lhe as orelhas e deixando-o lhe lamber. “Bom garoto! Sascha é um bom nome.”

“Eu vou indo, galera. Nos vemos amanhã.” Rafael se despediu e seguiu para o carro. “Quer carona, Gabi? Tu quer, Fabrício?” Ele lembrou de perguntar.

“Opa, quero sim!” Gabi se adiantou até o amigo.

“Eu não. Vou na casa do André agora.” Fabrício dispensou com um aceno, a concentração ainda em Sascha. Detalhe que André só ficava sabendo disso agora também, de maneira que se engasgou com a saliva, pego de surpresa pela informação.

“Quê?” O loiro conseguiu perguntar, apertando Sascha mais contra o corpo. “E quando eu concordei com isso?”

“Ora...” Fabrício passou o braço ao redor dos ombros de André, jogando o pacote vazio de doritos no lixo de rua. “Somos amigos, não é? Amigos não precisam de convites, ou permissão. Não é mesmo, Sascha?” Fabrício perguntou, acariciando o filhote, que latiu empolgado. “Viu? Ele gostou da ideia.”

“Claro, porque agora tu virou um cachorro e aprendeu a falar cachorrês.” André ironizou. De jeito nenhum queria Fabrício em sua casa, mas como poderia dispensá-lo? Aliás, não se achava capaz de um ato tão mítico, vide: enxotar o moreno folgado.

“Além disso,” Fabrício continuou, como se não o escutasse. “Tu ‘tá de moto e vai precisar de alguém para segurar o Sascha. Eu sou mais do que adequado para o posto.”

“Também se não fosse... Para alguma coisa os teus dois neurônios tem de servir.” André sabia que não era a mais adorável das pessoas quando estava de mau-humor. Aliás, ele nunca era a mais adorável das pessoas.

“Não vai me enxotar com essas tuas palavras adoráveis.” Fabrício debochou também, com um sorrisinho.

“Ok, vamos logo.” Suspirou André. “Para sua sorte, estou com um capacete extra porque dei carona para a Natália hoje de manhã.” Disse o loiro. Depois da madrugada de sábado, fizera questão de transar dois dias seguidos com a garota, como uma prova de que continuava bastante macho, obrigado, mesmo que isso significasse ter de ouvir as ladainhas da amiga sobre suas atitudes imbecis para com Davi.

O problema era que André era extremamente orgulhoso, e seria difícil dar o braço a torcer e ir conversar com Davi. Talvez se o amigo viesse tentar conversar novamente... Mas André sabia que isso era praticamente impossível. Ainda que não fosse orgulhoso, Davi não se humilharia depois da maneira com que o tratara. Não me importo. Tentou convencer-se.

Com um suspiro cansado, colocou Sascha no colo de Fabrício, vestiu o capacete e pegou o cão para que Fabrício fizesse o mesmo. Depois voltou a lhe entregar o bicho e subiu na moto, ligando-a. O moreno subiu logo depois, e André mordeu os lábios; estava consciente demais da proximidade entre os dois. Isso não está certo. Decidiu que eles deveriam manter distâncias bastante seguras dali em diante. Tudo culpa daquele chupão. Deveria pagar um dentista para arrancar fora os dentes de Fabrício.

“Sascha está seguro. Pode ir!” O moreno avisou.

XxX

“Não acredito que tu me fez passear no supermercado com o cachorro.” André fungou. Não que houvesse sido constrangedor. Fora apenas insuportável aguentar todas as pessoas que paravam soltando ‘oooooown’ ao ver Sascha, e vinham acariciá-lo na maior cara de pau.

“Ele precisa de ração.” Fabrício repetiu. “E não o chame de cachorro, ele pode pensar que tu não ama ele.”

“Deus.” André revirou os olhos e pegou a ração e Sascha no colo, para que Fabrício tirasse o capacete. Deu as costas ao moreno e seguiu da garagem para dentro da casa. Certo, Cíntia havia ido viajar para visitar a prima aquela semana e aproveitar para realizar um trabalho de decoração em São Paulo, e portanto haveria tempo para que Sascha se acostumasse à casa sem grandes problemas. Heitor não pisava por ali desde a separação, o que o loiro achava bastante bom. Tornara-se alguém mais livre desde que o pai saíra da casa e fora morar num apartamento enorme no bairro Bela Vista. Amava o pai, sem dúvidas, mas um pouco de liberdade era bom para a saúde.

“Tua empregada não está em casa?” Fabrício o seguiu, perguntando.

“Não. Ela tirou folga hoje, porque a irmã ficou doente.” André informou, colocando Sascha no chão e indo procurar algum pratinho para colocar a ração, e outro para água. Sascha já viera vacinado e também castrado, ao menos com isso não precisava se preocupar. O labrador já saiu sapateando e xeretando tudo com o nariz curioso.

“Então estamos sozinhos?” Fabrício inquiriu, e André de imediato sentiu um arrepio percorrer-lhe a nuca com a pergunta. E não havia nenhuma malícia no tom do moreno. Estar só os dois ali não mudava nada, tentou convencer-se André.

“Só nós dois...” André murmurou. Concentrou-se em procurar algo que pudesse usar, e que não faria Cíntia surtar por ser usado por um cachorro, que não percebeu Fabrício se aproximar até estar parado às suas costas. Quando percebeu, virou-se rápido, assustado, e quase deixou cair o pratinho fundo que encontrara, mas Fabrício segurou-lhe a mão, impedindo o desastre.

“Está chateado comigo, não é?” Fabrício perguntou, milagrosamente sério, encarando André diretamente nos olhos. “Por causa de sexta.”

André hesitou, mas como nunca fora do tipo de conseguir segurar a língua ou tudo que o incomodava, então logo disparou: “Não devia ter feito aquilo.”

“Foi só uma brincadeira.” Fabrício defendeu-se, não o largando.

“De muito mau gosto. Estou tendo de esconder a marca, e ainda tive de dar explicações para a Natália.” Disse, irritado, devolvendo o olhar.

“Quem é Natália?”

“A amiga, ficante, coisa do tipo, que comentei na sexta.” Desviou o rosto, mas logo se arrependeu, porque Fabrício descaradamente afastou a gola do pescoço para ver o estrago. E o moreno ficou bastante impressionado, porque um roxo glorioso continuava marcado na pele branca, mesmo depois de tanto tempo. André corou e tentou se afastar da análise, mas Fabrício o segurou e levou a mão para roçar os dedos no roxo.

“Ficou bem feio mesmo... Desculpa.” Fabrício pediu, sincero, mas com os olhos ainda cravados naquele roxo. Curiosamente, estava um tanto fascinado por aquela marca, quase sentiu orgulho dela. Era uma sensação um tanto estranha; não conseguia desviar os olhos do pescoço do loiro, como se houvesse algo magnético ali.

André, constrangido até a alma por estar prensado contra o balcão da pia enquanto Fabrício parece prestes a lhe dar outro chupão, saiu da situação pela tangente, escapando e rapidamente servindo a ração no pratinho. Sascha correu até a comida, cheirou-a e lambeu a mão de André quando este foi dar-lhe um carinho atrás da orelha, antes de começar a devorar a ração especial para filhotes.

Fabrício sentiu-se acordar de um transe quando o loiro literalmente fugiu, e coçou a parte de trás da cabeça, pensativo, mas logo sorriu ao ver André alimentando o labrador.

“Como que eu vou cuidar de um labrador?” André perguntou, ajoelhado em frente a Sascha. Tentava afastar o silêncio. “Fico quase o dia inteiro fora de casa, e filhotes precisam de atenção.”

“Ele fica com a empregada. Tu passeia com ele e dá atenção quando voltar da aula.” Fabrício sugeriu, ajoelhando-se para também fazer carinho em Sascha. André afastou tão rapidamente a mão, quando a de Fabrício roçou na sua que já afagava o ladrador, que acabou pigarreando e se empertigando ao levantar, tentando parecer indiferente.

“Deveríamos pedir pizza.” Falou aleatoriamente. “Estou morto de fome, e não tem nada pra comer além de ração.”

Fabrício assentiu, dando de ombros.

“Eu como até ração, tu sabe. Pizza está ótimo.” Disse e sorriu quando Sascha, dando-se por satisfeito, começou a querer atacar seus dedos, com rosnados que não metiam medo nem numa mosca aleijada.

XxX

O sol já estava quase se pondo, e os dois acabaram sentados à beira da piscina, com os pés dentro da água e uma pizza tamanho família entre os dois, assim como uma garrafa de 3,5L de coca-cola. Na verdade, aquelas alturas, já era menos da metade de uma pizza e Fabrício já havia bebido quase toca a coca – era completamente viciado –, mas André já sentia a barriga estourando. O de olhos escuros estava com jeito de que comeria mais uma inteira, e aqueles últimos pedaços não restariam muito tempo.

Os dois conversavam sobre as aulas, as expectativas do curso, relembravam a época do colégio, contando um ao outro um pouco sobre a época em que passaram separados.

“Não acredito que tu nem precisou de cursinho, seu bastardozinho inteligente.” Fabrício o xingou. “Eu me matei estudando ano passado.”

André riu, dando de ombros.

“Mas agora todo mundo vai ter de se matar estudando de qualquer maneira. As coisas só irão piorar ao longo dos semestres...” Falou, pensativo. “Acho que tenho sorte de ter uma boa memória... Eu tenho muita preguiça de estudar.”

“Nasceu com a bunda virada pra lua. Tu acha que eu não tenho? Estou todo ferrado, nem estudei nada de anatomia ainda, ou melhor, estudei, mas não decoro aquelas loucuragens.” Suspirou e deu mais uma mordida generosa no pedaço de pizza que segurava. “Mas ‘tô acostumado, sempre tive de estudar bastante pra entender alguma coisa.”

“Tu passou em medicina, não se faça de burro.” André o empurrou pelo ombro, e o outro riu, quase caindo para o lado. “Tu se lembra... De quando a gente era pivete...”

Fabrício o olhou, curioso.

“Lembrar, eu lembro. Mas o que eu tenho de lembrar, exatamente?” Perguntou, quando André não completou a frase e voltou o olhar para a piscina.

“Que iríamos viajar juntos... Pelo mundo.” Riu. “Uma volta ao mundo.” Riu um pouco mais, coçando um olho. “Eu lembrei disso quando viajei ano passado.”

“Sério?” O moreno perguntou de boca cheia, depois de finalizar a pizza em mãos. “Tu... Pensava em mim antes de a gente se reencontrar?”

André sentiu as maçãs do rosto esquentarem e acariciou reflexamente Sascha quando este mordiscou sua mão, depois de farejar todo o pátio e quase cair na piscina umas três vezes.

“Não pensava... Eu pensei, quando estava lá. Havia sido uma promessa, não é? Eu lembro das minhas promessas. Só isso.” Respondeu, meio na defensiva.

“Eu lembro também.” Fabrício sorriu, apoiando as duas mãos no chão e inclinando o corpo para trás. Tombou a cabeça e olhou para o céu, esperando a chegada das estrelas. “Eu sabia que já te conhecia assim que te vi de novo no início do semestre. Não esqueci.”

“Mentira.” André replicou rápido, mas já sentia o coração meio agitado. “Nós conversamos na festa da matrícula, sabe. Tu estava tão bêbado, que mal conseguia caminhar. Eu devia ter te oferecido uma carona até em casa, mas estava sem um capacete extra...”

“Nós conversamos?” Fabrício arregalou os olhos e virou-se para ele, a atenção completamente tomada. “O que conversamos?”

“Nada de mais. Mas eu te reconheci na matrícula. Tu demorou dias. É um idiota mesmo.” Não se segurou. Chamar o outro de idiota era mesmo algo natural.

Fabrício riu, ou melhor, gargalhou, e se aproximou para apertar uma das bochechas do loiro.

“Que gracinha. Usou a memória monstra para lembrar rapidinho de mim.” Brincou e recebeu um empurrão do outro. “Tu não tem violão?”

“Tenho... ‘Tá pendurado na sala do segundo andar e-“ Fabrício nem esperou, levantou e correu para dentro da casa antes mesmo que o loiro terminasse. Sascha tentou segui-lo, mas não conseguiu subir os degraus altos, e ficou choramingando no pátio. “Ele já vai voltar.” André resmungou, mas pegou o labrador no colo quando este se aproximou atrás de consolo.

Dois minutos depois, e Fabrício reaparecia com o violão a tiracolo. Ele sentou-se novamente ao lado do loiro, pegou um pedaço pizza, deu uma mordida generosa, lambendo os dedos, antes de se posicionar para tocar.

“Como tu consegue comer ainda?” André perguntou, admirado.

“Como assim desde que virei adolescente. Provavelmente vou virar aqueles velhos barrigudos e carecas, de rosto vermelho e testa suada.” Riu, enquanto André fazia uma careta. “E aí, que música tu quer?”

“Sei lá.”

“Essa eu não conheço.”

“Idiota.” Revirou os olhos, mas sorriu. “Toca... Uma das brasileiras que tu gosta, então.”

“Tudo bem. Vou tocar uma do Legião Urbana, que eu toco e canto bem.” Sorriu convencido, já esperando a careta de ‘até parece, idiota’ do outro. E ela veio, claro. Depois disso, Fabrício começou a dedilhar.

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso,
Só que agora é diferente:
Sou tão tranquilo e tão contente.

Quantas chances desperdicei,
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

André afagou a cabeça de Sascha para acalmá-lo, quando ele começou a latir, impressionado com a música. Pegou-se preso pelos olhos escuros do outro, que cantava encarando-o. Era difícil desviar o olhar do moreno tocando o violão. Combinava demais com ele, aquele jeito despojado, o sorriso fácil e até a música brasileira.

No início, André não prestou bem atenção à letra, mas depois se pegou meio surpreso com ela. Era como uma indireta que ele preferia não entender, pois nem Fabrício parecia atento ao significado do que cantava.

Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira,
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo.

Já não me preocupo se eu não sei por quê.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.

André começou a mordiscar o lábio inferior, uma mania que tinha de quando ficava desconfortável, mas mesmo assim não conseguia desviar os olhos do outro. Magnético demais. Até Sascha pareceu perceber sua tensão, já que começou a lamber-lhe os dedos. André ficou tão absorto, que nem percebeu o olhar de Fabrício desviando-se lentamente para o lábio que tanto mordia. Fabrício observou a boca do outro de maneira inconsciente, como quem admira uma obra de arte sem compreendê-la, e as palavras da música vinham naturalmente pular de sua garganta afinadamente junto às notas que tirava do violão.

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos!
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Já não me preocupo se eu não sei por quê.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.

Afastou o violão e olhou para o loiro.

“Gostou?” perguntou, e Sascha latiu, assentindo.

“C-Claro. Um pouco. Pra profissional não serve, claro.” Tirou sarro, para amenizar a própria tensão. Suspirou e olhou para a piscina, satisfeito por enfim conseguir desviar o olhar do moreno.

“Chatão. Não sabe elogiar, mas ‘tô ligado que tu gostou. Daqui a pouco vai passar a ouvir só música brasileira.” Fabrício bagunçou-lhe os cabelos ao meter a mão entre os fios loiros e sacudi-los tal qual um ogro das cavernas.

“Sai pra lá.” André soltou um resmungo e o empurrou – não gostava de cabelo embaraçado.

Talvez fosse culpa da barriga cheia, mas Fabrício acabou se desequilibrando, pendendo para a piscina e soltando um ‘oooooo!’ de quem está prestes a cair. Como ele ainda estava de roupas, André arregalou os olhos e estendeu a mão para ajudar a segurá-lo, mas de novo a pizza pesou, e o que aconteceu foi os dois caindo na piscina, com roupa e tudo.

André emergiu tossindo, engasgado.

“Droga. Eu já estou gripado!” Reclamou e fungou, enquanto o outro ria, dessa vez mais ainda. Sascha latia desesperado, correndo de um lado para o outro na borda da piscina, até o momento em que se distraiu com o próprio rabo, e começou a correr atrás dele.

“Isso é bom, mais gripado não tem como ficar.” Fabrício finalmente conseguiu parar de rir. “A água até que ‘tá quente, parece piscina térmica.” Disse, começando a tirar as roupas.

“O que ‘tá fazendo?” André perguntou, achando que, sim, a água estava bem quente, e esquentando.

“Agora que caímos, vamos aproveitar, né?” Fabrício se livrou de tudo, ficando apenas de cueca. “Vamos lá, ou tu quer que eu tire tuas roupas por ti?” Sugeriu, ondulando as sobrancelhas negras.

“É claro que não!” André acabou por tirar as roupas também. “Sascha, nem pense em pular.” Avisou para o labrador, que havia parado e tentava aproximar o focinho da água. Sascha latiu e se sentou na borda com as perninhas esticadas, olhando-os triste por ser deixado de fora da brincadeira.

“Então...” Fabrício nadou ao redor do loiro apenas de cueca, fazendo este girar tentando manter o contato visual. Não era seguro perder Fabrício de vista, nunca se sabia quando ele iria aprontar. “Tu tem uma quase namorada?”

“O quê? Quem?” André perguntou, confuso.

“A garoto que tu mencionou: Natália.” O lembrou. “Como tu explicou para ela esse chupão?”

“Ela é mais amiga do que namorada... Não temos algo fixo.” André explicou, não gostando da maneira como Fabrício o rondava. Só faltava a barbatana, e ele seria o perfeito tubarão. Dentes afiados ele tinha, André havia comprovado com aquele chupão que mais parecera um ataque vampírico. “Eu disse que uma guria me agarrou na festa e me deu de brinde esse chupão.”

“Uma guria?” Fabrício não pareceu satisfeito, parando bem em frente ao loiro.

“Não ia dizer que foi um guri...”

“Tu gosta dela?” Fabrício perguntou num rompante, curioso de repente. Foi se aproximando mais, até que André sentiu as costas baterem na borda da piscina na tentativa de manter aquela distância segura e saudável.

“Gosto, claro.” André disse. Não a teria como amiga e ainda a levaria pra cama vez ou outra se não gostasse, não é? Mas os dois haviam decido que não dariam certo como namorados.

Fabrício soltou um ‘Hm’ que nada dizia, e se afastou, deixando o silêncio reinar entre os dois por alguns minutos. Até que André acabou falando também:

“A Gabi... Ela falou algo sobre uma ex-namorada tua, por quem tu ainda era apaixonado ano passado...” André comentou, como quem não quer nada. Também não queria se meter tanto na vida do outro, não sabia se já possuía essa ‘liberdade’. Mas Fabrício não pareceu se importar, ao apoiar-se à borda da piscina também, colocando os cotovelos para fora da água.

“Ela falou, é?” Riu. “Eu namorei a Thaís por muito tempo. Ano passado ainda estava aprendendo a ser solteiro. Sendo sincero, prefiro namorar a só sair ficando... Meio idiota, né?” Voltou a olhar para o céu, já vendo algumas estrelas por ali, ainda que não estivesse inteiramente escuro. “É verdade que pareço meio galinha, já fiquei com uma guria em cada festa que fui, mas nada foi realmente emocionante. Nem procurei a Luana de novo, sei lá... Mas quanto à Thaís, o nosso namoro já estava na base do comodismo, brigávamos muito. Às vezes sinto falta do namoro, da cumplicidade, sabe? Mas é só isso.”

“Não sei não. Nunca namorei.” André deu de ombros, e deu um jeito de afogar a sensação agradável de escutar do outro que ele não amava mais a ex-namorada. Só é bom saber que ele não está mais sofrendo por alguém. Pensou, resoluto.

Fabrício virou-se surpreso para ele.

“Nunca?” Perguntou. “Bah, às vezes eu sinto que cresci namorando.” Riu, e abriu um sorriso maroto. “Mas faz sentido, que guria que aguentaria teu mau-humor por tanto tempo? Quando ela entrasse na TPM, vocês se matariam até a morte.”

André riu. Matariam até a morte. Só Fabrício para falar algo assim.

“Vá se fuder.” O loiro esguichou água no rosto do outro, que ria também. Daí para uma guerra de água, foi questão de segundos. Ficaram na baderna até quase a exaustão, na tentativa também de afogar um ao outro, fugir, atacar, molhar. Até o momento em que Fabrício abraçou André, restringindo-lhe o movimento dos braços. Os corpos desnudos roçaram sob a água, e ambos se encararam ofegantes, rindo, até que a percepção da posição os fizesse ficar sérios pouco a pouco.

Fabrício olhou para o rosto do loiro, afogueado pelo esforço, os lábios rosados entreabertos, o sorriso que ainda brincava na face, mas se apagava pouco a pouco ao notar seus olhos observadores. André era bonito, foi o que pensou, e o corpo delgado e quente – provavelmente ele estava mesmo com febre – se encaixava perfeitamente ao seu.

Fabrício acabou por levar um choque. Eu estou pensando em beijá-lo. Percebeu, piscando abobadamente e acabando por soltá-lo.

André se afastou, ainda recuperando o fôlego. Fabrício o observou nadar até a borda e dar mais uns afagos em Sascha, que estava enlouquecido com aquela bagunça, querendo alguma atenção.

“Vai ter um aniversário nesse sábado. Queria que tu fosse também.” Disse ao loiro, que evitava encará-lo, concentrado em Sascha.

“Tudo bem...” André murmurou, sem pensar muito.

“Ok...” Fabrício precisava mesmo conversar com o tio.

Diogo era homossexual, e o moreno viu-se com vontade de contar a ele que havia sentido vontade de beijar um guri. E um guri homofóbico.

Ora, se isso não é problemático. Sorriu, porque sorrir era sempre o melhor remédio.

Notas finais
Obrigada a todos que comentam! Capítulo grandinho, para compensar a espera! Beijão, amores! ♥Ando a fim de escrever um cap. com o Davi. O que acham? xD