Good Riddance
25 O que mais dói
Notas iniciais
Fabrício soltou um resmungo de dor e afastou o rosto do gelo que André pressionava contra sua mandíbula, próximo do lábio inferior, que estava vermelho e terrivelmente inchado. O loiro segurou o lado contrário do rosto daquela criança resmungona e o forçou de volta contra o gelo.
“Se não ficar parado, não vai ajudar a desinchar.” André falou impaciente, mantendo a cabeça do moreno no lugar.
Estavam sentados frente a frente dentro da barraca. André havia corrido para buscar gelo ao notar o estado que seu soco deixara o rosto do Fabrício. Arrependia-se daquele soco e queria fazer algo para compensar; porém o Fabrício era pior do que criança quando se machucava, reclamava sem parar e não parava quieto. Aliás, quando ele parava quieto?
“Mas está doendo.” Fafá resmungou, fazendo o loiro suspirar e voltar a se sentir culpado.
“Quanto mais inchar, mais vai doer.” Avisou o óbvio, deixando seus olhares se encontrarem.
E aquela mesma tensão se instalou entre os dois.
André sentiu o coração agitar novamente, uma sensação que já começa a se tornar recorrente. Era difícil encarar o moreno depois do que havia acontecido. Havia tanta coisa a se dizer que elas entalavam na garganta, espremendo-se uma nas outras e misturando seus sentidos, letras e formas, impedindo que fosse possível dar voz a elas.
Quando o Fabrício terminara de cantar no terraço, os dois continuaram lá por um tempo, em silêncio, até que o André se acalmasse, ainda abraçado ao moreno. Fafá sugeriu que descessem, pois precisavam dormir ao menos um pouco antes da competição de corrida às 8h00min da manhã. Ambos desceram em silêncio, de mãos dadas – o que deixara o loiro com os sentidos agitados –, mas, ao entrarem na barraca, André decidira buscar o gelo.
E agora estavam com aquelas mil palavras não ditas carregando a barraca e deixando o espaço apertado para ambos. E se não conseguiam falar, talvez o melhor fosse agir. Fabrício apoiou uma mão no colchonete e se inclinou para frente, num ato espontâneo, desejando beijar o loiro novamente. André levou um susto pela aproximação repentina, e se inclinou para trás, fugindo do moreno com as pálpebras ligeiramente arregaladas e as bochechas enrubescidas.
André pela primeira vez viu o moreno esboçar uma rápida expressão chateada, que novamente criou um aperto no peito já dolorido. Fabrício pegou a sacola com gelo das mãos do loiro para colocá-la do lado de fora e, então, se deitou de com as costas viradas para o lado em que André dormia.
“’Tô podre de sono, melhor dormir.” Ele disse simplesmente, deixando o André paralisado na mesma posição, encarando as costas do moreno com os lábios entreabertos pela surpresa. Ficou parado observando o outro por vários minutos, e só viu-se capaz de se mover quando percebeu o ritmo da respiração do Fabrício mudar, denunciando que havia adormecido. Deitou-se também, acomodando-se no colchonete virado para o Fabrício.
Com certo receio que ele acordasse, André esticou a mão e roçou os dedos nas costas dele, sentindo-se mal por aquela expressão que Fabrício deixara escapar. Queria acordá-lo e... E nem sabia o quê! Desejou poder voltar para aquele momento no terraço, em que podia abraçá-lo, ou simplesmente ter coragem de conversar sobre tudo aquilo com ele.
Não! Espera aí um pouco! André pensou de repente. Era o Fabrício quem deveria se manter acordado e falar sobre aquilo! Fora ele que o beijara, certo? E por duas vezes seguidas! Maldito. E agora simplesmente ia deitar e o deixar ali, com cara de tacho? André sentiu vontade de esgoelar o moreno, e a raiva o ajudou a se esquecer dos pensamentos confusos por algum tempo; porém mais tarde a preocupação voltou. Como poderia ser gay!? Nunca me interessei em outros garotos antes! Afirmou peremptoriamente para si próprio, no entanto o pensamento quase inconsciente de que aquilo era uma mentira o oprimiu. Talvez só estivesse demasiadamente na negação para perceber que havia reparado em outros rapazes ao longo dos últimos anos.
Não aguentou todas aquelas revelações escondidas em seu interior, querendo explodir perante seus olhos, em busca de liberdade. Estava difícil tolerar aquela situação, e ficar olhando para o Fabrício, recordando os dois beijos que haviam trocado e, pior, perceber que o corpo se excitava com a lembrança, não lhe pareceu saudável. Não conseguiria continuar com aquilo. Não queria que ninguém descobrisse o que se passava dentro de si. Por que era tão difícil?
Aproveitando que o Fabrício continuava adormecido, e que estava bem próximo do amanhecer, o loiro rapidamente se levantou e colocou todas as coisas que havia trazido dentro da mala e, com o travesseiro embaixo do braço, saiu com mala e cuia da barraca. Pelo caminho, ligou para um serviço de táxi e dirigiu-se até uma das entradas do local que não ficava muito longe do alojamento da UFRGS, bem ao lado do quiosque onde mais cedo haviam jantado e o estúpido do Fabrício havia cantado a música Daniela.
André se xingou por continuar com raiva disso.
Que se foda pra quem ele canta! Que se foda o Fabrício todo! Pensou sem se convencer nem um pouquinho. Seus olhos estavam marejados de novo, e as malas pareciam mais pesadas do que antes. Que inferno! Só queria ir pra casa e fingir que nada daquilo havia acontecido. Teria sido melhor se nós nunca tivéssemos nos reencontrado, disse a si mesmo enquanto esperava pelo táxi, sentado sobre a própria mala, mas o mero pensamento causou-lhe uma ardência dolorosa em algum lugar indefinido de seu corpo.
Poucos minutos depois do amanhecer o táxi enfim chegou, depois de uns vinte minutos de espera. André se levantou e pegou as malas, assentindo para o taxista que lhe perguntara se fora ele quem havia ligado. André caminhou aqueles passos difíceis até o carro, em meio a uma luta interna sobre ir ou ficar, mas sentindo-se cansado demais para voltar atrás.
Quando segurou a trava da porta, alguém agarrou-lhe rudemente o braço, impedindo-o.
“Onde tu pensa que ‘tá indo?”
André sentiu todos os pelinhos do corpo se arrepiarem ao escutar a pergunta feita em um tom duro e repreensivo. O loiro se virou e, dessa vez, havia uma nova expressão no rosto do Fabrício. Pela primeira vez, ele o encarava com os olhos negros brilhando em irritação, a expressão fechada de uma forma que acelerou o coração do loiro, deixando-o com as pernas bambas. Era completamente diferente do Fabrício a que todos estavam acostumados, o que deixaria qualquer um sem reação, olhando-o estupidamente.
Fabrício bufou e o puxou para longe da porta do carro.
“Desculpe o transtorno, mas ele não irá pegar esse táxi.” Disse e entregou uma nota que tinha no bolso para compensar a viagem do taxista até ali. André tentou protestar, mas se calou com o olhar que o moreno lhe lançou. Um olhar que parecia cortar. Engoliu em seco enquanto o homem resmungava aceitando o dinheiro, e o Fafá pegava suas malas.
Somente quando o táxi já estava distante é que o loiro conseguiu reencontrar a própria voz.
“Tu não tinha o direito...!” Começou a falar, aflorando de indignação, mas Fabrício o interpelou.
“Tu que não tem direito nenhum! Tu faz parte do time de corrida, de vôlei e de futsal, e quer simplesmente ir embora e deixar todo mundo na mão?!” Jogou na cara do outro. Não era apenas por isso que estava irritado, mas era uma das principais causas. “Não seja tão egoísta, porra!”
André se sentiu momentaneamente envergonhado. Nem havia pensado por esse lado, simplesmente pensara em si próprio e quisera fugir daquele evento e do Fabrício. Mas então apertou os punhos, olhando para a areia da estradinha daquela rua pequena, sentindo-se particularmente teimoso.
“Eles iriam se virar sem mim! Todo mundo joga bem e-“
“Esse não é o ponto! Tu te comprometeu com algo, e tem gente contando contigo, e sem tu no time de vôlei, eles provavelmente vão perder e tu sabe disso!” Fafá rebateu, mantendo o tom repreensivo que fazia com que o loiro se sentisse uma criança de cinco anos novamente. Fabrício não estava errado, o time de vôlei não era dos melhores e, modéstia a parte, só ficava bom porque ele estava no time.
“Mas...!” André olhou para cima com os olhos novamente marejados. Maldição! Aqueles olhos não paravam de querer verter água. O que havia de errado consigo? Parecia que alguém abrira a torneira e esquecera-se de fechá-la. Eu não consigo lidar com isso... Guardou tais palavras para si próprio e, fechando a cara, tentou pegar as próprias malas de volta. “Me devolve. Se eu quiser ir embora, não é tu que vai impedir.” Foi tão teimoso que pensou que até ele se daria um soco se estivesse no lugar do moreno.
“Não.” Fafá o impediu. “Tu se lembra que me deve um pedido, não é?” Perguntou, fazendo o loiro erguer os olhos para si, pasmo. “Pois então, tu ‘tá proibido de deixar esse evento. Vai voltar com a turma de ônibus no domingo de noite, e fim de conversa. Agora vamos largar isso e tentar dormir mais um pouco. Ainda temos pelo menos uma ou duas horas de sono antes da competição.”
Fabrício se virou e começou a carregar as malas do loiro de volta para o alojamento. André não teve outra escolha que não segui-lo, o constrangimento pela tentativa de fuga retornando. Olhava para as costas largas do mais alto, que pisava duro, e refletia que havia conquistado um grande feito: deixado o Fabrício irritado. Agora sentiria ainda mais vergonha pra olhar para a cara dele. Que ótimo! Sorriu irônico, um sorriso que logo murchou.
De volta à barraca, Fafá praticamente jogou suas malas ali dentro sem qualquer espécie de cuidado – para nova indignação do loiro –, e se deitou para dormir sem novas palavras. André bufou, mas estava com os olhos ardendo de sono, havia bolsas escurecidas sob seus olhos pelas duas noites seguidas sem nenhum descanso restaurador, então acabou deitando também e tentando dormir aquela bendita uma hora que lhe restava.
Relaxou pouco depois e, de certa forma, lá nos confins da inconsciência, sentiu-se satisfeito por o Fabrício tê-lo impedido de partir. Sou mais idiota do que ele, pensou já meio adormecido.
Acordou pouco tempo depois, abrindo os olhos sem nenhuma razão, uma vez que continuava com sono; porém percebeu que o Fabrício não estava ali na barraca. Sentou-se agitado, olhando para a entrada da barraca, que estava entreaberta. Coçou os olhos; tinha o sono leve e portanto deveria ter despertado da inconsciência quando Fafá saíra da barraca. André saiu também, procurando pelo outro.
Ouviu uma música baixa e se apoiou no parapeito do camarote elevado em relação ao resto do auditório, e viu que o Fabrício estava tocando baixinho sentado em um dos degraus do lugar, suficientemente distante para que não incomodasse ninguém das outras barracas – que deveriam estar ferrados no sono, então não importava. André parou para escutar qual música ele começava a cantar, após apenas tocar por alguns minutos, e incrivelmente não era uma canção brasileira.
You spend most time
Você passa a maior parte do tempo
Trying to figure out
Tentando entender porque você nunca consegue entender
Why you can never figure out just what you're trying to figure out?
Justamente o que você está tentando entender
Spend more time living
Gaste mais tempo vivendo...
You spend most time
Você passa a maior parte do tempo
Searching for the love that'll be searching for your love
Procurando pelo amor que estará à procura do seu amor
You love to save your love for love
Você ama guardar o seu amor para o amor
Spend more time loving
Gaste mais tempo amando…
You spend most time
você gasta a maior parte do tempo
Talking 'bout yourself and how it matters to yourself
falando sobre si mesmo e como isso importa para você
More than to anybody else
mais do que qualquer outra pessoa
Spend more time listening…
gaste mais tempo ouvindo...
You spend most time
você gasta a maior parte do tempo
Judging everything as if you ever knew a thing
julgando tudo como se soubesse de alguma coisa
There's more to things than just one thing
Há mais nas coisas do que somente uma coisa
Spend more time respecting…
gaste mais tempo respeitando...
You spend most time
você gasta a maior parte do tempo
Worried 'bout what's to say about your silly little ways
Preocupado com o que irão dizer sobre suas maneiras bobas
Isn't that silly, anyway?
isso não é bobo, de qualquer forma?
Spend more time flowing...
gaste mais tempo fluindo…
A letra machucou. André sentiu como se cada palavra se transformasse em navalhas e se afundasse em várias partes do corpo, mas principalmente no peito, uma após a outra, no mesmo lugar, afundando a ferida até que o coração não conseguisse bater naturalmente. Então era aquilo que o Fabrício achava de si? Porque lhe parecia lógico que aquela música era direcionada para si, ainda mais depois do que acontecera. Ele ficou mesmo chateado por eu ter tentado ir embora... O pior era saber que tal música caía como uma luva, não era nenhuma mentira.
André abaixou o rosto, mordendo o lábio – não queria chorar novamente.
Então voltou para barraca, fugindo do resto da canção, se deitou, e fingiu dormir aqueles vinte minutos antes que o despertador tocasse, e eles tivessem de ir competir. Porém, inevitavelmente, a letra da música continuou ressoando na mente, acrescida pelo silêncio. Passe mais tempo vivendo... Mais tempo amando...
XxxX
“Por que eu tive de vir?” Gabi perguntou parecendo mais zumbi que André e Fabrício juntos. “Malditos, eu preciso dormir.”
“Nós precisamos de alguma torcida.” Fabrício explicou sem muito humor, e foi se aquecer e alongar. Gabi arregalou os olhos e olhou para o loiro.
“O que há com ele? Acho que é a primeira vez que vejo ele mal-humorado! Meu Deus, André, tu ‘tá contaminando o Fafá com esse teu humor de crocodilo!” Ela exclamou exaltada, apontando para o loiro com uma mão sobre a boca.
“Vai se foder.” André resmungou e foi se alongar também.
“TÁ VENDO?!” Ela gritou, mas o loiro a ignorou. Gabi bufou e foi se sentar junto com o pouco pessoal que estava ali para assistir. Acabou batendo papo com um garoto de outra universidade, a UFSC. E se animou toda quando o garoto, chamado Bruno, começou a se engraçar pra cima dele, e até achou que foi bom ter acordado tão cedo.
André estava se sentindo mal. Fafá de fato parecia mal-humorado, provavelmente ainda por causa de ter desviado do beijo e depois ainda tentado fugir do evento... Ele devia tentar entendê-lo! Não sou gay, oras, se justificou, e percebeu que essa justificativa provavelmente irritaria ainda mais o moreno. E irritava a si próprio, percebeu surpreso, abismando-se.
Era estranho se deparar com um Fabrício mal-encarado, deixava o loiro sem saber como agir ainda mais. Ele está me punindo por ser tão teimoso, concluiu sentindo-se ultrajado com aquele tratamento. Era tão injusto! Fafá devia fazer papel de vida boa que não se preocupava com nada! Suspirou. Aquele silêncio, constrangimento e modos estranhos do Fabrício o incomodavam demais. E não tinha coragem para peitá-lo e perguntar o porquê daquele comportamento. Pois isso levaria a justamente àquilo que o assustava, o momento em que não poderia mais fugir.
O resultado da corrida foi esperado nas várias diferentes provas. Fabrício e André alternaram entre o primeiro a terceiro lugar com outros urguênses, e às vezes alguns rapazes de outras universidades. Foi um marco na história da corrida do Intermed, ao menos para os urguênses, que levaram um monte de medalhas e ajudaram a UFRGS a subir algumas posições no ordenamento geral da competição.
No feminino, uma das colegas dos garotos ‘arrebentou’ os músculos de ambas as panturrilhas, pois chegou atrasada e não aqueceu, nem alongou. Caiu de boca no chão e arrancou risada de todos. Quando ela não conseguiu se levantar, o pessoal percebeu que era sério, e André correu para ajudá-la. Pegou-a no colo e disse que iria levá-la de volta, já que a competição masculina já havia terminado. Era uma forma de fugir do outro, obviamente.
Fafá se jogou nas arquibancadas ao lado da Gabi, que nem fora cumprimentá-los por estar animada no papo com o tal Bruno. Mas há pouco o garoto havia dito que ia torcer com os amigos pela namorada que iria correr, deixando a Gabi desolada e abandonada na arquibancada.
“Parabéns pelas vitórias.” A guria disse emburrada. “Ainda mato vocês por terem me acordado e me feito sofrer uma desilusão amorosa.”
“Foi mal. Eu só não queria vir sozinho com o André.” Disse sincero, esfregando a testa e passando a mão pelos cabelos suados. Não sabia se aguentaria o cansaço até o final do Intermed, mas esperava conseguir dormir após o jogo de futsal do dia, que seria às 14h30min.
Gabi o encarou apalermada. Fafá vivia grudado no loiro, e agora não queria ficar sozinho com ele? O cérebro da morena quis explodir. Era muito cedo para revelações estranhas.
“O que diabos aconteceu?” Perguntou franzindo a testa, satisfeita por ao menos esquecer a pedrada na cabeça que recebera ao escutar do Bruno que ‘ia torcer pela namorada gostosona’. Ele não usara aquelas palavras, mas... Gabi era uma pessoa que se iludia fácil, fazer o quê.
“Aconteceu que eu ‘tô a fim dele, e não sei mais como agir, o que fazer, o que dizer, acho que ‘tô ficando doido. Eu só penso em agarrar ele, só que parece que só ‘tô estragando tudo. Eu não devia ter beijado ele ontem de noite.” Despejou tudo, não se aguentando e aproveitando que havia pouca gente ali, e mais nenhum conhecido por perto.
Se antes o cérebro da Gabi quis explodir, agora ele derreteu, virou geleia e escorreu pelas orelhas. O queixo da garota caiu no chão, e os olhos saltaram das órbitas. Abrindo e fechando a boca, Gabi não conseguiu encontrar palavras para aquilo por uns bons quinze segundos. Fafá coçou os cabelos, achando que ou André iria matá-lo por ter contado aquilo pra outra pessoa, ou... Ou iria matá-lo mesmo, não havia segunda opção.
“Fafá... Tu... É gay? A pessoa que tu falou que ‘tava a fim é o Dré?!” Gabi não tinha preconceitos, mas ainda assim era uma surpresa. Ela achava que tinha um bom gaydar. Havia identificado um dos colegas de turma como gay, sendo que ninguém mais sabia e ainda achavam que ele não era, porém ela confirmara sua teoria com um amigo em comum. Ou seja, Gabi se achava boa naquilo, mas ali estava ela, tomando um susto porque seu melhor amigo era a fim do loiro marrento que ela também não imaginara que tinha chances de ser gay, principalmente por causa do rolo que ele tinha com a Natália.
E eu achando que o Fafá ‘tava a fim da Daniela. Gabi, sua cega!
“Gay, bi. Eu lá sei! Nunca tinha me interessado por nenhum guri antes, até porque passei um bom tempo namorando, mas... Aí conheci o André e esses sentimentos todos apareceram, e eu ‘tô jogando eles todos em cima do André. E estou irritado comigo, e até com ele. Nem me reconheço mais! Acho que vou quebrar minha cabeça na parede, com licença.” Fafá tentou se levantar e ir bater a cabeça na dita parede, mas Gabi, rindo, o impediu, puxando-o de volta para o banco.
“Calma!” Ela riu mais, um tanto histérica. Talvez um pouco pelo nervosismo. Estava com sono, por Deus! E recebia uma notícia daquelas, e ainda deveria dar algum conselho. Conselho, conselho, conselho. Tentou pensar em alguma coisa, porém a coisa mais brilhante que saiu de seus lábios foi. “Eu tenho algo a confessar... Eu também sou bissexual. Já fiquei com gurias em algumas festas, só nunca tinha comentado antes.”
O queixo do Fabrício caiu, e os olhos poderiam ter saltado para fora.
“Sério?” Perguntou bobamente. Gabi assentiu.
“Foram poucas vezes, só uma vez foi um rolinho mais sério, mas durou só umas semanas. Mas eu às vezes sinto atração por algumas gurias, que fazem o meu tipo.” Riu envergonhada, mordendo o lábio. Nunca contara porque ainda se sentia meio em dúvidas quanto aquilo. Gostava de garotos e sentia atração por eles, mas em alguns momentos sentia grande interesse por meninas. Era um pouco confuso, e preferira guardar as experiências para si, apenas a melhor amiga Beca, que vinha lá da época do colégio, sabia sobre isso.
Fafá abriu a boca para encher a amiga de perguntas, afinal também era bastante curioso, mas ela o interrompeu com um “shiu!” que exigia silêncio, enquanto erguia a mão para calá-lo.
“Esse assunto não é sobre mim, depois te conto o que quiser saber. Agora quem ‘tá no palco pra brilhar é tu e o Dré! E sobre o loiro... Ele não era homofóbico?”
Fafá sorriu torto, acabando por deixar a curiosidade para depois, e colocou as mãos atrás da cabeça. Era bom desabafar com a amiga, e ainda mais uma que também já passara por algo um pouco similar.
“É... Ele está tentando mudar isso por causa do Davi. Ele ficou bem mal com o que aconteceu com o guri, e se culpou bastante. Mas não deve ser fácil logo em seguida já descobrir que é gay... Isso se ele for. Eu não sei o que se passa na cabeça dele... Sei que ele deve ‘tá confuso, mas-“
“É óbvio que ele deve ‘tá confuso, anta!” Gabi exclamou. “Vocês se beijaram! E até uma semana atrás ele odiava gays, aquele grande idiota! Já imaginou o quanto a família dele deve ser nazista com isso? E o quanto ele deve estar com medo? Eu nem sei o que dizer pra vocês.” Balançou a cabeça. Precisava dormir. Meu Deus, Fafá estava querendo dar uns pegas no André! E agora que parava para pensar, até que não era tão estranho. Aqueles dois se amavam mesmo, viviam naquela de cachorro e gato. Fafá seria o cachorro, e André o gatinho birrento, Gabi refletiu filosófica.
E, aleatória, começou a cantar enquanto fazia vários trejeitos para acompanhar a música:
Sometimes I hate every single stupid word you say
(às vezes eu odeio cada uma das estúpidas palavras que você diz)
Sometimes I wanna slap you in your whole face
(às vezes eu quero bater em todo seu rosto)
There's no one quite like you
(não há ninguém como você)
You push all my buttons down
(você me leva ao limite)
I know life would suck without you
(eu sei que a vida seria uma merda sem você)
At the same time I wanna hug you
(ao mesmo tempo, eu quero abraçar você)
I wanna wrap my hands around your neck
(Quero pôr minhas mãos em volta do seu pescoço)
You're an asshole, but I love you
(você é um idiota, mas eu amo você)
And you make me so mad I ask myself
(você me deixa tão irritado que eu me pergunto)
Why I'm still here, or where could I go?
(por que eu continuo aqui, ou pra onde eu deveria ir?)
You're the only love I've ever known
(Você é o único amor que conheci)
Sim, Gabi estava com muito sono e seus neurônios não se encontravam funcionais. Fafá, de olhos arregalados, a mirou como se ela fosse louca por começar a cantar do nada se abraçando, movendo as mãos e fazendo caras e bocas, e receber um olhar desses do Fabrício, era porque a coisa estava preta. O moreno acabou gargalhando, junto com a amiga, que não se aguentou. Cantava tão mal sem ajuda do Fabrício, ainda mais em inglês! Mas mesmo assim complementou:
But I hate you
(mas eu te odeio)
I really hate you, so much
(Eu realmente odeio você)
I think it must be
(tanto que eu acho que deve ser)
True love, true Love
(Amor verdadeiro, amor verdadeiro)
It must be true love…
(Deve ser amor verdadeiro...)
“Okay, chega.” Fabrício tapou a boca da morena, antes que ela terminasse de destruir a música. “Já entendi. Realmente, me lembra eu e o Santa.” Riu um pouco mais.
Gabi o mordeu, fazendo Fafá soltá-la com uma exclamação de dor.
“Primeiro, me conta toda essa história direito. Em detalhes.” Gabi exigiu, enquanto Fabrício pressionava com os lábios a região cruelmente atacada pelos dentes afiados da morena.
Fafá suspirou. Seria uma longa história mas, de qualquer forma, eles tinham até as 10h30min, quando seria o jogo de vôlei. Pôs-se a narrar, contando até sobre algumas situações dos dois na infância. Ao final, depois de muitas exclamações, interjeições e intromissões, Gabi lhe deu um conselho.
“Continua dando um gelo nesse loiro. Aposto que até o final do dia ele ‘tá se jogando nos teus braços cheio de carência. Se isso não acontecer...” Ela riu perversa, deixando o final subentendido, e Fafá percebeu, a mente feminina realmente era uma das coisas mais perigosas do universo.
Bem, Fafá continuava confuso, com medo de agarrar impulsivamente o loiro a qualquer momento. Seria bom se afastar um pouco e dar um tempinho pro André pensar sobre o beijo que haviam trocado. Ou não. Talvez o agarrasse de uma vez, e acabasse com aquela agonia. Até porque continuava ‘de cara’ com ele por ter tentado fugir do Intermed, e achava que ele estava bem merecendo mais uma lição.
XxxX
André nunca se sentira tão cansado na vida. O jogo de vôlei terminara com todas as suas energias, e só tivera forças para ir tomar um banho, almoçar e depois já partir para o jogo de futsal. E tudo parecia tão chato! Fafá continuava mal o olhando na cara, e isso... Isso magoava. O loiro tentara se aproximar sutilmente em certos momentos, mas Fabrício parecia prever suas tentativas e ia se enturmar com algum outro grupo, ou conversar com aquela maldita Daniela que havia dado as caras novamente!
Até durante o futebol eles tiveram uma sincronia ruim, e venceram por míseros 2 x 1, mas ao menos haviam ganhado. No vestiário, onde alguns tomavam um banho, André tentou não ficar consciente demais da presença de certo moreno de pele bronzeada e corpo definido. Estava estupidamente quente ali dentro, inferno. André começou a se sentir meio zonzo com todo aquele calor do vapor. O loiro tinha pressão baixa, era difícil lidar.
Sentiu os batimentos cardíacos aumentarem, e um calor subir do peito se misturando com um suador gelado, enquanto a visão se turvava. Acabou desmaiando. Por sorte foi amparado por um dos colegas de time que estava próximo, e estava de roupas – seria constrangedor demais desmaiar pelado. Aliás, era constrangedor de qualquer maneira! O desmaio do loiro causou um rebuliço dentro do vestiário.
Fafá quase teve uma parada cardíaca ao ver o André desmaiado. Correu até ele, mesmo que estivesse pronto pra entrar no banho só com a toalha enrolada na cintura, e empurrou pra longe o tarado que o segurara, amparando-o no lugar do carinha safado.
“Ele precisa de ar!” Falou para ninguém em especial e pegou o loiro no colo, levando-o para fora do vestiário. Uma sorte que àquelas alturas a maioria do pessoal já havia debandado, e o vestiário não dava diretamente para o campo. Deitou André com a cabeça um pouco mais baixa que o resto do corpo e virou a cabeça dele para o lado, para evitar que ele se engasgasse com a própria saliva.
Alguns minutos depois, André começou a recobrar a consciência. A primeira coisa que viu ao abrir lentamente os olhos foi uma parede. Depois virou o rosto para cima, experimentando pontadas de dor de cabeça, e notou que suas pernas estavam no colo do moreno.
“Por que tu ‘tá só de toalha?” André perguntou desorientado e tentou se levantar.
“Hei, hei! Calminha aí!” Fafá o impediu de se levantar rápido demais, deixando o loiro passar um braço por seus ombros. André percebeu-se quase sentado no colo do moreno apenas de toalha. Corou. “Tu desmaiou no banheiro. Deve ser pelos dois dias seguidos sem dormir direito e pelo esforço físico. E por estar se alimentando mal no almoço, cabeção.”
André lembrou-se da tontura e sensação angustiante que sentira antes de perder os sentidos, e corou ainda mais ao entender que havia desmaiado na frente de um monte de gente.
“Tu percebeu.” André sorriu amarelo. Mal comera naquele dia. A comida daquele lugar dava-lhe um reboliço no estômago só com o cheiro. Era muito forte e gordurosa; André quase se sentia como uma grávida. E isso que Diogo dissera que não queria ninguém grávido. Deus, ainda estou sob efeitos do desmaio, pensou atrapalhado com os próprios pensamentos.
Fabrício segurou o rosto do loiro e, com o polegar, baixou a pálpebra inferior dele.
“Acho que tu ‘tá anêmico.” Fafá declarou ao notar a mucosa descorada do loiro.
“Ah, de novo não!” André se irritou. Vivia anêmico. A mãe também tinha o mesmo problema, devia haver algum fator genético para sua tendência a ficar com falta de ferro. Mas, de fato, vinha se alimentando mal nos últimos dias, não somente ali no Intermed (o RU da UFRGS já era suficientemente nojento), e praticando exercícios demais.
“Vou ter de cuidar da tua alimentação também, Bela Adormecida?” Fafá perguntou com um sorriso no canto do lábio. André voltou a ruborizar. Fafá continuava só de toalha. E ele está falando comigo de novo! O coração do loiro se empolgou no peito. Coração traíra.
“Claro que não, idiota.” Resmungou, baixando o olhar. André se sobressaltou e se afastou um pouco do moreno quando o pessoal que estava no vestiário começou a sair, de banho tomado. Eles pararam para perguntar se estava tudo bem, genuinamente preocupados, e André sentiu-se ainda pior por aquele vexame.
“Estou bem, foi só minha pressão que baixou.” Explicou emburrado.
Não era a primeira vez que desmaiava, a pressão baixava muito fácil. André odiava isso. Um tempo atrás descobrira que tinha uma tal de síndrome vasovagal, desencadeada por falta de compensação vascular pós movimentos súbitos, permanência por longos períodos na mesma posição em locais com muita aglomeração de pessoas, ou pós quadros agudos de estresse. Doar sangue, calor intenso, exercícios extenuantes, desidratação, fome também podiam ser causas frequentes de síncopes para o loiro. Sem contar que era perigoso para ele ficar desidratado, e os dois últimos dias bebendo horrores de álcool, se alimentando mal e suando bastante durante as atividades físicas e durante o próprio dia, bastante quente, não colaboravam em nada.
“Fica bem, hein, loiro! Ainda precisamos de ti pros próximos dois jogos!” O rapaz mais adiantado do curso, lá pelo décimo semestre, que o havia amparado, piscou-lhe antes de se despedir. Fabrício não gostou nada do cara, parecia interessado demais no seu loiro.
Seu loiro...
Isso assustou um pouco o Fabrício. Nunca fora ciumento! E agora estava olhando feio pra um desconhecido que meramente se mostrara preocupado com o André. Suspirou e se levantou, segurando a mão do outro para ajudá-lo a se levantar também. A verdade era que estava inseguro quanto sua relação com o André, e insegurança gerava ciúmes...
“Melhor nós dois irmos tomar um banho também. Eu ainda ‘tô de toalha.” Fabrício falou o óbvio. André se levantou, mas rapidinho soltou a mão do moreno, como se levasse um choque, e logo se arrependeu ao ver a expressão do Fabrício endurecer, os olhos estreitarem. Eu fiz de novo! O rejeitei! André percebeu nervoso e tentou alcançar a mão do outro novamente, mas Fafá deu-lhe as costas e dirigiu-se para o vestiário.
André quase correu atrás dele, mas estava se sentindo tão fraco... Quando entrou no banheiro, quase desmaiou de novo. Só teve tempo de ver Fabrício entrando num dos boxes – completamente nu. Meu Deus, que bunda era aquela?! Não conseguiu reprimir o pensamento e quis se afogar na privada por reparar na bunda do outro. Se virou para a pia e jogou água no rosto; aproveitou e bebeu um pouco, mesmo que não fosse uma água lá muito confiável.
Sentia-se desidratado, e estava suando de novo.
Demorou até conseguir se recuperar, o fôlego restaurado. Tirou as roupas e foi para o boxe ao lado do que Fabrício tomava banho. Os únicos sons do vestiário provinham da água dos chuveiros. O silêncio era torturante. André achou torturante tomar banho sabendo que o moreno estava logo ao lado, completamente nu e... E eu não deveria estar pensando nisso! Se repreendeu ao perceber que, se pensasse mais um pouquinho, acabaria excitado, e não era um bom momento pra se virar com as próprias mãos.
XxxX
“Tu viu o Santa?” Fafá perguntou para a Gabi em determinado ponto da tarde, quando a maioria do pessoal estava assistindo a um dos jogos, de handball pelo que lembrava, mas os dois estavam em frente aos alojamentos, com uma toalha estendida sobre a grama tomando um chimarrão.
“Hei, te aquieta!” Gabi deu-lhe um tapa no braço. “Tu não ia dar um gelo nele?”
“É que eu fico com saudades...” Fafá murmurou abaixando a cabeça, olhando pro chimarrão que segurava nas mãos.
“Aaaawn, que fofo!” Gabi derreteu. Depois de tudo que o Fabrício contara, ela estava torcendo muito pelos dois. Ainda lhe parecia surpreendente que o moreno fosse bissexual, gay, sabia-se lá, mas ela achara a história fofa e queria vê-los juntos. “Mas não,” Deu mais um tapa no amigo, voltando a ficar séria. “Tu tem de se manter firme, pelo menos por hoje, espera ele dar algum sinal de que não vai mais ficar tentando só fugir... Ai, que loiro complicado! Depois dizem que as mulheres é que são complicadas, né?” Revirou os olhos.
Fafá deu de ombros. Já estava acostumado com o jeitinho complicado do outro. Conversaram mais um pouco e, quando a Fran e o Rafael apareceram, Fabrício anunciou que precisava ir dormir algumas horas. Estava pregado, e aquela noite haveria uma festa à fantasia. Não dava pra deixar de ir, ainda mais que Fabrício nunca havia ido a uma festa à fantasia! Havia comprado uma de vampiro, estava animado para usá-la.
Foi para a barraca e acabou encontrando uma bela adormecida por ali. Devia ter imaginado que o loiro também tentaria descansar. Ainda havia a festa daquela noite, e mais dos dias de evento. Não havia outro jeito, deitou-se também na barraca e programou o despertador pra umas nove da noite. E isso que era recém umas cinco da tarde.
Acomodou-se no colchonete, virando para o loiro que estava de costas para si e dormia profundamente. Parecia um anjinho adormecido. E só adormecido mesmo, porque quando acordava era aquela coisa brabinha... Riu de leve e se acomodou mais perto do loiro, apenas o suficiente para conseguir sentir o aroma do perfume caro. Não consigo ficar muito tempo chateado, ou irritado, pensou e deu uma cheirada no cangote dele; porém André rolou no colchão e acabou com o corpo quase colado ao do Fabrício.
André ronronou qualquer coisa em meio ao sono e se aconchegou mais contra o peito do Fafá, parecendo especialmente carente enquanto dormia, pressionando-se contra o moreno. Este, com os olhos arregalados pela surpresa, passou um braço pela cintura esguia do loiro, mais por reflexo do que por qualquer outra coisa. Isso não é bom, Fabrício pensou nervoso. Ah, droga, droga, não, agora não, agora não, cacete!
Literalmente cacete. Fabrício acabou excitado com aquela aproximação. Sentiu-se quase como um velho tarado há anos sem sexo, mas o que podia fazer? Estava mesmo há um bom tempo sem sexo, e outro bom tempo a fim de dar uns amassos naquele loiro. Fafá deixou a cabeça cair sobre o braço, sentindo-se derrotado. Já vi que não vou dormir nada...
O loiro teria de recompensá-lo por aquilo depois, ah se teria...!
XxxX
Quando André acordou, ele estava dormindo abraçado ao Fabrício. O loiro levou um susto, e seu primeiro pensamento foi de que precisava se afastar. E rápido. Não queria repetir a infâmia da última vez em que estavam na barraca dormindo, em posições comprometedoras... Porém após o sobressalto inicial, manteve-se parado e olhou diretamente para o rosto adormecido do moreno. O que foi uma péssima ideia, pois não conseguiu mais desviar o olhar do semblante pacífico do outro.
Fabrício era bonito... Não era nenhum modelo, nem se poderia dizer que era um Deus grego, mas ainda assim era atraente, charmoso, cativante daquele jeito bobo alegre dele, ou em alguns momentos com uma seriedade que chegava a ser estranha, principalmente durante as aulas ou coisas do gênero. André não queria se afastar, aquele dia em que os dois passaram num clima mais gelado já fora tão estranho... Tão ruim. Era simplesmente péssimo se sentir distante do moreno, mesmo que por poucas horas.
Fabrício era uma pessoa quente, em todos os sentidos. André não queria se afastar daquele calor. Passou a mão pelo rosto daquele idiota de que tanto gostava, traçando suavemente, com a ponta dos dedos, as linhas que formavam o rosto magnético dele. Fafá tinha um sono de pedra, provavelmente só acordaria com um soco, mas mesmo assim André começou a se sentir constrangido com o que fazia, o corpo esquentou roubando o calor do outro, mas não parou.
Pelo contrário.
Aproximou o rosto e encostou os lábios suavemente nos lábios do Fabrício.
Não podia! Sabia que não! Deus, o que estava fazendo?! Depois de tanto fugir, de tanto procurar desculpas... Simplesmente não conseguia mais se segurar. Apertou mais os lábios na boca do outro, segurando a respiração com o peito em chamas. Sabia que se arrependeria daquilo. Ou não. Já nem mais sabia o que sentia. Ou o que sentiria. Tudo era uma grande e complicada confusão na mente do loiro. Ele só sabia que precisava repetir aquele contato. Não conseguia tirar da cabeça os outros beijos que haviam trocado, principalmente o último, mais nítido e real.
...Eu ‘tô loco por ti. Ainda não percebeu?
André sentiu todo o corpo arrepiar ao lembrar o que o Fabrício havia dito em meio a toda aquela água salgada. Se tu é louco por mim, não devia me deixar no vácuo o dia todo! Pensou consigo mesmo, indignando-se, prestes a quebrar o contato ao também se lembrar do beijo dele com a Daniela. Porém de repente o braço do moreno estreitou em sua cintura, arrancando-lhe bruscamente o ar dos pulmões, e o Fabrício girou o corpo, ficando por cima do loiro.
André ofegou com o peso súbito sobre si. Uma das pernas do Fabrício estava entre suas coxas, e o moreno, ainda estupidamente adormecido, moveu-se, gerando uma corrente elétrica através do corpo do André, que soltou um gemido assustado ao perceber que estava prestes a acabar com uma ereção. Fabrício roçou os lábios na bochecha do loiro, resmungando qualquer coisa em meio ao sono, num tom rouco.
André apertou os olhos, suas mãos agarrando a camiseta do outro, que moveu novamente a perna, destroçando seu esforço em não ficar aceso. Ofegou desconcertado, excitado, e aprisionado sob o corpo do outro.
E o despertador do Fabrício tocou.
André levou um novo susto e empurrou o moreno para o lado, com o que lhe restava de forças. Puta que pariu, que merda! Foi só o que pensou ao se sentar, pondo-se meio de costas para o outro que despertava pelo barulho e movimentação, evitando assim que Fabrício notasse tanto o estado de suas bochechas e até orelhas que queimavam, quanto o volume entre suas pernas.
Fabrício, ainda meio grogue, pegou o celular e olhou as horas.
“Bah, ‘tá na hora...” Foi tudo que ele disse, e saiu da barraca. O queixo do André caiu. Como assim ele saía dessa forma, depois... Depois... André sentiu vontade de destruir aquela maldita barraca e fazer o Fabrício comer aqueles colchonetes até engasgar e morrer por falta de ar. Jogou-se novamente no colchonete e abraçou o travesseiro, sentindo-se jogado de lado. Onde estava o Fabrício idiota que acordaria falando algo como ‘hibernei como um urso’ e iria xeretar feito um cachorro o que havia de errado com o loiro.
Maldito. André pensou atormentado e aborrecido, esquecendo-se do fato que no dia anterior também fizera praticamente a mesma coisa com Fabrício. A diferença era que o Fabrício sabia como arrancá-lo de seu mau-humor, e sempre conseguia amenizar qualquer problema. E André percebeu que não sabia como agir quando o oposto acontecia. Sentiu-se distante do moreno, largado, e incapaz de contornar todo aquele redemoinho maluco que se tornara o relacionamento dos dois.
E isso doía...
Fale com o autor