Good Riddance

31 Festa de loucos


Notas iniciais
Obrigada de coração à Eu-Pamy e Faith pelas recomendações!!!

Diogo serviu os aperitivos em uma tábua de carne na sala; nem usavam a mesa, para deixar tudo mais informal. Os garotos estavam morrendo de fome e era melhor alimentá-los antes que eles decidissem jantar carne de cachorro e espetinho de gato. Sascha e Cherry não gostariam disso. Ainda que agradasse ao Diogo a ideia de um espetinho de Cherry. Mas era bom que Fafá não ficasse sabendo disso, então cortara vários pedacinhos de salame, queijos e rolinhos de cream cheese com amendoins e damasco para eles, enquanto preparava o resto da janta.

Sascha andava de um lado pro outro, pedindo por pedacinhos dos aperitivos com as carinhas mais adoráveis do mundo, e nenhum dos três era muito capaz de resistir, André era o que mais alimentava o filhote. Já Cherry dormia sobre o encosto do sofá, parecendo uma bolinha branca. Os quatro conversavam sobre assuntos amenos, Diogo e Rique contavam experiências da faculdade, e os mais novos também relatavam sobre as aulas e expectativas.

Até que Diogo, quando foi servir a peperonata, não aguentou de curiosidade. Queria saber mais sobre os dois, então soltou em seu habitual tom de quem nem faz ideia de estar fazendo uma pergunta inconveniente:

“E vocês? Quero saber o que aconteceu. Até quarta-feira o André estava dizendo que não ficaria grávido, e agora já tenho de me preocupar com um possível neto.” Brincou, fazendo o loiro se engasgar com um rolinho de creem cheese. Fafá soltou uma gargalhada, e por isso foi acotovelado nas costelas pelo André. “Vamos, é melhor me contarem do que me deixarem descobrir pelos meus próprios métodos.”

André corou, enquanto Sascha latia, olhando para o aperitivo que Henrique pegara como se este fosse o objetivo de sua vida. Ou de seu estômago.

“O teu sobrinho se declarou.” Disse, pontual, achando que não precisava entrar em maiores detalhes. Rique sorriu para o constrangimento do mais novo, realmente lembrava a si próprio nos primeiros meses de relacionamento com Diogo.

“Eu sabia que tu tinha culhões, rapá!” Diogo deu tapa no ombro do sobrinho que quase o desmontou, e Sascha correu pra abocanhar o aperitivo que o moreno deixou cair no chão por acidente.

“Obrigado, tio.” Fafá agradeceu. “Foi isso, eu me declarei, nos beijamos, mas o André me deu um soco, aí nós tivemos um dia estranho ontem, e só de noite nos entendemos.”

“Ficamos muito felizes por vocês dois.” Henrique meteu-se antes que Diogo falasse outra barbaridade. O amor de sua vida não tinha qualquer tato, mesmo que tentasse treiná-lo desde que haviam se conhecido. “Vocês dois lembram muito eu e o Diogo quando mais novos.”

“Mesmo?” André se interessou, erguendo o olhar pra Henrique. Até porque, seria bom tirar o foco dele e do Fabrício. Daqui a pouco Diogo descobriria na marra o que haviam feito no banheiro. “Por quê?”

“Bem... Fafá nos contou que tu não aceitava gays antes, não é?” Henrique perguntou cuidadosamente. André sentiu vergonha de admitir aquilo para um casal de homossexuais, e pior, afirmar sua hipocrisia já que estava ali recebendo carinhos do Fabrício na coxa desde que começaram a comer.

“É... Meus pais e, basicamente, toda minha família são preconceituosos.” Estremeceu. Era algo que preferia esquecer, pelo menos por enquanto.

Henrique sorriu complacente.

“A minha também. Eu também era preconceituoso, até conhecer o Diogo.” Contou.

“Mas eu dei um jeito nisso rapidinho!” Diogo falou da cozinha, preparando as brusquetas de shitake com shoyu, e fazendo todos rirem de leve. Henrique revirou os olhos, mas sorriu e continuou.

“Não deixa de ser verdade. Nós nos conhecemos na faculdade, não éramos amigos de infância como vocês dois. Diogo não me contou logo de início que era gay, apenas seis meses depois que já éramos bastante amigos. Eu fiquei chocado assim que ele contou, claro, mas não consegui sentir nojo dele, nem nada. Nossa amizade continuou e, com o tempo, meu preconceito cedeu por completo.”

“Mas por que tu não contou pra ele logo de início, tio?” Fafá perguntou ao tatuado, e Diogo veio da cozinha, sentando-se um pouco no apoio de braço da poltrona em que Henrique se sentava, sua mão automaticamente indo fazer carinho nos cabelos negros do namorado.

“Ah... Eu nunca fui de ficar expondo que sou gay a torto e direito, ainda mais entrando na universidade e conhecendo tanta gente nova. Fiquei na minha no início, queria conhecer as pessoas primeiro, antes de me assumir. Me assumi no segundo semestre, primeiro pro Henrique, e depois para mais alguns. Obviamente em pouco tempo todos sabiam.” Riu.

“E como tua turma agiu? Te aceitaram?” André perguntou, ansioso, empurrando com o pé Sascha que começara a mordiscar-lhe o dedão, como que exigindo por mais aperitivos.

“A maioria foi bem tranquila. Muitas meninas quiseram se tornar mais minhas amigas, até comecei a ser convidado pra sair com elas, ir à praia, convites que os héteros não recebiam.” Riu-se mais, recordando tais momentos. “Mas sempre há os preconceituosos, alguns preferiam não se envolver muito comigo.” Deu de ombros. “Porém eu tinha meus amigos e não dei bola.” Voltou pra cozinha, mas isso não o impedia de continuar na conversa.

“Como foi que... Vocês dois começaram a namorar?” André não aguentou a curiosidade. “Foi logo depois?”

“Quem dera!” Diogo exclamou, enquanto Henrique ria. “Da minha parte, foi amor à primeira vista!”

“Que mentiroso! Na primeira vez que nos falamos ele falou que eu tinha cara de nerd antissocial.” Henrique contou. “Não, não foi logo em seguida. Nós só fomos ter algo no quinto ano da faculdade.”

André arregalou os olhos, achando-se fraco. Tinha de ter enrolado o Fafá por cinco anos também. Não, nem eu aguentaria tudo isso.

“Eu me apaixonei pelo Henrique no final do terceiro ano da faculdade, acho.” Diogo se apoiou ao balcão em estilo americano da cozinha. “Essas coisas são difíceis de determinar um tempo exato. Mas o quarto ano foi meu tormento, estava apaixonado, e achava que o Henrique era hétero. Éramos melhores amigos, e apesar de eu ser cara de pau em vários momentos, ele parecia se fazer de louco para não entender o que eu estava tentando dizer.”

“Eu inconscientemente escolhi não entender. Olhando para trás agora, eu já estava apaixonado também, mas me aceitar era diferente de aceitar os outros. Eu não queria ser gay, havia todo o peso da minha educação, da minha família em cima de mim, e eu via o Diogo como melhor amigo, era complicado.” Disse, notando os olhos do loiro brilharem em identificação. “Ficamos um ano assim, era mais fácil pois não nos víamos tanto quanto antes, por estarmos em ano de estágios, até que no final do ano nós conseguimos chegar a resultados animadores no laboratório de pesquisa onde trabalhávamos, e na empolgação nos beijamos.” Henrique contou. Essa parte Fafá já sabia. Incrível que nunca tivesse conversado com os tios sobre como haviam começado a namorar, além de alguns fatos soltos aqui e acolá.

“Logo depois daquilo eu decidi largar a faculdade, já sabia que não era o que eu queria, só continuava empurrando com a barriga. Notei que havia estragado tudo com aquele beijo, pois a situação ficou ruim entre nós. Então eu decidi facilitar e sair logo do curso. Mas antes passei na casa do Rique para deixar a situação "às claras" e também contar que eu iria largar o curso de medicina.” Diogo continuou o relato. André não sabia como alguém tinha coragem de, depois de cinco anos, largar o curso. Era ter uns neurônios a menos mesmo.

“Eu fiquei desesperado em ouvir isso. A única coisa que pensei, meio dramaticamente, era que nunca mais iríamos nos ver... Bem, eu já estava apaixonado, então acabei num impulso o beijando.” Henrique riu coma lembrança. “Ah, éramos tão jovens! Tínhamos 23 anos na época.”

“Falando desse jeito, parece que tem oitenta anos, não trinta e cinco!” Fafá riu do tio.

“Jovens ou não, depois disso nós caímos na cama e tivemos um sexo selvagem.” Diogo finalizou, com um sorriso malicioso. André quase se engasgou de novo, enquanto as sobrancelhas do Fabrício subiam.

“Pare com isso!” Henrique olhou feio pra o tatuado, que riu descarado. “Isso só aconteceu um tempo depois, mas não vem ao caso.”

“Mas devo avisar que tivemos mais cedo um sexo selvagem nesse sofá em que vocês estão sentados.” Diogo fez o desfavor de avisar. André sentiu ímpetos de se levantar.

Henrique tapou o rosto, meio corado.

“Eu preferia ter ficado sem essa informação.” Sentou-se mais ajeitado, na ponta do cômodo.

“Pois fiquem sabendo então que o banheiro-“ Fabrício recebeu um beliscão que o impediu de continuar. “Hei! Daqui a pouco eu serei um hematoma humano, e não um humano com hematomas!” Reclamou, mas André não se importou.

“Não se preocupem, tinha um lençol em cima do sofá e eu já tirei ele.” Rique informou pra deixar os garotos mais confortáveis. “E Dido, cale a boca.” Pediu, fazendo os dois mais novos rirem, enquanto Diogo murmurava que qualquer lugar do apartamento era perigoso para visitantes.

“E sua família, Henrique? Como reagiu quando soube sobre vocês dois?” André mordeu os lábios e, cansado das insistências do cachorro, jogou mais um pedacinho de queijo para Sascha.

“Foi bem difícil no início, André. Mas por mais difícil que tenha sido, não me arrependo de nada. Fui muito mais feliz depois de me assumir, do que quando era enrustido. Uma vida de mentiras, e longe de quem se ama, é muito mais dolorosa do que uma verdadeira, mesmo que tenha seus altos e baixos. Mas respondendo à sua pergunta: meu pai não me aceita muito bem até hoje, ainda gosta de criticar homossexuais na minha cara e me diminuir por ser gay, já minha mãe finge que eu não tenho um namorado, mas me trata bem. O resto da família me chama de "o médico gay" ou o "psiquiatra gay". Minha família sempre foi de um tipinho bem desagradável, todos adoram brigar, fofocar, criar intrigas, e eu fui um prato cheio quando me assumi. Mas eu tenho meus amigos, o Diogo, meu trabalho, e algumas pessoas da minha família – duas primas, um primo, e uma tia – que são importantes pra mim, e isso é o suficiente.

“E pra ti, tio?” Fafá virou-se para Diogo. “A minha mãe aceitou bem? O que tu acha que ela vai dizer quando souber de mim?”

“Que tu andou convivendo muito comigo?” Digo sugeriu, mas depois riu, abanando a mão em descaso. “Brincadeira, ela jamais diria algo assim. Tua mãe é muito mente aberta também, moleque, assim como a tua avó. Único problema que tive foi por parte do meu avô, a quem eu era muito ligado, e que gostava muito de mim, mas era extremamente conservador e homofóbico. Eu não queria decepcioná-lo... Acabei nunca contando a ele, mas isso foi algo que me atormentou muito. Já meu pai... Era um meio termo, eventualmente acabou aceitando, mas nunca me destratou nem nada, só a relação ficou um pouco estranha no início. Mas isso é assim, infelizmente as pessoas ainda agem como se sexualidade determinasse caráter ou mudasse aquilo que fomos a vida inteira. Me assumi aos dezoito para alguns, para outros aos vinte, para outros aos vinte e três, quando eu e Henrique começamos a namorar. Não mudei nada depois de me assumir, mas mesmo assim alguns passaram a não gostar de mim. Não faz sentido algum, mas a gente mantém por perto quem gosta da gente e nos ama pelo que somos, e não por quem fodemos.” Arrematou, acabando com o ar filosófico e profundo do discurso.

Uma risada irrompeu de todos, mesmo que tentassem suprimir.

“Obrigado por contarem isso. Eu... Estou com bastante medo da reação dos outros e, acho que... Vou preferir não contar pra mais ninguém por enquanto. Ouviu, Fabrício?” Lançou um olhar afiado para o moreno, que sorriu e coçou os cabelos, culpado.

“Vamos sempre estar à disposição caso precisarem de alguma ajuda. Tirar dúvidas, buscar apoio em qualquer assunto que quiserem: sexualidade, faculdade...” Rique ia dizendo.

“Corte, costura, culinária, literatura, filosofia, dúvidas existenciais, somos quase uma enciclopédia.” Diogo enumerou, brincalhão. “Nós temos alguns anos a mais de experiência pra compartilhar.” Piscou, fazendo os mais novos sorrirem, agradecidos.

“Que cancha esses meus tios.” Fafá falou, emocionado, e André se surpreendeu ao ver que os olhos dele estavam umedecidos, e ele piscava tentando não deixar as lágrimas caírem.

“Fafá...!” André tocou o rosto do moreno, que sorriu envergonhado. “Tu ‘tá chorando?”

“Hãh...?” Fafá se fez de desentendido, continuando a sorrir, e segurou a mão do loiro na sua, ainda piscando pra ‘reabsorver’ as lágrimas. Sascha latiu e pulou nas pernas do moreno várias vezes, pedindo colo, talvez querendo consolá-lo. André não sabia se o cachorro era ou muito inteligente, ou muito intrometido.

“Mas é um fofo esse meu guri!” Diogo exclamou, querendo dar um abração no sobrinho. Amava-o muito, era um garotão especial. Mas deixou que André cuidasse disso, um namorado sempre seria mais proveitoso.

“E essa janta, hein? Já ‘tô quase explodindo aqui, e tu ainda cozinhando, tio!” Fafá mudou de assunto, depois de abraçar o loiro pela cintura. André ficou meio envergonhado, mas não se negou. Era bom poder ficar assim com o moreno na frente de outro casal, que não os julgaria, porque eram iguais.

“Calma lá, moleque! É bom ter espaço ainda nessa barriga, pois tem as brusquetas, o penne e a sobremesa ainda!” Diogo informou. “Há pouco ‘tava me dizendo que ‘tava morto de fome, e agora já ‘tá arregando? Ah, mas te passo no laço, baitola.” Brincou com um sotaque forte de ‘gaúcho macho’ da fronteira.

Os quatro caíram na gargalhada.

“Pois eu ainda tô com fome. Parece que há dias não comia algo que prestasse.” André comentou, mas ele, no caso, havia comido metade da quantidade de aperitivos que o moreno enfiara na boca.

“Vou ajudar pra agilizar, antes que vocês desistam de esperar.” Henrique se levantou e pegou umas brusquetas. Logo voltavam a papear enquanto comiam o resto da janta, rindo de monte e se divertindo com piadas e histórias sobre os mais variados assuntos. André gostou de ouvir mais sobre o relacionamento dos dois, o fazia cada vez mais perceber o quanto um relacionamento homossexual era igual a qualquer outro – amor, brigas, passeios, companheirismo, dúvidas, medos, superações.

“Só falta vocês adotarem uma criança. Imagina que tri que seria!” Fafá comentou em certo momento, pois Diogo comentara que os quatro pareciam uma família feliz, jantando juntos.

“Acho que vamos!” Henrique abriu um sorriso comovido, feliz por o tópico ter aparecido. “Nós já andamos visitando um orfanato... Conhecemos e nos apaixonamos por uma menina! Ela tem dois aninhos e se chama Cecília.”

“Sempre quis uma menininha. Vou cuidar dela até os 35 anos, quando ela vai poder se casar.” Diogo informou, sonhador. Nem seria um pai ciumento, claro que não. “Também há um garotinho que gostamos muito.”

“Bah, mas que legal, tios!” Fabrício se empolgou também. “Eu vou ter uma priminha! Ou priminho!”

A partir daí começaram quase que uma festa e um falatório sobre as crianças, contando que haviam decidido aquilo há pouco, já que Henrique enfim se estabilizara no trabalho, e Diogo vendera os terrenos e conseguira uma boa grana também. Sascha pareceu mais elétrico do que nunca com aquela bagunça.

André achou que havia se metido numa família de loucos. E uma família de loucos prestes a aumentar de tamanho.

Mas fazer o que, ele estava adorando.

XxxX

André e Fabrício bem que se voluntariaram a lavar louça e arrumar a cozinha, mas os mais velhos os enxotaram dali. Sabiam que os dois deviam estar cansados do Intermed, e agora arrumavam por eles próprios, enquanto Fafá e André estavam na sacada, os ombros encostados e conversando aos cochichos.

“Eles não são uns amores?” Henrique perguntou, enquanto secava um prato. “Realmente me lembram nós dois.”

“Isso que tu não os conheceu muito quando pivetes. Estavam sempre juntos, não desgrudavam. Isso é amor de infância que voltou com tudo.” Diogo comentou com um sorriso. “Só fico triste pois vai ser difícil pro André se a família descobre. Foi pra ti.” Deu um beijo rápido na bochecha do namorado.

“Foi... Mas como eu disse, foi melhor. Vivo muito mais feliz assim, do que do jeito que meus pais gostariam.” Henrique garantiu. “E o Fabrício com certeza estará ao lado dele para apoiá-lo.”

“Sim.” Diogo olhou para os dois, vendo-os rirem de alguma coisa, André empurrando o moreno com o ombro. “Disso eu não tenho dúvida. Até porque, se não fosse assim, não seria sobrinho de quem é.”

“Convencido.” Henrique balançou a cabeça, resignado.

“Te ver e não te querer. É improvável, é impossível. Te ter e ter que esquecer. É insuportável. É dor incrível...” Fafá começara a cantar pertinho da orelha do loiro, divertindo-se com a maneira como esse tentava se afastar, os pelos da nuca arrepios.

“Pare de cantar colado no meu ouvido.” André reclamou num sussurro, estremecendo, tentando empurrá-lo, mas Fafá o abraçou por trás, e continuou a cantar, mordendo a orelha do loiro. Ambos esquecidos do resto do mundo, nem lembravam que Diogo e Henrique ainda estavam por ali, e perdiam-se naqueles momentos enamorados.

Um tempo depois, tudo arrumado, os dois levaram os garotos de volta ao campus da Ulbra. Diogo, claro, não pôde deixar de comentar que beijos na piscina eram uma delícia quando comentaram sobre o convite que haviam recebido.

“Acho que vou precisar de alguns meses pra me acostumar ao jeito do teu tio.” André sussurrou para Fabrício assim que desceram do carro, ainda se despedindo dos mais velhos.

Fafá riu calorosamente.

“Há outras coisas que tu precisa se acostumar primeiro.” Comentou e deu um apertão na bunda do loiro.

Só não levou um soco porque... Bem, na verdade levou um, no ombro.

XxxX

“Eu tenho de agradecer o André. Encontrei o Beto e ele me contou que eu ‘tava bem louca ontem de noite, e que o André ficou cuidando de mim. ‘Tô surpresa, nem meus amigos mais próximos me ajudaram.” Vanessa relatava para a Gabi e para a Fran, que se riram, divertidas.

“Eu acho que te vi de longe, tu ‘tava muito piradona.” Gabi apontou, fazendo Vanessa suspirar.

“Ai, que vergonha, agora peguei fama de bêbada, sério, um monte de gente ‘tá falando disso. Me escondam.” Disse, e não era mentira. Havia sido marcada como a bêbada do Intermed pelos colegas. “Aliás, onde ‘tão o André e o Fabrício?”

“Foram jantar com os tios do Fabrício, que estão aqui por Torres.” Fran comentou, mas depois se arrependeu.

Vanessa franziu as sobrancelhas.

“Por que o André foi junto, e vocês não?” Perguntou, deixando as duas sem saber o que dizer por alguns segundos. Até que o Rafael apareceu, saído do além – ou talvez da barraca que estava próxima – e falou:

“Por que a gente ‘tava vendo um jogo quando os tios dele fizeram o convite. Aí os guris foram, e nós ficamos por aqui mesmo. Eles foram jantar fora e eu tô meio sem grana, e seria chato deixar os tios dele pagarem, né?” Riu com naturalidade, e Fran fez uma nota mental sobre o alemão ser bom mentindo.

Rafael não era trouxa. Ninguém havia lhe contado nada, mas ele vinha reparando nesses dois meses que a relação entre os dois amigos era diferenciada. E quando estava junto com o Fabrício e ele falava do loiro, era visível a forma um tanto empolgada demais a que o moreno se referia ao amigo de infância. Depois do Intermed e de notar a interação deles nas festas, juntas as peças era coisa de criança.

“Ah, sim.” Vanessa concordou. “E vocês vão na festa de hoje?”

Os três se entreolharam. Beto havia pedido pra não espalhar sobre a festa na piscina, ou senão todo o Intermed apareceria por lá. De novo Rafael deu uma enganada.

“Vamos sim. Mas vamos mais tarde porque combinamos de caminhar até a praia de noite hoje.” Falou.

“Nossa, caminhar até a praia? Boa sorte pra vocês, porque é longinho!” Vanessa falou e se levantou, levando junto sua caneca da medicina. “Vou procurar as gurias, nos falamos depois!”

Assim que ela se afastou, Fran e Gabi se voltaram para o alemão.

“SEU DISSIMULADO!” Fran exclamou, e Gabi balançou a cabeça em concordância. “Nós somos as gurias aqui, esse é nosso papel!”

“Mas vocês ficaram com cara de tacho e não falavam nada!” Rafael se defendeu.

“Desde quando tu sabe mentir tão bem? O que vem escondendo da gente até hoje? Que mentiras tu já nos contou?” Gabi se aproximou dele com um olhar meio psicopata, assustando o loiro que ergueu as mãos para o alto.

“Nenhuma mentira!” Garantiu, mas depois suspirou. “Ok, eu menti sobre algo.”

“Sobre o quê?” Fran quis saber, estreitando os olhos.

“Sobre gostar de vocês duas. Eu sei, é loucura, quem seria capaz de algo assim? Eu forcei a barra nessa, me desculpem.” Falou com um suspiro, apologético. Recebeu dois tapas bem dados, junto com uns gritinhos indignados. Sinceramente, havia perdido a conta do quanto apanhara por não ter o Fabrício e o André para fazer esse papel de saco de pancadas. Logo ele, que era tão quietinho. “Hei, hei! Estou brincando, parem!”

“Posso saber o que ‘tá rolando aí, gurizada medonha?” Fabrício chegou perguntando junto com o André, pegando os três no flagra, sentados na escada do alojamento. “Que agressividade toda é essa?”

“Garotas são agressivas por natureza.” André comentou.

“Olha quem fala, o estressadinho!” Gabi implicou.

“Não sou estressadinho!” Exclamou, mas todos lhe lançaram descrentes, fixos. Pigarreou. “Ok, eu sou, mas não sou agressivo.” Fabrício o olhou avisando-o silenciosamente que tinha evidências em seu corpo que provavam o contrário. André arrematou, cínico: “Só quando os outros merecem, claro.”

“O Rafael merecia.” Fran disse, resoluta.

“E essa festa, hãh? Eu ‘tô por ir, ‘tá um calorão, uma piscina vai ser bom.” Fafá comentou, puxando uma cadeira e se sentando próximo do pessoal. André se sentou nas escadas.

“Vamos sim!”Gabi disse, alegre, mas então viu a pessoa que estava na entrada do alojamento da UFRGS. “Dani...?”

“Oi.” Ela abanou desconfortável, não entrando muito. “Será que eu e tu poderíamos conversar um pouco, Gabi?”

Gabi mordeu os lábios, mas assentiu, levantando, a expressão séria como não era comum ser. Fran bem que quis impedir, mas acabou ficando quieta enquanto a morena seguia para fora do alojamento junto com a índia.

“Credo, que caras de funeral são essas?” Fafá perguntou sem entender. André tinha uma expressão de desgosto, Fran ficou braba e Rafael quieto, o que era bem normal, mas um quieto diferente.

“Nada não...” Fran deu de ombros. “Vou ir atrás do meu biquíni. Não sei se eu trouxe um, para falar a verdade.”

“Também vou atrás do meu biquíni. Ele é um luxo.” Rafael gozou, erguendo-se, e fazendo os outros rirem.

“Esse Rafael ‘tá uma figura hoje. Já sabemos que fica doidão quando ‘tá que nem gambá.” Fafá apontou, e o alemão mostrou-lhe o dedo do meio enquanto seguia para, na verdade, o banheiro.

Fafá e André se entreolharam, rindo.

“Só conheci louco nessa faculdade.” André deu de ombros.

Beto apareceu pouco depois, como se atestasse ser mais um louco.

“Achei vocês, que sorte! E aí, vão ir? Chamaram mais quem? Estamos pensando em ir um pouco mais cedo, tipo, agora.” Ele riu, obviamente já meio alto. Afinal, àquela hora da noite todos já haviam passado boa parte do dia bebendo. “Com vocês, já fecha quase quarenta louco numa piscina. Temos de ir logo antes que fique demais. Ah, e se tiverem alguma bebida pra levar...”

“Chamamos mais três amigos.” Fafá comentou. “Eu não tenho bebida, mas posso comprar umas cevas ali no quiosque, ‘tô com grana folgada.” Falou, lembrando-se do dinheiro que o tio havia lhe empurrado.

“Eu tenho uma vodka na minha mala, e um energético. Vocês tem gelo?” André perguntou. Havia levado já que tinha sobrando em casa, nunca se sabia. Beto pareceu bem animado com aquilo.

“Sim, temos! Beleza, tragam tudo que puderem. E venham logo, chamem os amigos de vocês. Encontro vocês no ônibus, e não esqueçam roupa de banho... Isso se não se importarem de ficar de cueca.” Beto avisou sorrindo e, com um aceno, saiu do dormitório.

Rafael voltava naquele momento.

“Cara, esse negócio de não ter água ‘tá insuportável. O banheiro ‘tá fedendo mais do que gambá morto. E eu queria um banho.” Suspirou. “Imagina aquele bando de fedorento pulando tudo na piscina.”

André fez uma careta de nojo. Não havia pensado nisso.

“Ah, não sejam frescos, todo mundo já tomou banho de piscina em algum clube, e sempre tem uns porcos nesses lugares. Nenhuma água é muito sã.” Fafá objetou, sempre pela festa, e se levantou. “Temos de ir logo, Ô FRAN, TE AJEITA RÁPIDO AÍ!” Gritou.

“CALMA, JÁ TÔ INDO.” Ela berrou de volta, de dentro da barraca entre tantas outras.

“Vou botar minha bermuda de banho e pegar as bebidas.” André se levantou e subiu rapidamente as escadas.

“E a Gabi?” Fran saiu da barraca, com um biquíni por baixo da roupa. “Vou atrás dela, esperem!” Correu pra fora do alojamento também.

“Eu vou ir trocar de bermuda e pegar o dinheiro.” Fafá subiu também.

“Ótimo, ok, eu espero aqui, sozinho.” Rafael falou consigo mesmo, mas foi pegar uma grana também, pra comprar umas bebidas e não aparecer de mãos vazias.

XxxX

Gabi torceu as mãos ao final do que Dani lhe contara. Ela não falara muito, apenas admitira que roubara dos pais e irmã para ajudar uma pessoa querida, que estava doente e precisava de alguma ajuda, e confessou que fora apaixonada pelo Fabrício durante vários meses.

“Me desculpa mesmo, Gabi. Eu não sei como tu ficou sabendo disso, eu só falava em casa, então deve ter sido pela minha irmã. Eu e ela não nos damos bem, mas ela não mentiu, eu acabava desabafando em casa o meu recalque. Eu me arrependo de verdade, porque eu te considero uma amiga, a primeira amiga, ou melhor, segunda amiga que eu tive na vida. E eu te amo por isso.”

Gabi arregalou os olhos, o coração batendo forte. Mordeu os lábios, abaixando a cabeça. Dani parecia realmente sincera, e ela sempre havia gostado da índia, a considerava uma amiga também, e sentira saudades durante o tempo em que ficaram sem contato. Muita saudades. Até demais, para ser sincera.

“Ok, vamos esquecer aquilo? Desculpe pelo que eu falei, apenas me abrace agora.” Determinou e se aproximou, abraçando a índia e pegando-a de surpresa. Dani sentiu um alívio aterrador e afundou o rosto no pescoço da outra, apertando-a em seus braços.

“Obrigada, Gabi. Isso significa muito pra mim.” Dani garantiu, deixando seu lado vulnerável aparecer. Quando estava no cursinho, não costumava mostrá-lo, nem na faculdade. Não gostava que os outros a vissem frágil, então se mantinha confiante e algumas pessoas até a consideravam esnobe, por ser linda. Não se importava.

“Mas Dani...” Gabi se afastou. “O Fafá ‘tá em outra agora, então melhor tu não dar mais em cima dele, ok? Pra não quebrar a cara. Erm... Desculpe falar assim.” Desviou o olhar.

“Tudo bem, eu meio que percebi isso. Eu entendi mal as coisas, e na real eu nem sei mais o que sinto por ele, talvez fosse apenas orgulho ferido e eu quisesse ficar com ele pra provar pra mim mesma que conseguia... Eu sei, sou idiota, mas agora eu só quero a amizade de vocês, pelo menos por hoje e amanhã, já que não nos veremos mais depois...” Disse, cabisbaixa.

“Mas dessa vez manteremos contato!” Gabi garantiu.

“Hei, vocês duas!” Uma voz desconhecida para a Gabriella chegou aos ouvidos delas. Um garoto de cabelos loiro-mel encaracolados se aproximou, parando próximo com uma mão na cintura.

“Estamos quase saindo. Tu vai na festa da piscina também? É melhor buscar tuas roupas, lindinha. E Dani, quero te apresentar a alguém, vem!” Chamou com um gesto da mão.

“Ai, meu deus, vou lá pegar meu biquíni! Tu vai também? Ai, que tri! Já volto!” Gabi exclamou agitada e correu pro alojamento.

Dani suspirou, olhando-a partir.

“Tudo certo?” Milo perguntou.

“Sim.” Sorriu. “Só que não quero tu me empurrando mais ninguém. Vai te pegar com aquele Beto que ele é gato, e vocês só têm mais hoje e amanhã.” Disse, indo em direção ao quiosque, onde comprou uma cerveja.

Milo a seguiu.

“Ai, para, tu precisa ficar com alguém pra sair dessa fossa. Ali ele, olha.” Apontou para um rapaz bastante bonito que conversava numa outra rodinha. “O que acha?”

“Acho que prefiro minha cerveja.” Disse, com descaso. “Não preciso de homem pra ser feliz.”

“Sei.” Milo revirou os olhos. “Pois eu preciso, e a razão da minha felicidade atual ‘tá vindo pra cá, então licencinha, vadia.”

“Vadia é tua bunda, nem por isso eu julgo.” Dani mostrou a língua, e bebeu mais um pouco.

XxxX

Havia mesmo umas quarenta pessoas no ônibus que os levou até o ginásio onde havia uma piscina. Quando chegaram lá, as pessoas saíram correndo do ônibus, já invadindo o lugar, ligando o som, ajeitando os isopores com toda a bebida que haviam reunido. Uns já se jogaram de imediato, sem sequer tirar as roupas.

André e Fran se sentaram na borda, depois de pegarem umas bebidas. André reparou que, apesar de magrela, Fran tinha um corpo bonito, com algumas curvas, e seios chamativos.

“Sinceramente, o Rafael é um idiota por não querer ficar contigo.” Falou de repente, sobressaltando a garota. Fran corou de leve, lembrando-se disso. Era constrangedor.

“Ainda sinto raiva de ti por ter contado a ele. Tive de desmentir dizendo que tu ‘tava ficando louco.” A irritação surgiu de leve na voz, mas suspirou em seguida, mantendo a calma. “Eu gosto mesmo dele, e vê-lo todo soltinho e piadista esses dias só piorou tudo.”

“Desculpa, eu ‘tava estressado, nem pensei no que ‘tava falando. Mas... Já que eu fui fofoqueiro com ele, vou ser contigo. ‘Tava conversando com ele antes, e ele admitiu ter sentido um pouco de ciúmes quando te viu ficando com outro cara na festa de ontem.” Comentou, não sabendo se isso era certo e errado, mas pelo menos agora as coisas estavam iguais.

“Sério?!” Fran perguntou, abismada, e seu coração se acelerou um tanto. “Não ‘tá falando isso só pra me animar né? Olha que te puxo as orelhas de novo.”

“Não, é sério! Eu consigo ver vocês dois juntos.” Admitiu, coçando os cabelos, e bebeu mais um gole de vodka com energético. “E tipo, ele ‘tá olhando pra cá agora, e não parece muito feliz de ver nós dois juntos.”

Fran riu, olhando com cuidado para o alemão. Houve contato visual, mas Rafael desviou rapidamente.

“Se ele soubesse que tu não é risco nenhum.” Murmurou, pilhérica.

“Hei!” André se indignou. “Eu poderia ser um risco!”

“Não quando está com o Fafá. Diz, rolou algo quando vocês saíram?” Perguntou. “Não quero detalhes, claro, isso seria a Gabi quem gostaria de escutar. Mas pelo teu jeitinho todo felizinho desde que voltaram, aposto que rolou coisa! Tu só falta começar a brilhar!” Implicou. “Dizem que sexo deixa a pele mais bonita.”

“Ah, vai pro inferno, nem era nem pra tu nem a pra Gabi saberem sobre isso!” André pulou na piscina e começou a se afastar pela água. Fran apenas riu por alguns segundos, mas parou, ficando nervosa quando Rafael se aproximou e tomou o lugar em que André estivera sentado.

“Festa louca, né?” Ele perguntou para iniciar o assunto. Sorria, e Fran sentiu um arrepio pelo mero sorriso. Não ficaria nervosa não fosse pelo que André havia dito, porém sorriu para o amigo e iniciou uma conversa natural com ele.

XxxX

“Isso ‘tá uma loucuragê.” Fafá falou, daquele seu jeito bobo. “Tô com medo de alguém se afogar.” Havia gente dançando na borda da piscina, outros na água conversando, ou brincando de lutinha. Duas gurias estavam sentadas sobre os ombros de dois rapazes, e lutavam uma contra a outra enquanto os outros faziam apostas.

Rafael deveria estar adorando a visão.

“Tô torcendo pra que as gurias comecem a tirar a parte de cima do biquíni.” André disse displicente, mesmo que não fosse verdade. Bem, a visão não seria de toda ruim, mas não teria o mesmo apelo de antes.

“Eu não. Já ‘tô vendo tudo que quero aqui.” Fafá deu uma olhada descarada pra os mamilos do loiro, e por algum motivo André teve ímpetos de afundar mais na piscina só pra escondê-los, mas obviamente não o fez. Jogou água no rosto do moreno.

“Cale a boca.”

“Isso é chato. Queria poder estar te beijando, que nem aqueles casais ali, ou como o Beto e o Milo.” Fafá olhou para o casal de rapazes se pegando sem medo na piscina, abraçados, trocando beijos e sorrisos. Só amigos e conhecidos do Beto estavam ali, então certamente não havia ninguém para condená-los.

“É, mas eu não quero, não em público.” André afirmou, e ficou feliz quando Gabi surgiu de baixo da água, emergindo bem em frente aos dois, evitando que um silêncio chato se abatesse entre ele e o Fafá – ainda que fosse difícil ver o moreno calado.

“Hei, vocês dois, alguém me ergue que eu quero brincar de lutinha também! Vem tu!” Ela puxou o Fafá, já que ele era mais alto e ligeiramente mais forte que o loiro. André não teve outra escolha que não ir atrás de uma bebida e de alguém com quem conversar.

Depois de ganhar várias lutas – Gabi não era nada fraca –, ela se voltou para o Fafá.

“Há uma outra piscina lá atrás. Ela é menor, o Beto falou que vai levar o Milo pra lá, e disse que vocês dois poderiam ir também, se quiserem um pouco mais de privacidade.” Ela sussurrou para o amigo, antes de nadar até a Daniela e outros rapazes que estavam com ela.

Fabrício saiu da piscina e se aproximou do loiro, cochichando no ouvido dele. André sentiu a nuca se arrepiar, e ficou em dúvida se era uma boa ideia, mas quando Beto se aproximou e falou que somente ele tinha as chaves da parte de trás, acabou por concordar e os quatro se esgueiraram para a outra área do ginásio. Ali, uma piscina três vezes menor reluzia tranquilamente com a luz fraca que atravessava as janelas altas.

“Acho que essa piscina é para natação artística e essas coisas.” Beto falou, chaveando a porta às costas deles. “Eu ‘tava querendo um pouco de paz, essa é a quarta noite de bagunça sem dormir direito, ou melhor, sem dormir nada.”

“Eu ‘tô exausto também, mas amanhã é o último dia.” André falou, caindo na piscina, e se arrepiando quando Fafá, sorrindo predador, entrou também e se aproximou, enlaçando-o pela cintura. “Não fica-“

“Ai, não grila.” Milo logo comentou ao ver o desconforto do loiro. “Só tem viado aqui, então não precisa ficar envergonhado. E resistir a um moreno desses é pecado. Jesus concorda comigo.”

Fafá corou com o comentário, e André não gostou de ser chamado de viado, porém não falou nada sobre isso.

Beto entrou também na piscina, e abraçou Milo, rindo.

“Nervosos pras finais de amanhã? Eu ‘tô no time de basquete e handebol. Ou ‘tava, já que chegamos na final apenas no handebol. Mas estamos em segundo lugar no geral, a Fundação ‘tá na frente.” Comentou, desgostoso.

“Ai, vocês estão em segundo lugar e reclamando? Eu nem sei em que posição a UFPEL ‘tá.” Milo revirou os olhos. “Engraçado pensar que nesse Intermed é só futuros médicos. Tu olha pra essa gente sem noção e pensa que tá num hospital psiquiátrico.”

“É lamentável.” André concordou, e eles riram.

Começaram um papo sobre medicina, depois partiram para uma conversa sobre esportes. Beto havia trazido umas bebidas, e foram ficando cada vez mais altinhos, até que estava rindo de qualquer bobagem. A conversa, entretanto, cessou quando Milo simplesmente começou a beijar Beto de uma maneira intensa, sem se importar com a presença dos outros dois rapazes.

O clima pareceu ideal para uma pegação, e André e Fabrício começaram a se beijar também, sentindo-se livres para isso, o álcool lhes subindo à cabeça. André em alguns momentos entreabria os olhos e olhava para os outros dois garotos se pegando não muito distante deles, e talvez fosse o álcool, mas a visão o excitava ainda mais.

Perdeu-se no tempo, mas os lábios já estavam latejando pelas mordidas e por roçarem na barba rala do moreno quando se apoiou à borda da piscina, um cotovelo para fora, sustentando-se enquanto Fabrício beijava seu pescoço, causando-lhe arrepios. O pênis já pulsava sob a bermuda, e gemeu abafado quando o moreno o tocou entre as pernas. Acabou olhando pro outro casal, e se envergonhou ao vê-los, pois Milo estava prensado contra a borda também, mas de costas para Beto, que investia contra o corpo menor.

Estão transando. Percebeu terrivelmente envergonhado, os gemidos dos dois alcançando seus ouvidos. Quis desviar o olhar imediatamente, mas não conseguiu. Gemeu fraco ao ser prensado com mais força por Fabrício, que lhe lambia o pescoço e o peito, e afundou a mão nos cabelos molhados do moreno. Nunca havia visto dois homens transando antes, mas por deus, não deveria ser tão sexy, ou deveria? A questão era que, ao olhar aquilo, fantasiou-se fazendo o mesmo que os dois; porém quem estava na ‘posição do Milo’ na imagem mental que o invadiu era... Não, não, não pense nisso.

Puxou Fafá pelos cabelos para de volta à sua boca, fechando os olhos e tentando abstrair do outro casal. Até sentiu um pouco de inveja deles, pela libertinagem, mas de jeito nenhum teria sua primeira vez com o moreno ali numa piscina, com outras duas pessoas de testemunha. Ainda assim, suas pernas circularam por reflexo a cintura do Fabrício, e o beijo se aprofundou, os toques ficaram ousados, e quando estava ficando quente demais, os dois se afastaram ofegantes, percebendo que Beto e Milo os olhavam.

“Tem gente com fogo hoje.” Milo comentou, sorrindo malicioso.

“Olha quem fala!” André resmungou e se afastou envergonhado do Fabrício, ambos ainda meio excitados; porém suficientemente satisfeitos, dadas as circunstâncias. André queria sair logo daquela piscina, por motivos óbvios.

Beto também parecia bastante encabulado, talvez por cair a ficha do que ele e Milo haviam feito na presença dos outros dois. O álcool é perigoso, concluía.

“Mas essa piscina escondida salvou minha noite.” Fafá admitiu, sorrindo malicioso para o loiro, que desviou o olhar.

“Melhor voltarmos, ainda ‘tô querendo ver o final dessa festa.” André saiu da água, e os outros o seguiram.

Na outra área, o pessoal ainda festiava, mas alguns dormiam pelo chão. Havia vômito no chão – felizmente a piscina parecia intacta – e, em realidade, aquilo não duraria até o sol raiar. Quase quatro dias seguidos de festa, bebida e noites mal dormidas derrubam muita gente.

Porém André e Fabrício não deixaram de reparar em Fran e Rafael dentro da piscina, abraçados aos beijos. E Gabi dando um beijo triplo com um guri e com a... Daniela!?

“Essa noite ‘tá muito sem noção, eu ‘tô precisando dormir.” André experimentou uma vertigem de bêbado e se apoiou no moreno.

“Daleô!” Fafá exclamou, e riu, abraçando o loiro pela cintura.

Notas finais
Próximo cap. é o último do Intermed, é pequeninho e tentarei postar logo. Obrigada a todos que comentaram cap. passado! Beijão!