Good Gone Girl
16 Capítulo 16 - O que é amor?
Notas iniciais
Capítulo 16 – O Que é amor?
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Alex faz questão de me acompanhar até a estação de metrô às 22h47, apesar do caminho ter sido feito em silêncio porque ele havia acabado comigo. Eu não sabia que isso era capaz de acontecer, mas tudo no que eu conseguia pensar era num banho quente e numa cama... Mesmo que eu houvesse tomado banho na casa dele... Com ele. Logo, era meio impossível eu me sentir “limpa”.
Quando vamos nos despedir, ele ajeita uma mecha do meu cabelo que estava fora de lugar e dá aquele sorriso de canto que tira meu fôlego. E eu acho que ele sabe disso.
— Boa noite – ele diz. – Hum, manda uma mensagem quando você chegar lá.
Às vezes eu me surpreendo com essa mistura de cara sexy e legal.
— Okay, eu mando – eu concordo. – Boa noite.
Dessa vez não há sentimentalismo. Nada de abraços ou beijos apaixonados porque, dado ao dia de hoje, já aprendi o que se acontecesse quando se beija Alexander: você simplesmente não consegue parar. Então eu apenas me afasto, dando um aceno à distância, e entro na estação de metrô.
E mesmo quando me afasto, sinto que o olhar dele me acompanha.
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— Onde você estava?
Sou pega de surpresa quando tento entrar sem fazer barulho no nosso quarto e encontro Chris acordada como uma mãe esperando a filha fujona aparecer. Ela está sentada em sua cama, já de pijama, somente com a luz do seu abajur acesa. Sua expressão tentava ser severa, mas ela obviamente estava mais curiosa do que qualquer outra coisa.
— Hã... – eu penso em mentir. – Eu estava com um... amigo.
Quando eu falo “amigo” meu rosto se tinge de vermelho.
— Achei estranho quando eu cheguei às 18hrs e você não estava, senhorita – ela diz. – Espero que este seu “amigo” seja um cara muito legal e que tenha valido a pena.
Eu penso em todas as vezes que transei com Alexander hoje.
— Er... Valeu mesmo a pena – eu respondo.
Eu acho que tirei o atraso de todos os anos e meses que fiquei sem transar só hoje. Alexander era um cara insaciável, e mesmo que tenhamos dado umas pausas para comer e viver, ele simplesmente dava um jeito de me provocar... Com tudo. Com aqueles olhos, com aquele sorriso de canto...
Ele era incrível.
— Fico feliz por você – Ela diz, mostrando um sorriso largo. – Confesso que no início eu ficava meio preocupada por você não sair, e estar sempre aqui quando eu voltava nos domingos... Mas fico feliz em te ver saindo com “amigos” e ter parado à noite por causa daquele cretino lá também.
Eu fico vermelha, mas forço um sorriso, enquanto pego uma toalha no meu armário e me dirijo para o banheiro que nós dividíamos. Quando eu chego na porta, ela ainda quer saber mais sobre Alexander.
— Como ele se chama? – Ela pergunta.
— Alexander.
— Hum... Bom nome – ela diz. – Ele estuda aqui? O que ele faz da vida?
— Hã... Ele estuda Medicina Veterinária.
— Own, meu deus que coisa fofa! – Ela exclama tendo um mini ataque. – Ah, é no mesmo prédio que o meu. Como vocês se conheceram?
Ela fica tão empolgada que eu me sinto mal por não querer responder. Então eu lhe digo que tudo o que eu queria naquele momento era um banho e uma cama e que amanhã eu estaria disposta a responder tudo o que ela quisesse.
E então ela me libera.
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Na segunda-feira minha professora que recomendou o concurso de escrita pede para ver alguma produção minha para sexta-feira. Ela quer ver como eu estou trabalhando, ou se eu ao menos alguma ideia sobre o que iria escrever. Mas a verdade era que eu não tinha nem pensado nisso. Ou melhor, eu até tinha pensado, mas eu não tinha nenhuma ideia de como desenvolver aquele tema.
Ainda mais agora, que quero passar longe de me apaixonar de novo.
Não, eu não estou apaixonada por Alexander. Só estou... Interessada.
Porém, como eu preciso fazer alguma coisa, eu decido passar na biblioteca na quarta-feira e começar a pegar todos os livros de filosofia e história possíveis sobre o que era essa maldita doença que as pessoas chamavam de “amor” e porque doía tanto.
O nome do meu conto poderia ser “Amor e outras doenças”.
Primeiro eu perguntei a mim mesma se eu teria alguma definição de amor. Por exemplo, olhando nos meus relacionamentos passados (os maiores fracassos da minha vida) o que havia me levado a crer que eu havia me apaixonado por aqueles garotos?
Eu não faço ideia. Talvez eu ser uma garota sentimental, carente e romântica?
— Hey, Bell.
Eu dou um pulo na cadeira onde eu estou e começo a cobrir minha folha de anotações e minha pesquisa quando alguém me chama. Mas era alarme falso. Tratava-se apenas de John, um garoto da minha sala – que às vezes ajudava a mulher da biblioteca a manter o lugar arrumado. Ele gostava de pensar que era um trabalho voluntário, mas a verdade era que ele era apaixonadinho pela bibliotecária.
Ele ri da minha cara de susto.
— O que você está fazendo aí para ficar tão assustada? – Ele me provoca.
— Uma pesquisa meio constrangedora – eu admiti, me ajeitando no meu lugar.
Seus olhos castanhos escuros dão uma rápida lida nos títulos dos livros em cima da minha mesa e então ele ri ainda mais alto. Só para o grupo de garotos atrás da gente fazerem “shhh” para ele. John era conhecido na nossa turma por ter uma risada escandalosa. Ele já atrasou aulas por causa de ataques de risos.
Ele era um garoto alto e magrela, adepto daquele penteado de coque samurai, então ele usa os cabelos longos e negros presos na maior parte do tempo. Ele era um cara legal, de riso frouxo e de fácil conversa, apesar de termos passado um tempo nos estranhando enquanto eu namorava com Mike. Ele havia metido na cabeça que John só ria para mim e que ele estava dando em cima de mim e eu não fazia nada.
Meu rosto fica vermelho quando ele ri.
— Sério, Bell? “Amor para leigos”, “O que é amor?”, “Uma visão histórica sobre o amor”, “Amor e Paixão”... Tá me tirando que isso aí é pesquisa – ele me provoca, sentando-se no lugar vago na mesa onde eu estava. – Tá pesquisando o que é amor?
Eu me encolho, morrendo de vergonha.
— Eu... Preciso... Para escrever um conto sobre isso – eu sussurrei.
— Escreve aí: “Amor é algo que as pessoas usam para justificar as maiores idiotices da humanidade” – ele disse, rindo. Quando ele sorri, o piercing no canto da sua boca parece reluzir.
Eu dou um sorriso, porque faz sentido o que ele disse.
— O que é amor para você, John? – Eu perguntei.
— O que é amor para você, Bell? – Ele retrucou, arqueando uma sobrancelha.
Eu franzi o cenho e então disse:
— Caso você não tenha percebido, eu estou tentando descobrir aqui – eu digo gesticulando para as pilhas de livros espalhados por sobre a minha mesa.
Ele dá uma risada, e então respira fundo e abaixa o olhar.
— Olha... Minha irmã de seis anos me disse uma vez que amor é o que faz você sorrir mesmo quando você está exausto – ele me conta, com um sorriso terno. Se havia algo que ele adorava, era a irmãzinha dele. – Para mim, amor é quando você gosta de alguém sem nem ao menos saber o porquê.
Eu franzi o cenho.
— Explique – eu pedi me debruçando sobre a mesa.
— Tipo... Sabe quando você vai conhecendo uma pessoa, e então você começa a gostar de pequenos pedaços dela? – Eu não sei como dizer a ele que não sei como é isso, mas eu aceno com a cabeça porque não quero que ele perca o raciocínio. – Então... Chega um momento em que há tantas “pequenas coisas” que você gosta numa pessoa, que você já nem sabe explicar mais o porquê gosta dela.
Eu penso um pouco sobre o que ele disse e então concordo com a cabeça.
— Tem sentido... – eu digo, ainda ponderando. – Mas prefiro a definição da sua irmã. É mais simples e profunda.
Ele se levanta da mesa e dá um sorriso largo.
— Claro que prefere. Vocês duas tem quase a mesma idade mental – ele responde, antes de dar mais uma risada. – Preciso ir terminar de organizar os livros.
Eu aceno e assim ele vai embora.
É. John é assim. Está aqui num momento e no outro já se foi.
Eu volto a me dedicar aos livros, mas o que John falou sobre amor foi tão bonito que eu decido anotar numa folha de papel. Daria para escrever um conto com aquilo. Ou não. Quantas palavras eu levaria para escrever sobre duas pessoas que vão se apaixonando gradualmente por pequenas coisas?
Quando eu me pergunto novamente o que é amor... Acho que às vezes é um privilégio. Algo que poucas pessoas conseguem realmente ter.
Meu pai não conseguiu. Ele amava aquela mulher, casou-se com ela, ela achava que o amava, mas então decidira que não o amava mais (ou que talvez nunca o amou de verdade) e foi embora, deixando-o com duas filhas de seis anos para cuidar... E uma casa cheia de dívidas e problemas para resolver.
Será que minha irmã acreditava em amor depois do que houve em nossa casa? E ainda acreditaria depois do seu divórcio?
Eu sei que eu tentei acreditar, mas sempre me pego pensando: Será que eu amei Mike? Será que eu amei todos os garotos antes dele? Será que eu realmente amei demais? Ou será que amei de menos?
Tento voltar às leituras, mas não consigo. Me sinto mal com esse assunto e de repente sinto uma enorme vontade de pegar um ar, sentir o sol na minha pele e de ver pessoas interagindo. Eu fecho os livros, guardo tudo em seus devidos lugares e saio da biblioteca, cheia daquela necessidade de ver pessoas vivendo suas vidas.
O dia estava muito bonito para eu passar presa numa biblioteca.
Primeiro eu dou uma parada na cafeteria mais movimentada do campus, onde grupos de amigos se encontram e põe a fofoca em dia... Eu dou uma entrada lá e peço o frapuccino sem café que o Alex me apresentou antes de seguir caminho pela minha jornada de observação de interações humanas.
O céu está tão lindo, raro na Inglaterra que a parte de esportes do campus está quase tomada por jovens que estão pegando sol.
Aquela é a parte preferida das pessoas esportivas da universidade. Possui uma enorme quadra poliesportiva descoberta e outra quadra enorme coberta, para que os jogos nunca tenham que parar. Também engloba uma enorme piscina olímpica e uma quadra de tênis. Naquele momento, o campo perto da quadra de futebol está tomado por pessoas bonitas em um banho de sol.
Todos parecem iguais lá: garotos de corpos bonitos se exercitando e garotas com corpos invejáveis andando por todo lado com seus shorts curtos e a pele suada (só o suficiente para se tornarem objetos de desejo de qualquer garoto). Lembro-me de quando havíamos acabado de chegar no campus, Lauren me fez passar várias tardes nas arquibancadas para espiar o físico desejável dos garotos sem camisa.
Não que me chamasse muita atenção. Eu sempre preferi livros e olhos...
Quando lembro disso, parece que se passaram anos desde então, o que é um absurdo porque até três meses atrás eu tinha um namorado e minha melhor amiga.
Como se meus pensamentos o houvesse invocado do quinto dos infernos, Michael aparece no campo. Como se o chão houvesse se aberto e cuspido ele para fora. Lá estava ele: no meio do campo de futebol descoberto, se aquecendo.
Eu havia me esquecido que ele era jogador de futebol, merda.
Para evitar um constrangimento para nós dois, decido fingir que não o vejo e sigo em direção a qualquer lugar bem longe dali. Talvez para de volta para o Estados Unidos, ou para a Austrália. Parecia longe o suficiente.
O ouço me chamar, mas finjo que não escuto. Não quero falar com ele.
E então ele agarra o meu pulso e me puxa.
— Ei, tá surda? – Ele pergunta, um tanto irritado.
Odeio admitir isso, mas o susto foi tão grande que eu me encolhi.
Meu Deus, até com raiva Michael era bonito: cabelos loiros meio bagunçados, olhos azuis estreitos e o rosto tão perfeito com os músculos tensos de raiva. Meu Deus, ele parecia um anjo vingativo... Que poderia me amassar sem fazer esforço só pelo tamanho dos músculos dele.
— O q-que você quer? – Eu pergunto, com o olhar baixo.
Depois do que eu descobri e depois de ter me visto com Alexander, eu não tinha mais coragem de olhar para ele. Doía olhar para ele e perceber que ele continuava desconcertantemente lindo (uma beleza que mexia comigo, por mais que eu não gostasse de admitir). Vê-lo através de uma janela (com alguém como Alexander do meu lado) era completamente diferente de lidar com Mike cara-a-cara e à sós.
E ainda irritado porque eu não o havia escutado.
Se eu pudesse, teria saído correndo.
— É assim que você fala comigo agora? – Ele pergunta, ficando ainda mais irritado. Porém, tenho dificuldade em saber que tipo de tratamento ele estava esperando. – Legal o seu showzinho de domingo hein? Meus parabéns...
Meu coração começa a martelar no peito, fazendo meu rosto ficar vermelho.
— N- não sei do que você está falando – respondo.
Tento puxar o meu braço de suas mãos, mas ele não me solta, ao contrário, só aperta ainda mais. Como se agora mesmo ele não fosse me deixar ir embora.
— Sabe sim. Você não sabe mentir... Tô falando de você com aquele esquisitão lá na cafeteria, tentando me provocar – ele diz entredentes. – Qual foi? Tá querendo o quê? Me provocar? Querendo provar alguma coisa?
Esta poderia ser uma boa hora para eu puxar a “Bell Descolada” e dizer umas boas verdades no rosto de Michael. A começar revelando que eu sei sobre a aposta... Porém, quando eu olho ao redor, percebo que as pessoas estão parando o que estão fazendo e observando aquela cena. Até mesmo os amigos dele (que antes estavam treinando) param e olham para nós.
Tudo o que eu não queria era dar material de fofoca para as pessoas.
— E- eu não quero nada... – eu digo, me encolhendo diante do seu tamanho e da sua raiva. – Eu... Eu só fui tomar café... Com um amigo... Não que isso seja da sua conta...
Quando eu tento me libertar de novo, ele não me solta. Seus olhos estão fixos em meu rosto, e eu estou começando a ficar com medo. Não gosto do olhar dele, nem da veia que salta em seu pescoço. Acho que nunca o vi com tanta raiva.
— Um amigo? É assim que você chama qualquer lixo que você cata na rua?
Sua faze é como um tapa na minha cara. Um tapa não teria doído mais.
Seu tom de voz me faz pensar que ele acha que eu simplesmente saí pegando o primeiro cara que apareceu na minha frente (o que talvez até fosse verdade, mas precisava ser dito com sinceridade que Alexander não era “qualquer lixo que catei na rua”), e isso faz com que eu me sinta humilhada, de certa forma. A verdade, era que ele me tratando daquele jeito (exigindo explicações e me ofendendo) me fazia sentir um lixo, porque ele havia quase me destruído e se achava no direito de me cobrar satisfações.
Eu penso em lhe responder coisas nada educadas, mas não tenho coragem. A última coisa que eu iria querer, era estressar ainda mais esse garoto.
— M-me solta... P-por favor, você está me machucando... – Eu peço.
E ele estava mesmo. Eu quase nem sentia mais a circulação na minha mão. Porém, se ele me ouviu, não pareceu, pois ele não me solta. Ao invés, ele se aproxima ainda mais de mim, fazendo-me tentar recuar. Ele era tão alto... Tão grande... Ele me puxa para mais perto, de modo que consigo sentir seu hálito quente no meu rosto quando ele murmura:
— Escuta aqui, Bell, eu tô pouco me fudendo para quem te come ou que deixa de te comer... Mas sair com esquisitões qualquer só para tentar me atingir é baixo-nível, até mesmo para você – Ele me olha de cima-abaixo, quando diz: — Você sempre teve um nível meio baixo, mas isso aí já é coisa de puta piranha vadia.
Há algo no modo como ele fala que me magoa e me faz sentir pouca coisa.
Tudo bem que não era a primeira vez que ele me xingava (Mike tinha o costume de xingar de tudo quanto era nome na hora da raiva e sempre pedia desculpas também), mas ele estava me xingando na frente de todo mundo. E tudo o que eu quero é que ele me largue e pare de me ofender. Eu só quero que ele me ignore como eu quero ignorá-lo.
Porém, há uma chama crescendo dentro de mim. Uma chama de raiva, que Michael só sabe ir jogando combustível em cima dela. Alimentando-a. Só o fato de ele estar tentando inverter os papéis (fazendo com que eu pareça que eu sou a vilã da história toda) me deixa com raiva. É injusto. Pergunto-me em que mundo esse cara vive para achar que ele estava certo depois de tantas besteiras que ele fez?
A raiva que sinto alimenta uma ideia: “Não posso deixar que ele me atinja daquele modo: eu não sou a piranha da história”.
Meu sangue ferve tanto que as lágrimas acumuladas em meus olhos quase transbordam e eu me vejo dizendo:
— E como se chama o cara que faz uma aposta com os amiguinhos para comer uma garota que só está cuidando da vida dela? – Não vou deixar ele me rebaixar tanto. Logo ele. – Como se chama o verme que a trai com a melhor amiga dela? Você tem um nome para isso?
Eu espero que minhas palavras o atinjam como um soco, como as suas me atingiram, mas tudo o que ele faz é ficar com mais raiva ainda. Sua raiva é tanta que seu rosto se transforma, ele parece um touro vendo vermelho. As narinas inflam, ele arregala os olhos e aperta os dentes. Sinto que estou bem perto de ganhar um olho roxo, e começo a puxar o meu braço para me afastar dele logo, mas ele aperta com mais força ainda.
Eu acho que ouço um estalo.
E a dor é tão intensa quanto repentina.
Solto um gemido e então as lágrimas presas em meus olhos caem.
— Me solta... Por favor – eu peço de novo. – Tá me machucando...
Meu pulso dói insuportavelmente.
— FUREY! – Uma voz estrondosa ecoa pelo campo, e vejo um senhor de idade se aproximando de nós parecendo com raiva. – O que você está fazendo com essa garota na hora do treino?! Volte para o campo, agora!
Acho que era o treinador.
Antes de obedecer ao treinador, ele se aproxima de mim e diz:
— Você era melhor quando era uma boa garota.
Quando ele enfim me solta, meu braço lateja de dor insuportavelmente. E ele vai embora sem nem olhar para trás, como se eu não merecesse sequer um olhar. Como se nem se desse conta de que havia me machucado... Ou talvez ele nem se importasse com isso. É assim que ele faz com que eu me sinta um pedaço de lixo pela segunda vez desde que terminamos; e também percebo o quanto Michael me despreza.
Pergunto-me se ele sempre foi assim e eu nunca notei. Ou se ele havia escondido aquela parte nojenta e grosseira debaixo de alguma máscara de garoto legal e descolado. Não sei. Só sei que sinto medo dele.
E eu só quero sair dali o mais rápido possível. Então eu volto a caminhar, mas dessa vez, para longe. Para o meu quarto, de onde eu não deveria ter saído.
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Enquanto caminho em direção ao dormitório, rezo para não encontrar com ninguém, porque estou lamentável. A humilhação daquele encontro estava estampada no meu rosto, na marca de lágrimas e nos meus olhos vermelhos e inchados... E meu pulso estava vermelho e inchando, ainda latejando. Eu até cogito entrar no prédio de ciências quando passo por ele, mas não tenho coragem. O medo de me esbarrar com Alex ou Chris me impede de entrar lá.
Talvez eu só precisasse de uma compressa com gelo para ficar bem.
— Bell!
Meu coração parou, levanto a cabeça para ver Chris se aproximando de mim com um sorriso largo nos lábios. Que vai murchando quando ela vê o meu rosto. E então ela começa a parecer bem preocupada... Tipo, muito mesmo.
— Bell... O que aconteceu? Está tudo bem? – Ela pergunta assim que chega até mim. – Por que você estava chorando? Posso te ajudar?
Como não sei o que dizer e não quero falar sobre o que houve eu apenas digo:
— Hum... Está... Eu só... Hum... Bati o meu pulso... E está doendo.
Forço um sorriso do tipo: “olha, lá, está vendo? Está tudo bem. Eu estou bem”, mas ela parece desconfiada e pede para ver o meu pulso. Ela faz uma careta.
— Meu deus, isso está feio... O que aconteceu?
— Hum... Eu... Prendi o braço... – eu minto.
Ela me lançou um olhar desconfiado.
— Prendeu o braço onde? Na mão de alguém? – Meu rosto fica vermelho por ter sido pega na mentira. Não que fosse difícil de descobrir minhas mentiras, eu sequer sabia mentir direito. — Bell, eu consigo ver os dedos... Não sou burra.
Eu continuo corada. Não queria ofendê-la.
— Quem foi que fez isso? – Ela pergunta.
Eu não tenho coragem de responder, então eu apenas cerro os lábios e nego com a cabeça. Não quero falar sobre isso. Não quero ninguém me olhando com dó. Tudo o que eu quero é ir para o meu quarto, tomar um banho e dormir. E fingir que aquele encontro com Michael não aconteceu.
— Tudo bem então... – Ela sede, soltando um suspiro de resignação. – Mas, por favor, vem comigo. Bora cuidar disso lá no centro.
Eu nego com a cabeça.
— Não precisa... – eu relutei. – Acho que só um gelo resolve...
Tudo o que eu menos queria era correr o risco de me esbarrar com Alex lá dentro, ele iria ficar alarmado... E provavelmente poderia desconfiar de quem havia feito aquilo... Ele viu o rosto de Michael na cafeteria. E não era nem metade do que a expressão dele de ainda agora.
— Bell... – Chris parece relutante. – Isso está muito inchado... Bora só fazer uns exames para ver se não quebrou... Por favor.
Me parece exagero ter quebrado, mas ela está tão preocupada comigo (e perdendo tempo tentando me convencer) que eu me sinto culpada, então eu aceito que ela me leve para dentro do prédio da área de saúde. Mesmo sabendo que podia me esbarrar com Alexander ali perto.
Enquanto caminhamos pelos corredores, sinto que está todo mundo me olhando. Talvez pelo rosto inchado e pela expressão culpada. Então não tenho coragem de olhar para ninguém. Apenas sigo os passos de Chris de cabeça baixa, segurando meu pulso machucado bem perto de mim, como se pudesse manter aquela dor só ali.
O prédio da área de saúde e biológicas é enorme. Um dos maiores prédios que existem no campus. Ele engloba vários cursos: medicina, biologia, veterinária, microbiologia, psicologia, biomedicina... Ele pode não ser o prédio mais alto do campus (perdendo apenas para a sede administrativa de seis andares), mas era o prédio de maior área construída. Largo e imponente.
Chris me obriga a bater um raio-x do meu pulso, só para confirmar que ele estava inteiro e que provavelmente havia sido só uma torção (o que me surpreende porque nunca soube de uma torção causada por uma briga com alguém). Mesmo eu achando que só gelo resolvia, minha amiga insiste em imobilizar meu pulso com uma tala. Então eu fico com meu antebraço enfaixado como uma enorme placa de “Hey, vejam! Eu me machuquei!”.
— Se você sentir muita dor, tome esse analgésico – ela diz me passando um papel com um nome complicado. – Se encontra em qualquer farmácia.
Eu concordo com a cabeça, envergonhada. Não consigo nem olhar para ela.
— Hum... Ok... – eu digo.
Acho a tala desnecessária, e percebendo isso ela diz:
— Aguenta, Bell. Vai ser só por duas semanas.
Como sei que ela só está tentando me ajudar, concordo com a cabeça e digo:
– OK... Obrigada... Desculpe pelo... incomodo...
Chris solta uma risada.
— É o mínimo que posso fazer por alguém que cuida tão bem de mim – ela responde, me lançando uma piscadela cúmplice. – Eu vou te levar até a porta para que você não se perca. Este lugar é enorme e todos os corredores se parecem.
Eu aceito porque eu realmente tenho medo de me perder.
— Hum... Bell... Sei que você não quer falar sobre quem te machucou e tal... Mas isso é muito sério, sabe? – Ela diz enquanto caminhamos. – Se ele te machucou assim... Quer dizer, para começar que tipo de mostro tem coragem de te machucar?!
Ela fala num tom que quase me dá vontade de rir, se a lembrança dele apertando meu pulso e da expressão raivosa de Michael não fosse tão assustadora e repulsiva. Sobe um refluxo pela minha garganta. O que deu nele para perder a cabeça tão fácil? Quando brigávamos (raramente, porque eu evitava brigas a todo custo) ele no máximo me prendia contra a parede e me xingava. Tudo na hora da raiva.
Eu apenas dou de ombros. Realmente não quero falar sobre isso.
Quando chegamos no hall, vejo de relance uma cabeleira ruiva vindo por outro corredor, acompanhado de um rapaz baixo. Nem preciso olhar uma segunda vez para saber que é Alexander, fazendo-me tentar me esconder atrás de Chris, por puro reflexo. Rezando para que ele não me perceba e assim que ele vá embora.
O olhar que Chris me lança é de total confusão quando eu faço isso de repente, mas estou ocupada demais rezando para que ele não me note ali. Só peço o silêncio dela.
— Bell?!
Merda, ele me nota.
Meu rosto se tinge de vermelho imediatamente, e o assisto dispensar seu amigo e caminhar até mim com aquele sorriso de matar no canto na boca. Ele ficava bem de jaleco, eu percebi. Pensamentos indevidos se apropriam de minha mente quando penso nisso... E de repente penso em brincar de médico, mesmo que Alexander não esteja estudando para ser médico que trata pessoas.
Nunca pensei que eu tivesse uma imaginação safada... Pelo visto eu tenho.
— É, eu pensei que fosse você... Essa é a saia do fim de semana – ele diz, parando à um passo da nossa frente. Meu rosto se tinge de vermelho novamente... O fim de semana... – O que você faz por aqui? Está tudo bem?
Seu rosto torna-se preocupado e sério, quando ele percebe algo errado em mim. Não saberia dizer qual foi sua primeira pista: o rosto vermelho, os olhos irritados e inchados, minha expressão patética, meu braço enfaixado... Meu Deus, meu braço. Antes que ele o perceba, eu tento escondê-lo atrás de meu corpo; da minha saia preta com estampa de gatinhos branco. Realmente, a mesma saia de quando transamos na casa dele...
Meu Deus, porque eu tinha tanto que gostar dela?
— Oi, Alex, eu... Hum... Meio que...
Estou pensando no que lhe dizer quando Chris se põe na minha frente.
— A Bell “prendeu” o braço dela... Você não sabe nada sobre isso, né?
O tom de Chris é agressivo, cheio de raiva e indignação. Eu olho assustada para ela, assim como o ruivo também (percebe-se somente pelo arquear de sua sobrancelha). Ele parecia estar se perguntando quem era Chris para falar com ele naquele tom, como se o estivesse acusando de algo, quando ele não havia feito nada.
— Como assim? – Ele perguntou, olhando para mim através de Chris.
Minha colega de quarto puxa o celular do bolso e mostra uma foto para ele.
Quê?
— Aparentemente ela “prendeu” o braço... Na mão de alguém... Você não sabe nada sobre isso, sabe grandão? – Ela questiona, quase como um detetive.
Pergunto-me quando foi que ela bateu foto do meu braço machucado (que eu não vi) e o porquê ela está questionando se Alex saberia alguma coisa sobre isso... Até que eu cogito que talvez ela ache que tenha sido ele... Quem havia me machucado.
Que vergonha. Cubro meu rosto com minhas mãos e desejo que o piso se abra naquele momento e me engula. E eu estava preocupada em ele descobrir sobre o machucado... Chris havia contado de tão bom agrado.
Eu só percebo o meu erro quando Alexander olha para o meu pulso enfaixado.
— Quem fez isso? – Eu não reconheço a voz que sai da boca dele.
Ele aperta os dentes e quase consigo ver uma veia saltando em sua testa. Ele está me olhando, esperando que eu diga alguma coisa... E seu olhar é muito intimidante quando ele está com raiva. Chega até a bater saudades do seu olhar de excitação.
Acho que hoje eu devo ter acordado com o pé esquerdo para irritar dois caras diferentes, bonitos e que me assustavam muito quando irritados.
— Hum... Eu... Prendi o braço... Num...
— Tem dedos, Bell! Eu não sou burro – ele retrucou.
Droga. Será que essa desculpa não colaria com ninguém?!
— Então não foi você? – Chris pergunta a ele.
Ele olha para ela como se ela tivesse algum problema ou fosse burra. Mas antes que ele diga algo indelicado e seja injusto, ele respira fundo e se controla. No fundo, ele sabe que Chris só estava tentando me proteger e encontrar o culpado... Já que eu não quis contar quem foi... Isso faz com que eu me sinta mal.
Odeio ver tanta gente se mobilizando só porque eu sou uma garota idiota.
Eu não quero que eles se preocupem comigo. Não acho isso justo.
— Por favor... Deixem isso para lá... Eu só quero... Ir para o meu quarto e dormir. De verdade... Não foi nada – eu digo aos dois. – Estou cansada, então... Licença.
Eu agradeço à Chris novamente, por ela ter cuidado de mim, e me despeço de Alexander antes de me dirigir em direção à saída. Mas não consigo me livrar do ruivo tão rápido. Ele faz questão de me acompanhar até o dormitório (tirando o jaleco e o guardando numa bolsa, “adeus fantasias eróticas” digo a mim mesma) e de me perguntar, o caminho todo, quem foi que havia feito aquilo e se foi quem ele acha que foi.
— Não importa – é tudo o que eu digo. – Não foi nada grave...
— E se tivesse sido? – Ele retruca. – Bell, um cara que te machuca assim... Quem sabe do que ele é capaz de fazer?
Eu estremeço, só de lembrar daquele rosto assustador.
E porque sei que Alex tem razão. Eu havia pensado o mesmo.
— P-por favor, Alex... Deixa para lá... Eu só quero esquecer, tá? – Eu peço, uma última vez. – Obrigada por se preocupar e tal... Mas, sério... Esquece.
Eu consigo ver, pelo modo como o peito dele sobe e desce, que ele está indignado. Com muita raiva mesmo. Mas, mais que isso, o olhar dele é de pura... Compreensão. Ele respira fundo novamente e isso é o suficiente para que eu saiba que ele vai deixar esse assunto de lado, talvez porque eu estou pedindo exaustivamente... Ou talvez seja o modo dele me fazer acreditar que vai deixar esse assunto para lá, quando não vai.
Eu só quero que parem de comentar...
— Eu sou seu amigo – ele diz, depois de um tempo. – Acho que você é uma pessoa legal e não gosto de quando mexem com os meus amigos. Principalmente os legais.
Um sorriso se esgueira pelo meu rosto.
Acho que nunca me disseram que eu era uma pessoa “legal”.
Ele para de andar e pega a minha bolsa do meu ombro.
— Eu levo para você – É tudo o que ele diz.
Quando ele diz isso, por mais simples que seja, com aquele sotaque britânico, eu só consigo imaginar que ele é um lorde educado que está ajudando a mocinha indefesa. Não sei se gosto da visão. Talvez, um pouco. Um pouco mais do que eu deveria.
Não quero ser uma mocinha indefesa.
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